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A mostrar mensagens de 2019

Cientropia

O meu sonho não realizado: ser (ter sido) cientista, ou melhor, homem de ciência. Poder dominar uma espécie de saber intercalar, nem definitivo nem primário, nem teológico nem popular. Assim tipo eremita (um clássico), para dar uma ideia. Como já é um dado adquirido, o saber científico é provisório, por isso no seu formato genuíno é orgulhosamente defensivo, é semi-apologético, sem ser ofensivamente proselitista, pode ser categórico sem ser arrogante (aqui também depende muito do brilho retórico ou da flexibilidade dos músculos faciais), enfim podia estar aqui horas a descrever os méritos (mascarando as minhas frustrações) mas julgo que a ideia está transmitida. O saber-de-ciência mesmo que não ocupe lugar é terrivelmente territorial. Explico: um raciocínio de base científica marca sempre terreno, tal qual um felino a mijar. Explico ainda melhor: exprimir um qualquer argumento de base científica imediatamente monta em torno dele uma cerca que só ultrapassamos se nos quisermos ...

Ensaios sobre a soberba

Em tempos passados, o também chamado antigamente, a soberba era esteticamente uma arma, politicamente um desígnio e economicamente uma optimização de recursos. Se considerarmos que alterações estruturais na natureza humana levariam mais tempo do que o nosso olhar histórico alcança, vamos assumir que hoje ainda é assim - apesar das aparências. Até recentemente interagíamos por necessidade, obrigação, desejo, enfim, o básico. Aplicávamos assim a nossa dose de soberba em ambientes confinados, objectivos definidos e controlo sobre os níveis de aceitação. A soberba obviamente carregava um lastro moral, mas o homem construiu-se constantemente testando sempre novas combinações entre moral e pragmatismo. Eis-nos então chegados ao agora. A moral deslizou e encaixou-se num cesto de fruta onde já tinham lugar reservado a conveniência, a convenção social, o espírito do tempo e , embrulhada em papel vegetal para poder respirar melhor a, hoje famosa, auto-estima. E assim, com o ‘amemos o...

A Rota do Umbigo

Em todo o caso mesmo que a ‘ave da poesia não me pipile dentro nem se debata contra as grades’ da realidade sou forçado a reconhecer que apenas o discurso poético nos permite uma verdadeira e inteligente alienação. A alienação como processo essencial da mente sã deve ser exercitada com uma periodicidade bem definida e, felizmente, hoje temos muitas outras ferramentas que o propiciam de forma grátis, benigna e de fácil acesso. A maior conquista do liberalismo (quem não é liberal deve ir ao médico ou entregar-se às autoridades) como prática revela-se quando retiramos prazer de algo que nos envergonha, quando aprendemos com alguém que é ignorante, quando nos interessamos por algo que não tem interesse nenhum. Sermos nós a gerir a nossa própria inutilidade é uma conquista à qual nunca daremos o devido valor.  Esta ligação íntima entre a alienação como terapia e as chamadas redes sociais é algo que tem de ser bem sublinhado, até emboldado e mesmo MAISCULANIZADO. O fenómeno d...