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O triângulo mágico inveja, cobiça, ciúme atinge o seu clímax geométrico na desconfiança. É ela que lhes dá o volume, transformando o que se poderia ficar como mera figura artística do plano numa pomposa pirâmide por si encimada. Não deixa de ser estranho o papel que assumem na condição humana algumas propriedades da personalidade que, vistas sem circunstanciação, parecem autênticos monstros de parábola. Mas toda a doutrina moral devia ser muito cuidadosa a abordá-las. Quando o homem sai de si próprio a primeira poça que pisa é a da cobiça. Delicadamente os poetas chamaram-lhe deslumbramento, os prosadores fantasia e, por último, os confessores pecado, por isso muitas vezes não nos damos conta de que é apenas um buraco com água parada. Mal refeito e de pés molhados o homem pisa de seguida uma bosta chamada inveja. Sente-se logo mais desconfortável com o cheiro, o toque pastoso, e procura limpar-se apressado e ajudado pela grande madrinha: a vergonha; eis quando pensava que já poderia an...

um pouco mais de itálicos, por favor

Quando Deus inventou a mente humana apetrechou-a imediatamente de dois componentes fundamentais: a mentira e a vergonha. Sem eles o homem vegetaria num jardim de plástico onde os cães iriam alçar da perna para apreciar o troar do mijo. Abençoada a capacidade de chamarmos magro ao gordo, estúpido ao inteligente, novo ao velho e bonito ao feio. Demos graças por tremermos por dentro à mais leve ameaça de sermos considerados incompetentes pelos nossos filhos, imorais pelos nossos pais, flatulentes pelos nossos vizinhos. A muito pouco devemos mais do que à mentira e à vergonha. A coragem e a lealdade saberiam a palha, o amor e a amizade seriam quimeras de batráquio. A primeira mentira e o primeiro rubor são os segundos baptismos da alma, como irmãos que beberam do leite da mesma loba e fundaram as raízes da liberdade humana.

tudo isto é para ler em itálico

Como é possível que já todos tenhamos dado conta, as percepções e as aparências são muito mais reais que os factos. O homem antes de ser racional ou mesmo sensorial é um animal de revelações. É por isso que o fenómeno mais importante da humanidade (como história e como entidade sociológica) é uma revelação que vive muito mais da aparência e da percepção do que do facto em si. O indeterminismo antropológico (leia-se: o homem como máquina psicológica de reacções e hábitos) alimenta-se precisamente desta superlativa dose de maluqueira que temos inscrita nos, vá lá, genes, para utilizar um termo assim mais cocozinho. O mecanismo religioso é a mais fantástica gestão que o homem (leia-se: máquina psicológica de reacções e hábitos) descobriu no seu interior para fazer da percepção e da aparência verdadeiras fadas do lar (leia-se: lar como último reduto da tal máquina psicológica). Assim, concluo, quem não tiver desenvolvido - não basta ter, tem mesmo de desenvolver - uma rotina religiosa ness...