«Os heróis culturais da nossa civilização liberal burguesa são anti-liberais e anti-burgueses; são (...) repetitivos, obsessivos, e indelicados, que impressionam (...) - pelo agudo extremismo tanto pessoal como intelectual.

Os fanáticos, os histéricos, os destruidores do eu – são estes (...) que testemunham o terrível mundo polido em que vivemos. (...) Há certas épocas que são demasiado complexas, demasiado ensurdecidas por experiências históricas e sociais contraditórias, para poderem ouvir a voz do bom-senso. O bom senso torna-se então compromisso, evasão, mentira.

(...)
As verdades que respeitamos são as que nascem do sofrimento. Cada uma das nossas verdades deve ter um mártir. (...) Kierkegaard, Nietzsche, Dostoievski, Kafka, Baudelaire, Rimbaud (..) têm autoridade sobre nós devido ao ar doentio que apresentam. É o seu caracter doentio que lhes dá solidez, é o que os torna convincentes.

Talvez certas épocas não precisem de verdade tanto como precisam de sentido de realidade, um alargamento da imaginação. Pelo meu lado, não duvido de que a visão sadia do mundo é a verdadeira. (...) [mas] A necessidade de verdade não é constante; tal como não o é a necessidade de repouso. (...) O mistério é precisamente o que é negado pela segura posse da verdade, uma verdade objectiva. Neste sentido toda a verdade é superficial; e algumas ( mas não todas) distorções da verdade, algumas (mas não todas) loucuras, algumas ( mas não todas) negações da vida, são fontes de verdade, produzem sanidade mental, criam saúde, e tornam melhor a vida»


Uma leitura e transcrição fraudulentada de Susan Sontag, em 1963, num ensaio sobre Simone Weil incluído em ‘Contra a Interpretação’.




«Я вас любил безмолвно, безнадежно,
То робостью, то ревностью томим;
Я вас любил так искренно, так нежно,
Как дай вам бог любимой быть другим.»




Feira de Egos - Cabaz de Natal


‘Quanto mais estreitos são os limites da minha vida, mais exagero acerca de mim mesmo’
Don DeLillo


Aqui os egos estão todos no mesmo cesto; mas não são egos moles.


Noutro dia fui princesa russa. Comecei por ter um preferido. Alguém a quem pudesse dar o braço e, de imediato, me seguissem os olhares da cobiça alheia. Depois decorei poesia épica, com floreados e trinados nas rimas, que garantisse alguns suspiros e um número relevante e estável de erecções na plateia. De seguida dei liberdade a três servos e mandei chicotear outros tantos por causa da água do banho me saber a xisto e fazer borbulhagem na dobra do joelho. Ensinei as damas de companhia a escolher perfumes e a bordar frisos da basílica de minsk, enquanto a mais aprimorada fazia o aquecimento ao pendular do dito preferido, por forma a já me chegar com capacidade de levantar uma bilha com dois alqueires de cevada. Reservava as minhas canseiras para o arrastar da saia, o abrir das pernas e a contemplação iconográfica. Prometi valsas que não cumpri, mas fui fiel às mazurcas, deus me permita igual cumprimento nos arfares e nos genuflectires. Nunca fui amante do desperdício e, por isso, garanti uma corte de damas que se afeiçoaram e gratificaram com as minhas migalhas, compostas por um sortido de tenentes, cocheiros e dois gladiadores de ursos polares. Fui inspiração de três romances de cavalaria e dei origem a um punhado de duelos, que resultaram em duas fissuras do esterno e quatro rótulas rachadas. Os meus clímaxes deram-se com a capadela dum poeta lírico e o dedo mindinho dum místico de vladivostock. Faltou-me o colo dum turco e o espernear dum cossaco, mas o céu está garantido com duas tuberculosas que tive por conta num romance do Saltikov-Shtchedrine


Noutro dia fui cartoonista. Eu tinha tanta tanta piada que a piada me saia pelos poros; ora, como não tinha tapa poros à mão, precisava de extravasar essa tanta tanta piada, mas como as únicas vazas que me saiam eram à base de senas e ternos de paus, comecei mesmo a dedicar-me ao cartoon, que (1), não tendo verba para o canelado, acabei por escolher o filosófico-humoristico, pois que (2), na falta de pasquim sério e pagador em efectivo, sempre me daria para engatar mulheres de forte pendor intelectual, que (3), são as, que (4), já se sabe, mais rentabilizam eroticamente a tanta, mas que (5) tanta, piada grafico-sintética, que (6), eu possuo. Optei pela corrente do cartoonismo kantiano, que (7), é aquele em que (7A), o cartoon existe para além da realidade que (8- pára aos 10, calma) lhe subsiste. Nesta corrente cartoonística, qualquer tira é uma verdadeira sublimação da realidade e chama-se mesmo a técnica do tiracolo, ou seja, tem mais propensão à piada de esticão, mas não evita tendinites e curvamentos espandilosicos de coluna, promovendo inclusive os deslocamentos de bacia. Infelizmente, o meu filho não me faz perguntas de origem metafísica, e antes me descreve alegremente comportamentos peri-escatológicos, que (9 – está quase) envolvem a sua relação como o outro género - leia-se sexo – o que (extra contagem) me retira muito manancial, mas, por outro lado, me distrai, para além de abrir novos horizontes pedagógicos, mesmo sem a preciosa ajuda do pedro rolo duarte – agora em nova versão coachada . Prometo, pois, que (10), quando souber desenhar arrotos em cartoon, todo o existencialismo fenomenológico será revolucionado à base da minha tanta, que (11, afinal fui aos), posso mesmo adiantar é tantíssima, piada.


Noutro dia fui pintor surrealista. A minha ideia principal era conseguir ser exposto num museu ao lado dum quadro do morandi, mas sem as pessoas a dizerem: «é pá quem é este gajo que bebeu o que estava dentro das garrafas daquele». No fundo, um pintor surrealista é o tal tipo que consegue passar por bêbedo patusco sem ter bebido sequer um copito, nem mesmo ter sido enrabado a sangue frio por um estivador nigeriano. Ao principio, confesso, ainda pensei na pop art, mas achei colorido em excesso, a não ser se fosse para pôr o durão barroso numa garrafa de óleo fula., só que os direitos de imagem do barroso estavam muito inflacionados pela disputa cerrada entre o aquário vasco da gama e a lota de Sesimbra. Assentei então em surrealista para descanso da minha mãe, que chegou a temer que eu fosse desenhar conas à fontana, se bem que ela não dizia conas. Nos primeiros tempos centrei-me em pilas circuncidadas e arroz manteiga não pastoso. Foi uma série interessante, principalmente porque a ejaculação era apresentada como um arrozinho doce em que a canela desenhava a silhueta daquela zona da jenifer lopes em que o criador se esmerou, especialmente depois de ter feito as orbitulinas, e cheguei a ter encomendas da agencia abreu para as promoções de verão em punta cana, que, obviamente, rejeitei a favor da 1ª bienal de alhos vedros que se realizava de três em três anos, pelo menos, inclusive. Ensaiei ainda uma breve incursão no cinema, com um filme em produção luso-francesa, com uma história em que um pente encarnado fazia deambulações psicanalíticas, e com o elucidativo título : 'o pente et l'âme'. Depois de ter feito a minha suite de lagostas afrodisíacas e lavagantes com cio, e um tríptico com a franja do almerindo marques, acabei como favorito dum marchand que me comprava dois quadros por ano a troco de convencer a mulher a não usar chanatas azuis claras em casa. Por três até lhe pintava as unhas.


Noutro dia tive um blogue. Basicamente aconteceu porque já tinha a virilha em chaga de tanto coçar e os tremoços estavam ressequidos. Ao fim de quatro horas tive duas ideias que me vieram seguidas, mas depois faltou-me uma palavra sem ser fodasse para as ligar e tive de citar o camus, aproveitando ter a enciclopédia aberta na letra c, à conta duma busca a cabo espichel, que trocava sempre com ponta delgada. Acabei por me afeiçoar e, já pela noitinha, escrevi uma máxima da minha especialidade, que é procurar não ter especialidade nenhuma, se não acabo em canalizador que é o destino de todos os especialistas, informo-vos já, podia dar-se o caso de não saberem. Ora a economia, ciência que cumpre este desiderato na perfeição, serviu para demonstrar até à saciedade (anotai já uma incongruência) que o desejo na natureza humana é ilimitado, mas que o Homem ( o tal ser que se masturba nessa dita natureza) dá cada vez menos valor marginal a cada unidade adicional dum qualquer bem que vá desejando e venha – pela graciosidade generosa de deus – possuindo. Quer isto dizer que fui comprar tremoços.


Noutro dia fiz uma reforma educativa. Nessa madrugada tinha sido invadido por um decibélico batuque oriundo duma tribu zulu que tentava impermeabilizar um terraço fronteiro. O entusiasmo levou-me a sair rápido de casa, e não fossem os vizinhos basquetebolistas franceses do 4º estarem a fazer uma distribuição de croissants pelas mochilas das crias, ocupando os dois elevadores em simultâneo por causa da falta de ar, teria chegado à rua cinco minutos mais cedo, ou seja, antes de um belo rapaz de sotaque brasileiro, e respectivo ar de parvo em anexo, ter deixado o seu carrinho a entalar o meu porque tinha ido tomar um cáfêzinho com a garôta do cabeleireiro, e no pantanal eram desconhecidos os lugares para estacionamento. Tudo se teria superado não fora um casal de panascas me ter aparecido aos beijos no semáforo, que decidiu afeiçoar-se ao encarnado naquele momento preciso, e me fez citar levi strauss a uma criança de tenra idade que exigia explicações antropológicas urgentes no banco de trás. Tudo bem. Tudo bem, não fosse a puta da professora do citado imberbe indivíduo lhe ter rasurado uma rima nos trabalhos de casa – por mim criteriosamente inspirada. Foda-se, questionarem-me porque é que o puto traz ramelas nos olhos há duas semanas seguidas, ainda vá que não vá, agora rasurarem-me uma rima, bem esgalhada por sinal, pedagógica inclusive, designadamente musical, coisa que a ela nunca lhe teria passado, nem próximo, pelo entrefolho neuronal, é que é o mesmo que me mandarem para o caralho; que «não era preciso rimar» terá afirmado de rabo a abanar e em surdina a dita fufa fina. Comecei, eu começo sempre, por perguntar-lhe apenas se não encararia o afastamento por reforma como uma opção saudável para a sua pessoa, fosse por invalidez, ou senilidade, desassédio sexual, ou menopausa com herpes labial, não fazia questão, dado que para enganar um homem rico já lhe via poucas condições e atributos face ao seu queixo papudo, sorriso de antena parabólica e mamas em cortinado. E uma inteligência tão descaída quanto as nádegas, tive ainda o cuidado de precisar, porque um diagnóstico quer-se completo. Ficou naturalmente sentida; em poucos dias, o supracitado imberbe e inquilino do banco de trás do carro tinha ao seu dispor uma nova professora - milho, boa como o - saída directamente duma capa de revista. Iniciou-se um novo capítulo na presença, interesse e participação dos pais, na assessoria aos trabalhos de casa, com especial incidência em trabalhos manuais, e nas fichas de português jamais uma rima foi efectuada sem a garantia duma métrica que não fosse ao encontro das expectativas líricas da nova docente. Já estou escalado para um concurso de manjericos inter turmas. Ponham gajas boas a dar aulas, pela vossa rica saúde, e verão o que é uma paternidade responsável e dedicada. E as mães até se podem emancipar de bónus, ou tirar fotografias da apanha do berbigão e mandar para o abrupto.


Noutro dia mandei calar um Bourbon. Não era que ele cheirasse mal da boca, mas estava a aborrecer-me com aquele barulho a chupar as pernas da lagosta. Ora eu não aprecio reis que façam barulho a comer pernas de lagosta, um presidente ou outro a deitar farelo de bolo rei pelo canto de boca ainda vai que não vai, mas reis a fazerem feschiiiu a puxar uma coxinha de lagosta, não aprecio, é uma questão de princípio, fschiiiu é feio, ainda para mais vindo dum bourbon, mandei-o calar, ou então que fosse comer uns croquetes para o pavilhão de caça. Vendo bem ainda fazia chenzefluck, ou mesmo renhinkch como já ouvi à atrasado a um dos grandes de espanha com uma empada de galinha. Se isto é uma dinastia, vou ali e já venho, já me parecem os habsburgos com o esparguete à bolonheza e o seu clássico fellliupt, que é já para não falar no que a rainha vitória um dia disse quando trincou a língua num rosbife - 'cabrões dos lencastres'. Agora até me lembrei duma do onassis para a mulher, quando esta parecia uma perua a reclamar que a cozinha estava toda desarrumada enquanto chupava um perna de pau de morango a fazer trinados de ficchhluippó: «ó maria, porque não te callas!». Um dia destes o Chavez dá um pum e então é que eu quero ver.


Noutro dia fui ministro das obras públicas. Um homem que se preze não pode ficar apenas pelas obras privadas. Segurar o varão dos cortinados enquanto alguém tira as medidas às bainhas, verificar o puxo do exaustor, o escoamento dos ralos, ou calafetar frestas é algo que a partir de certa altura nos deixará ansiosos por mais, por algo que nos ponha pelo menos na história, se não for possível no bronze, seja uma estrada, uma ponte, uma passadeira para peões, um aeroporto sobre estacas, umas pegadas de polvo, ou mesmo um semáforo intermitente se não houver verba para mais. Descerrar, pois, uma lápide atestando a nossa presença na inauguração de algo que fique para as gerações que hão-de vir, é algo que nos fará vir é a nós também. E tudo devemos fazer para ter uma glória ejaculativa saudável e duradoira. Reparemos, inclusive, que as obras de índole privada, mesmo que tenham implícito algum fluxo, não nos proporcionam esse simbólico atestado lapidar; bizarro seria uma lápide no autoclismo dizendo que ele tinha deixado de pingar na data tal, assim como não seria próprio o urologista tatuar-nos por cima da pila dizendo que teria sido ele a pôr-nos a uretra que nem o repuxo do lago de genève. E homem que não tenha o seu nome gravado a ferro numa chapa de latão, bem pode chegar ao juízo final com o atestado de vacinas em dia, e uma lista de desfloramentos, todos dentro dos mais sagrados sacramentos, que o s.pedro, ex-pescador levemente ciumento, sempre perguntará: «e tu, meu filho, em cimento, o que deixaste por lá?».


Noutro dia fui detective. Sabia-me um predestinado para tudo descobrir e ninguém me conseguia ocultar para sempre fosse o que fosse. O mais pequeno indício, o mais ligeiro deslize, o mais ínfimo sinal eram suficientes para que eu pudesse deslindar o mais obscuro e estranho facto até ao seu microscópico pormenor. Movia-me tão facilmente na mais monótona banalidade como no mais surreal ou aleatório slalom de acontecimentos. Não cheguei a precisar de me especializar em nenhuma área específica tal a abrangência das minhas faculdades, e, por isso, a meio duma espionagem industrial podia perfeitamente, e dum só rasgo, resolver casos de catatuas desaparecidas ou infiltrações de ice tea em pacotes de pipocas. Heranças mudadas à ultima hora, plágios wikipédicos ou mesmo pragas de lagartas em padiolas de maçã raineta eram casos que pouco mais me duravam que uma semana a resolver , sendo mesmo conhecido pelo tal, que, fosse do lombo ou fosse do acém, fazia depressa e bem. A certa altura comecei a escolher apenas os casos mais bicudos, autênticos cones que outros não alcançavam por prisma nenhum. Já não trabalhava pelo dinheiro mas sim pelo prazer da descoberta, e com um pêlo de gato pardo cheguei a encontrar um intelectual abichanado, para não falar dum espermatozoide às riscas que me levou a uma solução revolucionária no caso do palhaço violador. Reformei-me por invalidez quando a minha mulher fugiu com o dono da perfumaria.


Noutro dia descobri um poço de petróleo. Confesso que andava apenas a brincar à globalização energética com uma brasileira especialista na posição de toupeira, quando um belo dia ela começou a esgravatar melhor e, no intervalo de duas gargantas mais profundas num desfiladeiro de Curibunda, quando pensava eu que lhe estava a provocar uma lubrificação olímpica com algum corrimento de bónus, verifico que afinal se tratava dum banho de hidrocarbonetos; a minha primeira reacção foi chamá-la de grande porca, mas ela prontamente me respondeu que doravante seria uma puta parafina. Ora eu disse-lhe que aquele oiro negro também me pertencia porque, se ela se pôs decididamente de bruços, a mim também o devia. Mas rapidamente acertámos as partilhas da refinação, ela, futura beata e peregrina, mulher afinal asseada, ficava com a benzina e eu, a Deus temente, mas homem ardente, e de erecção perene, ficava com o querosene. A vaselina, como era um subproduto, ficava à discrição, para quem mais viesse a precisar. Porque isto do negócio da perfuração deve agradar a todos, com ou sem reservas especulativas.


Noutro dia fui mafioso. Sempre persegui o secreto desejo de um dia cortar os dedos a alguém, ou por me dever dinheiro ou por ter beijado ao de leve a minha filha. O acto de extorquir, em si, não me causava especial fascínio, dominar pelo simples medo também não me satisfazia minimamente, para isso ia para fiscal da asae, precisava de sentir na minha vítima o pânico vertiginoso da morte, da mutilação, da minha presença, no fundo. Confirmei que o único verdadeiro poder é o físico, qualquer ditadorzeco psicológico se borra perante a perspectiva dum estrangulamento, duma amputação de membros, duma sodomização com broca 23. Não se tratava pois de fazer justiça com as minhas mãos, tratava-se especificamente de exercer um poder cirúrgico mas indiscriminado com elas, e ter quem me tratasse das unhas depois se não quisesse que eu lhe vazasse as vistas. Ter alguém completamente em suspenso da nossa arbitrariedade, fosse ela uma invalidez permanente, fosse ela uma desonra temporária, fosse ela passar a ferro com o cuzinho em brasa, era uma sensação que nada no mundo podia pagar. Corromper era uma brincadeira para os tempos livres, sem ver sangue e uns testículos a voar sentir-me-ia apenas um politico.


Noutro dia fui bombeiro. Como sou alérgico ao fumo especializei-me em resgates, arrombamentos e evacuações. Demovi suicidas em altos parapeitos à base de sudokus, fiz reconsiderar raptores com uma boa jeropiga, com um grupo de sequestradores acabámos todos a comer umas conquilhas no eduardinho, e cheguei a assar dois cabritos num cofre-forte. Sinto-me vocacionado para o diálogo e sei que chego rapidamente ao âmago do ser humano. A minha agulheta é o meu olhar sincero e penetrante, o meu capacete é a minha compreensão sem limites e o olhar carinhoso, a minha picareta é o meu amor ao próximo em globalmente e o amor ao patrão em designadamente. Já trabalhei com montanhas em erupção, com velhas em falta de ar, e com rios em transvaze, mas o que mais apreciei foram as falhas sísmicas. Deus permitiu que numa racha tectónica eu viesse a encontrar o destino para o grande aluimento da minha vida. Se morrer de amor soterrado, para a posteridade quero ficar apenas como um géiser porreiro.


Noutro dia fui juiz. Como já havia muitos especializados em factos, dediquei-me com particular cuidado a julgar intenções. Constando que o inferno estaria bem recheado das boas, tratei de desenvolver técnicas para descortinar as más, e assim poder equilibrar as coisas para aquilo nunca poder correr o risco de arrefecer muito. Fascinava-me a fronteira entre a negligência e o dolo, tirar as medidas ao descuido e à deliberação, pesar o fortuito e o planeado como se fossem matéria de ourives. De nada me interessavam os actos em si, mera pasmaceira, de nada me interessavam os danos e os proveitos, a causa própria e a causa alheia, o meu reino era o da subjectividade em estado puro, sem as impurezas do acontecimento; sabia-me o deus da intencionalidade, o que trabalhava para lá do bem e do mal , o que via mexer em primeira mão os cordelinhos da vontade, o que desflorava malmequeres ( e treinadores dos lagartos) que nem inocente canalha, o que definia quem era cão e quem era pavlov, o que definia o que era inconsciente e o que era farinheira com míscaros. Fui odiado pelo positivismo e adorado pelo idealismo, fui perseguido pelo pau carunchoso e idolatrado pelo óleo de linhaça, apareci nos sonhos de assassinos, nas visões dos místicos e no ranço do queijo da ilha, cheguei à culpa antes do crime e cheguei à glória antes da virtude; dormi debaixo da relva de alvalade. Um dia era instrumento de ditadores e no outro seu carrasco, e o criador foi levado a confidenciar-me que chegou a pensar na semana de oito dias por minha causa. Nenhuma intenção me passou a perna e a todas cataloguei minuciosamente. Para mim, todos os alibis de consciência estavam colados com cuspo, e com um simples sopro fazia esvoaçar os mais bem construídos cenários de boa intencionalidade. Dormi com as cúmplices das almas boas e fiz patuscadas com mioleira de arrependidos. Nunca me enganei, tirando no dia que em saltei da barriga da minha mãe.


Noutro dia fui profeta. Escolhi uma terra de cépticos encartados e com moléstias de fígado. Especializei-me em indicadores económicos, amores impossíveis, velocidades de sedimentação e transaminases. Como fui incompreendido pela plebe desde o início, isso granjeou-me um grupo de adeptos culturalmente liofilizados, fieis e indefectíveis, daqueles que vão sempre atrás dos que não dizem nada que se perceba. Criei um léxico próprio, descobri personagens sórdidas e perdidas no pó dos tempos para me servirem de referências e acarinhei os inimigos como se fossem sangue do meu sangue. Associaram-me à manipulação de almas e ao mau olhado, mas eu apenas dizia o que o grande espírito da razão e o alambique me transmitiam. Previ fortunas desfeitas em bisca lambida, poços de petróleo a darem café descafeinado e amores desfeitos por erros ortográficos e má pontuação. Pus governantes a sentirem-se napoleão, mulheres a dançarem como mata-hari, e velhas a mandar piropos ao brad pitt; demonstrei que o mundo é um sininho pendurada na mão dum capitão gancho: pendular e assustada. A quem queria ser fausto eu tratava de lhe encontrar um mefistófeles à maneira, e às rosinas que se quisessem libertar eu providenciava um dom bártolo atento e possessivo. Provei que tudo o que tem explicação é falso, e que um bom argumento não passa duma profecia estragada. Chegou a pensar-se que tinha razão antes de tempo, mas verificou-se que, afinal, era o tempo que esperava que eu falasse primeiro.


Noutro dia fui gaja. Comecei por ter alguma dificuldade em habituar-me àquela necessidade de estar sempre a falar e a relacionar o irrelacionável, mas acabei por me ir adaptando com treinos de respiração e complexos vitamínicos. Uma das coisas que facilita claramente a sobrevivência do feminino é o masculino ser pré concebido como opressor mas tratado como um banana - e depois tanto faz ser fatiado ou à dentada. Destaco aqui para já que gostei essencialmente dos saltos altos; pode parecer estranho, mas aquele ar trôpego, que ao homem o transformaria em bêbedo passado três segundos, à mulher carrega-a de tanto glamour e intercourse-appeal, que lhe permite desenvolver qualquer teoria com um auditório a babar-se. Essa experiência de uma plateia completamente focada em nós é também algo apenas ao alcance das mulheres. É que, mesmo estando o foco invariavelmente localizado ora numa zona ligeiramente abaixo do queixo ora ligeiramente acima dos joelhos, sempre é diferente que estarem a ver se temos os pêlos a saírem das orelhas ou do nariz. A tradicional incapacidade de abstrair, aliada à compulsão para generalizar, acabaram por ser algo com que até me dei bastante bem. Um descanso, mesmo; veja-se um chão sujo, por exemplo, passou a ser simultaneamente ou o simples e definitivo diagnóstico dum cenário pré apopalíptico, ou a prova científica de que quem nos rodeia é um grandíssimo porco e que sem nós viveria numa dantesca estrumeira. Numa penada, como mulher, resolvi por atacado os problemas práticos e os problemas teóricos, como sendo um só, sem inferências ou especiais deduções, prescindido – por ser irrelevante, claro - de outra realidade que não fosse a que estivesse mesmo à minha frente, até porque nem tinha tempo, pois, coitadinha de mim, ainda tinha de controlar a temperatura do forno, subir uma baínha, pintar as unhas, e secar o rabo aos meninos, se não ainda ganhavam pústulas.


Noutro dia escrevi um ensaio sobre os clássicos russos. O editor deu-me carta branca e pus um dos Karamanzov a jogar poker com o príncipe Muiskine. Quem ganhasse podia escolher entre matar uma velha à base de anis com cogumelos venenosos ou engravidar uma condessa adolescente de gémeos. Muiskine mostrou-se tímido no primeiro round, tinha uma mão duvidosa, o que lhe exigiria um nível de risco ao qual ele ainda não estava habituado, enquanto isso, o brother Karamanzov tremia - a raiva a roçar o medo - ao tentar sacar um às de copas que estava entalado na cirúrgica zona onde as hormonas se realizam profissionalmente. Viviam entre a vertigem da batota e o desespero da derrota, fora o catarro, e só se libertavam chamando deus ao diabo, pondo a alma em vinha de alhos, ou regando arenque com malaguetas em vinagrete. Pô-los a rapar frio numa noite petersburguiana foi a minha primeira estratégia, mas rapidamente se apaixonaram pela primeira menina tísica que lhes apareceu, e que ainda para mais andava fugida dum mujique bêbedo que a queria violar para remissão da sua vida dissoluta entre mulheres capazes de capar um tigre da Sibéria. Quando Stavroguine chegou todo confiante já o caldinho estava entornado, as parelhas bem definidas, os encornados bem distribuídos e escolhidas as portadores das doenças venéreas e os tricotadores de moral. Nada ficará igual nesta arte de escrever como quem vomita, neste teste de crimes sem derramamento de culpas, temo que só me venham a compreender quando vos acabarem as trouffes e o cognac. O sofrimento comigo será sempre patrocinado pelos caldos knorr, mas todo o eterno devedor precisará sempre do sr. Fiodor.


Noutro dia fiz uma psicoterapia. Levava no cesto um desgosto de amor, um sonho com a ana bola a fazer tricot de cócoras, e uma somatização bilicosa ao nível da vesícula. A minha vida não tem foda por onde se pegue e os meus sonhos parecem o fantasporto em ano de falta de verbas, por isso só arranjei vaga com psicanalistas em estágio e de formação prévia em charcutaria fina que aguentam estar a encher chouriços durante uma tarde inteira. Ao fim da primeira hora saquei-lhe dois bocejos e uma coçadela de tomates, mas a meio da 2ª o tipo já me chamava o roskolnikov da zambujeira do mar. Eu sou assim: de principio dou ares de amestrador de bolas de sabão mas rapidamente se apercebem que sou um autêntico zeppelin dos inconscientes paranóicos. Ao lhe contar o fascínio – com subtilezas carnais - que exercia sobre a minha vizinha de baixo, a cara do tipo começou a parecer-se com uma romã com bicho, e só parou de morder a língua quando cheguei ao sono em que ela me fazia esperas na sala da conduta do lixo. É um cubículo muito apertado, registe-se, e pouco mais dá que para dois garrafões do luso, mas houve sonhos em que chegou a caber lá dentro um carro de bombeiros, com sirene, mangueira, agulheta e tudo. Ele até desenvolveu a teoria, específica para o meu caso, do alargamento psicótico do espaço onírico e, não fora ter entrado a recepcionista com dois oníricos bem robustos, até me tinha levado a uma sessão de hipnose pélvica. Terminámos com uma tese de projecção que me convenceu: toda a pulsão é uma inflamação de pulso que nunca chegou a ser tendinite. Acho que, gajos como eu, já nem nos livros. Se me pagarem bem, quanto muito, apareço-vos nos sonhos a fazer de édipo marinheiro.


Noutro dia fui cadáver. Deu gosto vê-los a turvar-se-lhes a vista pela minha memória. Um ou outro soluço estrogénico também me soube bem. Foi pena as larvas já me estarem a tomar o gosto e o cheiro pútrido não ser a melhor companhia, mas pelo menos a azia tinha passado. A puta da úlcera parara de me chatear, o irs pouco latejava, mas instalou-se um incomodativo torcicolo, cheira-me que também devia ter deixado definido no testamento quais eram as medidas certas do caixão, os sacanas dos meus filhos puseram-se a poupar na madeira. Enterneceu-me a coroa de flores como forma de gratidão do sr costa da farmácia, e aquelas duas vizinhas quando se debruçaram para manifestar o seu pesar, pois acabaram por dar mais coisas ao manifesto, o que quase me fez cantar um pequeno te deum solene, não fora parecer, liturgicamente, mal. O telejornal deu a notícia com alguma discrição - sempre tentei ser pessoa do mais firme conteúdo e não de frívola aparência - mas com um razoável destaque, e escolheram as imagens em que eu era agraciado com a ordem industrial de mérito, mas porra que agora a medalha até vai servir de palito a estes cabrõezitos que me estão a subir pela coxa acima, ora na cartilagem da rótula não se interessaram eles, se calhar sabia-lhes a lula e estavam à espera de eisbein na púcara. É pena deixar a minha obra incompleta, principalmente o autoclismo da casa de banho do corredor que pinga desde a primeira comunhão da minha mais velha. Também me dói a alma - apesar de ainda nem saber por onde ela anda - em ter deixado algumas rimas incompletas da colecção de poemas sobre os búzios da Ericeira, principalmente uma em que conquilha ficou a emparelhar com virilha o que não parecia próprio para uma colecção sobre simbologia bíblica nas edições paulistas. É triste ter deixado isto assim à pressa, só não tenho saudades do anderson polga, embora as costas agora já não me doerem tanto, e cheira a refogado lá para os lados da bacia.


Noutro dia fiz bacalhau com natas. Gostava que ficasse registado que não foi comprado já demolhado, e por mim foi desfiado, nem podia ser doutra forma, estou para a cozinha como o criador está para a estátua da liberdade, ou seja, que se foda desde que não me faça comichão no nariz. O bacalhau é um bom prato para se cozinhar basicamente porque podemos, e devemos, sempre dizer que está um pouco salgado, e estar salgado é algo que acontece a qualquer um, desde que tenha sido exposto, ou imposto, ao sal, seja ele, ou mesmo não, lágrimas de Portugal, eu às vezes cito, e outras recito, versos porque sempre me consola e distrai, e quem é distraído tem sempre, ou quase sempre, designadamente, desculpa, fora aliviar os gases pela via erudita, mas o que não tem desculpa é que as natas estavam um bocado, um bocado é favor, líquidas de mais, lembravam aquela coisa que se vê nalguns filmes, Jesus, que coisa mais porca, do que me haveria eu de lembrar, é no que dá ainda ter de o demolhar. Vou para dentro.


Noutro dia fiz uma revolução. Tinha comprado uma t shirt nova, e como os bilhares estavam mudar a flanela falei com um primo meu que é descalcificador de máquinas da míele e andava a deixar crescer o bigode e fomos depor o governo. Era inaceitável que o crescimento não ficasse acima dos 2,2%, quando achávamos que o mínimo dos mínimos eram os 5,0 % da superbock preta, mas a gota de água que fez transbordar o copo foi o déficit ter ficado acima dos 2,7% quando o meu primo já tinha apostado umas gambas com um colega paquistanês em como ficávamos pouco acima da jansen sem álcool. A situação estava insustentável e ainda para mais a carlsberg tinha ficado outra vez sem comparticipação, ou seja: ostensivamente descriminada em relação ao colo do útero. Chegaram a falar-me de que eu devia optar pela via reformista, mas eu já tinha comprado a via verde e achei coisas a mais para pôr no para brisas. Acabou por ser fácil porque apostámos no efeito surpresa. Terem-nos confundido com dois vendedores do circulo de leitores também ajudou. O mundo já foi dos atrevidos, agora é dos que passam despercebidos.


Noutro dia fui líder parlamentar. Era um grupo coeso, pois, pese embora a convergência de opiniões ser igual ao olhar do medeiros ferreira, descontavam todos na mesma folha da segurança social e apontavam para a reforma que nem uma mira telescópica. Mas o que realmente sempre me atraiu nesta função foram o pagamento das ajudas de custo por transferência bancária e o perfume daquela moça pequenina que trabalha por detrás do louçã, para além do ar poeticamente superior da dupla maria-alegre-manuel-de-belém, uma espécie de fusão entre a isabel queirós do vale e o martinho da arcada. Foi então com algum sacrifício pessoal que me dirigi a uma plateia influenciada pelos restos da hedionda campanha mediática que me movem há muito anos, não poupando nem família, nem alfaiate, nem periquito, nem o sr pinto engraxador. É bastante duro, creiam, para uma pessoa que pouco mais vê à sua frente que os mais altos interesses da nação, vista ela saia ou vestido, ser ligado aos meros caprichos da vaidade pessoal, coisa que, diga-se, nunca me condicionou, nem ao meu corte de cabelo que apenas ondeia ao sabor da inocente maré, cada vez mais vazia por sinal. Foi assim um combate desigual, e apenas a minha convicção de ter a verdade e a esperança do meu lado me deu energia para continuar, qual d.quixote sem verbas para pagar uma sandes de salpicão que fosse ao sancho pança. Acredito que a eternidade me fará justiça, e aguardo-a; de preferência que traga saldo no cartão.


Noutro dia escrevi um conto para crianças. Já me tinham dito que eu era de efabulação precoce, mas isso acaba por ser um pau de dois bicos, salvo seja, com a imaginação a deixar-nos sempre a meio caminho entre a realidade e o sonho. É uma espécie do nem foder nem sair de cima do psiquismo. Existe uma certa tendência para pôr na boca dos animais aquilo que as pessoas não são capazes de dizer. No fundo, os animais das fábulas têm para a verdade o mesmo papel que os trovadores românticos têm para o amor: cantam aquilo que os outros gostavam de sentir mas têm vergonha de dizer. É triste precisarmos dum porco para falar da amizade ou dum sapo para falar do orgulho, mas antes isso que precisar dum gajo bêbedo de voz suja para dizer a alguém que a amamos e sentimos a sua falta. Por isso as fábulas nunca falam de amor: já é suficientemente mau ver um gato engravatado ou uma vaca de pantufas, quanto mais um gnu a cantar i love you. A nossa civilização será conhecida pela que pôs outra vez os animais a falarem, mas calou Deus. E pôs o amor indeciso entre o notário e a carne. Felizmente o meu herói é um hipopótamo capado, chamado Lacerda, e que, quando se chateia, manda, testosteronicamente, tudo à tal parte.


Noutro dia fundei uma fundação. Ainda pensei em fazer antes uma fundição para treinar primeiro, mas como estraguei logo o vidrado refractário do forno a assar uma fateixa acabei por ir directo ao assunto. Isto deve-se basicamente ao meu feitio filantropo, gosto de ajudar e de me sentir próximo dos que mais precisam, sejam eles a minha família ou os meus negócios ou o meu cão. Doei generosamente a minha colecção de guelras embalsamadas – uma de safio até se parece com o tutankamon, que o deus sol o tenha em descanso – e vai-se criar a colecção-museu da conserva em Peniche, assim sempre será mais fácil encontrar um conservador por essa zona. Encomendei para a ocasião à Paula Rego uma cena de faina com petingas em pastel, e com uns tons amarelados, porque consegui o patrocínio do beira-mar, e o manuel alegre fez uns versos em que garoupa rimava com cação, mas em sopa. Eu sabia que estava destinado para praticar o bem, mas não suspeitava que fosse tão bom. Que Deus me conserve.


Noutro dia fiz uma lei. Não que fosse preciso, mas eu sentia uma certa falta. Sem fazer uma lei um homem corre o risco de não ser levado a sério. O costume é coisa de mulheres. Agora as coisas estão muito mais estáveis, todos sabem o que eu penso sobre o mundo em geral e o que deve acompanhar o bife em particular. Pensei nas excepções, nos atenuantes, devo concordar que sim, pensei, pois no fundo nem em todos os dias me apetece bife, e a via láctea em geral e quem me rodeia e lhe incumbe fazer-me feliz em particular têm de saber do que eu gosto quando não gosto de bife, designadamente, do que aprecio, que é um termo mais técnico. Preocupei-me inclusive com o famoso ónus da prova; a coisa ficou simplificada com a declaração de que, ao correr algo de não conforme, a culpa nunca será minha, porque, lá está, se não houver nada de jeito em casa para acompanhar o bife quem terá de ir à rua comprar não serei eu, dado que eu já produzi matéria legislativa antecipadamente, e ainda tenho de provar o molho. Toda a lei é, pois, um descanso, um catalizador de bom ambiente, desde a cobrança de impostos no império romano até ao quem coça as costas de quem, quer se esteja na polinésia francesa ou no mindelo, ou na bobadela, ou dele. Definir quem manda não é o verdadeiro problema, o real desafio está em ensinar a obedecer. E sem ser tudo ao molho.


Noutro dia comi três pretas. Confesso que a que me soube melhor foi a última, mas tive de me debruçar um pouco mais do que estava à espera. Às vezes sinto que quando estou para comer uma preta se perde algo de iniciativa técnica em detrimento do aspecto lúdico dum ataque envolvente. Mas deve ser só impressão minha, pois geralmente sabe-me bem, principalmente quando o tabuleiro não está escorregadio, por causa da estratégia de saltos de cavalo que costumo utilizar. Desta vez tive para começar com uma abertura siciliana mas receei ser mal interpretado e assim se perder alguma exuberância selvagem do peão junto à torre. Infelizmente fui desafiado para uma simultânea com professoras de álgebra da costa do marfim e não deu para fazer a folha àquela rainha, que estava mesmo a pedi-las, pois passou o tempo todo encostadinha ao pé ao bispo. Estou tão cansado que amanhã se calhar começo primeiro com as brancas, e num tabuleiro alto, talvez assim nem tenha de me dobrar tanto em cima das peças.


Noutro dia assinei um tratado. Pareceu-me bem escrito, as moradas e os nºs de contribuinte todos em ordem, só o sarkozy é que tinha o código postal errado, mas o amado disse-me que não havia azar porque ele estava em mudanças – pelas olheiras suspeitava-se que já dormia no sofá vinha para dois meses. O texto foi-me aconselhado pelo barroso, resultava muito bem nas 324 línguas, incluindo o guincho dos javalis da transilvânia, o inglês técnico e o braile para curdos mudos, chegando mesmo a rimar em morse. Usei uma sheaffer triumph de 1945 com aparo de 14 kilates, da cor da gravata do portas, que falhou, claro, e que arranhava um bocadinho na ponta, por isso um dos jotas’s até me saiu ligeiramente descaído, entre o g do gordon e as mamas duma ministra. Chegaram a pensar no antónio para ilustrar – a ver se as pessoas depois percebiam - mas o zapatero teve medo de aparecer com um preservativo no nariz e optou-se por um friso discreto inspirado no colar da merkel que também queria deixar a sua marca. No final pediram-me para rubricar as páginas entre folhas, só que isso já achei de mais, ainda ficava com fama de rúbrico. Penso que a europa ficou bem servida, nunca mais vai ter de se vergar sob o jugo americano mas, dizia-se nos corredores, deve fortalecer melhor a zona dos gémeos.


Noutro dia escrevi um livro. Esteve para ser autobiográfico mas a certa altura lembrei-me dum furúnculo que me impediu de ganhar um concurso de poesia e optei antes por um romance histórico passado no tempo em que éramos espanhóis apesar de ainda não se terem inventado os filipinos. Pensei num trama sexual mas como não conseguia descrever uma foda em condições virei-me para a inveja, a traição e o ciúme, mas já cheguei atrasado ao comboio da autocomiseração . Do que mais gostei foi de descobrir palavras novas no dicionário; ainda me sobejaram fulvescência e latípede, mas à ultima hora lá desenrasquei uma boa situação para enfiar protraível - tudo na maior das decências, claro, que fodas nem sei relatar. O final saiu-me escorreito, sem dramas nem desilusões, apenas um quê daquela subtileza própria do bom gosto, não sei se estão a ver, como quando a cartuxa de parma abraçava o fabrício e lhe tirava os pontos negros das costas. Mas fiquei com uma certa pena de não estar à vontade com a lírica das fodas, sim, principalmente aquelas cenas de gatas, o mais próximo que fiquei foi quando o torquemada foi jogar ao sete e meio com o richelieu e, no final, o anel lhe beijou.


Noutro dia fiz uma opa. Ainda estive inclinado para a fusão mas como já tinha digitado o código não dava para voltar atrás se não ainda me comiam o cartão. A empresa estava em bom estado, tinha sido pintada no verão, não sei se com tintas marilina se com barbot, e como ainda não lhe tinham dado a 2ª demão achei que era importante a minha opinião. Mas quero deixar claro que o que me move é resgatar o papel de portugal no mundo, isso e a minha próstata, malvada que nem mijo em condições. Sei que tenho fama de castigador, mas sou apenas melhor que os outros. Nem se trata tanto de não me compreenderem, apenas não me alcançam, pura, sincera e simplesmente. Finalmente aquela empresa terá um líder; que mija fininho mas caga que nem batelão da terra nova. Abençoados os que me seguirem porque deles farei a minha mais valia. Perdoem-me a rima, mas livrem-se de me enfiarem o dedo pelo rabo acima.


Noutro dia subi o everest. Estava frio, tenho de vos confidenciar, não fora aquelas meias velhas do marks & spencer e ainda encarquilhava todo. Joguei dominó com um sharpa chamado flinstone, e comi sardinha ramirez em conserva. A sacana da lata das anchovas veio a rebolar do k7 até ao k4 e ia desfazendo a carola do chefe da expedição russa patrocinada pelo vic vaporuc. Quando lá cheguei acima quis respirar fundo, mas já não tinha tempo porque a avalanche estava marcada para as quatro. Tirei uma fotografia do pôr do sol, mas sem sol ( quem tinha ficado com os direitos eram os ingleses que nunca o tinham visto), e ainda apanhei uma sacana duma gaivota de perfil que só não me cagou em cima por um triz. Mas posso fazer um balanço: foi bom, regressei com o nariz, pila e dedo mindinho intactos, perdi foi aquele porta chaves que me tinha dado a minha mãe, com um olho azul da capadócia, espero que esteja alguém em casa para me abrir a porta quando voltar se não ainda durmo na rua.
Bum.



Roy Lichtenstein, Tate, Londres

Luna Park (hors serie 3/9)

«tento ser fiel ao sonho e não às circunstâncias» , Jorge Luis Borges, ‘Este ofício de poeta’, Teorema


030707
Luna Park (hors serie 2/9)

«Tudo se penetra.», F. Pessoa, 'Livro do Desassossego', ed Assírio & Alvim - nº 228


020707
Luna Park (hors serie 1/9)

« a maior virtude é a necessidade» , Shakespeare, 'Ricardo II'



010707
Luna Park

«naquela altura, a infelicidade significava alguma coisa. Agora é só uma chatice»
Nick Hornby, 'Alta Fidelidade', Teorema
Diálogos da praceta mole

Acetila Salicílica – Tens a noção de que o sucesso é sempre uma combinação de tamanho com aspecto?

Benzodio Zepino - Catalogas por necessidade ou por capricho?

Acetila Salicílica - mero impulso telecomandado

Benzodio Zepino – a sofisticação dum inconsciente treinado?

Acetila Salicílica - não chega a ser inconsciente porque o mantenho de rédea curta

Benzodio Zepino – dominas por convicção ou acaso?

Acetila Salicílica - agora deste em fazer apenas perguntas?

Benzodio Zepino – foi a maneira que encontrei para que não adormecesses comigo

Acetila Salicílica - Confias tão pouco nas tuas capacidades intrínsecas?

Benzodio Zepino – não tenho nada de propriamente intrínseco

Acetila Salicílica - isso é alarmante: vampirizas, ou camaleonizas?

Benzodio Zepino – mais simples: apenas evito ser demasiado específico comigo próprio

Acetila Salicílica – Receio de que te comparem?

Benzodio Zepino - Não. Adoro ser comparado. Apenas receio que me comparem com a imagem que construíram de mim.

Acetila Salicílica – Mas provocas os outros constantemente procurando que se lembrem de passados irrepetíveis...

Benzodio Zepino – sou absolutamente incapaz de agarrar o presente...

Acetila Salicílica - ...isso é como ter uma motoserra na mão e usá-la para varrer o chão...

Benzodio Zepino – ... e tenho apenas pânico de que ele para ti seja somente uma passagem

Acetila Salicílica – preocupas-te demasiado com coisas que não dominas

Benzodio Zepino – chamam-lhe ansiedade

Acetila Salicílica – acho que inflamas demasiado a memória, e depois oscilas entre uma permanente insatisfação e uma obstipação da vontade

Benzodio Zepino – Apenas por vezes julgo ser-me impossível satisfazer-te totalmente - a ti; é isso, uma espécie de: estar-me vedado.

Acetila Salicílica – Devias pensar menos e actuar mais

Benzodio Zepino – combinas acidez com dureza: nunca te conhecerei; mas vou assumir que isso é giro – para me defender.

Acetila Salicílica – mesmo assim és mais presumido que assumido. Quem estava combinado fazer de defensiva era eu.

Benzodio Zepino – és uma falsa defensiva, sabes bem. Repara como começaste esta conversa.

Acetila Salicílica – quis apenas inflamar-te um pouco para depois poder actuar

Benzodio Zepino – sinto que esta praceta faz-me ficar assim - mas é - um pouco mole

Acetila Salicílica – nem tanto. Nem tanto. Mas agora cumpre a tua real função e adormece-me.


280607
Luna Park ilustrado




«Salomé, dança para mim!
Se dançares para mim,
podes pedir-me tudo o que quiseres.»


in 'Salomé', libreto de R. Strauss

(240607)

Dona Portela Maizum e dona Alcocheta Maizena

Numa tarde soalheira a dona Alcocheta e a dona Portela foram passear à serra da Ota à cata dum tal de aquífero que lhes tinham dito era muito bom para esfregar nas costas por causa da espandilose, dos fungos subventrais e da má circulação.

Dona Alcocheta – Filha, talvez seja melhor pararmos numa sombrinha a ver se aparece algum avião com pernas e pêlos no peito

Dona Portela – Olha, eu lá para os meus lados cada vez mais embarco tudo o que aparece, mas tenho que começar a ser mais selectiva porque o meu cais já não dá vazão a tudo

Dona Alcocheta – Mas tu até há pouco tempo eras aquela miúda que dizias te caber sempre mais um na pista desde que viesse com hora marcada!?...

Dona Portela – Outros tempos, querida. Isto agora está é para miúdas como tu, que andaram a poupar-se nos campos de recuo de culatra e agora bem podem aguentar umas mangas mais avantajadas

Dona Alcocheta – Ah, mas isto do serviço completo não é para todos os mangas, também não penses!

Dona Portela – Não te sabia tão sofisticada e selectiva. Cobras à hora ou ao metro de pista?

Dona Alcocheta – Vou começar a trabalhar à base de fee’s fixos no check in e rappels no check out

Dona Portela – Modernaça. E o catering vai ser de bónus?

Dona Alcocheta – Não há aterragens grátis, já devias saber. Quem vier com velocidade a mais arrisca-se a ficar a fazer massagens no Poceirão.

Dona Portela – Convencida, tu já nem equacionas que, para ti, alguém vá com velocidade a menos…

Dona Alcocheta – Filha, comigo, ninguém se arrisca a ficar a bater hélices na segunda circular…

Dona Portela – ah tu és das que confias mais no efeito do jacto do que propriamente na propulsão…

Dona Alcocheta – Amor, eu deixo que descolem de qualquer sítio desde que não me exijam que lhes ajude a tomar balanço

Dona Portela – Uau. Que dominadora. E low costs, nada, certamente…

Dona Alcocheta – Bem, eu também tenho o meu lado de missionária. Por cada três jumbos dou serviço a um low cost desde que depois me dê uma esfoliaçãozinha às costas.

Dona Portela - És mesmo uma querida. E tens tarifas especiais para controladores?

Dona Alcocheta – Desde que não sejam muito possessivos; tenho um pacote de fim-de-semana: se me puserem aqueles pompons nos ouvidos até deixo que me façam loopings nas salinhas de espera.

Dona Portela – És tão moderna e completa que me deixas meio invejosa, meio confusa. A mim agora andam a tentar-me com o esquema do ‘mais um’, mas eu acho que sou moça para um homem de cada vez…

Dona Alcocheta – ó mulher, isso já lá vai! Então se não param de aumentar os pedidos de aterragem, também é de mau tom ir mandá-los aterrar para o campo, ou até com outras que não sejam tão asseadas, não achas?

Dona Portela – Pois, tens razão, e depois ainda o vão gastar todo nessas porcas das free shops…

Dona Alcocheta – Ai comigo não vai haver nada dessas coisas: nada de delayed’s e tudo nos boarding’s

Dona Portela – Olha filha, agora temos que regressar porque estão-me a avisar que estou a ficar com os boarding’s muito assados, perdão, atrasados.

Dona Alcocheta –Querida, fazes como eu: bezuntas com maizena, tapas poros com nestum, e depois até embarcam a saber a mel.


(220607)
Conto que não inclui colchão ortopédico


Tinham combinado preparar a velhice a escrever cartas de amor à porta de um lar de idosos. Sentavam-se no banco dum jardim defronte, olhavam um para o outro, trocavam um sorriso cúmplice e começavam a escrever. Ele era levemente repetitivo, ela era suavemente lacónica. De cinco em cinco minutos trocavam os dizeres para contabilizar sorrisos amarelos. Ele adorava as palavras explícitas, ela repelia-as; ela adorava as subliminaridades, ele as sobreposições de ideias; «mas se calhar somos mais parecidos do que pensamos» disse ela, sacudindo o mesmo cabelo pelo qual ele se tinha apaixonado anos antes – mesmo sem lhe tocar, mesmo sem nunca o ter visto. «escrevo para te amar mais e melhor» dizia ele, brincando às fitas métricas com os dedos; «é o melhor que fazes com os dedos?» ironizava-lhe ela; «testa-mos» respondia ele, ensaiando o trejeito dos pianistas; «viemos aqui com o propósito de preparar a velhice, e não para dar espectáculo» corrige ela, pondo a saia em posição de combate. «coitados, a misericórdia não lhes dá dinheiro para irem ao cinema» dizia ele, que, no fundo – informa-se o leitor inexistente – era um doce de homem. «Para a próxima trazemos uma banquinha e vendemos umas farturas nos intervalos da lírica» propôs ela, que tinha andado a treinar ironia fina numa carta curta em que o agape fazia de farinha e o eros de fada madrinha. «Acho que eles dariam metade da reforma por um cancan seguido dum número de álgebra anatómica» insinuou-se ele, na esperança de que das graçolas pudesse resultar ao menos uma fatia de fruto proibido. «sinto-te com pouco mais capacidade do que umas palavritas encarreiradas entre o belo efeito e a rima fatela» rematou ela, já com vontade de ir apanhar ar e ver homens a sério. « se encontrares alguém que te ame melhor acho que nem deves olhar para trás» arriscou ele a meio caminho entre a insegurança e a vitimização; «os amores não são para se comparar, são para se desfrutar e retribuir a gosto», responde ela em modo tiro e queda, naquele estilo que, se ainda não lhe tinha provocado uma úlcera, pelo menos já lhe tinha calcinado metade da parede do esófago. «quando formos velhos o que te tornará mais aconchegadas as noites serão as memórias das palavras que te disse e do calor desta minha mão incapaz, vais ver» deixou-lhe ele – já em versão de gladiador fracassado de sentimentos – para o resto do serão. Os velhotes do lar entretanto fecharam as persianas; eles olharam para as mãos, elas para as franjas, e assinaram uma petição à misericórdia para que aquelas tardes se repetissem muitas e muitas vezes; e fornecessem um divã decente aos artistas.
Luna Park

«A ironia consiste em se ter uma personalidade efectiva por cima da qual alguém se dá ao luxo de montar outra, fictícia, da sua própria invenção.»

Baroja, "Diálogo sobre a nova arte", in "A Desumanização da Arte e outros Ensaios de Estética", Ortega y Gasset (p. 136)
Luna Park

«A morte não nos diz respeito» Epicuro, Carta a Meneceu
sinfonia nº 6, em si menor

«tudo se nota, quando é escrito»(*), como se ainda impressão digital
Luna Park

Far away / This ship has taken me far away / Far away from the memories / Of the people who care if I live or die - in Starlight, Muse: Black Holes And Revelations, 2006
help yourself, please

Conversas de Massamá e Molhobom


She – Novas danças?

He – Não tenho jeito. O mais que alcanço são pequenas mudanças

She – Aforismo?

He – Trocadilho

She – Então se os filhos são cadilhos..

He – ...as palavras também têm direito a ser trocadilhos

She – Tiraste-me as palavras de boca

He – Estraguei-as portanto

She – Por tão pouco, adiantaria eu

He – Sou de fraco alcance

She – Antes isso que uma desfocagem

He – Posso considerar isso um pequeno elogio?

She – Por aproximação, apenas

He – Há gente que chega a ser feliz apenas por aproximação

She – São as melhores felicidades

He – Fel e cidade é também uma boa combinação

She – Por isso não sou uma mulher doce do campo

He – Uma strawberryfieldica woman?

She – Este já te saiu rebuscado de mais

He – Mas olha que busquei-o apenas uma vez e saiu-me à primeira

She – Os melhores amores não são os primeiros

He – Posso considerar isso uma palavra de esperança?

She – Quem espera nunca alcança

He – Voltamos à dança?

She – É a versão caseira do eterno retorno

He – Antes isso que entornar o caldo

She - Por vezes maças-me

He - Estica as pernas, relaxa, e depois faz uma esparguetada

She – E por vezes cansas-me

He – Um homem que não consiga cansar uma mulher não presta

She – O que conheces tu das mulheres?

He – O suficiente para que elas nunca me conheçam a mim

She – Não passas dum dissimulado, serei levada a concluir

He – Não és mulher de te deixar levar

She – Toda mulher espera pelo seu tapete voador e mágico.

He – Isso é quase romantismo. Estás em processo de conversão?

She – Gosto mais em prosa

He – Brincas com as palavras; estás a usar as minhas armas

She – Só se vence verdadeiramente quando se acaba com as armas do inimigo

He – Eu nunca devia ter saído das trincheiras

She – Assim nunca terias aprendido a trinchar-me - não te entusiasmes é uma figura de estilo

He – Geralmente apanho-te a zona das nervuras - entusiasma-te pois não é uma figura de estilo

She – Não abuses dos calmantes

He – Antes calma que sofreguidão

She – Nem pareces tu.

He – Chamam-lhe osmose

She – Será a tal de química em versão aplatonada?

He – Estou proibido pelo médico de fazer trocadilhos filosóficos

She – Perversão ou mera dependência?

He – Nada disso, apenas pouca queda para a virtude.

She – Chegas ao vício?

He – Mas nunca em circulo nem em ciclo

She – Um homem recto, então?

He – Mas intermitente

She – Tentador...

He – Mas olha eu sou homem de poucas tentativas

She – Mas algumas evasivas

He – Bachiano na fuga, mas Pessoano na presença

She – Uau. Cultura.

He – Tanto bate até que fura

She – Antes isso que mexilhão

He – Pronto, então fico quieto que nem água mole

She – E calado para fazeres o pleno

He – Mas muitas vezes o melhor é irmos por partes

She – Os bois comem-se às postas, não é?

He – Sim, e não se tem sorte sem apostas

She – Com batota?

He – Sem batota o jogo não passa duma distracção com a sorte

She – Não te queria para consorte

He – Oh minha rainha!

She – Oh minha graínha!

He – És tão polposa quanto sulfurosa

She – Chemistry, again?

He – No fundo tenho espírito de cientista

She – Estás a meio caminho entre a pose e a verborreia, mas vestes-te excessivamente bem

He – Nem sempre está um crime onde está um colarinho branco

She – Se não há crime não há castigo. E sem castigo a vida não tem piada

He – A filosofia cedeu o seu lugar no vão da escada à moral, foi?

She – Não se deve invocar o nome da moral em vão

He – Legisladora?

She – Dou apenas o que tenho

He – Mas a muito mais és obrigada

She – Serei inclusivamente o teu porto de abrigo se não me maçares mais

He – E lota? Já sabes que a mulher e a sardinha...

She – Julgo que te ias referir às mulheres sardentas

He – Claro. Sou demasiado tímido para falar sobre as sedentas.

She – A tua timidez é um embuste

He – Administro-a como um tesouro

She – Pose, again?

He – Pause, now.
good news

O regresso desta senhora.
Círculos Amorosos




The nine point circle





La femme avant Roland Garros



Rubens, 'As três graças'. Óleo s/ madeira, 221 x 181 cm. Madrid: Museo del Prado
Luna Park

N'atteignent à la folie que les bavards et les taciturnes: ceux qui se sont vidés de tout mystère et ceux qui en ont trop emmagasiné. - Cioran, Syllogismes de l'amertume (p. 145)
I don't know when I've been so blue

O pais é demasiada camioneta para a areia que vai na cabeça destes gajos

Sócrates tinha decidido receber pinho e lino em privado. Apenas o seu confessor - Freitas do Amaral, como sabemos - estaria presente. Pediu que o tratassem somente por eminência e para não perderem tempo em detalhes. Haveria que combinar rapidamente as gaffes até às férias, mas estava fora de questão não apertar a mão a Carmona, inclusivamente eram bem vindos - e inclusivamente benvindos - abraços, e inclusivamente ao zé, mas que não era ele, ao outro, o que inclusivamente faz falta; para animar a malta, claro.
Estariam proibidas gaffes com os incêndios, o Costa, antónio, tinha deixado isso bem claro quando condescendeu em ir para chefe dos calceteiros, também não seriam mais apreciadas as que se relacionassem com diplomas e caixas de bancos, porque o armando vara estava à beira duma depressão, e deveria poupar-se a mizé nogueira pinto porque nunca se sabe o dia de amanhã. Pinho propôs que mário lino fizesse um lifting porque corria nos bastidores dos gabinetes que ele era o 2º homem mais feio de portugal depois dum tal de wallenstein, mas lino ripostou que os homens querem-se feios, para bonitos já bastava o joão baião e aquela mulher a dias da DREN. Nesse momento Freitas interveio dizendo solenemente que a escolha da gaffe é uma prerrogativa do mestre. Mas os assessores e outros clones do mestre tinham-lhe sempre dito para só falar em caso de necessidade. Aliás Pinho até chegou a sugerir que ele se mudasse para o Palácios das ditas. Lino ripostou sugerindo que o cérebro de Pinho fosse considerado uma das sete maravilhas de Portugal, mas Freitas avisou logo que ele nesse assunto estava em conflito de interesses. Sócrates aí viu-se na necessidade de intervir: ele estava acima de quaisquer interesses: uma lei, um rei, uma fé; sentia-se um novo Richelieu mas sem Maria de Médicis a chatear-lhe a peúga. E assim teve uma iluminação repentina: já não precisava mais da gaffe alheia. Bastava-lhe o tal deserto à volta. Em terra de beduínos quem tem unhas é escorpião.
sinfonia nº 6, em si menor

escrevia para acalmar o prurido, como se ainda candida
Luna Park

«A fim de que de modo algum permanecesse irresoluto nas minhas acções, enquanto a razão me obrigasse a sê-lo nos meus juízos, e de que não deixasse de viver do modo mais feliz que pudesse, formei para mim, provisoriamente, uma moral.»

in ‘Discurso do Método, III’. Descartes
plus parvínias

Diva. Susto. Perca de voz. Vida quase sem sentido. Opções; um: compor. Impossível, o som despedaçava-lhe a alma pela sinistra via da saudade; dois: letrista. Sucesso. Quem as cantava encantava, que nem chuva deus a dava; qualquer que fosse a música corações dilacerava, a todos garantia bons momentos, só casamentos de noivas de sto antónio foram mais de 500. Até mambos, até modinhas, até tangos. Era o tal chamado «ninguém ficava indiferente». E escrevia as letras compulsivamente; inventou sentimentos que ninguém ainda tinha experimentado. Chamaram-lhe mistura de Afrodite com Freud. Até deu em canção: ‘Afreudite’. E de bónus ainda curava da artrite. Novo susto. Voz de volta. Apenas tinha passado um mau bocado, era diva agora ao quadrado. Novo e inesperado dilema: cantar as suas letras? Tentou; não conseguiu. Sentia-se sempre a cantar num divã. Sentia-se livro aberto. Tinha de optar: ou voz, ou letras. Confiou na providência. Procurou um novo susto para ver o que perderia dessa vez. Deu um passo a mais. Morte tecnicamente estúpida, a providência já não é o que era. A camioneta não teve tempo de parar. Asfalto, diva no.
Luna Park

«La vita... che importa?... / E' il racconto d'un povero idiota; / Vento e suono che nulla dinota!»

Macbeth, ópera «Macbeth», Acto IV, Cena VI. Música de Giuseppe Verdi, libretto de Francesco Maria Piave
and morguínias

Pura e simplesmente morreu de amor. Desde a juventude que o tinham convencido que não havia amores sublimes, definitivos, absolutos e únicos. Por isso andou descontraído. Leu com distanciamento crítico, viu filmes com sorrisos amarelos, escutou desabafos com a frieza dum general, caminhou de braço dado com peles de seda sem batidas especiais do miocardio. Era o equilíbrio perfeito entre o que tinha de ser e o que devia ser feito. A vida jogava-se nos valores seguros e numa ou outra carta na manga. Do que chamavam coração retirou apenas os afectos imprescindíveis para o investimento e a poupança. Os chamados prazeres da vida chegavam-lhe como numa matriz: entradas de energia e hormona, saídas de espasmo e suspiro. Preparava-se para morrer de doença não especificada, quanto muito acidente. Mas num dia, sem característica nenhuma especial, nem de clima, nem de santo de calendário, tudo mudou. Ela. Onde antes lhe apareciam causas e efeitos agora apareciam revelações. Ela. Onde antes estava um relógio agora só havia um cuco. Ela. Experimentou nós na garganta que não eram caroços de ameixa, ardor no estômago que não era do mau champanhe e formigueiro nas mãos sem estar sentado em cima do braço. Ela. A aurículas olhavam para os ventrículos e não encontravam explicações para aquilo. As urticárias lutavam com as hemorróidas. O corpo estava em cisma com a mente. Durou quinze dias, tendo-lhe sido diagnosticado uma irreversível falta de preparação para as ondas da frequência do amor. Estava totalmente dependente da vida flat. Foi reconhecido na gaveta pelos olhos ainda esbugalhados. Esteve a milímetros de ser embalsamado. Lindo e com algodão, mortalha de.
& fodassários

Pele e osso. O coração já só trabalhava pedindo licença. Mas falava pelos cotovelos. Os pulmões tinham-se habituado a funcionar de memória e nem precisava de fazer pausas para respirar. Cada hemograma era um poema que ele recitava com música dos Nocturnos do Debussy de fundo. Na sua exposição dos electrocardiogramas, o Berardo tinha-lhe comprado dois e o Guggenheim apalavrara-lhe meia dúzia que tinham umas arritmias parecidas com uma mistura de Fontana com Hartung. Vendeu a próstata para uma instalação do Bill Viola mas já não teve clientes para os tendões de Aquiles. O clássico passara de moda. E a ciência experimental desinteressara-se dele num último momento porque havia saldos no canil. O seu último capricho foi mão de vaca num restaurante muito asseado chamado Pilatos. Para o testamento restou-lhe a dentadura com um molar de quilates, uma carrada de
Cardápios, infratáfios & avatários

Ficara-se. Ali, no meio da procissão. Nem o andor carregava, nem sequer rezava. Nem tinha um olhar doce. Tinham-lhe dito apenas para ir. Com os outros. A fé carregava-se melhor acompanhado, desde que tinham terminado as verbas para eremitas. Sempre o confundiram com a necessidade de separar a fé do sentimento, numa espécie de mundana exigência de separação de poderes. Mas agarrava-se desesperadamente a todos os sentimentos que lhe aconchegassem a razão. Por momentos perdera a visão da cruz num dos cruzamentos. Ia no meio da procissão, entre uma francesa de carrapito e uma freira. Ambas lhe sorriam como semáforos. Ora uma, ora outra. Nunca chegou a saber se estavam combinadas. Ambas vestiam mal mas apenas a freira tinha desculpa. Não chegou a ter tempo para desenvolver essa ideia frívola. Deus levou-o num momento de distracção para não destoar do resto da vida. Quando o descobriram estava de rosas, coberto de.
Infratáfios, cardápios & avatários

Tinha sido uma vida repleta de sexo e esparguete. Declinara ejaculação com parmesão num roteiro de satisfação e deleite . Fizera da manteiga uma companheira fiel e com ela tornara os dias mais fáceis de passar. As mulheres e o amido tinham-lhe fornecido o guião a que ele permaneceu fiel sem um queixume nem uma desilusão. Durante uns tempos metonimizou em fuzillis e platonismos afins, chegou a viciar-se em raviolis e em dançarinas de rumba, mas acabava sempre por voltar sempre aos corpos de movimentos conhecidos e ao macarrão. Nos últimos tempos deixara-se seduzir pela tagliatelle e com ela vieram de arrasto mulheres magras e esguias. O seu corpo não admitia contradições. Nem condimentos exagerados. Nem visões místicas. Foi descoberto consolado, junto a uma adida comercial Bolonhesa, agarrado a uma cama em ferro decapado e carbonara, banhado a .
Luna Park

A wise old owl lived in an oak / The more he saw the less he spoke / The less he spoke the more he heard. / Why can't we all be like that wise old bird? - «A wise old owl», http://www.rhymes.org.uk
Luna Park

«Dança comigo a primeira valsa da Primavera: dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera. Já enchi os dias de lutas vazias: estou gasto, cansado, dormente. E a um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda não fico indiferente. Fala comigo na palavra falsa da fantasia (…). É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo. Se este mundo fosse feito para ser doce eu seria doce fosse eu quem fosse.(…) Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar»

In ‘Valsa quase anti-depressiva’ , do Quinteto Tati. ‘Exílio’, 2004
Avatários

Vida farta. De todos credor. Moral definida à partida, lucro obtido à posteriori. Fraquezas feitas forças. Amores que nunca falharam: todos possíveis, todos decoráveis, todos transaccionáveis; todos fogos que ardiam sem atrapalhar. Perfeição desnecessária tal a evidência da eficiência. Desconhecimento da dor de corno e bons abat-jours para as luzes da ribalta. Pulso e pescoço fortes: só vergavam para descontrair e aquecer. Coração de ferro. Olho clínico. Alma de cristal. Nem a terra o haveria de comer. Morreu Conde de Lapidado. Feito em cacos patinando em Carrara, mármore de.
cardápios

Chamavam-lhe o serial kinder. Prometeu e fez: teve uma ninhada de filhos. Foi atrás do mandato bíblico, certificou-me da canonicidade do mesmo na Ordem dos Hermeneutas e entremeou meninos com meninas num fantástico determinismo cromossómico apenas ao alcance dos predestinados da genitália. Um frade, uma florista, um lenhador, uma fadista, um leiteiro e uma jornalista. Hesitou no último, mas tinha um mandato preciso: teria de fechar com um ciclista pois sobravam-lhe dois boiões de lubrificação. Demonstrada a pedalada haveria que amadurecer serenamente dando noções básicas para a vida, ensinando a separar o trigo do joio, a papoila do malmequer, o lugar do homem e o lugar da mulher. Nenhum lhe tresmalhou verdadeiramente, tirando o leiteiro que chegou a fermentar com duas padeiras diferentes, e a jornalista que trocava de editor como quem escolhia frases do dia. Do lenhador e do frade recebeu o combustível para as noites frias, da fadista e da florista a iluminação para as noites escuras, e o ciclista treinava a montanha indo-lhe buscar o diurético à farmácia do jardim da Estrela. De todos os filhos retirou enlevo, a todos transmitiu zelo e fortaleza. Agradeceu sempre a Deus a sua fertilidade e a anuência do útero em condomínio; nunca se deixou seduzir pela poligamia nem pelo in vitro, e o seu maior pecadilho foi não gostar de brincar às cavalitas por fragilidade lombar hereditária. Chegou a engarrafar o seu próprio moscatel e a tocar gaita. Deixou prol, rótulo e fole. Acabou numa cinza, vasilha de.
quem oferece o que pode...

Renée Fleming, Song to the Moon ("Měsíčku na nebi hlubokém", ópera Rusalka, Antonín Dvořák)

(Nota interna - no catálogo de futons apenas isto.)
Infratáfios

Um suor repentino tinha-lhe agarrado a história à pele. Um emaranhado de equívocos, coisas deixadas a meio, indecisões. Más decisões. Mas tudo colado com cuspo. Impossibilidade de aplicar a técnica da tábua rasa e abuso das associações livres. Caprichos que afinal nunca deixaram de ser entusiasmos passageiros. Incapaz de se arrepender verdadeiramente; mais incapaz ainda de se surpreender. Amuos. Auto comiserações. Ensimesmamentos. Labirintos. Falta de exemplo e incapacidade do transmitir. Biografia sem bio, nem brio; e excesso de grafia. Irrelevante. Rezou, mas não chegou sequer a saber se esteve lá perto. Amou, mas sem saber se tinha sido amado. A sua maior glória foi ser incompreendido, mas acabou compreendido entre seis placas de mogno, folheadas a.
quem oferece o que pode...

Anna Netrebko, Song to the Moon ("Měsíčku na nebi hlubokém", ópera Rusalka, Antonín Dvořák)

(Nota interna - de colchões foi o que se arranjou.)
Chegam à zona dos pastéis de Belém, viram à direita, sobem um bocadinho, e é logo ali numa esplanada em relvado panorâmico com vista para o Tejo, e frequentada designadamente por tipos com idade de profetas e que derretem de forma pacata o orçamento da segurança social que tanto nos custa a esfolar aos imigrantes ucranianos.


Tentava eu consolar um adepto do Belém – que escreve sobre assuntos semi esotéricos num blog de reminiscências surrealistas - e ao mesmo tempo felicitá-lo pela forma digna e pundonorada como abrilhantaram a vitória dos lagartos na taça, quando sou presenteado por mail com esta pérola (parte até publicada no seu blog miniformalista de expatriado saxofonista, aguarelista da teoria dos jogos e poeta da economia industrial), assumindo, das vísceras, uma revolta da qual só me lembro de lhe ver semelhante quando eu lhe dava fortes cabazadas aos matrecos no Jardim Cinema e a resolver integrais duplos de cabeça.


«Vi agora o resumo do jogo no YouTube. O Belém teve sobejas e soberanas oportunidades de golo. Mas enfim, o futebol é isto; a bola é redonda, e uma carreira de sacrifício, entrega e humildade, com muito trabalho ao longo da época, é reduzida a nada por um pequeno pormenor. Não houve justiça no resultado e há circunstâncias que não vou referir agora que altamente influenciaram esta situação.
Por outro lado, embora não tenha informações detalhadas, não me restam dúvidas de que o árbitro foi comprado, aliás isto virá tudo ao de cima quando for apurada a questão do apito dourado, aliás, apito verde-e-branco. É tudo o que tenho a dizer para já, mas o Clube de Futebol Os Belenenses não vai deixar de considerar outras formas de acção nesta situação, incluindo meios judiciais se necessário. É preciso trazer a verdade de volta ao futebol, e o desfecho deste desafio não reflecte a verdade do que se passou dentro das quatro linhas.
O que está em causa não é somente a atribuição de um troféu, o que está em causa é a justiça no desporto-rei, é a honra de 11 profissionais -- superiores intérpretes da modalidade -- que vêem defraudados os seus direitos pela forma irregular com que se deram os acontecimentos no Jamor, que aliás contrariam as mais básicas regras da ética desportiva.»

Gostava de salientar as principais frases, de apuradíssimo, refinado mesmo, bom gosto, como não podia deixar de ser.

‘sobejas e soberanas’ – Gosto. Seria um bom anúncio para farturas ou para queijadinhas de Sintra, no fundo as verdadeiras razões que podem levar cidadãos normais e pagadores de impostos a passarem umas horas em ansiolíticas meditações ali um pouco acima do túmulo do Camões.

‘há circunstâncias que não vou referir’ - Eu penso que a vida é essencialmente determinada por circunstâncias que um tipo nunca refere. É da nossa natureza, temos todos um pouco os nossos momentos de toupeira, muitas vezes não sabemos é em que buraco estamos metidos. Aliás, ser do ‘CF Os Belenenses’ (o nome já encerra uma certo amor à gramática, por exemplo) é certamente um desses fenómenos que nem uma combinação de genética com antropologia criativa consegue explicar decentemente. E seria mesmo uma tragédia, não fora a frase seguinte:

‘isto virá tudo ao de cima’ – expressão verdadeiramente apocalíptica e de ligeiro pendor escatológico mas que apresenta uma pequena réstia de esperança à condição humana: um dia saber-se-á tudo. É bonito. É a vitória do azeite a caminhar sobre as águas. Ou, no fundo, a libertação da canela face ao pastel. Ou mesmo o domínio de J.Jesus sobre o plantel.

‘É tudo o que tenho a dizer para já’ – Ficar sempre com algo para dizer é um tradicional sinal de sabedoria. Pode ser também gaguez, entalanço de qualquer croquete no goto como já aconteceu ao teu anfitrião mor (o de cá foi apenas com bolo rei – tu não apanhas algumas piadas, mas depois eu explico-te por mail se não isto nunca mais acaba) mas se for acompanhado por um respirar meio tuberculoso e um olhar distante é garantia de auditório e royalties para mais de 20 anos.

‘É preciso trazer a verdade de volta’ – É um dos problemas para aqueles que deixaram a verdade ir-se embora por falta de verba. Uns puseram-na a render, outros no prego, mas para um clube pequeno entre Monsanto e o Dafundo será sempre difícil manter a verdade. No caso dos lagartos é diferente porque só vendemos as verdades ainda tenrinhas para depois as trocarmos por grande galgas, o que, como se sabe, resulta em meias verdades, provada garantia de sucesso em qualquer ramo de actividade, microeconomia e decoração de interiores incluídas.

‘pela forma irregular com que se deram os acontecimentos’ – Estamos agora a entrar pela via da fenomenologia criativa. Os acontecimentos são o que nós queremos que eles sejam, isto é uma conquista da Física quântica e da CNN; no fundo o que distingue o CIF, do Club de Belém é que o restaurante deste tem melhor vista, tirando, claro, o dia em que a Sharapova fosse lá bater bolas e comer saladinha de polvo. Pior que um acontecimento ocorrido de forma irregular só mesmo um bacalhau à Brás sem o próprio Brás estar presente, ou com o Zé do Pipo armado ao pingarelho.


‘mais básicas regras da ética’ – Estamos certamente na presença dum novo decálogo, desta vez gravado e inscrito numa base de massa folhada com três de farinha, uma de gema e duas de hermesetas, em que os mais fracos têm direito a lixar os mais fortes em vão, a prescindir da castidade em caneladas e carrinhos, e a amar a falta de jeito acima de todas as coisas.

E que jamais se vejam ‘defraudados dos vossos direitos de forma irregular’, nem ‘reduzidos a nadas por pequenos pormenores’ é o meu desejo.
Luna Park

«O cómico é a intuição do absurdo, e parece-me que conduz melhor ao desespero que o trágico.» Eugène Ionesco, a propósito de «A Lição» (1951)
Mas não podia deixar de dizer isto no domingo da Santíssima Trindade

Uma das fontes de sabedoria que encerra o Novo Testamento é a epistemológica. Muita tinta correu e correrá sobre a ‘fiabilidade’ da fé como fonte de conhecimento, no entanto, julgo ser de elementar justiça científica (just a smile, please) recordar que Jesus mostrou que o conhecimento de Deus se tem de se basear na ‘união’ com Ele. É este o elemento constitutivo e distintivo da fé como conhecimento: exige a união (*) com o objecto a conhecer. Facto esse de que ficaram, felizmente, dispensadas as, ditas, ciências experimentais, e, infelizmente, as, ditas, sociais.

(*) nota técnica interna: diferente de 'chocar com Ele'

A day at the races


Entrámos em Junho e eu não ia a uma feira do livro há prai 10 anos; sem mais explicações inúteis: fui. Levava um propósito quase de escuteiro: livro-de-blogue-em-livro que visse, comprava, nem olhava ao custo per página, não seria o mesmo que ajudar uma velhinha a atravessar uma rua, ou dar banhinho a um leproso, mas ainda assim era um alento. E um acto de justiça, de camaradagem. Acho que até me fica bem e praticamente somos todos irmãos.

E então se eu já tivesse dito mal dele, até lhe pediria um autógrafo, tal fosse proporcionado, numa espécie de via crucis blogo-expiatoris; o serviço é para se fazer bem feito.

Mas eis que quando ia quase liturgicamente comprar o último livro traduzido do Roth, porque é o melhor representante daquelas gajos que ainda não perceberam que os romances acabaram há mais de 100 anos e que mesmo assim se esmeram por nos tentar desinquietar - como se alguém trocasse umas ostras com MUM por uma angústia ficcionada - e, vai daí, encontro o quê, o quê: uma bicha para autógrafos; e de quem, de quem: do inevitável Lobo Antunes; ora eu achava, basicamente, que as pessoas compram os livros do Lobo Antunes para oferecer; ele, o Saramago, as edições Inapa e a Vista Alegre, vivem disso: de festas de anos, natais, pós operatórios, e de amigos armados ao pingarelho e com pouca imaginação. Mas enganei-me, Lobo Antunes vive dum outro filão inesgotável: a mulher de meia idade que usa blusa cintada ao fim de semana; e, por isso, ele será sempre um caso de sucesso crescente: as mulheres de meia idade não param de aumentar, e são claramente as novas balzaquianas - hoje a mulher de trinta anos é apenas uma fornecedora de romances sobre call centers.

Só que o meu coração ficou praticamente manteiga quando reparo que, ao lado da bicha soviética para o Lobo Antunes, lá estava Pepetela, solitário, olhar fixado na banca das farturas - já praticamente tinha arrumado com todas aquelas peles desagradáveis que crescem e aparecem logo ali na zona em que acabam as unhas, acho que estão a ver onde é - e, bolas, eu fiquei com pena, não terei chegado a lacrimejar, mas acho que se pode chamar pena. E sim, fiz o que estão a pensar, fiz, tive uma queda praticamente cristã em versão franciscana reformada (capuchinho); eu, que na minha santa vida nunca tinha lido, nem tocado, um livro de Pepetela – comprei logo um ao calhas - nem nunca tinha pedido uma porra dum autógrafo, nem sabia como isso se fazia, se tinhamos de rir, de lhe dizer coragem, de dizer que era para a nossa avó, ou assim - foi praticamente como usar o cartão multibanco pela primeira vez – avancei; mas, confesso, foi insosso, estava realmente à espera duma cara de enjoo, do desinteresse agónico de alguém a quem ninguém ligava um caralho, mas foi uma desilusão, ele foi medianamente simpático - com um bocadinho mais de tempo até me tinha perguntado que lâminas para barba é que eu usava - e então, para não ficar com essa desagradável imagem de proximidade, fui a correr à esquina do pavilhão onde atacava o Saramago – e o que eu gosto genuinamente do Saramago, ateenção! – e aí sim, previsivelmente, não fui defraudado, ele autografou-me ( salvo seja) – outro livro comprado ao calhas - e fez aquela cara de lanzarote que eu adoro e que a minha alma já não dispensa. Confesso que acabei por me afeiçoar à coisa dos autógrafos e ainda voltei à D. Quixote, mas já não tinham autógrafos do Cardoso Pires, nem da Natália Correia, o que eu achei de bastante mau gosto, e para me desforrar comprei um livro daquele gajo brazuca que derrete os corações das trintonas a fugir para os quarenta - mas com música - e que um dia ainda será cabeça de cartaz do carnaval de Buarcos, e que inesperadamente nem escreve mal, mas que eu, obviamente, não lerei; ao Agualusa já não arrisquei porque havia manadas de gajos a tirar fotografias e vocês haviam de ver a t'shirt do gajo, que nem tem blog nem nada, como agora até tem o Rui Zinc e tudo.

Entretanto começaram os inevitáveis, mas dalguma forma salvadores, espirros, lembrei-me de um dos aforismos do ‘Melancómico’, que trazia comigo ( coisa de 8 euros - 80 páginas, até me pareceu justo, já tinha pago mais por um Partagas noutro dia em Burgos e nem estava grande espingarda ), ‘Deus nunca deve ter tido sinusite’ e, já de nariz seco, olhos tolhidos (parecem melancólicos mas estão apenas em rescaldo) reparo numa miúda bem gira, - vocês não a estão a ver mas podem pôr-se a imaginar se fazem favor - gira mesmo, e com um vestido alaranjado que nem lhe caia mal, mas não é que, grande porra, encarapuçava, atentem nisto: um daqueles chapéu de cowboy (!) em palha (!!) e uns brincos (!!!) que mais pareciam duas hóstias penduradas(!!!!) Valha-me Deus. Trinta anos, de certezinha, e com dois ou três livros autografados da Rosa Lobato Faria no bucho. É das que quando chegar à meia idade só compra livros nas edições Afrontamento.
The dissembled side of the wool #10

Ticket to dye
dúvida metódica

Plágio não é o nome daquele godo (de resto praticante de métodos de "colheita" e diplomacia muito politicamente incorrectos nos dias de hoje) que fundou o Reino das Astúrias algures pelo século VIII?

E pelágio não é o nome que se dá ao acto de surripiar ideias alheias sem referir a fonte (seja por mero chico-espertismo ou por violação dos nºs 1 dos Artigos 26º e 34º da CRP)?

Ah, é ao contrário? E nota-se muito a diferença? É que no fundo este será sempre um dos menos acautelados riscos do autodidacta acrítico. Como se tocar rabecão com a sovela. Ou como se youtube.
The chill out side of the wool #9

Let it bleat
The luxurious side of the moon #8

Octopus’s hands knits delightfully at the sheep’s garden
The Freudian side of the wool #7

Across the universe the shepherd is tending with a Norwegian crook
The Soft side of the moon #6

The wool on the hill
The Cheeky side of the wool #5

With a little help from my wrists
The Twisted side of the moon #4

Sgt. Shearer’s lonely hearts sheep band
The Red side of the wool #3

Strawberry flocks forever
The Bright side of the moon #2

Dolly is in the skein with diamond buds
The Bright side of the moon #1

Wool you needle is love
9 semanas em ponto de meia
http://www.knitlist.com
needles & craft
The dark side of the wool #14

A tosquia é por conta, mas o tingimento é sempre pago à parte.
The dark side of the wool #13

A memória faz o que nós quisermos desde que lhe paguemos antecipadamente
The dark side of the wool #12

Se a verdade nos trair o único caminho é pormos a memória a render.
Fly, robin fly (*)


(*) Silver Convention - Fly, Robin, Fly
Conto dum pinga amor que desistiu de ser repuxo

Disseram-lhe que nunca seria capaz de provocar um amor arrebatador a nenhuma mulher. Esquecera-se de ler Maupassant na idade certa e agora não havia nada a fazer, nunca as conseguia surpreender depois de passados aqueles dois primeiros encontros canónicos. Todas as suas experiências se revelavam traumáticas porque era abandonado no momento mais saboroso, aquele em que a ilusão ainda está na fase ascendente e as referências são todas luminosas construções mentais baseadas em indícios devidamente debruados pela sua imaginação. Ficava sempre inconsolável nos três dias seguintes; no quarto dia dormia, no quinto pura e simplesmente não existia, no sexto comia, mas no sétimo era um homem novo, luzidio como um ovo, e voltava ao serviço com o entusiasmo dum noviço. Tinha algo de bíblica esta sua vida sentimental. Chegou a pensar que o seu coração era uma arca de noé e que estava destinado a coleccionar todas os espécimes de amores falhados por mero desinteresse. Mas não havia maneira de aparecer a pomba com o ramo de oliveira e continuava a arrastar-se naquele diluvio de rejeição. Era pessoa reflexiva - mas apenas o quanto baste, sosseguem - e por isso passou calmamente por todas as fases expiatórias que o pensamento fornece: o mal estaria nelas, nas mães delas, nos pais delas, no nariz dele, no excesso de beleza dele, na falta de beleza dele, no seu excesso de inteligência, na ausência dela, na sua demasiada concentração, na sua excessiva dispersão, abuso de confiança, fraca informação, precipitação, calculismo, sensaborona planície, arriscado abismo, tocou todos os extremos e tabelas como uma bola de bilhar bem mandada. Usou barba de três dias, de quatro, de vinte, usou ternura, usou acinte, usou a luz das velas, usou halogéneo importado, e fez de rico, fez de pobre, fez de remediado, chegou até a fazer dele mesmo, pode dizer-se que tudo fez, mas nada, nenhuma chegava à terceira vez.
Desistiu. E foi nessa desistência que encontrou consolo. O melhor lugar para estar era aquele buraco no meio do bolo; sem fatia; sem sapo para engolir, sem prenda, sem fava, sem maçã, sem cobra. Mas também nunca seria sobra.