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A mostrar mensagens de dezembro, 2012

Teologia da desilusão

Deus é quem menos cumpre as nossas expectativas. Tal como quem amamos acaba por ser quem mais nos falha, Deus está frequentemente a jeito para que lhe apontemos o dedo - mais ou menos piedoso - da desilusão. Em geral exigimos-lhe que seja mestre no campeonato das grandes contradições: esteja perto sem nos chatear, seja previsível mas surpreendendo-nos, esteja longe mas fazendo companhia, nos dê o possível na medida do impossível e nos dê o impossível na medida do possível, em suma, também já estará habituado a que ter de ser só nosso mesmo sendo de todos. Quem já se sentiu abandonado por quem ama (e quem nunca sentiu isso não sabe o que perde) entenderá facilmente que não há maior desilusão que uma ausência incompreensível. A religião permite apenas uma ligação imperfeita, o Deus que nos foi concedido não passa da clássica sombra projectada no fundo da Caverna, e a sua graça pouco mais efeito dá que uma terminação de lotaria. Sendo que a espiritualidade é uma técnica de gestão da des...

Teologia da Abstracção

Por regra, no excêntrico universo da análise moral, consideramo-nos pecadores em abstracto mas boas pessoas em concreto. Com facilidade assumimos uma contrição quase estética sobre uma tendência genérica para a imperfeição (não confundir com a maldade) mas confrontados com um contacto objectivo com ela somos facilmente levados a descartá-la, ou a camuflá-la sob capas do psicoloden, quando não a veementemente negá-la. A experiência da culpa definida e circunscrita é muito mais penosa que a falha assumida como uma tendência imanente de malandragem, ora literária, ou mesmo cómica. Por outro lado todos temos pecados de currículo, pecados que nos ficam bem, como adereços de moda ou relações de conveniência. Ou seja, a imoralidade-como-composição é uma das boas invenções do espírito humano no intuito de se proteger desse peso esmagador que é a existência duma lei moral omnipresente. Assim, a batalha essencial da alma malabarista é conseguir transferir do concreto para o abstracto a sua li...

Liga da Solidariedade

Resultados da 1ª jornada Sport Lisboa e Bem-fazer - 1   / Companhia Portuguesa da Caridade   - 0 Depois de uma primeira parte muito equilibrada, o S.L.B. soube aproveitar muito bem uma falha da C.P.C. numa distribuição de fanecas fritas com arroz de tomate demasiado apurado e depois segurou a vantagem até ao fim, tendo até desperdiçado uma ocasião soberana de aumentar a vantagem com uma entrega de leite magro no banco alimentar de Elvas mas que acabou por ser substituída à ultima hora por duas toneladas de lingueirão de conserva que não foram aceites por pacheco pereira devido à sua origem religiosa das reservas da quermesse de páscoa da paróquia de benavente. Desportivo das Sopas - 2 / Cobertores Sport Club - 2 Foi um jogo bastante bem disputado com incerteza constante no resultado. Se o C.S.C. com a sua primeira distribuição de edredons com enchimento de poliester conseguiu adiantar-se no marcador, rapidamente o D.dS. não enjeitou a possibilidade de...

Dívida Metódica

Subsídios para uma reestruturação Primeiro pega-se numa dívida e analisa-se o credor; antes de nos pormos a verificar para que teríamos precisado nós do dinheiro, haverá que escalpelizar porque teria precisado o credor de nos emprestar. Em segundo lugar haverá que dividir a dívida em várias parcelas: nunca o dinheiro serve para apenas uma coisa, a dívida é como a dor de rins: 1/3 é má postura, 1/3 é deficiente movimento de fluidos e 1/3 é a presença de cálculos agressivos. Por isso, quando nos pedem que paguemos algo, comecemos primeiro por alterar apenas a postura. É péssimo fazer reembolsos de cócoras. Terceiramente (é o adverbio de modo de estar em terceiro) devemos considerar que antes de chegarmos ao milhão temos de passar pela dezena, depois pela centena, de seguida para o milhar e por aí adiante, e apenas se der tempo analisaremos os seguintes, pois ninguém percebe decentemente o valor de um milhão se não tiver derretido antes uma boa centena de milhar. Ou sej...

Porta 9B

Encontraram-se num restaurante que ocupava o espaço ao lado da galeria. Era um restaurante popular, com uma clientela fixa e onde nem Arménio nem Áurea, curiosamente, alguma vez tivessem entrado. Não seria o local mais aconselhado para uma conversa de reatamento, ou balanço, ou até de reconciliação, mas foi o que ela escolheu, e mais uma vez ele, inexplicavelmente, se mostrou incapaz de a contrariar. O prato do dia era cozido, um grupo de padres e seminaristas ria-se numa mesa próxima, como que querendo demonstrar que sob determinadas condições afinal a carne vale, por mais fraca que possa ser. Seria a carne algo que os unia ou os separava, pensou Arménio enquanto observava o excesso de formalismo de Áurea. Ainda ele   não se tinha refeito de uma certa estranheza em relação ao seu comportamento, quando ela o convidou a sair e a darem uma volta pela rua. Passaram por uma loja de sofás e entraram, ela queria renovar a decoração do seu escritório e pretendia comprar uns sofás para ...

Porta 9A

Enquanto Arménio subia era assaltado pelos pensamentos mais vulcânicos que jamais tinha experimentado. Ainda estava a meio das escadas quando ouve a voz de Áurea, vinda dum patamar mais acima, pedindo-lhe para ir andando para a loja que ela já lá iria ter. Que saudades ele tinha daquela voz que já lhe revolvera todas as glândulas num passado não muito distante. Desceu de forma automática - sempre lhe tinha obedecido, como que movido por uma força inexplicável - sem sequer ter pensado no que significava a tal loja na qual ele nunca tinha reparado, nem sequer sabido da existência. Mas lá estava, era uma galeria de arte novinha em folha, aberta certamente havia poucos dias e onde se podiam ver, entre outros quadros, algumas das suas aguarelas. Mal sabia Arménio que nunca mais subiria ao escritório de Áurea. Os seus clientes tradicionais tinham-lhe feito ver que ela não poderia prestar tanta atenção ao portfólio de Arménio e que isso a estaria a dispersar, desperdiçando eficiência e...

Porta 9

Arménio Jasmim subia aquela rua íngreme como o começara a fazer regularmente desde o início do ano. Por regra não assumida escolhia o lado da numeração par, mas naquele dia frio e seco preferiu o sol que se apresentava acolhedor do outro lado. As portas não lhe eram tão familiares, as caras dentro das lojas também não, uma ou outra talvez, do café ou da papelaria onde entrara três ou quatro vezes, se tanto. Ia observando com alguma atenção mas sem aquela curiosidade que produz verdadeiras descobertas. Foi assim com um ar meio displicente que deu de caras com uma tabuleta no número 9 que anunciava 'Drª Áurea Martins - Solicitadora'. Poderia ser mais um escritório entre muitos, mas um impulso sem explicação perceptível fê-lo entrar. Uma solicitadora poderia ser aquilo que ele precisava ou mesmo ansiava inconscientemente. Mas uma dúvida tinha-se-lhe instalado logo nos primeiros lances de escada: seria alguém que faria o que ele solicitasse, ou alguém que solicitasse por e...

úlcera no duodécimo

Desde que o homem decidiu que os astros lhe comandariam a vida que dividimos o tempo em anos e os anos em meses. Daí até duodecimarmos a existência foi um pulinho mais curto que aquele que leva a gosma da faringe ao céu da boca. Assim, confrontados com uma marcação de passo que era imposta pela posição da nossa lua face ao nosso sol, quisemos libertar-nos desse espartilho astrológico através daquelas delicatessens cronológicas chamadas décimo terceiro mês e subsídio de férias. Foram épocas em que o homem se pensou um mago do tempo, um esticador de horas, um novo deus do calendário. Foram décadas bonitas, em que espatifávamos uma bastilha em cada seis meses, mesmo sem ser preciso ver a praia debaixo das pedrinhas da calçada. Mas vamos agora voltar ao mísero ano-de-doze-meses, ficando novamente reféns da ditadura da traslação e teremos de pôr a imaginação outra vez a trabalhar para driblarmos o inexorável. Como se não bastasse termos perdido a companhia desses dois duodécimo...

ano karenine

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(...) já tinha notado há muito que quando as pessoas se sentem incomodadas pela sua excessiva docilidade e submissão, muito depressa se tornam insuportáveis por uma excessiva exigência e susceptibilidade Início do cap. XXXII

Teologia da Hibernação

Com um deus distante e uma fé invernosa escolheu o seu deserto interior para refúgio maldito. Mau conselheiro de si próprio mas desconfiado do conselho de alheio, entregou-se a memórias vagas e recalcamentos persistentes, desatou os nós que trazia no estômago e esperou pela pancada. Veio ao terceiro dia, como uma ressurreição pagã, disfarçada de dor de garganta, pois tudo que vale a pena precisa da dor para ter dignidade. Agarrado pelas entranhas superiores perdeu-se em divagações sobre a culpa e o destino, a sorte e a má sorte, o reconhecimento e a incompreensão. Estava no consolo que toda a ingratidão propicia quando um Espírito Santo sem orelha lhe sussurrou duas verdades de demonstração inacessível para o seu grau de sofisticação no momento. Forçado a crer como alternativa viável, aconchegou-se naquele prazer demoníaco que é todo o desprezo pelo que nos rodeia e soltou a língua em forma de avé-maria sem graça. Recolhido na oração dos simples, deixou o coração divagar pel...

continuidade - repetição

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