Nova Gileanização



Um país que quase se dividiu por causa dum facto que se quis libertar do seu pesado c, e que se empolgou neuroticamente com um que-se-foda em penaltis, acabou finalmente por libertar-se dialética e terapeuticamente com um chuta-caralho.
Ora, tendo partido nós, desde logo, sabendo que a língua era a pátria, primeiro, inchados de piedosos escrúpulos quisemos fazer da ortografia uma madrinha de guerra e agora acabamos a descobrir que é num caralho debruado a foda-se que torneamos outra vez o Bojador.
Se já se dizia que no Norte caralho era vírgula, a partir de hoje que-se-foda é travessão em todo o país e reticência na academia de letras.
Como se usa o conceito de ‘mulher resolvida’ para aquela que aparentemente já sabe lidar com as suas arremenstruaçõezinhas, e transforma os complexos em meros berloques de verão, julgo que nos podemos doravante considerar também uma nação resolvida porque vernaculizamos com um tipo de classe que nem o Rei Sol quando soltava bufas em Versailles.  

metatuite

O dilema do momento é saber se Éder vai lançar uma linha de perfumes ou de cuecas

Eu hei-de amar uma Fedra



A sorte grande de um homem dá-se quando lhe sai uma mulher-de-tragédia. Ou melhor, de trajédia, sim, uma mulher que se saiba vestir de sofrimento & vingança mas toda ela seja estremeções de ironia por dentro, uma mulher que se ria – a bom rir - da nossa inferioridade e que pareça sofrer com isso como se o mundo lhe estivesse a ser cruel e nós – por isso - merecêssemos uma dor sem alívio. Não há orações nem santos específicos para que nos saiam na rifa esses tipos de mulheres - nem seriam rezas fáceis - mas devemos fazer um esforço. Há mulheres que parecem banais máquinas de frivolidade mas que a conseguem transformar em veneno de ratos apenas com dois suspiros e muitas vezes nem sequer apanhamos a brisa do pestanejo porque já fomos colhidos e atirados para a berma. Aquilo a que se pode chamar paixão masculina geralmente dispersa-se muito. Mantemos a fama de caçadores mas não passamos de varejadores. Poucos merecemos uma mulher que nos faça sofrer em condições e que se vingue em nós de todas as afrontas que a humanidade lhes fez quando se acasalou com a civilização sem dar cavaco à natureza.

Riga de Aluguer



Carlinhos sonhava com o Báltico. Poderia ter optado por uma nostalgia mais estónica mas não há nada como aquela letal-luz-letã. Uma luz que mata sem pulsão, mata apenas como desejo mal reprimido. Não tendo nenhum útero conhecido por aquelas bandas acabou por arrendar um apartamento pelo airbnb onde iria passar uma semana até que as águas do Daugava lhe rebentassem nos cornos. Ia só mas esperava que alguma companhia pudesse desabrochar naquele final de Primavera, numa espécie de namoro floralmente assistido, isentando-o daquelas liturgias de engate que obrigam a percorrer bancas de orquídeas vendidas ao preço de resgates a países de mau rating.
Pediu à pombinha do espírito santo que lhe fizesse bater à porta uma fêmea com língua de fogo e que, assim, ficasse bem escaldado com o primeiro beijo. Fecharia os olhos e amaria que nem uma Cância desprendida, sem se preocupar de qual ventrículo viria a paixão envolvida.
E foi assim numa Riga alugada que Carlinhos encontrou uma senhoria generosa que o adoptou como amante em regime de contrato de associação, ou seja, onde um letão não chegasse com a pila ele desenrascaria com a mão.
Dispensado de renda paga em contado, passeava pela cidade sem olhar a meios, cobiçando tudo o que apresentasse a baínha acima do joelho mas exercitando uma abstinência de modelo sublimado o que lhe permitia dedicar os serões a escrever poesia de pendor kantiano, distribuindo rimas categóricas, pensadas à priori e absolutamente independentes da sua experiência que, diga-se, estava indelevelmente marcada por uma austeridade sentimental forçada por desgostos resolvidos à base de relaxantes musculares.
Alheada das inseminações da politica e do futebol doméstico, a sua uterina Riga todos os dias lhe preparava um espectáculo diferente, ora nuvens em forma de animais mitológicos, ora chuvas mais miudinhas que o pintelho de um memorando de Catroga, ora sóis a porem-se que nem bochechas de bébé em pleno alívio de entranhas, pelo que Carlinhos andava em Riga de papo cheio. Tão papudo que a senhoria o despachou ao fim de uma semana. Para homens felizes já bastavam os ejaculadores profissionais, até para uma mulher à beira do báltico lhe faz falta um homem que apenas saiba fingir uma tristeza inofensiva, aquele tipo de triste que toda a gente sabe que é um pateta alegre.
Carlinhos regressou. Se um homem anda folgado o melhor é que venha uma mulher e cancio.