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A mostrar mensagens de agosto, 2005
O Sebastião da Gama comparado com isto é um pindérico A maturidade dum blog expressa-se ou pelo seu encerramento (opção maricas) ou por começar a responder ao correio dos leitores. Imaginários. Ou não. Gloria, minha querida, estimo a sua preocupação em ver-me lido e compreendido, em ver-me mesmo acarinhado por quem as minhas palavras já aqueceram em noites de gélida solidão ou madrugadas de baço orvalho. Constato ainda que se apoquenta um pouco com a presença duma convidada neste espaço de encantos contraditórios e de recantos pouco namoradeiros, mas não leve isso muito a peito trata-se duma amiga de alma provocadora e rebelde, amante das intermitências e dos vazios, e que só não se chega mais à frente porque ainda não confia totalmente em mim e tem medo que eu salte de surpresa em surpresa até ao desprendimento total. A um homem fica mal apregoar-se de confiança, mas eu acho-me pessoa pacata e de quase bucólicos costumes, temeroso de incomodar e de criar sobressaltos de alma a quem q...
Conto da idade da gaja lascada Ela alimentava-se de desgostos de amor e até já lhes achava graça. Tinha-se especializado em ironias relacionadas com enganos e desenganos e nos dias mais inspirados tornava-se sarcástica com amantes de ocasião. Tinha pedido uma autorização especial ao criador para nunca vir a dar serventia a paixões de índole para-sexual e este inesperadamente tinha-lha deferido. Talvez tivesse ajudado ela ter prometido aos santinhos que nunca se deitaria em nenhum divã descodificador de sonhos e de humidades adolescentes e por isso conseguiu garantir uma vidinha de desejos controlados e compactados, uma espécie de love em mp3 na versão iFod toda abonecada. Ser uma mulher jeitosa era algo que também ajudava ao seu modo de vida no qual pavoneava perversidade polvilhada com floreados de inocência e mesmo sem se chamar rosa quando arredondava a saia já sabia o efeito que produzia nos canteiros adjacentes. Parecia doutra era, como que saída dum Woodstock mas com Vidal Sassoo...
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'precious things' (i) (i) Bic Runga
A "divina" tragicomédia "Nós pensamos que temos muitos desejos, mas na verdade temos apenas um. [...] Viver para sempre." (*) (*) “A História Secreta”, Donna Tartt, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 2005 (pg. 60)
O dicionário não ilustrado faz das tripas coração e dedica-se às anatomias alternativas de peito feito, procurando no entanto não se transformar numa mera língua de trapos. ( entradas 1078 a 1085) Pé de atleta – Ao contrário do que se pensa uma boa micose é a única real garantia de que deixamos rasto Rabo pelado – Aparentando representar uma vida cheia de experiência, muitas vezes não passa dum sinal de que vivemos arrastando-nos pelas paredes mas apreciando um falso rei na barriga. Ouvidos de mercador – Saber ouvir é a solução de recurso para aqueles que não conseguem saber olhar. As palavras escondem-se sempre nas conjugações, vivem dos sinais de fumo dos advérbios e por isso quando chegam os adjectivos a mentes mais esclarecidas já estão mas é na sesta. Jogo de cintura – Apesar de também poder ser utilizado numa daquelas inexplicáveis fraquezas da natureza humana que é a dança, deverá ser considerado como uma vantagem sempre que seja necessário enroscar a existência numa cavilha ap...
Agora fiquei embouchado Confesso que não estava à espera que esta casa séria fosse de rompante invadida pela odalisca loira e adolescente que Boucher pintou para o maninho da mme Pompadour, se bem que pelos vistos a modelo terá ido ao atelier do artista sempre acompanhada pela mãezinha, benza-a Deus. Este rapaz que hoje seria certamente fornecedor exclusivo dos calendários da Michelin e que levaria a playboy a ter de mudar de ramo, converteu-me a iconoclasta militante – dado que para iconocasto já vai tarde – no dia em que há muitos anos fui ver ao Louvre uma tal de ‘Diana a sair do banhinho’ que Renoir terá dito ‘ser a primeira pintura que lhe ficou gravada para sempre, e que Boucher seria um dos homens que melhor percebia o corpo feminino: com umas nádegas jovens e umas ligeiras ondulações fazia precisamente apenas o que era preciso’(*). Ora aquilo não me convenceu totalmente tanto mais que o quadro mostrava apenas uns joelhitos e umas mamitas e um adolescente quer mais, dir-se-ia me...
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¡Uf, qué calor, Señor! (i) François Boucher (1752). "Ruhendes Mädchen", óleo s/ tela, 59 x 73 cm. Alte Pinakothek, München (i) Sancho, algures em 'Dom Quijote'
Apenas meia dúzia de entradas do dicionário não ilustrado para arejar dos empolgantes dias que correm, desimpedir as fossas nasais e editar um palavrão. ( entradas 1072 a 1077) Recessão na blogosfera – Prova de que não basta um peseiro para haver problemas de micoses no balneário mental. Faixa de gaza - Tratamento sucedâneo ao da liga de gaze em que se substitui o betadine por pomadinha de colonatos em pachos quentes Mensalão – Prova de que à falta de Collor houve que dar um cheirinho à coisa Cartazes das autárquicas – Prova de que Deus e o livre arbítrio existem, Noé foi abençoado mais a sua arca que nem era frigorífica, mas as tipografias ficaram entregues aos bichos sem parceiro. ( e alguém pode limpar os óculos da MJNpinto faxavor) Portugal Armandilhado - ‘Fábrica de chocolate’ gerida pelo ‘gang dos tubarões’ Fogos – Se arder sem se ver é amor, mas ao se vir é fodido
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pirron(o)crash(ia) Marc Chagall (1970). "Le grand cirque", lápis e guache s/ papel, 68 x 101 cm. Museum der Moderne, Salzburg Surpreender – Devemos entrar para a arena apetrechados de nariz encarnado e de chicote, mas só no final verdadeiramente descobriremos se fomos palhaços ou domadores, consoante as palmas e os risinhos venham das crianças ou dos leões.
Post sem qualquer interesse, apenas sexo implícito . Um dos múltiplos ‘desafios’ das artes plásticas é a utilização dos chamados materiais com sensualidade . Esta é além disso mais uma daquelas boas expressões, e sedutora diga-se, que utiliza duas palavras igualmente jeitosas: ‘material’ e ‘sensualidade’. É pois bem verdade que a borracha é mais interessante (esta palavra também me persegue) que o papel cavalinho, a espuma mais estimulante que o cartão canelado, a gelatina mais insinuante que uma chapa quinada, há quem faça milagres com o teflon que nem os melhores silicones suspeitariam, e isto agora chega senão nunca mais acabava de exemplos (todos os maximalistas militantes sucumbem à tirania efusiva do exemplo). Não é o sexo que comanda a vida, isso é verdade, não será no coito onde mais nos entalamos, e nem será até o orgasmo sequer a sensação mais limite que a nossa natureza carnal pode produzir, no entanto é em torno da nossa condição sexual, e erótica se quisermos ser mais abra...
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... Agnolo Bronzino (1540-50). "An Allegory with Venus and Cupid" (aka "A Triumph of Venus"), óleo s/ madeira, 146,5 x 116,8 cm. National Gallery, London
No girls, no gods, só guedelhudos, alcool free. Não terá um apelido de Belanciano ou Bonifácio, os verdadeiros BB da crítica musical do Público, mas sim P. Rios que nos apresenta o disco dos Vetiver com uma sobriedade estilística que me fazia quase ficar ‘pachorrento’ e com a ‘percussão verbal suavizada’ não fora a possibilidade que me dá de falar do Devendra Banhart que também dá a sua mãozinha neste disco, e me desvia assim da enorme tentação que seria escrever sobre uma outra crítica (que vem logo acima na mesma página) e que se intitula ‘soul desconstrucionista’ e me lembra vertiginosamente esta nova tendência da moda de tornar a filosofia numa panaceia, como que fosse uma técnica saída duma espécie de mistura de igreja maná para letrados em iniciação poética com terapias budistas embebidas em chá verde. Mas no fundo o sonho de muitos filósofos será serem Paulos Coelhos com pedigree. Pessoal, a filosofia faz ao espírito pouco mais que um laxante a um intestino preguiçoso: alivia o ...
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fa (i) r (y) inquiries: wer ist ich und wer ist du? Oskar Schlemmer (1937). "Interieur mit sechs Figuren", óleo s/ tela, 43 x 92 cm. Museum der Moderne, Salzburg
Desmaker residance Noites de reza & dança Eram o grupinho dos desiludidos da filosofia. Acreditavam que o pensamento depois de nietzsche e de wittgenstein já não é o que era, a sua desvalorização tinha-o colocado no devido lugar, ao mesmo nível do caril ou do escabeche ou da coentrada, e pouco mais serviria que para decorar e tornar mais atraente e suportável uma existência destinada a pulverizar-se. Barthes e Bachelardes enchiam-lhes o goto, e depois caíam em êxtases psicadélicos com os grandes místicos: diziam que deus apenas lhes solicitava a imolação do seu prazer, e assim dançavam e ofereciam o corpo esvaído em movimento e som e transcendência em saldo. O resto da comensalidade distraía-se com aquilo, os joelhos das mulheres libertavam-se da sua função de dobradiça e revelavam-se como rótulas de anjos, era bom para o negócio, subia quase sempre o consumo do gin tónico o que ainda para mais garantia um novo festim de ressacas. Não se via em mais lugar nenhum deus tão próximo da...
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little things: 'wir'
no rules, acabou-se a massa folhada, ‘tá de chuva, no scotch, great music. «A cultura pop tem aquele duplo problema de necessitar tanto da legitimidade do novo como de se fincar em si própria num modelo de repetição e diferença para se outorgar valor próprio». Não, não se trata dum texto teórico de Armando Vara, mas sim o crítico musical de turno no ‘Público’ de 6ª feira passada tomando balanço para nos dar a saborear metonimicamente o novo disco de Archer Prewitt, ‘Wilderness’. Qual filosofo psicanalista da pop -talvez um novo lancan-popperizado em vinagrete – o crítico põe a hermeneutica no divã e praticamente num vol-au-vent de livre associação diz-nos que tudo assenta no triângulo mágico: ‘trejeitos melódicos’-‘maneirismos’-bordejamentos’. E é neste contexto quase erótico a la carte e geométrico-epistemológico que Archer, agora Pitagorizado, consegue descobrir hipotesudas, perdão hipotenusas, e ultrapassar assim a neura do criador musical ao incorporar tranquilamente o freudiano ‘t...