Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2014

Dai-me uma liberalidade e levantarei o mundo

Algum, temporário, abrandamento de qualidade no futebol dos lagartos fez-me virar a atenção para o relato da comissão parlamentar do bes. O stock de tremoços leva mais tempo a baixar mas a cerveja corre com a mesma velocidade. Nesta fase do campeonato o marcador mostra no topo da classificação Sobrinho e Mortágua. Na luta para a despromoção, e responsáveis pelo uso intercalar do pistacho, aparece a chamada ‘família’ , taco a taco com os ‘reguladores’, eu diria até que o desempate se vai fazer pelo saldo combinado de liberalidades & colaterais. A meio da tabela aparecem uns tipos de apelido banal mas com uso criterioso de botões de punho pelo que vão acabar por fazer uma temporada calma, inclusive já me babei duas vezes para cima da tigela de cajus tal a sonolência provocada pelos ring fencing’s e o caralho. Espero que a época de contratações de Janeiro traga algumas movimentações no mercado, mesmo que se tenha de ir buscar alguns deputados às off shores, e obviamente a segunda vo...

Cirque du sommeil

Adormeci a pensar que detesto comer. Detesto inclusivamente aquela paneleirice do sabor, do empratamento, da novidade, da experimentação. Da comida que nos fazia a nossa avozinha! Quero lá saber do que me fazia a minha avozinha. Até sentir fome me traz desconforto, irritação. E depois de comer: nenhuma memória, apenas enfartamento. Japoneses, Tailandeses, fusões, michelins, só resta fastio: puta que os pariu. Acredito na comida apenas como fonte de negócio, aproveitando as fraquezas humanas: a vaidade, a necessidade de afirmação social, a necessidade de companhia. Viro-me na cama. São três da manhã e sou apenas uma concha de espinafres com sésamo ao lado de um bocado de enzimas em repouso que é a minha mulher.   Valeram as anedotas, apenas as boas anedotas salvam a comida que as acompanha. Detesto contar anedotas, adoro ouvir. Absurdas, repetidas, básicas, exuberantemente ordinárias como aquele vison que às mãos do casado de fresco lhe pareceu tudo cona. Alguma ventresca de atum ...

O Divã Disto Tudo V

Back to basics: o país está suspenso do contabilista e do motorista.   Depois de termos concluído sofrermos da famosa esclerose de elites, aprofundámos o tema e verificámos que afinal as elites estavam penduradas na competência duma classe intermédia que, numa revisão marxista, em vez de se revoltar vai agora lixar os patrões. Hoje, o futuro do orgulho nacional está nas mãos da menina das fotocópias, cada país tem o snowden que merece. Em primeira mão, aqui, a acta da audiência secreta no Parlamento, com a menina Dulce: Senhor Deputado – diga-nos menina Dulce, era a responsável pelas fotocópias? Menina Dulce – ora, chamavam-lhe a máquina de fazer offshores …. Senhor Deputado – acha que abusavam das offshores? Menina Dulce – não, os patrões eram muito respeitadores Senhor Deputado – respeitadores da lei? Menina Dulce – disso não sei, mas sei que gostavam de manter as aparências e por isso nos in-shore era tudo como manda a etiqueta e os bons costumes Sen...

Era Rodrigo não querido por Sofia que não o queria

Podia ser desilusão, ou frustração, ou engano, despeito até, ou desespero, ou raiva, ou mera irritação, mas nenhuma destas explicações cobria os seus reais sentimentos. Rodrigo não sabia o que fazer com o que sentia depois de tantos anos para descobrir que afinal Sofia não o queria. Era um botânico afamado, tinha revelado ao mundo muitas novas espécies, aromas, cores, até havia uma forma geométrica que se tinha apropriado do seu nome, o rodriguézio, duma pétala de cinco lados rectos e quatro curvos que ele tinha encontrado numa planta moçambicana, até aí desconhecida, e quase parecia uma pétala que se podia vestir, nuns dias armadura, noutros dias corpete. Fechou-se então na sua estufa e procurou a resposta naqueles seres que, mesmo fustigados pelas intempéries, sabiam adaptar-se às circunstâncias, mais ou menos clorofila, mais ou menos polinização, mais ou menos enxerto. Certamente as flores iriam ser capazes de lhe dar a resposta definitiva. Pegou no exemplar de malmequer m...

Grasshopers & Honey

Antes de Salomé lhe ter tricotado o pescoço, João Baptista (como relembra o evangelho de hoje) levava um cinto de cabedal à volta dos rins. João Baptista é (talvez) o maior exemplo da literatura do amor ao (e da concentração no) essencial. É um exemplo fodido para qualquer aprendiz de imitação de Cristo (e mesmo para qualquer aprendiz do que quer que seja) mas, diga-se, sem o acessório o que seria de nós? Até Jesus precisou duma cruz, e do pão, e do vinho. Nas relações humanas é igual, se cingirmos muito os rins um dia qualquer alguém nos põe a cabeça - com ou sem apêndices - numa travessa, ou os tomates de molho; que São João Baptista me perdoe.

Juntos Fodemos

Atrelado ao espanhol Podemos parece estar a nascer cá na paróquia um Juntos Podemos. Tive esperança que a similitude com o fodemos já tivesse sido devidamente explorada e pesquisei tendo confirmado a inexistência das devidas analogias. (nota doméstica interna: se for descoberto no Google um histórico de pesquisas em ‘juntos fodemos’ dever-se-á a esta curiosidade sociológica e não a qualquer tentativa de encontrar parceira disponível para descobrir os insondáveis e húmidos mistérios da esquerda moderna) Retomando então aquilo a que optimisticamente se poderá chamar de raciocínio. A ideia de juntos fodemos baseia-se na capacidade natural do homem de fazer amizades. Parece-me mais fecundo e elevado fodermos em conjunto do que podermos em conjunto. Reparemos que se para poder basta querer, já para foder o querer não é suficiente o que indica, assim, algo mais elevado, algo mais construído e, portanto, humano, por assim dizer. A esquerda não se deve pois contentar em poder jun...

E agora o amor

Os conceitos que entram timidamente na composição mas afinal podem fazer toda a diferença no enredo, vistos pelo novo dicionário não ilustrado Pragmatismo – o que vale no amor é apenas o lugar de intersecção entre o possível e o possível Realismo – o que vale no amor é a parte em que nada se sente mas tudo se vê Calculismo – o que vale no amor é a parte do possível que nunca será impossível Disponibilidade – é a parte do amor que os pragmáticos evitam Oportunismo – parte do amor que funciona como ‘afecto curricular’ Securitismo – o que vale no amor é ele poder funcionar como reserva de segurança emocional Decorativismo – o que vale no amor é ele poder servir de embrulho de fantasia a sentimentos mais banais Ecologismo – o que vale no amor é apenas a capacidade de limpar passados incómodos Betumismo – o valor do amor é a sua competência para tapar buracos ou falhas nas paredes mestras Pladurismo – o que vale no amor é ele puder servir de parede f...