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A mostrar mensagens de junho, 2009

Luna Park

. O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p´ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há-de dizer. Fala: parece que mente... Cala: parece esquecer... Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse P´ra saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! ‘ Quadras ’, de Fernando Pessoa, cantado por Camané, no disco ‘ Esta coisa da alma’

O Beicinho

Parece-me evidente que o beicinho continua a ser uma manifestação ergonómica da personalidade bastante desvalorizada, se não mesmo injustamente desprezada. Apesar de devidamente apreciada nos exemplares ainda em período de iniciação mamífera, tido inclusive como um dos primeiros esgares de maturidade emocional (o correspondente ao peidinho na maturidade gástrica), o beicinho vai posteriormente perdendo o seu valor iconoclástico e ficando remetido para um simbolismo decadente quase pedo-académico. Encaro assim a privação do beicinho no humanóide adulto como uma das mais significativas catástrofes culturais e antropológicas, bem ao nível de outras privações mais célebres, seja na literatura, seja mesmo na vida. O movimento clássico do beicinho (que deve ser devida e esteticamente diferenciado da boquinha de canastrão cinematográfica, género bruce willis quando inspecciona os disjuntores no assalto ao arranha céus) incorpora dois constituintes fundadores da fisionomologia criativa: a exte...
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Sarah Morris (2009). Parrot [Origami]. © MMK Frankfurt am Main.Esmalte doméstico brilhante s/ tela, 214 x 214 cm

Chico esperto

Chicô buarqui ou buarc ou o caralho sempre foi na sua essência um ícone tropicálio para gajas, honra lhe seja feita, gajas de todas as idades, mamas & feitios. Mas Homem que é homem nunca deverá lançar encómios exagerados ao dito cantor, e apenas está autorizado a ter um ou outro disco de êxitos que demonstrará com evidências ter pertencido à irmã mais velha, ou, na falta, prima chegada com quem lanchava no verão. Certo é também que o supracitado cantor se revelou in su dia com carteira de escritor, espanto meu, - e doutros com igualmente elevado e apurado gosto - com um ‘Estorvo’ bem apresentável. Ora então tínhamos: um gajo que a) faz musiquinha laroca que fica no ouvido a renhaunhauzar; b) escreve livrinho apresentável e nem precisou de ser encalhamaçado; e c) ainda para mais tem sucesso quase generalizado no exigente mundo das gajas; ou seja: é inveja garantida para o homem representante do vasto universo do chamado homem normal. Só lhe falta também fazer banda desenhada ou ir ...

Luna Park

«A uns Deus deu a paz, a outros a paixão. (…) Sentir não é para toda a gente» B Fachada, in ‘ fim de semana no pónei dourado’

Algumas Notas sobre o Aparecimento do Anjo Gabriel a Vitalino Canas

Estava uma tarde solarenga no jardim botânico e a borboleta Alzira brincava aos polícias e ladrões com o aranhiço Vicente, numa harmonia nunca vista para aqueles lados. Junto às palmeiras mexicanas corria uma brisa que transportava Vitalino para os mares do sul enquanto escrevia um discurso sobre a emancipação das tílias, - que Sócrates haveria de dar ao mundo no dia internacional das reservas ecológicas - onde Portugal era descrito como o novo al-mansur, uma Bagdad das mil e uma crises, e onde as únicas escolhas seriam as campas com gladíolos ou as campas com hortênsias. A certa altura um remoinho de vento exige-lhe a atenção e é recompensado com uma visão de branco galáctico, que cedo percebeu não ser a careca de Jaime Gama. «Salve Canas, que a Vitalinidade nunca te abandone». Vitalino não se desmanchou e tentando mostrar uma determinação ao nível do chefe, disse «Gabriel, vejo que és um anjo positivo e que estais connosco!». Gabriel, que é anjo mas não é parvo, teve alguma condescen...

Estão quase a chegar as rainhas cláudias

Uma coisa enerva e dalguma forma exaspera a direita portuguesa: o sucesso do Bloco de Esquerda. E irrita, de facto. Aparentemente superado – e nas urnas – o estigma seminarínico de Louçã, que vai passeando incólume uma semi-aurea com lastro revolucionário de bancada e pluma, alcançam eleitorado sem sequer abusar muito do culto personalístico, e até, reconheça-se, com uma arriscada estratégia de pulverização de egos. Conseguem inclusive enfiar uma miúda - que não envergonha - nos cartazes sem ser apelidada de coisus berlusconicus. Mas o que mais irritará a direita popular é que acaba por ser ela própria a ter de assumir as despesas do estalinismo democrático para alcançar algum sucesso eleitoral, mesmo que isso lhe possa custar o envio dum sex simbol para Bruxelas, e uma suplementar despesa em blasers com o líder crónico. Estragando poucas famílias, a esquerda-em-formato-bloco dissemina-se num pântano – lá está ele outra vez – de falsa irreverência, literacia de cuspo, e anti-socratismo...

Manifesto pela Desigualdade

A desigualdade no acesso ao casamento civil é uma questão de justiça que merece o apoio de todas as pessoas que se opõem à parvoíce e à banalização. Uma das grandes evidências da criação - desde que nos libertámos das filosofias impregnadas de má jeropiga idealista - é que somos todos muito desiguaizinhos benza-nos Deus. Aliás este próprio Deus quando por cá andou, perdoe-se o plebeísmo da expressão, tratou todos de maneira diferente, desde um Lázaro que ressussitou, até aos vendilhões que expulsou, já para não falar dos ladrões que com ele arrumaram as botas no gólgota. E se um ou outro cego foi curado por Jesus, nunca insinuou que éramos todos ceguinhos. A igualdade é por isso uma construção piedosa e meramente retórica e instrumental, e mesmo na religiosíssimamente correcta declaração ‘somos todos filhos de Deus’ não se arrisca tal arrojo, sabe-o bem quem experimenta a paternidade em qualquer das suas versões mais ou menos cinematográficas. Ora sendo a desigualdade perante o outro, ...

L’Homme de Trente Ans

Dalguma forma tenho imensa pena. Mesmo. Ou, reformulando num tom mais pragmático: tenho pena de que nos meus trinta anos (‘nos meus trinta anos’ será sempre uma boa expressão) não existissem estas merdas; reparem nisto: aos trinta anos um tipo é parvo com muito mais frescura (e nem queiram saber aos 25), tem uma piada muito mais radicalóide, arma muito melhor as broncas; tem-se uma impaciência mais crocante, mais descomprometida com a memória, menos fodas mal dadas, menos pudores de paternalismo, verbolina mais berrante, pode-se arriscar com sentimentos que ainda não se precisou de reprimir ou enquadrar (foda-se ‘enquadrar’- essa palavra nem era precisa aos 30 anos), dostoievski e camus estão ainda viçosos, e a filha da puta da alma está bem mais diamantina; eu ainda via uma Karenina em cada mulher que me descarrilasse em cima, e apenas via um Freitas do Amaral em cada gajo gordo e chato. Dalguma forma tenho pena que certas músicas de hoje não tenham aparecido quando eu tinha 30 anos, ...

The woman in rose

A existência de quotas para as mulheres (ou quaisquer categorias hormonalmente descriminadas) na política, entre outras vantagens – sempre fui um entusiástico apoiante, registe-se – apresentaria a de trazer para a actividade e debate político um género de peixeirada que, (tirando com os constitucionalistas ex-guardas florestais das ditaduras do proletariado) doutra forma não teríamos acesso. No entanto, este processo poderá também levar à escolha de mulheres discretas, que, e muito bem, encaram a politica como um mero prolongamento da lida da casa, tarefa essa que, como sabemos, se cumpre na humilde e serena – mas eficiente - penumbra do serviço do lar, mesmo que inclua um ou outro tabefe pedagógico na prole biológica ou afectiva. Continuam a ser assim algumas das representantes do maravilhoso mundo-antes-das-quotas a garantir a frescura do peixe, perdão, do sofisticado discurso político. O trio de grandes mulheres portuguesas que o PS nos apresenta com as cenadoras (como ‘c’ porque qu...

‘Testamento Vital’

O comunismo é algo que se vive de forma religiosa, tribal e virulenta. Por isso, a categoria dos ‘ex-comunistas’ é algo que merece ser estudado convenientemente. Tiques, vícios, rotinas, complexos. Como lidam com eles, como os camuflam, como lutam constantemente para ainda salvar qualquer coisa de decente do seu traumático passado num cocktail de arrogância e impiedade. Pelo facto do comunismo em Portugal ter assumido um relevo sociológico ímpar na Europa Ocidental (talvez só comparável em dimensão com o fenómeno Berlingueresco de Itália) é por cá que se encontram alguns dos exemplares mais elucidativos deste fenómeno de mutantes da manipulação psicológica e terapia de carácter. Todos os ex, sejam eles do que forem, transportam simultaneamente uma força e uma fraqueza. Incapazes das separar como água e azeite, refugiam-se numa pose de posse inflexível da verdade, pois sem a verdade seriam, agora e sempre, incapazes de respirar. Vivem assim a chamada tragédia da posse da verdade. O chão...

Crianças, o melhor do mundo são as

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Nico, Faith & Power