griffe gauche


A história e a ficção estão recheadas de senhas, contra-senhas, chaves, & abracadabras diversos, mas nenhum chegou aos calcanhares daquele que se revela o mais potente de sempre: ser de esquerda.
Não é difícil constatar que basta alguém ter essa etiqueta para que qualquer merda que faça, diga, insinue, expire, gagueje, bufe ou pense esteja corporativa e automaticamente defendido por uma auréola que nem os mais famosos santos de altar.

O estatuto desse carimbo já não é só de natureza politica, a real origem deste fiambre, mas assumiu-se naturalmente como moral, para não dizer religioso. Vendo bem, mais que superioridade moral é já uma propriedade química.

No fundo ser de esquerda está para a sociedade como a vaselina para a cópula, torna tudo mais fácil, diria mesmo que é uma imbatível combinação de vaselina e viagra, um graal para a credibilidade, aceitação e reconhecimento. O faz força que eu gemo transforma-se num é de esquerda que eu gemo.
E assim a escardalhada anda feliz, encorpada, muito senhores da sua tripa pois seja o que for que bufem haverá uma corte de basbaques que inalará feliz e gratificadamente.

Atarrachados pelo fisco, ok, mas é de esquerda, 6 meses para uma consulta, ok mas vá lá é de esquerda, assaltos em roda livre, ok mas é de esquerda, transportes públicos todos podres, vá lá, são de esquerda, sodomizados a sangue frio, ok, o mas colhão que mandava era o de esquerda; qualquer pedra filosofal comparada com isto parece pedra-pomes.

Mesmo que o esquerdismo tenha sido condenado à grande porra da história, ele acabou surgindo por entre as cinzas transmutado numa categoria que não se via desde a pura lã virgem. A camisola é feia como a merda, ah, ok, mas é de cachemira. A grande ignorância parola-universal adoptou o esquerdismo como o novo chá de cidreira. 

Não sei sequer se aqui houve algum mérito de manipuladores profissionais ou se foi apenas a ignorância a fazer o seu caminho normal, derrubando obstáculos com naturalidade, acabando com a caspa e o cabelo oleoso sem precisar de se lavar o cabelo. 

A esquerda, derrotada pela história, pelo bom senso, inclusivamente pelo espelho, encontrou o seu caminho de braço dado com o vidal sassoon. 

O corno da sorte foi destronado pelo agora mais famoso dos amuletos: ser de esquerda. É aguentar até se extinguir como o marfim.

Cientropia


O meu sonho não realizado: ser (ter sido) cientista, ou melhor, homem de ciência. Poder dominar uma espécie de saber intercalar, nem definitivo nem primário, nem teológico nem popular. Assim tipo eremita (um clássico), para dar uma ideia. Como já é um dado adquirido, o saber científico é provisório, por isso no seu formato genuíno é orgulhosamente defensivo, é semi-apologético, sem ser ofensivamente proselitista, pode ser categórico sem ser arrogante (aqui também depende muito do brilho retórico ou da flexibilidade dos músculos faciais), enfim podia estar aqui horas a descrever os méritos (mascarando as minhas frustrações) mas julgo que a ideia está transmitida.

O saber-de-ciência mesmo que não ocupe lugar é terrivelmente territorial. Explico: um raciocínio de base científica marca sempre terreno, tal qual um felino a mijar. Explico ainda melhor: exprimir um qualquer argumento de base científica imediatamente monta em torno dele uma cerca que só ultrapassamos se nos quisermos deixar comer. E ser comido por um cientista só é pior que ser encornado ou apanhado numa piada dum stand up de principiantes. 

Por que razão é péssimo cair na rede dum homem com saber-de-ciência? Porque só de lá saímos pela via do desdém ou da humilhação. Claro que se esse cientista estiver isolado poderemos encurralá-lo facilmente, mas será sempre um prazer ainda mais transitório que o seu próprio saber.

Este breve texto é assim sobre a inveja. Em todo o caso, uma inveja estúpida porque daqui a segundos estarei claramente por cima à conta daquele mecanismo milagroso apenas ao alcance dos ignorantes: o self-self. Explico também: o cientista não se consegue construir a si próprio, precisa dum conhecimento alheio, que lhe vem de fora. O bárbaro, como eu, produz o seu próprio conhecimento, constrói a sua justificação. No fundo, percebe que o destino é o destino. Aqui já não consigo explicar melhor.

A melhor forma de lidar com este drama é usar a bomba atómica de qualquer intelecto saudável e empenhado: a perspetiva. Nenhum saber-de-ciência consegue resistir ao argumento da perspetiva. Horizontal, vertical, cronológica, simbólica, qualquer coisa é boa para fornecer perspetiva e está ao dispor de todos. Qualquer ser primário, de rudes conhecimentos, consegue criar uma perspectiva bem decente. E perante uma boa perspectiva um homem de ciência transforma-se imediatamente num católico de catequese em dia: tem de dar a outra face se quiser manter a principal ainda minimamente digna. 

Está assim finalmente finalizada a finalidade: só a fé nos salva, o caos apenas dá uma ajudinha.

Ensaios sobre a soberba


Em tempos passados, o também chamado antigamente, a soberba era esteticamente uma arma, politicamente um desígnio e economicamente uma optimização de recursos. Se considerarmos que alterações estruturais na natureza humana levariam mais tempo do que o nosso olhar histórico alcança, vamos assumir que hoje ainda é assim - apesar das aparências.

Até recentemente interagíamos por necessidade, obrigação, desejo, enfim, o básico. Aplicávamos assim a nossa dose de soberba em ambientes confinados, objectivos definidos e controlo sobre os níveis de aceitação. A soberba obviamente carregava um lastro moral, mas o homem construiu-se constantemente testando sempre novas combinações entre moral e pragmatismo.

Eis-nos então chegados ao agora. A moral deslizou e encaixou-se num cesto de fruta onde já tinham lugar reservado a conveniência, a convenção social, o espírito do tempo e , embrulhada em papel vegetal para poder respirar melhor a, hoje famosa, auto-estima. E assim, com o ‘amemos os outros desde que primeiro nos amemos a nós mesmos’ bem gravado nas novas tábuas da lei, atacamos a vidinha por forma a que em primeiro lugar ‘estejamos bem com nós próprios’: verdade, felicidade e vida embrulhadas num casamento mistico.

Ora dado que nos definimos em função dos outros (sempre foi e será assim) a nossa soberba, que começou por ser uma mácula que carregávamos até que fossemos limpos pela lado misericordioso da morte, transformou-se no chantilly com que cobrimos o morangada que queremos para nós: relações, estatuto, reconhecimento, reconhecimento & reconhecimento. 

A soberba perdeu assim o seu lugar no catálogo de vícios e tornou-se num toque de midas, assumindo diversos nomes consoante os contextos (convicção, vaidade, ambição, amor-próprio, empenho, responsabilidade, e muitos etceteras) dando-nos a maravilhosa sensação do ‘toma lá que já almoçaste’.

(Em oposição, mas em sequência, a humildade foi também perdendo conteúdo, deixou sequer de valer a pena falar dela, sob pena de nem sequer se perceber do que estamos a falar).
Os novos tempos limparam uma moralidade arcaica e criaram (outra vez) um homem novo que se autocompraz igualmente (sempre foi) com pouco mas agora esse pouco é de mais fácil acesso. Evoluímos, sim, porque é muito mais fácil consolarmo-nos e nem é preciso lambuzar os dedos, basta tirar uma foto. 

A verdadeira soberba é hoje um pecado ao alcance de poucos.