Discos nunca pedidos Lalala lala lala «E cada pensamento fugitivo, cada desejo, cada sonho Poderá estar dissimulado nas minhas palavras. Saberá reconhecê-los a todos.» Lalalalalalala «Quando em sonhos me junto a ti, Tenho sempre flores nos cabelos.» Lalalalala lala lala «Não desejo falar a ninguém Para não desperdiçar o eco das tuas palavras Que tremula como um esmalte sobre as minhas E as faz soar mais ternas» Lalalalalalalala «Quando em sonhos me junto a ti, Tenho sempre flores nos cabelos.» Lalalalala lala lala «Recuso os sonhos que te ignoram E os desejos que não possas despertar. Não quero fazer um gesto que não te louve, Nem cuidar uma flor que não te enfeite» Lalalalalalalala «Quando em sonhos me junto a ti, Tenho sempre flores nos cabelos.» Lalalalala lala lala «A propósito dos meus dias, Devo ainda confiar-te que são pobres Porque estás ausente deles E ricos, porque a tua bondade irradia sobre todas as coisas» Lalalalalalalala «Quando em sonhos me junto a ti, Tenho sempre flor...
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A mostrar mensagens de abril, 2006
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O Ano 2020 e o Jogo da Sueca no Gambrinus Pereira, Sousa, Tavares e Valente, tinham finalmente o seu lugar na história: Guidinha (Margarida RP passara a usar este improvável pseudónimo para fugir do George que não lhe largava a peúga) escrevera uma versão light dos Lusíadas, chamada ‘Vai um arrozinho de polvo na Taprobana’ e tinha-os colocado praticamente ao nível de cronistas oficiais do reino, fazendo esquecer o velho do Restelo que agora parecia um mero afinador de taxímetros de aeroporto. Face à nova regra das reformas instituída por Sócrates estes quatro tinham mantido as suas colunas activas (mesmo que já meio marrecas) até idade avançada e agora, já com o país e a previdência salva, podiam dedicar-se ao seu verdadeiro ideal reprimido: borrifarem-se para a nação que os tinha alimentado e dizerem mal apenas uns dos outros, chamarem-se aldrabões à desgarrada, darem mútua, mas não simbolicamente, umas caneladas debaixo da mesa, fazerem graçolas ordinárias, dizerem mal do Peres Mete...
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Catecismo ribonucleico O biólogo comenta o teólogo. Pode assistir-se, e em directo, no Memória-Inventada . Ora como tudo é memória, como diria – aqui ficava bem pôr Lili Caneças, mas vou evitar – qualquer sujeito que tivesse levado uma forte marretada na carola em qualquer dos hemisférios, tudo é possível, tudo pode ser semântico, tudo pode ser figura de estilo, tudo pode estar relacionado com um neurónio mais atrevido e nada nos deve apoquentar. Ficamos pois a saber, porque foi o Gould quem o disse claro, que ciência e religião são dois magistérios de influência (tipo Mário soares, mas em bom) que não se tocam; constituem, por assim dizer, uma sublimação epistemológica do estilo ‘ir às putas’, ou seja: tudo menos beijos na boca. Terei – felizmente – de deixar Darwin em paz, para não assarapantar as hostes das ciências vintage , e pouco me adiantarei sobre o Teilhard porque de teólogos não reza a história, but, mind your own business , tenho de conseguir brincar às metáforas com um bi...
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Lógica: um lugar estranho ou: o que faz um homem no paraíso sem uma serpente Tudo o que vale a pena leva de alguma maneira ao vício, à obsessão, a alguma dita irracionalidade, a algum metafórico inebriamento, a jogos no vazio, a ilusões de preenchimento, a maiores ou menores fantasias de exclusividade sentimental. Mas, por outro lado, nem em todos os lugares onde se alimentam estas maravilhas da nossa espiritualidade existem coisas que valham a pena. O que faz de uma condição ser apenas verdadeiramente suficiente é nunca a tornarmos necessária. Mas nem sei.
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Diário de um concubinador de palavras Hoje peguei no facalhão, capei-lhes as terminações e fiz-me ao flirt com duas piroseiras: um concomitante e um contundente; praticamente fazem o mesmo efeito que um cagando e andando mas dão-nos outra estimulação ( aquela espécie de tesão mais fina ) e o coito verbal pode dar-se logo sem precisarmos de mais entoações lúbricas. Mas ó ingrata, ó fulminante e flácida distracção porque me deste cabo do discurso no momento do deslumbre, serás penitência? serás castigo ? ó malfadada maleita, filha bastarda da imaginação, sedutora de mentes frágeis, só te encaixas em corações sem quorum! Tive de me arranjar com outras à pressa, cornucópias de ocasião, vulvas de esquina, partes rebaixadas, caves de suor, odores de outras flores, olha pequei, rimei, não tornes; voltei arrependido, agora arrepanhado pelo efeito duma curva, dum sinuoso fim de dorso, nessa cova onde nos enterramos sem necessidade de epitáfio, nesse colo onde só se suspira se não aguentarmos o ...
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Diário de um concubinador de cores mas qualquer homem depois da batota gosta de recolher ao colo da submissão a trunfo Vai fazer agora para muitos dias que desprezei um fuscia. Estava demasiado enleado com um violeta adamascado e por isso não lhe dei o devido valor; perdida cor. Pálida imagem dei de mim próprio ao ser vencido pela pressão das cores banais, das combinações que arregalam a vista. Mas hão-de ver, hão-de ver, um dia destes faço um verde azeitona parecer-vos um azul ganga brometiado. Nada de mais fácil, basta não metalizar muito as vistas, crivar os olhos como que fornicando com eles e atarrachar a pupila. Mas vão por mim, pode custar a entender, mas toda a ciência das cores está naquele famoso enclave entre a camisa e a gravata; os impressionistas pouco sabiam, os fauvistas sabiam demais e os abstraccionismos posteriormente servidos à civilização em sortido pouco acrescentaram. Hermés e que se foda. Já sei, as combinações de cores podem-nos colocar na fronteira do apanasca...
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Diário de um concubinador de números porque um homem é antes de mais o fiel representante dum género submisso; mas batoteiro. Hoje até cheguei a sonhar que ainda poderia vir ser um especialista em conceitos, um autêntico raciocinador diplomado, tricotaria princípios-com-meios-com-fins, sacaria silogismos únicos sem desfiar, filtraria redundâncias e drenaria sofismas encapotados, amalgamaria civilizações com cânones e, sem fugir da fineza própria dum filósofo de interiores, decoraria uma escolástica para os tempos modernos. Mas não, para tal não fui benzido com os talentos da criação (parábola incluída), e a mim calharam-me a merda (sorry) dos cashflows e dos planos estratégicos entremeados duns de projects finances, sempre em leverage, sempre em leverage, sempre em leverage, e eu cada vez com menos paciência para o beverage que lhe vem associado. Uma porra, é o que é, se bem que 'porra' já pode ser levado à categoria de conceito nos seus melhores dias, coisa que por exemplo ...
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Carta ao inominável homem-do-blog Procurar princípio, meio e fim nos textos com que o autor residente desta baiúca nos surpreende ( gosta do conceito, senhor opiniondesmaker? ) é uma tarefa a que há muito deixei de me dedicar. O seu percurso pelo ilógico ( "é tão fácil escrever aquilo", diz a olhar-me nos olhos ) converte um mundo abstracto e intangível, de personagens catadas aqui e ali mas sempre nos confins do absurdo, em panóplias de respostas que não existem senão para quem as não procura porque as próprias perguntas que suscita são do domínio do invisível. Essencialmente humano no registo diversificado em que a fé faz de cordão umbilical a temas e criaturas que contracenam com o vazio, o mesmo vazio da existência posto em cena que constitui a essência própria do blogar, é pelo humor, banal às vezes e sofisticado outras, que aqui se faz o jogo último com a nossa falibilidade, lembrando-nos o quanto somos ridículos e inoperantes diante do mistério de existir apenas pelas ...
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Pascoela, olaré (andei, qual formiguinha penitencial, a acumular indulgências numa cestinha de vide para agora as vir desbaratar aqui desta maneira) Episodicamente traz-me aqui uma certa falta de pachorra para odisseias, povos eleitos, matrizes culturais e outros gilgameshes e agamemnones afins. {1} Todos sabemos, fora os que apenas suspeitam e os que nem para aí estão virados, que o ‘direito natural’ e a ‘cultura’ e a ‘civilização’ sem Deus não serviriam nem para condimentar a sopa. {2} Reduzir a verdade a um scrabble das mitologias pode continuar a parecer um entretenimento sofisticado para o oleamento dos neurónios mas nunca passará duma diversão para subversores metafísicos de bancada; ou seja, claro que podemos olhar para Jesus como um mito, ou como uma sublimação histórica ou sapiencial, ou como mais uma potencial personagem danbrowniana, tal como também podemos perfeitamente olhar para Amália como vendedora de limões, para Maradona como o tipo que marcou um golo com a mão, e n...
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Quaresma XXXVIII e nove e quarenta ( e porra que já não aguento mais esta coisa) E então, dispersos, porque uno: só mesmo Deus. Amores pré revolucionários «Embala, senhor, o meu amado até mim, para que não tenha que lhe enviar o meu choro de madrugada pelo mar» in ‘A gesta do principe Igor’ , épica medieval russa, (ed Cotovia, pg 33) Comércios pré berardianos «O marchand viu-as ( Les demoiselles d’Avignon) depois de Braque e de Derain: o primeiro achara que era como se alguém bebesse petróleo e cuspisse fogo, o segundo que o autor um dia seria encontrado enforcado atrás do quadro.(...)’Lembro-me simplesmente de que imediatamente disse a Picasso que achava as suas telas admiráveis, porque estava completamente perturbado’. Foi o começo de uma amizade.(...) ‘A nossa vida dos tempos heróicos do cubismo era uma vida simples e sem cuidados porque, repeti-lo-ei sempre, estávamos seguros da vitória, estávamos seguros de nós’ (...)mas ‘não sei se hoje seria ainda possível fazer o que eu fiz. A ...
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Quaresma XXXVII Sem este artista… «Não quieto nem inquieto meu ser calmo quero erguer alto acima de onde os homens têm prazer ou dores, o mais que pelo meio ficou obedecia à mesma conformidade, quase se dispensava. A dita é um jugo e o ser feliz oprime porque é um certo estado. Depois foi-se deitar e adormeceu logo» …nem era uma Quaresma decente. Com algumas vírgulas e uns pontos finais, (colocados sem especial critério mas certamente para facilitar a leitura ao prof dr presidente Cavaco) Saramago, num momento alto da escrita em português: ‘O ano da morte de Ricardo Reis’. Não explicando a alma, não explicando o mundo, mas ficando a meio caminho entre os dois, como uma mãe olhando para um filho a andar no carrossel (aqui a lágrima é opcional).
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Quaresma XXXVI Apenas porque isto é, sem dar muito nas vistas... «Nesse mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo o cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais q...
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Quaresma XXXV Mas se era isto que queriam escrever... «Diz ele (...) que há um súbito olhar límpido de mulher num súbito terraço, uma bola amarela de criança que vem devagar tocar-nos nos pés, qualquer coisa de violino, qualquer coisa de harpa, que vem de qualquer coisa que é noite, ou apenas silêncio, uma luz filtrada de pausa em certo fim de tarde,(...) um cisne sem lago subindo o colo daquela mulher, ou a sua nudez ansiada como espuma de carne num lençol, a curva a que a mão dá o contorno, o cansaço nos lábios mordendo o cigarro, a amplidão de repente feita olhar, (...) uma saia de roda que faz fru-fru, a luz que rompe, rindo, em face suja, alguém recupera música esquecida assobiando,(...) um amigo chega bate à porta e lembra-nos o que somos, uma frase atirada ao acaso dirige-se directamente ao coração de alguém, um pedaço de relva enrola-se nos dedos distraídos,(...) há uma gota de orvalho no teu ombro, (...) embora eu já nem saiba como hei-de dizer tudo isto» ... já não vale a pen...
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Quaresma XXXIV Basicamente... «A dignidade da pessoa humana radica na sua criação à imagem e semelhança de Deus e realiza-se na sua vocação à bem-aventurança divina. Pertence ao ser humano conduzir-se livremente até esta meta. Por seus actos deliberados, a pessoa humana conforma-se, ou não, com o bem prometido por Deus e atestado pela consciência moral. Os seres humanos edificam-se a si mesmos e crescem a partir do interior; fazem de toda a sua vida sensível e espiritual um material do próprio crescimento. Com a ajuda da graça, crescem em virtude, evitam o pecado e, se o cometeram, dele se levantam, apelando, como o filho pródigo, para a misericórdia do Pai dos Céus. Atingem, assim, a perfeição da caridade.» ...é isto. Vem no ‘Catecismo da Igreja Católica’ ( III parte, cap. 1º ). Mais areia menos camioneta, é isto. Paramentos à parte.
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Quaresma XXXIII Porque... «Detém-te e deixa que de teus olhos colha, para me sustentar na viagem, um simples olhar teu! Mas se tal te parece esmola exagerada, não ma dês e abandona-me à minha solitária tristeza e à minha dor.» ... apenas as tristezas pagam verdadeiramente as dívidas. Não foi nenhuma alma russa que o disse, foi Xerazade, nas ‘Mil e uma noites’. Mais precisamente na 33º. (ed Temas e debates, pg 307).
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Quaresma XXXII Não é que isto ainda esteja totalmente actualizado... «Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal e colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranóia, exibição trágica, não aquela desinibida, que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós.» ... mas... Eduardo Lourenço no ‘Labirinto da Saudade’ ( ed Gradiva, pg 77). Do tempo em que o mais light que havia na escrita era praí o Sttau Monteiro.
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Quaresma XXXI’’ Mas afinal havia este... «Le manque de goût de Dostoievski, son commerce monotone avec des êtres souffrant de complexes préfreudiens, sa façon de se complaire dans les mésaventures tragiques de la dignité humaine, voilá qui est difficile à admirer. Je n’aime pas cet expédient auquel ont recours ses personnages et qui consiste à 'paver de péchés la voi qui mène à Jesus'» ...o Nabokov, nas suas ‘Littératures II’ ( ed Fayard, pg 158). Mas relaxemos porque este tipo está para a literatura como o Guterres para as percentagens do PIB.
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Quaresma XXXI’ Isto sim... «Em Dostoievski (...) quando as personagens desejam qualquer coisa, preferem ser repudiadas a ser exaltadas. (...) No desejo já gozam o prazer; no prazer sentem já o fastio; no acto saboreiam o arrependimento, e(..) no arrependimento sentem de novo a acção. (...) Mas o que é mais surpreendente é a análise do amor. (...) Para ele o amor não é um estado de felicidade, um acordo, mas uma luta sublimada. (...) Quando as personagens de Dostoievski se amam com um amor retribuído, não encontram a calma; nunca são tão agitadas pelas contradições do seu ser como no momento em que o amor corresponde ao amor. (...) O fenómeno do amor duplo, tão complicado nos outros romancistas, é banal, natural em Dostoievski» ... são amores para homens; como bem descreve Stefan Zweig no seu ‘Três mestres- Balzac-Dickens-Dostoievski’ (ed. Civilização, 1976, pg 209 e segs). E por isso desconfiem sempre das reais capacidades de um homem seguro num amor correspondido.
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Quaresma XXXI E aparentemente sem pozinhos de cheiro... «A desordem é geral. E geral também a inquietação. O que tortura esses seres não são a doença ou o temor do dia seguinte: é Deus. Por gentileza do seu autor, estão libertos das pequenas arrelias e preocupações quotidianas a fim de serem colocados, nus, em face do Mistério. A sua vida activa corresponde à nossa vida profunda. Eles são nós mesmos observados do interior. Graças a esse método de ‘tomada de vistas’, o que está mais perto do operador é o tormento mais inconsciente, o que dele está mais afastado é a carne, a roupa, a luz do dia. (...) E, quando nos mostram essa prova de nós mesmos, não nos reconhecemos melhor do que numa radiografia» ... é este o Dostoievski que H. Troyat descreve no capítulo da sua Biografia ( ed Lello & irmão, pg 377) dedicado aos ‘Irmãos Karamanzov’, no qual o escritor faria a tal conciliação dos inconciliáveis: «o fantástico e o real».
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Quaresma XXX E agora isto... «We also now know that individuals can acquire the habit of achievement but can also acquire the habit of defeat. (…) But losers always learn one thing, and that to perfection: resistance against being driven. They may not be able to achieve, but they know how to sabotage» …de Peter Drucker, em ‘People and Performance’ (ed Heinemann. 1979, pg 251, 256) que há muitos anos me afastava (felizmente) de Proust e atrasava ( felizmente, vistas bem as coisas) de Joyce, mas que, por acaso, não me incompatibilizou (inesperadamente) nem com Dostoievski nem com Beckett. Hoje, actual, como nunca. Até no mundo literário.
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Quaresma XXIX Isto disse Mario ... «quando eu escrevi Tia Julia , pensava exclusivamente em contar a história de Pedro Camacho, o autor de novelas de rádio. Quando eu já tinha o romance adiantado pareceu-me que essa história se iria converter em uma espécie de jogo mental, uma espécie de divertimento. Iria parecer muito pouco verosímil. E eu (...) tenho uma espécie de mania realista. Então ocorreu-me a ideia de produzir uma espécie de contraponto(...) uma história pessoal, que fosse como uma ancora do romance fincada na realidade vivida.(...) Ao tentar isso, dei-me conta de que não se pode fazê-lo – quer dizer, quando alguém escreve ficção, há um elemento de efabulação, de irrealidade que se introduz sempre, mesmo contra a vontade do próprio autor, inclusive nesses episódios – digamos assim verídicos. Assim, o resultado foi que a história pessoal era tão delirante como a outra.» ... Vargas Llosa numa entrevista a Ricardo Setti editada pelo D. Quixote ( 1988, pg 58) referindo-se ao seu ...