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Cientropia

O meu sonho não realizado: ser (ter sido) cientista, ou melhor, homem de ciência. Poder dominar uma espécie de saber intercalar, nem definitivo nem primário, nem teológico nem popular. Assim tipo eremita (um clássico), para dar uma ideia. Como já é um dado adquirido, o saber científico é provisório, por isso no seu formato genuíno é orgulhosamente defensivo, é semi-apologético, sem ser ofensivamente proselitista, pode ser categórico sem ser arrogante (aqui também depende muito do brilho retórico ou da flexibilidade dos músculos faciais), enfim podia estar aqui horas a descrever os méritos (mascarando as minhas frustrações) mas julgo que a ideia está transmitida. O saber-de-ciência mesmo que não ocupe lugar é terrivelmente territorial. Explico: um raciocínio de base científica marca sempre terreno, tal qual um felino a mijar. Explico ainda melhor: exprimir um qualquer argumento de base científica imediatamente monta em torno dele uma cerca que só ultrapassamos se nos quisermos ...

A Rota do Umbigo

Em todo o caso mesmo que a ‘ave da poesia não me pipile dentro nem se debata contra as grades’ da realidade sou forçado a reconhecer que apenas o discurso poético nos permite uma verdadeira e inteligente alienação. A alienação como processo essencial da mente sã deve ser exercitada com uma periodicidade bem definida e, felizmente, hoje temos muitas outras ferramentas que o propiciam de forma grátis, benigna e de fácil acesso. A maior conquista do liberalismo (quem não é liberal deve ir ao médico ou entregar-se às autoridades) como prática revela-se quando retiramos prazer de algo que nos envergonha, quando aprendemos com alguém que é ignorante, quando nos interessamos por algo que não tem interesse nenhum. Sermos nós a gerir a nossa própria inutilidade é uma conquista à qual nunca daremos o devido valor.  Esta ligação íntima entre a alienação como terapia e as chamadas redes sociais é algo que tem de ser bem sublinhado, até emboldado e mesmo MAISCULANIZADO. O fenómeno d...

O Plot dos happy few

Vê-se que pensou em arrancar num tour d’horizon mas apelou-lhe mais o Bildungsroman , não tivesse sido uma criança absolutamente desinteressante. Temi que se tornasse num patchwork fútil mas acredito que foi resgatado pelo modelo de roman à clef em que acabou por se tornar. Não desperdiçou momentos exclusivos em huis clos , nem nenhum teaser que a inspiração lhe serviu no prato. Optou muitas vez pelo sottovoce não fosse o papel rasgar, se bem que a naïveté o terá traído nalgumas cenas, das quais apenas saía com o recurso ao close reading decorado com um ou outro hors texte . A conversation pièce em que se transformou nalguns trechos não impediu algum divertissement a unir o bas-fond   ao beau monde como se fossem duas faces da mesma moeda e a fornecer a complexidade do mundo para funcionar como pièce de resistance . Infelizmente não resistiu ao clássico melting point que todo o burlesco acarreta e nem o grand finale conseguiu compensar a falta do derradeiro punch . To...