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A mostrar mensagens de abril, 2012

Tina & Pita

É com satisfação que os grupos editorais Mosca Morta e Choco com Tinta vêm comunicar o lançamento do projecto comum de uma revista de crítica e fofoca literária liderado pela escritora hermafrodita e polemista Bernarda Leonarda, que se tornou célebre por ter escrito uma história da literatura alternativa apenas com escritores e livros inventados. Este projecto, denominado 'Tina & Pita', será dominado pelas incursões na literatura wonderstream , um conceito que funde o mainstream com o underground sem esquecer o stevie wonder, e que reflecte a ambiguidade dos tempos modernos, designadamente no que diz respeito ao texto literário que é muito permeável às influências mais diversas, venham elas da alta costura ou do baixo ventre. Será uma revista onde poderemos encontrar plots , romans à clef e inclusivamente coup de foudres nos seus melhores dias, sem nunca esquecer os famosos bildungsromans com creme de pistaccio para desenjoar dos tours d'horizon . Em todos os n...

O Depoimento [V]

Inspector Álvaro Simões - Há algum aspecto da vida ou personalidade da Custódia Passos que entenda se deva ter em especial conta? Viviane Lopes - humm...sabe que ela nos últimos tempos se andava a aproximar daquilo a que eu chamaria...o fenómeno religioso A.S. - Estava a converter-se!?... V.L. - Também não é bem isso...isso passou-se foi comigo... A.S. - Não me diga?... V.L. - Olhe...há coisa de dois anos parece que me passou um furacão pela alma dentro e de repente exigi da vida mais explicações do que aquelas com que tinha vivido até ali A.S. - Mas para se viver a vida ela precisa de ser explicada, é? V.L. - Não propriamente, mas precisa de ser... vá, abordada com alguma afã de compreensão...de exigência, algum esforço de separação das essências das aparências A.S. - E acha que precisa de Deus para isso? V.L. - Se Deus existir, obviamente! A.S. - Mas não lhe bastava o encanto do mistério, teve logo que avançar para a crença? V.L. - Ao pr...

Fado [IV]

Barba rala olhar deposto neura de gala engolido desgosto. Desisti da minha causa sem glória nem fado por uma guerra falsa de inimigo inventado Refrão do fado Arménia Longínqua da autoria de Custódia Passos e imortalizado na voz de Mafalda Arneiro.

As Gaspadinhas

Na passada semana, quando Portugal se preparava para finalmente voltar aos mercados, inesperadamente eles já não se encontravam lá. O ministro das finanças ainda esperou uma meia hora, mas depois, face às evidências, recolheu à sua viatura de serviço (um Kangoo patrocinado pelo Vallium Injectável), e após dois ou três telefonemas (pagos no destinatário) confirmou que os mercados aparentemente tinham mudado de local. Uma senhora que estava a passar informou mesmo que desde o verão já não se viam as tendas por aquelas bandas e sugeriu que procurassem mais na zona de Bucelas onde o seu genro chegou a conseguir trocar uma mula cega por dois cabazes de morangos sem spread. Convocou-se a devida reunião de emergência com os ministros, juntamente com os secretários de estado, pois a situação era grave e quanto mais olhos estivessem atentos mais probabilidades haveria de encontrar os mercados, mas ninguém tinha dado conta de que os mercados pudessem ter mudado de sítio, se bem que o seu facebo...

O Diário [V]

Cheguei agora do teatro. Foi - finalmente - a estreia da Viviane. Depois de ter metido na cabeça que um dia seria actriz, e representaria a Fedra , lá perseguiu esse seu desejo - capricho - com uma persistência só dela. Permanece ainda a minha grande dúvida: qual a razão desta sua escolha, a tragédia não casa com ela e muito menos esta onde os remorsos são os reis da parada. Nunca mo explicou e as suas saídas enigmáticas ainda me têm posto mais curioso. Hoje foi outra: «nada acontece por acaso e a morte é o mais causal dos acontecimentos». Fomos cear juntos com o rapaz que faz de Hipólito, por sinal um tipo bem disposto e que está claramente apanhadinho pela Viviane. Não sei o que ela lhe disse sobre mim, o que mais me irrita é que se calhar nem lhe disse nada, ou disse-lhe praí o clássico de que sou amigo de infância e pouco mais fiz que figura de croupier de estimação, ali a servir-lhes vinho e uma deixa ou outra para eles brincarem com as minhas palavras como se fossem copas a dan...

ponto da situação II

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O Debate

O grupo de pressão dos homens de cultura sentiu que tinha chegado a sua vez de chegar ao poder. Procurando filtrar duma imensidade granolométrica de putativos candidatos chegou-se ao consenso de efectuar uma espécie de primárias entre intelectuais. Finalmente chegou-se a um ponto em que se perfilaram como os dois candidatos com mais potencial os escritores Flaubert Queirós (presidente da Ordem dos Epigrafistas ) e Julio Paisana (Editor-chefe da Revista O Badanal ). Eis um excerto do debate final com moderação de Simone Bolina. Flaubert Queirós - Julgo poder trazer ao País aquele esclarecimento e serenidade de quem consegue olhar para os problemas com um perspectiva mais ampla Julio Paisana - Como devia saber, caro Queirós, não basta perspectiva, é também necessário, unhas, senão a viola não toca. Eu saberei juntamente com a perspectiva trazer um outro jeito de pegar nos problemas F. Q. - Caro Paisana, a realidade não precisa de voluntaristas, não precisa que andemos a mexer...

O Depoimento [IV]

Inspector Álvaro Simões - O que me tem a contar sobre o Ernesto Mourão? Viviane Lopes - Um homem estranho, não sei o que a Custódia viu nele... A.S. - Mas pelos vistos não é só a Custódia... V.L. - Sim...ah a Simone, claro...mas a Simone consegue descobrir encantos em qualquer homem. A.S. - Mas isso pode considerar-se um talento. V.L. - Sim...talentos não lhe faltam... A.S. - Noto uma pontinha de ciúme. V.L. - Olha, olha, um policia psicólogo! Isto é um luxo! Também fornecem divã aqui na esquadra ou isso é só para as testemunhas especiais? A.S. - Todas as testemunhas são especiais porque nenhuma faceta da realidade é mais importante que as outras. V.L. - O cubismo investigatório, o Inspector é um teórico...ainda não o convidaram para a televisão? A.S. - É muito simpática, mas agora interessar-me-ia mais a sua opinião sobre o Ernesto Mourão. Consegue dizer-me que tipo de pessoa é e qual era a relação que ele tinha com a Custódia? V.L. - ...

Fado [III]

Soube-me a pouco o teu eternamente, esse momento louco a que foste chamando presente, mas que por obra duma memória avara se transformou em passado, como ferida que nunca sara vestida de luto carregado. Refrão do fado Louca Memória da autoria de Custódia Passos e imortalizado na voz de Lariza

O Prémio

Sempre me considerei um assassino de palavras. Vejo-as a nascerem na minha cabeça, viçosas, cheias de esperanças, e de repente puxo pela caneta e zás! rebento com elas, entalando-as umas nas outras como numa vala comum. Depois, ainda não contente com isso, lanço-lhes combustível, e quando acho que já estão bem regadinhas, zás! largo o fósforo em chama e transformo-as em obras de literatura, o equivalente a um jazigo nesta grande hierarquia da vida que são os símbolos mortuários. Olho para o que escrevo como múmias de miniatura  que fui juntando, num coleccionismo mórbido de ideias que nunca mais verão a luz do dia, pois uma palavra escrita, uma frase, um capítulo, tudo isso são restos mortais daquilo que nos passa pela cabeça; escrevo para matar, não tenho qualquer dúvida disso, treino homicídios com palavras escritas, crimes impossíveis de deslindar, é essa a minha felicidade, a felicidade mesquinha do assassino que sabe nunca será descoberto. Lerem-me faz-vos cúmplices, não são...

O Diário [IV]

Sobram-me sentimentos, sobram-me inseguranças, sobram-me falsas esperanças, faltam-me dúvidas, faltam-me penas, faltam-me injustiças. Vivo no equilíbrio estável que fornece aquela mediocridade tão própria de quem sabe que teve uma vida banal, das que não chegam a produzir revoltas nem depressões e que se consegue arrumar num cantinho cheio de melancolias estéreis mas que aconchegam. A Viviane hoje não pode vir cá jantar, e inesperadamente ligou-me a Simone a dizer que me queria ver. Apareceu-me logo cinco minutos depois, com um ar atrevido, insinuante, como que disposta a ocupar um espaço que ela sabia estar vazio. Fez-me uma festa, deu-me um beijo, mostrou-me um colar novo que tinha comprado, dois poemas que tinha escrito para uma cantor qualquer e pediu-me atenção, não sem antes ter dito que eu era o melhor atencioso do mundo, que conseguia ouvi-la e vê-la sem ser com olhos de comer, infelizmente para ela, disse também com aquele sorriso que leva qualquer homem para entre as suas p...

O Mirone

«...estava uma mesa animada, a menina que depois acabou por morrer vinha cá quase todas as quartas feiras porque o nosso prato do dia era sempre arroz de polvo, e as outras acabaram por pedir frango da guia que também sai muito bem. Beberam todas cerveja e a menina Viviane até pediu outra quando chegaram à sobremesa. Não dava ideia de que alguma deles fosse morrer durante a digestão, e muito menos a menina Custódia que é, era vá, um pisco a comer. Mas nunca se sabe qual é a nossa hora, não é...às vezes assim de repente, e o polvo estava tão bom, até o doutor Gomes Farinha, que é sempre tão esquisito, nesse dia lambuzava-se todo, até acabou por fazer uma nódoa naquela gravata azul marinho que ele costuma trazer quando depois tem uma reunião com a menina Neide. Aí irritou-se, sim, e percebe-se, o mundo dos negócios é muito sensível aos pormenores; dizem, que eu não sei. E estava um dia tão bonito, até abrimos as persianas para entrar o sol, aqui a churrasqueira às vezes fica muito escu...

História Mundial do Enriquecimento

{texto dedicado à C. do Malone & o caneco } 1. introdução A riqueza é um fenómeno muito estudado em várias das suas vertentes e inclusivamente encostas - há até fenómenos de enriquecimento baseado em encostarmo-nos a alguém já de si rico. No entanto, faltava uma análise não só mais cirúrgica e que entrasse realmente naquela brecha da realidade que surge quando ela leva um traumatismo, mas também que soubesse separar o trigo do joio, principalmente nestes momentos em que já se tem de fazer muito papo-seco com grande percentagem de joio. 2. causas Sem prejuízo de estarmos a cometer o pecado de excesso de simplificação poderemos dizer que a causa do enriquecimento é a vontade de agradar. Em geral, e em primeiro lugar, o enriquecimento surge do movimento de confluência de duas pulsões: a pulsão em satisfazer e a pulsão de necessitar: geralmente o primeiro a chegar à necessidade fica insatisfeito, e vai enriquecer quem aparece a satisfazê-lo. Ou seja, a riqueza está ...

O Depoimento [III]

(continuação)   Inspector Álvaro Simões - Concentremo-nos agora em Raimundo Múrcia.. . Viviane Lopes - Humm...em que parte dele? A.S. - Naquela que pode estar ligada à morte de Custódia Passos.. V. L. - O Raimundo é um homem muito...físico, digamos assim, se fosse ele a matá-la teria deixado mais marcas visíveis. A.S. - É um homem violento, portanto. V.L. - Sim, também se pode colocar a coisa assim, mas eu seria mais rigorosa: é um homem para quem as palavras não bastam. A.S. - Mas sendo escritor..deveriam bastar, ou não? V.L. - Sabia que ele tinha sido ( e praticado) ortopedista antes de se dedicar à escrita? A.S. - Bem...sabia que era médico de formação, mas daí a... V.L. - Uma falha imperdoável sua, deveria saber que os ortopedistas são uns brutos insensíveis! Essa brutalidade está entranhada no Raimundo. A.S. - Tem então um currículo de agressões é?... V.L. - Não... não... que eu saiba não...julgo apenas que se ele quisesse mata...

O Testamento

«...a minha cabeleira azul fica para a Viviane Lopes, o meu recheado guarda-jóias fica para a Simone Bolina, as minhas acções na Mosca Morta ficam para o Salvador A. Arinto, o meus prédios no Campo Mártires da Pátria ficam para a filha da Simone e do Ernesto (que eu sei que um dia verá a luz), o meu vestido com uma mancha espermosa do Clinton ficam para um rapaz coleccionador de curiosidades chamado Elvis com quem dormi uma vez em Fevereiro no hotel do Buçaco, os meus títulos do tesouro ficam para o Dário (se ele sobreviver à minha morte), a minha vivenda em Torres Vedras fica para quem descobrir como morri, o meu serviço de porcelana Ming fica para a Viviane (na condição de ela o partir aos poucos nas trombas do Raimundo e do Ernesto), a minha colecção de lingerie usada fica para o Raimundo, o meu vibrador Yves Saint Laurent fica para o Ernesto, o meu soutien com marcas do polegar esquerdo do Marlon Brando fica para a Simone, as genuflexórios chippendale ficam para a Viviane, ...

O Anúncio

Mulher culta, de uma beleza exótica, boa conversadora, arrojada mas enigmática, cintura bem definida e peito firme, apaixonável, livre, de figado frágil, vingativa, procura homem culto, com diplomas obtidos em qualquer dia da semana, bom conversador, persistente, propiciador e companheiro, e bom conhecedor de química alternativa, a fim de produzirem uma oração fúnebre conjunta, com ou sem epitáfio. Anúncio dos Classificados, publicado vários dias seguidos em Dezembro de 2012 no Palmela Weekly e no Correio de Bucelas .

O Diário [III]

Hoje almocei com o Ernesto. É a mente mais brilhante que conheço. Dá quase raiva assistir aqueles momentos que se produzem na cabeça dele em que a intuição se abraça à dedução e saem ideias que flutuam que nem bolinhas de sabão, que nós, ao irmos para as agarrar, vemos desfazerem-se numa névoa fugaz e mágica. Inevitavelmente acabámos por falar da Simone e da Custódia. Há um incomodo profundo no seu interior, parece saber algo, ou pressentir algo, não sei, de repente fica bruto, radical, não foge ao tema mas torna-o tão desagradável que temos logo que o abandonar. Hoje disse-me que o Raimundo é um cabrão e que devia ter sido ele o envenenado, que a Custódia não sabia o que andava a fazer, que andava a brincar com o fogo, enfim, foi uma sucessão de observações básicas mas ou mesmo tempo sinuosas e atordoantes que me deixou incapaz de reagir. No final ainda perguntou se a Simone já me tinha falado sobre a morte da Custódia. Já nem me lembro o que respondi, e a última coisa que eu faria ...

O Corrimão

A ideia de suspender a democracia durante vários meses era evidentemente exagerada. Julgo que o modelo adoptado desde 2012 é bastante mais acertado: suspendê-la dia sim dia não. Por um lado não nos viciamos nela, e por outro não nos afeiçoamos em demasiado, ou seja, as duas dependências mais nefastas da nossa espécie, o vicio e a carência, ficaram postas de lado. Se uns dias somos espoliados sem consulta prévia em algo que já nem sentíamos possuir de tão habituados que estávamos de usufruir, no dia seguinte voltamos a retomar a gloriosa sensação de que nos têm de prestar contas; a nuance é esta: os poderes têm cada vez menos coisas para nos prestar contas, nós temos cada vez menos contas para prestar ou exigir, e o equilíbrio vai-se assim produzindo plácida e comodamente como numa praia mar que se estende por um vasto areal de falso dourado. Hoje a sociedade inquieta-se à segunda, revolta-se à terça, acomoda-se à quarta, indigna-se à quinta e relaxa à sexta. O fim-de-semana fica...

O Depoimento [II]

(...) Inspector Álvaro Simões - Falávamos de Simone Bolina... Viviane Lopes - ...sim, um bom tema (ahaha) A.S. - Continua bem disposta...Como caracteriza a D. Simone? V.L. - Ora resumindo...uma machorrenga! A.S. - Como assim...uma maria-rapaz?... V.L. - nada disso, pretendia figurar o correspondente ao homem mulherengo, mas em gaja... A.S. - ah.. e tem sucesso? V.L. - Muitíssimo! Não me diga que ela ainda não se atirou a si? A.S. - Eu imponho alguma distância... V.L. - Ora ora...o que são dois ou três metros para a Simone (ahahah) A.S. - Simone já tinha assediado alguém de quem Custódia Passos...vá... gostasse? V.L. - Repare, inspector Simão, se todas a mulheres a quem Simone já tivesse cobiçado, assediado, flirtado, comido, insinuado, ou roubado os amantes, namorados, amigos ou até canalizadores, morressem envenenadas, as serpentes já se tinham tornado uma espécie em extinção! A.S. - Consigo isso também já aconteceu? V.L. - Is...

O Discurso

Meus queridos amigos e companheiros nesta arte da busca do epigrama ideal, a História recente mostra-nos que nem sempre as frases sabem estar à altura dos acontecimentos e nem sempre os acontecimentos sabem estar à altura das frases. Não será novidade se vos disser que determinadas frases mudaram o curso da história, não será novidade se vos disser que ideias mal expressas transformaram-se inadvertidamente em novas ideias e não será novidade se vos disser que vivemos os tempos em que se matam as mensagens para poupar e manter os mensageiros. Como trazer de novo as ideias para a frente da História? Só nós o saberemos fazer: cuidando do belo efeito . No Jardim do Tempo florescem pequenas pérolas floridas que escapam às multidões, seja por negligência, distracção, ignorância, insensibilidade, ou mesmo desprezo e só nós podemos cuidar desses canteiros, só nós poderemos dar ao mundo a cor e o cheiro que ele necessita neste momento. Tem sido claro que a retórica moderna se concent...

Fado [II]

Colo marcado pela dor que me invadiu tão cedo, inspirada naquele estupor escondido em segredo num lençol manchado de suor sem sangue, e das lágrimas resguardado como um bandido sem gang. Refrão do fado ' Sudação ' da autoria de Custódia Passos e imortalizado na voz de Capilé

O Diário [II]

A Viviane acabou de sair daqui. Jantámos, ela estava de poucas falas, o que é normal, a condenação de plágio, por mais que ela desvalorize e até brinque com isso, acabou por lhe reduzir as possibilidades de ser nomeada comissária para a Grande Exposição da Rima Portuguesa. E é injusto, claro que é injusto, ninguém conhece os mecanismos e a história da rima portuguesa como ela. Fui carinhoso com ela, sim, acho que fui, fui. Tendo em conta a minha insegurança em relação aos sentimentos dela, e àquele raio de sensação que tenho de que há qualquer coisa que me falta para que ela goste realmente de mim, até fui carinhoso. Vou morrer com esta sensação de merda. As sensações deitam-nos tudo a perder. Devia ter apostado mais nas ideias quando era novo, mas se calhar fui preguiçoso, ou as sensações começaram a render-me mais cedo e acomodei-me. Ainda me lembro da minha primeira sensação romântica: uma miúda gira, esperta, muito cobiçada, e eu a imaginá-la a reprimir a atracção que tinha p...

O Editorial

A notícia do encerramento da joint-venture para o mercado do Brasil entre as Editoras Mosca Morta e Choco com Tinta (denominada Mosca Choca) marca um revés importante não só na aposta de internacionalização de ambos os grupos mas igualmente na possibilidade de levar para mercados mais vastos da língua portuguesa escritores como Raimundo Múrcia, Ernesto Mourão ou Simone Bolina, entre outros. Queremos crer que este retrocesso nada teve a ver com as desavenças públicas entre alguns destes escritores, que têm na sua vida privada uma relação conturbada que muitas vezes é transportada para as editoras onde pertencem, se não mesmo para os próprios livros, mas é impossível não nos debruçarmos sobre este tema. Quando em Março passado Ernesto Mourão disse numa entrevista que «há situações que pedem rupturas e há rupturas que pedem destruição» o meio literário e editorial ficou estupefacto pois sabia-se da importância que revestia o projecto brasileiro para ambas as chancelas. Por outro lado, ...

O Depoimento [I]

Inspector Álvaro Simões - Qual era a sua relação com Custódia Passos? Viviane Lopes - Éramos amigas desde o liceu, e começámos a escrever ao mesmo tempo. A. S. - Pode dizer-se que eram íntimas? V. L. - Desde que o conceito não implique erotismo convencional, sim. A. S. - Acha que ela tinha razões para se suicidar? V.L. - Todos temos razões para nos suicidarmos.... A. S. - Mas nem todos nos suicidamos... sabe que ela tinha escrito um bilhete e que o tinha junto a ela? V.L. - Sei porque o senhor mo mostrou no dia em que ela morreu. A.S. - É verdade...e alguma vez sentiu, dado que eram íntimas sem erotismos convencionais, que havia uma probabilidade forte que ela cometesse suicídio? V.L. - Não, de todo, a Custódia não se pode dizer que tivesse nenhuma nostalgia dos absolutos, ela gramava curtir os acontecimentos mesmo que lhe fossem inconvenientes. A.S. - Não percebi, mas vou concluir que me quer dizer que não era previsível que ela se suicidasse...

A Crónica

Foi esta semana decretado que é proibido morrer até 2017. Os cemitérios estarão com enormes deficits, e não há verba para enterros decentes nos próximos tempos, resumindo: ou há subsídios ou há enterros, houve que escolher. Ficam de fora apenas os casos de suicídios e as septicemias, mas os cancros e os traumatismos vão ter de esperar por melhores dias. Se virmos bem é uma medida acertada, há muita morte estúpida, mal planeada, muito oportunismo, muita gente que se quer aproveitar e vivemos um momento difícil em que todos têm de dar o seu contributo. Eu cá tinha decidido morrer para o ano, mas posso perfeitamente esperar e sacrificar-me um bocadinho. Por outro lado soube-se há poucos dias que a Troika condiciona o acesso de Portugal aos mercados ao aparecimento da pilinha de Flávio Cossaco. É conhecido que tem causado mau estar nos círculos financeiros internacionais a incapacidade das autoridades portuguesas em suster a fuga de pilinhas para o estrangeiro e teme-se que este caso...

O Diário [I]

Hoje recebi um telefonema estranho da Custódia. Chorava convulsivamente. E eu que julgava que ela vinha programada para não chorar. Não me disse a razão, disse só que precisava de alguém com quem chorar e que não perguntasse nada. Eu sou bom nisso, a não perguntar nada. Para uns parece desinteresse, mas há quem dê valor, aleluia! Está muito sobrevalorizado o conselho, deviam pôr mais os olhos naqueles que se limitam a ter paciência. Mas coitada da Custódia, também me fez pena; eu ainda não estou insensível, foi bom perceber isso. A seguir falei com a Simone; o costume. Ainda bem que nunca me apaixonei por ela, se calhar até sou o único, e nunca se sabe, num homem nunca se sabe. Amanhã acho que acabarei o meu livro, vou-lhe dar um titulo simples, talvez o 'fim da tarde' ou simplesmente 'esplanada', não sei, na Fuligem há sempre alguém que se sente especialista em títulos, os títulos são como o bolo de chocolate, há sempre uma avozinha que faz um que nunca se esquec...

A Peritagem

Em sequência das várias sessões individuais com o Sr. Ernesto Mourão tive ocasião de poder comprovar estar na presença de uma pessoa com uma personalidade muito marcada pela timidez e a insegurança. Um domínio invulgar daquilo a que eu chamarei as 'convenções morais' construiu-lhe uma postura defensiva sobre a vida se bem que estruturada em torno de inflexibilidades e rupturas. Da sua relação, referida como «fugaz», com a vítima não transpareceram resíduos de trauma significativos, mas diga-se que na sua vida sentimental pontifica um notório mecanismo de ciúme exacerbado em torno de outra pessoa que tem alguma relação com a investigação em apreço. O paciente poderá ter manifestações violentas relacionadas com esta relação e os seus níveis de controle estão muito relacionados com, por mais estranho que pareça, com aquilo que tenha comido nas refeições anteriores. Apesar de ser raro, o Sindrome do Estômago Vazio revela-se em Ernesto Mourão de extrema importância para compree...

O Badanal

Decorreu na passada 6ª feira a festa de lançamento da nova revista satírica O Badanal . O director será Vasco Dias que, para além de uma breve incursão na ficção com o seu recente romance Manjericão e Coco , na Editora Adamastor, já tinha dirigido o suplemento de viagens & gastronomia do extinto semanário A Humanidade . A nova Revista Mensal apostará, nas palavras de Vasco Dias, «numa perspicácia lúdica e numa mordacidade esclarecida» e, para além de vários nomes sonantes saídos do humorocómio nacional, contará com as estrelas literárias Raimundo Mourão e Rebelo Mendes (que acabou de receber o Prémio 'Cagões de Fafe' pelo seu Livro 'Os novos Charlatães' ) como colaboradores permanentes com duas colunas anunciadas eloquentemente como 'de nos mijarmos a rir' e já curiosamente patrocinadas pelas fraldas para incontinentes Lindor. Instado a responder à questão: «como se distinguir num mercado saturado de cómicos», Vasco Dias deu a palavra ao seu editor-chefe ...

A Escuta

Simone - Sinto-me só, Raimundo. Raimundo - Isso significa o quê? Simone - Tenho saudades tuas. Raimundo - Isso passa-te, deve ser qualquer coisa que comeste...ou não comeste. Simone - Não precisas dessas insinuações ordinárias, sabes que nem gosto de simular certo tipo de sentimentos. Raimundo - As pessoas mudam...aconteceram muitas coisas recentemente. Simone - Sim...mas nada que tivesse a ver connosco. Raimundo - Tudo tem a ver connosco. Simone - Ai que querido, estás com presunção mas da solidária. Raimundo - Eu sei que não precisas...tens muitos amigos. Simone - Olha, ciúmes, pronto, já estou mais animada. (ahaha) Raimundo - A despropósito, a policia já te largou a peúga? Simone - Nem sei...Chegaste a dizer-lhes que tinhas andado a comer a Custódia na véspera dela morrer? Raimundo - Como é que sabes isso!? Simone - Disse-me a Viviane, olaré! Raimundo - E desde quando é que sabes isso? Simone - Se me convidares para ja...

A Circular

É com grata satisfação que a Associação Portuguesa de Epigrafistas vem informar os seus associados e amigos que finalmente foi concluída a negociação com a Secretaria de Estado do Tesouro no sentido de dar substância à nossa histórica reivindicação de que fosse constituída uma taxa acessória à tributação em sede de  IRS dos rendimentos provenientes dos Direitos de Autor para reverter a favor do Fundo de Pensões do Epigrafista. Assim, passamos a transcrever o texto do nosso contentamento, extraído da Circular da DGCI «...a partir de 1 de Janeiro de 2014 será tributado adicional e autonomamente à taxa de 5% o total dos rendimentos de direitos de autor que seja englobado no rendimento a tributar em IRS...». A Aprovação no Parlamento está garantida por uma maioria muito significativa de deputados, oriundos de todas as bancadas, que sempre se mostraram muito sensíveis à nossa causa. Não queremos deixar de dar uma palavra de especial gratidão ao Escritor e Epigrafófilo Flaubert Queirós...