Flaubert & friends Estava eu tentando entrar num estado de purificação pré-quaresmal, virado para as minhas coisinhas, afastado dos pecados da provocação, da especulação e da indecência, pensando até que o melhor que o homem tem a fazer com as mulheres é olhar para elas como o pescador olha para o seu peixe (imagem praticamente bíblica, atenção), procurando congelar rápido para não se estragar enquanto ainda abanam a cauda, eis que leio de forma, agora reparo, desprevenida – sim não estava preparado para um texto que não fosse em inglês e não tivesse pelo menos 367 linhas (mais que um ano bissexto, portanto) – que para uma mulher o ‘critério seguro para se acreditar num homem depende de ele lhe ter levado a comprar livros’ . A amargura começou a apoderar-se da minha alma, céus, jamais tal tinha ocorrido na minha parca (diga-se) experiência com representantes desse género, valha-me Deus, nunca dei conta que alguma mulher tenha comprado, pela minha simples e desgarrada influência, a ...
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A mostrar mensagens de fevereiro, 2006
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(e agora um hors-série) Sobre o 'patafisiquismo Com ortografia recomendada pelo autor, ie, precedida de apóstrofo, a fim de evitar o trocadilho fácil: A 'patafísica é a ciência das soluções imaginárias que confere simbolicamente aos contornos as propriedades dos objectos descritas pela sua virtualidade. Alfred Jarry, "Gestos e Opiniões do Dr. Faustroll, Patafísico" in "Eflúvio Magnético", 1/3 de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, 2005 (Galeria Zé dos Bois)
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Atormentam-me os grandes problemas do nosso tempo, os realmente fracturantes; hoje o dicionário não ilustrado vem com o gesso para segurar os conceitos mais galdérios. ( entradas 1162 a 1172 ) O Negacionismo – Género literário que só se afasta do lirismo porque continua limitado por alguns tiques de causalidade. Metodologicamente apresenta vantagens em relação às tradicionais lavagens ao cérebro porque se poupa em detergente e alucinogénios. O Brokenbackianismo – Quando as malucas saem da gaiola e caem de chofre na pradaria fica demonstrado que já nem a ganga, nem os cavalos, nem as pernas arqueadas dão a garantia de antigamente. O Escarletejohanssonismo – Registo de estética pré-decadente, que antecipa certamente o aparecimento de novos maneirismos, por forma a reformar este renascimento das gajas labialmente carnudas, sorriso xanaxizado e curvas nabokovizadas. O Afirmacionismo – Corrente histórico-filosófica que substancia a compatibilização perimetafísica do ‘melhor isto que nada’...
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Conto com teoria para dar algum desconto Entretanto, como quem não quer a coisa, ele amava-a, e ela sucumbia àquele sentimento de aparência superficial. A concentração no acto de amar é de lesa magestade, só os amores desfocados sobrevivem, só os amores que não querem ver tudo têm possibilidade de sucesso. Conhecer quem se ama é uma leviandade. Ele abraçava-a sempre despreocupadamente, parecia não precisar de demonstrar força nem segurança no seu amor, corria esse risco porque ela só fazia fé de amores desprendidos. Os amores são essencialmente utópicos, precisam de viver em lugares que não existem, só se alimentam verdadeiramente de pequenas contradições, e quando as coisas começam a fazer sentido é porque a posse começou a ser mais importante que o usufruto, aparentando o contrário. Ela só se sentia verdadeiramente livre se houvesse a suspeita de que ele a enganava. Mas ele jamais a enganaria porque só nessa prisão encontrava o gozo do amor. A liberdade atrapalhava-o. Havendo equilíb...
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“Há um balanço físico inalterável que se cola ao corpo” Quando eu andava com aquela tara de desescrever as críticas musicais que por aí ia lendo, (sou tenuemente viciado em ler críticas musicais de gajos que não faço a mínima ideia quem sejam) fiquei com uma frase de alguém pendurada numas aspas que nunca cheguei a usar (e agora já nem sei a que propósito vinha): «graves generosos, linhas de baixo azedas, dinâmicas rítmicas progressivas, vozes cavernosas». Isto tudo apenas para vos dizer que há dias em que gostaria de ficar retido na «transcendência de longas suites nascidas nas margens dum jazz eléctrico de quietude ascética» o que basicamente significa: estou deveras inebriado mas mobilizado com o investimento da Portucel, porque vai assegurar a nossa liderança europeia nos papéis finos . E a música assim, faz-se luz, já é outra coisa para os meus ouvidos: somos de facto um país que se transcende nas dinâmicas rítmicas progressivas nascidas nas linhas de baixo azedas e na margem da q...
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À medida se disse, aliás cediço, perdão cedido: Tema: nenhum de princípio, algo irá aparecendo Apenas reprimindo a ansiedade de comer uns cacahuetes, chamando à colação monstros sagrados da arte e da história e procurando produzir ténues piadolas (rima com gansos patolas, pró caso de alguém querer aproveitar) matricialmente encadeadas e tudo sem passar as 25 linhas Neste momento fala Nelo Vingada na televisão, o que é praticamente o cruzamento poético ente um Vitalino Canas e um Narciso Miranda, e isso leva-me a constatar uma progressiva despavesização e consequente larkinização da vida intelectual. Apesar de ir remexendo e reciclando ser em geral bom, este movimento denota uma certa degradação da entranha pensante. Larkin é um poeta banalíssimo, uma espécie de Victor Constâncio das letras que usa o artifício inerente à língua dos gajos de Liverpool que é menos apaneleirada e dá logo um ar mais metafísico e ilusoriamente menos enconado à coisa poética. Não sei se repararam bem nesta ex...
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Conto da escritora careca Era rica de verborreia colorida mas sabia-se falha de génio e deficitária de experiências; fez então um pacto vampírico com a vida dos outros, iria sacar-lhes tudo o que pudesse, iria consumir as alegrias e as tristezas alheias no fogo na sua imaginação de mulher-a-dias que trata das unhas em salões concorridos, com tudo programado em frases entrelaçadas por trejeitos literários de fácil corrimento. Tornou-se especialista em escutar conversas mais ou menos amorosas, ganhou torcicolos a ouvir telefonemas em surdina, pagou fortunas por desabafos de traições choradas e chegou a oferecer o corpo para provocar uma infidelidade apanhada em flagrante, precisava do que os outros viviam como do pão para a boca, como a frigidez de alma precisa dum falo sebastiânico; mas ela estava sempre na trincheira da sua escrita, ora medíocre, ora sofrível, ora empolgante, conforme a fome de curiosidade da sua clientela de cordel, conforme o cio das suas gatas de estimação, mas semp...
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Profeta sem povo VPV , historiador e portanto adivinho escreve: "A fortuna posterior de Fátima deve muito à sobrevivência do regime até 1926 e à visão moderna da Virgem, que apareceu perto do Entroncamento, isto é, na confluência da vias férreas do centro e do norte do país. Tivesse ela aparecido em Tavira ou Bragança, dez anos mais tarde, nunca se teria sabido." Não sei porque não foi mais longe: A fortuna posterior de Cristianismo deve muito à sobrevivência das termas no império romano e à visão moderna dum tipo meio hippie que apareceu ali prós lados das ilhas gregas, isto é, na confluência entre as monções e a máfia siciliana, tivesse ele aparecido no Seixal ou em Esposende, uns 20 séculos mais tarde, nunca se teria sabido porque o VPV não o citava nas crónicas.
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O sagrado bagaço Por muito que nos custe reconhecer todos temos um pouco de Inês Pedrosa dentro de nós. É aquela coisa que irremediavelmente nos faz querer tudo e nada ao mesmo tempo. Gostamos de saber que obtivemos as coisas com esforço, mas também gostaríamos de lá ter chegado sem que nos custasse nada, gostamos de apreciar a diferença nos outros mas gostamos que os outros sejam iguais a nós, não sei se estão a ver, espero bem que sim porque agora já sou eu que nem estou a ver nada, lá está, é aquela tal coisa, um tipo vai atrás duma ideia mas depois começa é a gostar das ideias todas, ora temos valores a mais ora temos valores a menos, ora somos todos cartoonáveis, ora afinal somos todos descartáveis, ora já somos todos filhos amados de Deus e do direito natural e sem nós e os batráquios o mundo nunca seria possível, esbatidas as derivas marialvas e renovadas as louças das Caldas, eu bem queria levar isto a bom porto mas não consigo, foge-me logo a imaginação para todas as injustiça...
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas IX Do subcapitulo : ‘ Haréns; outras condições e possibilidades’ ‘Um homem tem direito a ter mais de uma mulher desde que os seus recursos financeiros lhe permitem dar esse passo. (...) A capacidade física e o vigor são também, por si mesmos, uma outra condição que o homem deve possuir.(...) «Se o homem reunir à sua volta um número de mulheres e , em consequência disso, for incapaz de lhes dar plena satisfação sexual, e se resultado disso essas mulheres forem levadas ao adultério e à promiscuidade, esse homem é responsável pelo pecado desses actos ilícitos»’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, nas pg 381/382
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas VIII Do subcapitulo : ‘ Uma vantagem para as mulheres em matéria de finanças’ ‘ Para uma mulher permanecer mulher, isto é, para manter a sua beleza, a sua elegância e orgulho, necessita de uma vida mais confortável, pacífica e descuidada, com menos preocupações materiais. (...) É evidente que uma mulher que não tem paz de espírito e que não arranja tempo para cuidar de si, também não será uma fonte de encanto e felicidade para o marido’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 218
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas VII Do subcapitulo: ‘O direito da mulher na poliginia’ ‘ Se um homem abandonar a vida conjugal pode satisfazer pelo menos metade das suas necessidades, mas para uma mulher, a vida de família representa mais do que essas coisas. Se uma mulher deixa o ambiente familiar, não consegue, entregando-se à promiscuidade ou ligações amorosas, satisfazer minimamente as suas necessidades materiais e espirituais (...) E após estas duas observações: 1. excesso do número de mulheres; 2. o direito ao casamento é um direito natural, poderemos concluir que (...) só através da lei da poligamia este direito natural é assegurado’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 348
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas VI Do subcapitulo : ‘ Regra da natureza’ ‘O amor de uma mulher é bom quando é reacção ao amor de um homem, mas não quando é instigador desse amor. Um amor incitante por parte de uma mulher, isto é um amor que começa na mulher sem o homem a ter desejado, está destinado a soçobrar, e é causa da diminuição de dignidade da mulher.’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 197
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas V Do subcapitulo ‘ Sentimentos mútuos’ ‘O homem quer tomar posse da pessoa da mulher, e exercer o domínio sobre ela, e a mulher quer influenciar o homem através do coração dele. O homem sente desejo de abraçar a mulher e a mulher tem o desejo de ser abraçada’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 166
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas IV Do subcapitulo: ‘ Faz parte do instinto do homem tomar a iniciativa e requestar e faz parte do instinto da mulher ser fonte de atracção e agir com auto-disciplina’ ‘A natureza impregnou a mulher com a disposição de uma flor e fez do homem o rouxinol, e como a luz atrai os insectos assim a mulher atrai os homens.(...) a mulher está instintivamente predisposta a exibir-se (...) e é contra a honra e respeito de uma mulher correr atrás de um homem e cortejá-lo. (...) A função confiada à fêmea é solicitar a atenção com o devido auto-domínio e reserva, e assim capturar o coração do sexo forte e aceitar o macho pelo terno consentimento do seu coração, e desta forma levá-lo a submeter-se de boa vontade às ordens dela’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, nas pg 15/16
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas III Do subcapitulo: ‘ O estatuto natural do homem na vida de família’ ‘A diferença entre homem e mulher reside no facto do homem necessitar da presença da mulher, ao passo que a mulher precisa do coração do marido’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 266
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O exemplo dum ‘blog que acrescenta’: de visita às prateleiras esquecidas II Do subcapítulo: ‘ O harém no mundo actual’ ‘Se o herói das «Mil e uma noites» erguesse a cabeça da sepultura e visse como é possível toda a espécie de divertimentos e futilidades e como as mulheres hoje custam pouco, nem sonharia em fundar um harém, com todas as despesas e desvantagens inerentes. Agradeceria ao ocidente ter-lhe poupado todos os incómodos de manter um harém.’ in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, nas pg 47/48
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O exemplo dum blog que acrescenta: de visita às prateleiras esquecidas I Do subcapitulo: ‘ Um homem é escravo da sua paixão e uma mulher é cativa do seu afecto’ ‘O profeta, o divino psicologista, expressou claramente esta verdade há catorze séculos. Disse ele: «Uma mulher jamais deixará que se apaguem no seu coração as palavras de um homem que lhe disse :’amo-te’» in ‘Os direitos das mulheres no Islão’ de Murtadã Mutahhari , ed Islâmica ALQALAM, 1988, na pg 63
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Danças sem véus "Quem és?" A esta pergunta fundadora, que sintetiza o desejo de conhecimento de todos os amantes e para que a Psique de Apuleio procurou resposta, pagaram-lhe os deuses com vulnerabilidade e efémero. Há uma diferença, subtil é certo, entre o reino do desejo e o do amor: o primeiro pôe ênfase no sujeito que deseja, o segundo no objecto desejado. Ao invés do desejo, o amor, sendo o esforço de igualdade entre os que são diferentes, só se pode dar entre iguais. E ao acarretar a necessidade de protecção do que nos é infinitamente valioso, força-nos a abandonar o reino do desejo para entrar no do amor. Quando, para entreter as criancinhas, Madame de Beaumont recriou a versão água-açucarada, recorrentemente adaptada ao cinema nos nossos tempos, do mito grego chamou-lhe 'A Bela e o Monstro'. À semelhança do mito grego, também no provérbio árabe sobre o efeito da visão que trava a mão da Besta em jeito de prenúncio da sua morte após olhar a Bela, nenhum dos doi...
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Comam fibras, muitas fibras. É interessante verificar ( analisar é já enfadonho) algum ‘fascínio’ que o novo Papa exerce em não-crentes-de-matriz-intelectual-conservadora ( foi assim a definição mais jeitosa que encontrei). Eu tenho poucas declarações de interesses a revelar aqui: sou apenas católico apostólico romano, leio o que o cardeal Ratzinguer escreve há carradas de anos, sempre preferi a Sta Teresa, o Dostoievski e o Hamlet, e gosto mais de uma patuscada de pasteis de bacalhau com arroz de tomate do que da reflexão (cristã ou não) em torno da história cultural da Europa e do cálculo matricial judaico-cristão do nosso totoloto civilizacional. Antes de tudo note-se: o Catolicismo sempre se ‘fundou’, ‘aprofundou’ e ‘evoluiu’ no equilíbrio entre um debate doutrinal forte, uma espiritualidade rica e plural, e uma economia de incertezas e mistérios. Apelar às bondades culturais da profundidade teológica é uma moda intelectual recorrente e muitas vezes vem associada à tentativa de ‘me...
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O bate-chapas de civilizações As civilizações chegavam-lhe num mísero estado a reboque da empresa ‘das clivagens culturais’; os pneus apresentavam-se meramente recauchutados por uma tal de ‘diálogos inter religiosos’, franchisada à pressa da casa mãe ‘La ecuménica’, (em pré falência por estar sempre a mudar de colecções à pressa) e com tanto airbag informativo activado nem se conseguia olhar bem lá para dentro. Não se lhes poderia rebarbar muito, há ligas muito sensíveis, e como a clientela também já desconfia de tudo não se deveria abusar dos polimentos; mas o importante era manter o chassi com o menor empeno possível para não ir parar tudo ao ferro-velho. Os gajos das seguradoras não largam a porta da oficina, chiça, tanto interesse por chapa de civilização amolgada. Por isso é que ele tinha sempre este desabafo: tanto trabalho a orçamentar e acabam quase sempre a vender isto às peças porque assim ainda lhes rende mais; e quem se safa em qualquer ocasião são os tipos dos reboques, vã...
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The house of the setting sun (Em memória de um muito ' teu ' poema de Blake, a (des)propósito de uma canção dos 'Animals' e acerca do cumprimento das promessas que não fiz) Habituado a ganhar, um hábil manipulador abrigado na fatiota 'griffée' da perfeição do seu curso (ou será percurso?) de condução defensiva e evasiva, espanta-se, nos jogos que lhe propõe, com o absurdo da submissão que ela ostenta como um troféu de perda. E persiste em ignorar o óbvio naquela aparente ausência das vértebras moralistas e anquilosantes susceptíveis de provocar torcicolos nas escolhas. Tão diversos os seus diplomas de vida quantas as regras do jogo, vê-a largar sobre o pano verde dos dias cartas sem nexo. Não se defende das (ou nas) suas mãos, enfrenta-as. Não se defende da (ou na) sua boca, enfrenta-a. Não se evade das suas palavras, fica. Não se evade dos seus esquissos, fica. Lendo-o, escutando-o, sentindo-o, enfrenta-o e fica. Em paz na teia cujo fio dúctil ele vai desenrola...
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The anatomy of human destructiveness (*) (*) É o titulo do livro do psicanalista americano ( nascido na Alemanha) Eric Fromm, (livro esse que nunca li, aliás coisa normal para um tipo preguiçoso que jamais aguentaria um livro com carradas de páginas a explicar exaustivamente os males do mundo e do homem, nessa sua peculiar combinação freudomarxista - half biological/half cultural) No entanto, este expressivo titulo coloca-nos praticamente no mesmo estado de espírito que as entranhas sob a presença do clister, e reflecte a nossa tendência, tão humana, que nos leva tanto a fazer concursos de construções na areia como a deixar obras para a posteridade. Ora o que é que tem de especial essa nossa capacidade de combinar energias de sobrevivência com energias de autodestruição. Não sei, claro. Mas fugindo da versão eros-thanatofilica acolho com especial simpatia uma versão mais tipo homem-animal-batoteiro. Como se sabe o batoteiro é o que encarna melhor a fusão manipulador-manipulado: preci...
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Contos do fiel papeleiro Todos os dias punha o balcão a brilhar, alguma freguesa haveria de entrar. Passavam-se os dias e o seu olhar empalidecia, o seu papel já a ninguém satisfazia, ora não vincava ora não absorvia, ora rasgava ora entesava, mas ele teimava, tinha uma fé que não acabava, seria o cheiro, pensava, seria o cheiro que iria mudar tudo, um cheiro de comer, carnudo, haviam de ver. Pensou na baunilha, pensou no anis, coçou a virilha, coçou o nariz (não resisti, pronto) e decidiu-se pela maçã; rimava com elan, era o que ele precisava, ele não queria uma multidão, queria apenas uma freguesa que viesse com um bocadinho de tristeza e um olhar de mel, embeiçada no papel, e com alguma devoção, mas com a aquela tristeza viniciousiana do ‘samba da benção’, rezou as suas orações na prevista dose, pôs a tocar os ‘everything but a girl’ , emproou a pose, sacudiu mais uma vez a flanela e sonhou com a entrada dela; a imaginação voou e ela entrou. Era a sua primeira vez, apresentava um an...
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Na busca do sublinhado perdido Utilizar a história para descobrir os matizes do presente sempre foi um risco e eu nunca me sensibilizei especialmente por esses métodos de ‘memórias comparadas’. Já quase tudo serviu para explicar e para provocar quase tudo; de Tamerlão a madre Teresa, dum príncipe da renascença a um ditador sul-americano a alma humana já oscilou entre as maiores desordens e as maiores pungências, e as massas humanas já se movimentaram ou já se acomodaram pelas mesmíssimas razões mesmo comendo todos pãozinho de centeio ao pequeno-almoço. Mas de vez em quando faz bem ler o que outros escreveram sobre a maneira deles verem um passado que, no fundo, não é de ninguém porque é de todos. Aqui vai um sublinhado perdido e reencontrado nos ácaros, mas daqueles 'livros de história' que sabem sempre bem ler muitas vezes, nem que seja à toa. «A energia de um espírito incessantemente absorto num mesmo assunto pôde converter uma obrigação geral numa missão particular; as arden...
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Todos enfiamos uma burka de vez em quando “Atentai nos Francos. Vede com que afinco eles se batem pela sua religião, ao passo que nós, os muçulmanos, não demonstramos o mínimo ardor em travar a guerra santa” É com esta citação de Saladino que Amin Maalouf inicia o primeiro capítulo do seu ‘As cruzadas vistas pelos Árabes’ de 1983 (editado em português pela Difel). E pensava eu quase letargicamente que a história só nos baralha, tanto mais que a nossa condição acaba por estar marcada pelo facto de serem os nossos sentimentos profundos os mais manipuláveis de todos, quando entro pelo badalado programa ‘Prós e Contras’, felizmente já na sua parte final. Dou de caras com o nosso enciclopédico Ângelo esclarecendo que tudo praticamente se explicaria por um cruzamento mal feito entre fatímidas, seljúcidas, gahznividas e outros mamelucos afins, vai daí o cartoonista António recorda então que uma vez também já tinha usado umas sulfamidas por causa duma ferida e se tinha dado mal, «bem lembrado»...
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Memórias de u’ madeixa Alegrei-te o olhar, tornei-te o mundo indiferente, enchi-te do que não precisavas para que só assim pudesses ter um sufoco que valesse a pena, pequena, flor que nem palmilhaste um jardim, para ficares linda, assim, corrompida que nem um ai Jesus, aviada de dor, mas sem pus, amada, tão amada que nem a vista alcançava, treme, ferve, vá ama-me senão assim não serve, e eu continuarei a doirar-te, a estoirar-te, moira, reluzente, sopra-me essa franja prá frente, pede-me mais, mas pede-me só aquilo que eu não te possa dar, ser útil disfarça, ora um drama, ora uma farsa, ficarei então contigo, és minha e mais não digo.
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The world as my bloody intestine know it “m’espasmo às vezes, outras m’alivio” de Intestino Grosso Cézanne nem que vivesse mais cem anos descobriria uma vagina num quadro de Fontana. Mondrian em Veneza seria incapaz de se deslumbrar pela luz nos canais. De kooning jamais se inspiraria nas costas femininas espalhadas por um banho turco e Rubens tremeria de insegurança se lhe pedissem apenas para desenhar um quadrado sem lhe arredondar um dos vértices. Mas mal ficaria se não vos dissesse também que se Shakespeare tivesse lido Baudelaire outro galo cantaria entre Hamlet e Ophelia, que se Heidegger se visse fechado com Platão na caverna Lucky Luke teria passado o tempo a disparar contra a sua própria sombra, e se Churchill conhecesse a agência para o investimento teria antes escolhido Sines para o desembarque; mas não queria deixar também de vos dizer que se Einstein tivesse surgido dum plano tecnológico jamais a energia se daria ao trabalho de variar em função da massa e antes se entreter...
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Anotações de Teodora no "sonoro" [Boca de cena com rio ao fundo: Cofiando a barba de três dias, o Autor reclina-se na chaise-a-longada qual odalisco entre lençóis, à cabeceira há páginas geni(t)ais de cultura universal porque alguém na redacção da Sábado terá descoberto, sabe-se lá como, que a maior parte das mulheres anda insatisfeita com o desempenho dos respectivos parceiros sexuais. A juvenil loira Daisy Milho, de uniforme branco mail'os piercings para garantia do cliché completo, tenta distrair-lhe o olhar do banquete de "prazeres" que traz à mão. De óculos na ponta do nariz, Teodora senta-se, acariciando a Rotring preta entre os dedos, na beira de uma cadeira anónima forrada a azul renteza meia com a chaise; em estenografia saltitante regista, nas costas do programa amarrotado d'"A Colher de Samuel Beckett", o desempenho sussurrante, ou por outra, as palavras bebidas do Mestre de mais uns dias que de outros já que nem o tuteia nem lhe chama J...