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A mostrar mensagens de outubro, 2012
O Estado Marsupial
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Depois de ter sido decretado o óbito do chamado Estado Social toda a comunidade politóloga e sociolofílica se reuniu para desenvolver um novo modelo de Estado que, para além de lhes continuar a dar trabalho, pudesse igualmente dar aviamento à quantidade de impostos que começariam a sobejar nas contas públicas. Tendo acordado em manter uma posição de apriorismo na definição de Estado, oposta, portanto, à recente tendência pragmatóina, (na qual o Estado é o que derem os impostos, uma espécie de Estado em regime de trabalho temporário) os especialistas começaram por construir o enquadramento conceptual para um Estado neoplatónico, um Algo que tem de estar ali , leviatanico e seguro, mesmo que não se veja nem sinta. Arredada a vertente minimalista de Estado-central-da-securitas, em que cada cidadão estaria ligado a um posto de intervenção rápida que enviaria um piquete apenas em caso de arrombamento social, estabilizou-se num conceito de Estado-como-central-de-acolhimento. Afastados o...
a economia da estupidez
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Ser estúpido é algo que requer uma utilização criteriosa de amplos recursos. Em geral podem encontrar-se 2 grandes tipos de estupidez: a natural e a elaborada. O primeiro tipo está bastante bem difundido pela espécie e é uma das chaves mestras da nossa sobrevivência a par do polegar pênsil, do uso do fogo, do cartão de crédito e da roda. No entanto, mesmo esse nosso talento inato para colocar a realidade ao serviço das nossas entranhas mais íntimas exige treino e interacção com vários recursos, designadamente o desprezo pelo semelhante e , nos casos mais sofisticados, o desprezo por nós próprios. Deixando um pouco de lado este tipo de estupidez natural, debruçar-me-ei no segundo tipo que chamarei de estupidez-elaborada. Quando se diz, por exemplo: não há limites para a estupidez - é precisamente desta que estamos a falar. A estupidez elaborada tem, desde logo, um ponto de contacto muito relevante com a natural, trata-se da pose. A pose estúpida é a combinação do talento natural-...
windianápolis #n
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The wind blew all my wedding-day, And my wedding-night was the night of the high wind; And a stable door was banging, again and again, That he must go and shut it, leaving me Stupid in candlelight, hearing rain, Seeing my face in the twisted candlestick, Yet seeing nothing. When he came back He said the horses were restless, and I was sad That any man or beast that night should lack The happiness I had. Philip Larkin in Wedding Wind
windianápolis #4
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O wild West Wind, thou breath of Autumn's being, Thou, from whose unseen presence the leaves dead Are driven, like ghosts from an enchanter fleeing, Yellow, and black, and pale, and hectic red, Pestilence-stricken multitudes: O thou, Who chariotest to their dark wintry bed The winged seeds, where they lie cold and low, Each like a corpse within its grave, until Thine azure sister of the Spring shall blow Her clarion o'er the dreaming earth, and fill (Driving sweet buds like flocks to feed in air) With living hues and odours plain and hill: Wild Spirit, which art moving everywhere; Destroyer and preserver; hear, oh hear! . de Percy B. Shelley, in Ode to West Wind
Pussy Diet
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De todos os grandes compensadores psico-fisiológicos da humanidade ( álcool, tabaco, velocidade e sexo) apenas o sexo não contribui devidamente para a cobrança fiscal. Por estar muitas vezes associado a actividades proibidas por lei, nalguns casos penalizado pela chamada moral vigente, e em muitas culturas ligado aquilo que geralmente se chama a esfera íntima de cada um, o sexo tem estado arredado da fiscalidade tradicional. Ora, sendo, destes quatro compensadores, aquele que está presente junto de nós há seguramente mais tempo e sendo aquele que, julgo, nos está mais amplamente consolidado, não parece normal que viva arredado dum papel activo de contribuição para a fazenda nacional. A dieta libidinosa a que o nosso orçamento do Estado se tem submetido deverá pois chegar ao fim. Até há alguns anos, a prática sexual , ao contrário dos outros compensadores, não compelia à utilização de nenhum produto, costume esse que com o tempo se foi alterando via o uso e consequente comercializaçã...
a economia do pensamento
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Desaparecidas as ideologias em parte incerta e depois de uns anos à volta de super-estruturas de desenrasca tipo civilização, ocidente, tolerância, ética e outras avulsas da família das convicções, aterrámos na era dos conceitos. Como estamos ainda numa fase embrionária escondemo-nos frequentemente em figuras de estilo de maior ou menor efeito, metáforas de atavio, fazendo apelo a uma imaginação que vive descompensada por falta daquilo que antes lhe dava gás que eram os famosos valores. Assim, nesta era emergente dos conceitos - à qual ainda nos adaptamos quais netherdales do pensamento abstracto - já tivemos de pôr de lado as grandes motivações e os grandes desafios e estacionámos na berma, junto ao maravilhoso mundo dos possíveis. Começamos, e bem, por baixo. Definimos os novos sofrimentos, as novas decadências e assim pensamos fugir aos cálculos piedosos da miséria e do desespero. De rabo a dar definimos como roubo a falta de jeito e como bomba o apertão, dando assim algum ...
a economia da virtude
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Há muito que o consumo tinha substituído a fé como principal motor da actividade e da ilusão humana. O consumo veio acompanhado de conceitos sedutores como a imaginação, a felicidade, o bem-estar, a liberdade, o progresso, e a fé foi ficando mais ligada a corrupção de almas, a liturgias bafientas, a estruturas de opressão emocional, a fanatismo , a irracionalidade e a regressão. Ora nestes tempos em que o processo de moeda ao ar que impregna toda a evolução humana entrou numa fase em que nos é apresentada a outra face temos para nos entreter o confronto semi-titânico entre a austeridade e a temperança. Assim, enquanto a austeridade nos revela os lados negros da privação, da insatisfação, da frustração, a temperança tem o seu tempo de antena para nos indicar o caminho da sobriedade, da paciência e da discrição. A opção para quem se sente fodido e mal pago é empertigar-se casto e ponderado. Se antes era preciso separar o consumo do desperdício, hoje é preciso separar a temperança ...
Tsunicómio IV - Alvaladoscopia
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Enfiaram um tubo pelo rabo do sporting adentro e foram encontrar uma espécie de pandilha doutro mou, dum memorandum of unconsciousness; mas nem tudo é o que parece. A parede estava bem lubrificada, todavia contraía-se por tudo e por nada. O ecrã mostrava movimentos espasmódicos por dá cá aquela palha, uns divertículos faziam de pombinho e outros de gralha, enquanto alguns procuravam um treinador que os salvasse outros procuravam um árbitro que não os tramasse, em ambos os casos evitando a cólica e aproveitando o flato para energia eólica. Tratava-se dum exame de urgência não houve tempo de esvaziar bem a tripa oleosa e ainda para lá havia restos de pentelhices misturadas com a mucosa. Foi avaliada a situação e o diagnóstico dito um em formato solene, que lá se instalara uma marosca perene. Seriam Lampiões? Sócrates? Um perdido par de colhões? Algum benefício fiscal desgarrado? Ou restos dum penalty mal assinalado? Uma virgula mal colocada num decreto? Uma maioria anulada por um veto?...
Tsunicómio III
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A lagartada afunda-se e nós andamos preocupados com a merda do país como virgens néscias. O afundamento leonino é algo que nos devia pôr todos a pensar: há na realidade algo que está por dentro e tudo mina. Não pode ser só incompetência, não pode ser apenas cancro, não pode ser apenas aldrabice, não pode ser apenas azar. Mas também seria abusivo dizer que o Sporting encarna o grande mistério da Impenetrabilidade do Ser, ou seja, meia dúzia de caralhos que não conseguem - há anos! - pôr a jogar outra meia dúzia de caralhos (não se escandalizem com tanto caralho e pensem como as boas gentes do norte que dizem que caralho é virgula) não é o suficiente para definir um problema metafísico. No entanto, algo estará quanticamente no interior daquele cabrão de sistema chamado sporting club de portugal e que compete com o misticismo judeu, a cabeleireira da judite de sousa e até aqueles modelos empíricos do gaspar devidamente benzidos por borges & macedos. Temos excesso de interioridade e ...
Windianápolis #2
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This is how the wind shifts: Like the thoughts of an old man, Who still thinks eagerly And despairingly. The wind shifts like this: Like a human without illusions, Who still feels irrational things within her. The winds shifts like this: Like humans approaching proudly, Like humans approaching angrily. This is how the wind shifts: Like a human, heavy an heavy, Who does not care. Wallace Stevens, «The Wind shifts» in Harmonium , 1923 (recolhido da "Antologia" ed. Relógio de Água, 2005)
Tsunicómio II
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No dia da sua implantação o presidente da dita nem sequer pode sair à rua. Não é bonito e não há busto que disfarce o desconforto que isso devia significar para quem tenha um pingo de sensibilidade e bom senso na pinha. Não se trata de um efeito secundário da hibernação de soberania em que vivemos, é importante que se diga, trata-se duma má ponderação do momento que vive o País. Um presidente que não está próximo do país, mesmo que essa proximidade fosse litúrgica ou fetichista, perdeu a sua função. Já não é símbolo, já não é refúgio, já não é inspiração e muito menos referência, tornou-se um saco de boxe, um desabafador, uma espécie de relvas com estudos. Com a relação entre cidadão e Estado a ficar reduzida e estrangulada numa relação de sacador-contribuinte vêm abaixo todos os pilares duma sociedade que se arrastou nos séculos a tentar eliminar despotismos, prepotências e iniquidades. O presidente eleito duma República devia dar o peito ao saque e ter consciência que não est...
Tsunicómio
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Um dos paradoxos básicos da eficiência é que: o mercado será tanto mais eficiente quanto menor for o nível de eficiência apercebido pelos investidores. Foi como que apostando numa extrapolação teórica deste paradoxo que muitas medidas orçamentais foram sendo tomadas: os contribuintes iriam eficientemente na onda porque não percebiam o que estaria realmente por detrás da coisa . Alguma ignorância era assim uma variável importante do modelo . Mas aparentemente incorporamos um tal nível de ignorância que faz dar a volta aos ponteiros do modelo e demos cabo dele. Nem os paradoxos resistem.