Dou-me bem com a religiosidade miserável. Gosto de igrejas com gente sofrida, de pele enrugada, olhar escondido e pecados à flor da dita, apenas procurando carinho na madeira polida do genuflexório, e disponíveis para dar um bocado do seu braço por troca duma alma ainda na fase dos caboucos. Gente que dá uma na chaga e outra na cicatriz; não acredito em angústias limpas, dúvidas musicadas, teologias libertadoras, credos em cinemascope. Mas também gosto daquela pequena baba da hipocrisia, do esgar do escrúpulo, da gente que pensa conseguir lavar a alma com meia hora de cheiro a cabelos oleosos. No fundo o catolicismo adapta-se bem a gente, como eu, pouco esquisita. Gosto da parte estúpida da fé, da boca cheia de palavras de sentido e gosto duvidoso, do dogma desnecessário, da ameaça escatológica. O que seria da fé cristã se não pudéssemos pensar em Deus morto por nós na cruz enquanto desesperamos por uns bons pastéis de bacalhau. O que seria da fé sem a incompetência para perceber o mun...
Comentários
«mau maria» - interjeição de pendor popular que procurava produzir um singelo alerta sobre a alta sensibilidade do autor deste humilde blog em relação à sua (dele, ou seja, minha, o autor) frágil condição de lagarto.
«biba penacova» - interjeição também de indole popular - mas com evidente potencial de erudição - que visava enaltecer uma localidade, que, já de si, também enaltece as margens do belo rio Mondego, - com ou sem lampreia - um rio, diga-se, que está aí para as curvas.
respeitosa, e não menos ansiosamente, espero que, esclarecedor