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Novas entradas no Dicionário não ilustrado

Emergência – estado em que se vive naturalmente mas até agora sem o devido reconhecimento pela lei

Plano de Contingência – conjunto de processos com procedimentos progressivamente improcedentes

Mitigação – período em que os adjectivos vendem os seus superlativos a preço de saldo

Pico epidemiológico – momento mágico em que o pior se torna o melhor

Transmissão comunitária – amor em tempos de corona

Curva Exponencial – orgasmo de matemático em período de castidade forçada

Virologista – teólogo especializado em deuses de miniatura

Ventilador – nova versão do jogo Pokemon Go

Quarentena obrigatória – prática mística que nos permite encontrar o deserto dentro de nós

Teste rápido – técnica de investigação criminal na qual o criminoso aparece logo na ponta do cotonete

Escala logarítmica – modalidade desportiva indoor e indolor

griffe gauche


A história e a ficção estão recheadas de senhas, contra-senhas, chaves, & abracadabras diversos, mas nenhum chegou aos calcanhares daquele que se revela o mais potente de sempre: ser de esquerda.
Não é difícil constatar que basta alguém ter essa etiqueta para que qualquer merda que faça, diga, insinue, expire, gagueje, bufe ou pense esteja corporativa e automaticamente defendido por uma auréola que nem os mais famosos santos de altar.

O estatuto desse carimbo já não é só de natureza politica, a real origem deste fiambre, mas assumiu-se naturalmente como moral, para não dizer religioso. Vendo bem, mais que superioridade moral é já uma propriedade química.

No fundo ser de esquerda está para a sociedade como a vaselina para a cópula, torna tudo mais fácil, diria mesmo que é uma imbatível combinação de vaselina e viagra, um graal para a credibilidade, aceitação e reconhecimento. O faz força que eu gemo transforma-se num é de esquerda que eu gemo.
E assim a escardalhada anda feliz, encorpada, muito senhores da sua tripa pois seja o que for que bufem haverá uma corte de basbaques que inalará feliz e gratificadamente.

Atarrachados pelo fisco, ok, mas é de esquerda, 6 meses para uma consulta, ok mas vá lá é de esquerda, assaltos em roda livre, ok mas é de esquerda, transportes públicos todos podres, vá lá, são de esquerda, sodomizados a sangue frio, ok, o mas colhão que mandava era o de esquerda; qualquer pedra filosofal comparada com isto parece pedra-pomes.

Mesmo que o esquerdismo tenha sido condenado à grande porra da história, ele acabou surgindo por entre as cinzas transmutado numa categoria que não se via desde a pura lã virgem. A camisola é feia como a merda, ah, ok, mas é de cachemira. A grande ignorância parola-universal adoptou o esquerdismo como o novo chá de cidreira. 

Não sei sequer se aqui houve algum mérito de manipuladores profissionais ou se foi apenas a ignorância a fazer o seu caminho normal, derrubando obstáculos com naturalidade, acabando com a caspa e o cabelo oleoso sem precisar de se lavar o cabelo. 

A esquerda, derrotada pela história, pelo bom senso, inclusivamente pelo espelho, encontrou o seu caminho de braço dado com o vidal sassoon. 

O corno da sorte foi destronado pelo agora mais famoso dos amuletos: ser de esquerda. É aguentar até se extinguir como o marfim.