Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2004
Nos tempos em que tudo parece omnipresente e “omninsinuante”, fui suscitado pelo mecanismo da falta. A epifania é uma palavra que entrou na moda, mas de facto, uma ausência só se saboreia mesmo com um regresso, com uma aparição. A ausência jubila-se nesse regresso. E rejubila-se na permanência. Mas acho que estamos é com falta das ausências. Só que das certas. Despojamento a metro no novo dicionário não ilustrado , que não se acanha, e assoma e persegue: ( entradas 591 a 602 ) Posse: ausência de pobreza – Quando não se consegue jogar golf só com os buracos, acabamos obcecados em estatísticas handicapadas e sem desfrutar de cada tacada. (Agora ia dizer que “as bolas só atrapalham” mas acobardei-me) Companhia: ausência de solidão – Quando não se consegue obter respostas sem ter feito uma única pergunta, acabamos viciados em ser olhados. Paz: ausência de conflito – Quando se escolhe uma síntese de compromisso é porque já não se aguenta o fedor da contradição, que entretanto se descalçou, ...
«No escribo por pasar el rato / sino la eternidad » ...quem me dera... Hoje vinha aqui como se fosse apenas um ritual, Só que apanhei o Unamuno pelo caminho «Oh, no busqueís la letra, la que mata,/ lo que vida nos da, buscad espiritú!» E fica-se a pensar nesta “treta”, forçosamente; Mas o espanhol não desamparava a loja «...Mientras la mente, livre de la losa / del pensamiento, fuente de ilusiones,/ dorme al sol en tu mano poderosa» Pormo-nos nas mãos de alguém? Isto não é do nosso tempo! O futuro somos nós que o construímos, é o que todos dizem «Ya sé lo que és lo porvenir: la espera/ tupida de ânsia, devorar las horas/ sin palardearlas, confundir auroras/ con ocasos » Chateio-me quando desemboco nestes “equívocos” de continuidade. Bem, mas sempre aliviei o ritual. Também é algo que vale. Agora vou. «Matar el tiempo de qualquier manera / forzando al sueño;»
No que um tipo pensa depois de ter arrumado a cozinha Já há uns tempos – e num determinado contexto - o Portugal dos Pequeninos escreveu com brilho: « Mergulhados até ao pescoço nas desventuras da "contabilidade nacional", esquecemos que este "resto que é tudo" constitui, na verdade, o nosso verdadeiro déficit» . Inundados que estamos por uma mentalidade de “deve e haver”, sufocamos com a realidade que nunca dá conta certa, e ficamos quase sempre sem saber o que fazer aos restos. Muitas vezes sacudimos as mãos dizendo que o problema é do regime, como se isso nos desculpasse para não termos de apanhar as migalhas e pô-las no caixote do lixo. É que lixo é lixo. Quer se recicle ou não. Agora que uma conduta dá muito jeito, lá isso dá. E já que não há um ministério dos “bons costumes”, pelo menos podia haver um da boa "conduta”....
“ Salvum fac temetipsum, et nos” Uma pergunta que o Tiago fez recentemente é uma voz a pedir o devido eco das dunas. O episódio dos dois ladrões junto a Cristo na Cruz é dos momentos mais marcantes da revelação. Agora só duas singelas doses. 1ª Dose – Deus e homem São de facto interessantes esses momentos bíblicos em que parece ficar uma ovelha negra a “pairar no ar” - por exemplo, eu se fosse irmão do filho pródigo também teria ficado ”em brasa”... Cristo aparece muitas vezes disfarçado numa “salada” adverbial e adjectivada, mas tudo se pode substantivar “pensando” que Jesus era Deus e homem ao mesmo tempo. Esmiuçando: Jesus foi Deus para o bom ladrão quando este lhe descortinou a omnipotência camuflada na impotência, e lhe pediu que se lembrasse d’ele – foi assim prepotente, discricionário, misericordioso e magnânime. Para o outro ladrão foi apenas homem naquele momento. Jesus deve ter pensado: Cala-te meu, estão-me a doer as costas como o raio, e tu estás praí a chagar-me o juízo, ...
O itinerário de uma opinião Subsídios para um case-study Mas é só uma vez, sem exemplo 1ª etapa – O terrorismo é oficializado como a ignomínia dos tempos modernos 2ª etapa – É tido como de “bom tom” dizer que esses gajos só de “pilinha em refogado” 3ª etapa – O inefável Soares alude à possibilidade de negociar com os demónios 4ª etapa – Soares é trucidado pela opiniolite de turno e até causa um espumado mau estar nos jantares de família 5º etapa – Soares esclarece as massas, dando exemplos e matizando uma realidade que parecia um bloco de cimento 6º etapa – A opinião de Soares já só vai aparecendo numas piaditas de recurso 7ª etapa – Começam a produzir-se as primeiras insinuações enquadrando e relativizando as ideias de Soares 8ª etapa – Afloram-se os primeiros artigos teóricos fundamentando historicamente que a opinião de Soares se baseia numa visão realista e não imediatista dos factos 9ª etapa – Escorrem crónicas confirmando que a negociação é afinal a única alternativa, e que era p...
Nem tudo o sara é mágico Ouvir Saramago a dizer baboseiras em directo, dando aquele ar de que pensa coisas que mais ninguém alcança, e continuar a gostar dele como escritor, reforça a ideia de que a literatura ainda é um luxo e que o pensamento pode ser apenas uma solução de recurso da pelintragem. Lembro-me sempre da frase de Fernando Pessoa (R.R.) que ele recolhe no início do “Ano na Morte de Ricardo Reis” : “ Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” . E fica-me agora esta dúvida de natureza estatística: haverá mais aforismos para “sábio” ou para “palerma”? Todas as palavras podem ter a sua magia. Mas nem todas curam os males do mundo.
Não fiques rubberizado “Onde está então o segredo? Nos pneus, só pode estar nos pneus! Já nos tínhamos habituado à sua evolução contínua, mas este ano parece que estamos mais no domínio da revolução. (...) A guerra, também nos pneus, está mais aberta do que nunca. A Michelin vai ser obrigada a reagir, o que vai elevar ainda mais o nível. Até onde? Onde está o limite da borracha?” Quem escreve isto é meu amigo . É o que se chama um gajo sério. Tem o terrível defeito de só falar do que sabe. É “maluco” por carros. Mas à “conta da borracha dos pneus” “explica-nos” que o “mundo” está a rolar depressa demais por causa duma “merda” que nem é dura, nem é mole. Como a verdade. Como os factos. Como o poder. Hoje vou-lhe telefonar e perguntar-lhe quem é que ele acha que matou mais: se “Sharon + Arafat” ou se “umas tais de contas na Suiça do tal de presidente dum tal de país que foi dum tal de Portugal”. Ele vai-me responder que pôr tudo no mesmo saco não explica nada. Que eu sou um viciado no mi...
Afinal fui antes ao pediatra O sacana só falou por enigmas. E não me receitou nenhuma pomada. E disse: “Uma cadeira de rodas não é um berçário. A paz não é uma papa cerelac. Não há guerras descartáveis. Um bom texto de posologia não substitui uma vacina. Um diagnóstico bem esgalhado não nos alivia duma picadela de injecção. Uma lambidela de cão não substitui um Benuron. Os felinos são maus para as alergias. Mas há que deixar o organismo ir criando as suas defesas” Não percebi nada. Vou mas é para as urgências. É pena não haver revistas com miúdas giras na sala de espera . Ah...mas já não há listas de espera.
Estou com falta de termos Detestaria ser "prior de uma freguesia" onde os canalhas também fossem vítimas e os inocentes também fossem uns bandalhos. Para já fico-me como "sacristão" de bancada
Hoje estou de trompas Sou um leitor com muito pouca personalidade. Deixo-me levar. Por isso uso repelente para a crítica literária. Porque ainda gosto de ser levado. Não foram poucas as vezes que no passado a critica literária me estragou leituras. Ontem fui dar de frente com um dos que a crítica me estragou a meio da leitura: “Fúria” do Salman Rushdie. Escritor de que gosto. Pronto, gosto. Pelos vistos ia na página 118 «- Suponho que estejas a ovular – disse ele, e Eleanor afastou a cara como se ele lhe tivesse batido» Bem, não sei se teria chegado a ler esta frase. Felizmente. Aquilo não é coisa que se diga a uma senhora. Um crítico literário, sim ...esse sim, tem tendência a estar sempre a ovular; precisa de estar prenhe de esperma semântico. Mas nos dias de hoje muito boa gente vive com esta fecundação palavrosa, resultado talvez de alguma jactância precoce. Mal “preservativada”, não sei. Muitas vezes disfarçada da célebre autocomiseração estética. De efeito esgotado. «Mas eu est...
A populaça tem dificuldade em reagir contra um poder ineficiente ou negligente. Os mais letrados e esclarecidos dissertam sobre a crise de representatividade. Os mais rústicos enfabulam sobre o “fodido e mal pago”. Hoje o novo dicionário não ilustrado coloca-se estrategicamente na encruzilhada da cidadania ( ou julgavam que eu andava aqui a brincar aos blogues) e elenca as hipóteses de reacção: ( entradas 581 a 590) Manifestações de rua – Pôr a expressão corporal ao serviço do bem estar público, sem ter de pagar mensalidade no health club, mas sabendo que mostrar o rabo continua a ser a única garantia de sucesso. Abaixo-assinados – Rabisco gostoso porque não produz um débito de conta automático. Infelizmente a eficiência não está subordinada à beleza do hieróglifo Usar T´shirts obscenas – Como o algodão não engana há quem crie muitas expectativas na estampagem. Os corantes em saldo podem fazer com que eficácia das mensagens debote ridiculamente com a lavagem dos dias Fazer partidos “n...
Soares não se fica pelas palavras vãs. E eu não consigo resistir a isto. Pus-me “à coca” e fui outra vez apanhar uma chamadita... Soares & Bin and Mia Soares – Bin ...és tu rapaz? Bin Laden – É pá como é que arranjaste o meu número de telefone Soares – Sabes que eu nunca deixo cair um amigo, e por isso tenho rapaziada conhecida por todo o lado... Bin – Tu és danado pá. É bom ouvir uma voz meiga e compreensiva Soares – Não te estiques. Esta conversa amanhã vem de certeza na TVI. Felizmente tu não precisas muito de disfarçar a voz porque já falas mal como a merda. Bin – Então mas a que devo a honra da chamada Soares – É pá, eu queria saber que problemas é que eu tu tens tido, para andares assim tão enervado. BIn – Isto tudo começou quando eu reparei que o meu pai andava a explorar os palestinianos na empresas de construção civil lá na Arábia Saudita.. Soares – Então mas vocês não tinham ucranianos ? Bin – É pá nessa altura os ucranianos não acartavam tijolo Soares – Ah pois... e eu n...
Gosto de lugares comuns, repito-me. São os que dão melhor guarida. Sabendo que o meu pai nunca lerá isto. Nem os meus filhos. E sem saber se o novo dicionário não ilustrado “as aceita”, aqui estão umas entradas para o dia do pai. Uma coisa ligeirinha, a roçar a psicolite, mas sentida. São as “águas dum pai” rebentadas online: (para variar já cheguei aqui atrasado às comemorações) Pai soletrado – É um “ai” com um “p” no início para dar mais peso Pai facto – Puro acto de fé, corroborado pelas parecenças físicas e pelos dislates de carácter Pai espaço – Acusado de ausente, mas que se pode sentir dispensado quando está presente Pai poema – Renegado das rimas, foragido das metáforas e esquecido das grandes epopeias do coração Pai cash & carry – Algo que convém ter sempre à mão Pai polícia – Afastado das investigações mais estimulantes, ficou colocado nas rondas de circunstância Pai ladrão – O que rouba a liberdade quando ela parecia ser mas precisa Pai mãe – O que precisa de sentir a pe...
“Filosofia Crucificada” Eu adoro ser maçador e falar sobre os assuntos quando eles até parecem que já enjoam. Tomo Nausefe como uma grávida por causa dos aviões e por isso estou defendido. A reaparição do “holocausto terrorista” junto ao “dueto sem cordas” do judaísmo e da paixão de Cristo voltou a trazer-me à memória uma pessoa muito singular. Edith Stein . Ou se quisermos, Sta Teresa Benedita da Cruz, canonizada por João Paulo II em 98. Não vou atascar isto de misticismos (a sua conversão está intimamente ligada à leitura de Sta Teresa), nem de interpretações judaico-cristãs (apesar dela poder representar, como já li algures, o mais “problemático” judeu depois de S. Paulo de Tarso), nem de variações sobre o seu passado de filósofa fenomenologista (foi discípula de Husserl, como muitos saberão) Edith morre em Auschwitz quando estaria a escrever um livro num mosteiro carmelita holandês: “ A ciência da Cruz”. E aqui paro porque já estou a abusar da “piridoxina” e da “diciclomina” (fui v...
O povo sufragante parece que se move por motivos secretos, num ritual abafado e obscuro. Hoje o Novo dicionário não ilustrado mostra o que de facto faz mover o povo, quem lhe serve de acólito ao juízo, quem lhe emprenha o discernimento. Uma dúzia de entraduchas entre o nº569 e o 580, ziguezagueando sobre o que faz levar as pessoas a decidir da sua vida. Ideais – Cozinhado mal amanhado de conjunções verbais que no desrespeito pelo sujeito glorificam o predicado. As vírgulas acabam por atrapalhar muito porque obrigam a pausas para pensar. (tal como aqui no dicionário) Sexto sentido – Quinta-essência do ocultismo fenomenologista, vagamente encontrado entre o olfacto e o cheiro, a meio caminho do odor, e que pode virar expectoração com o tempo “Eu tenho um dedinho que adivinha” – Na falta de orifícios bem lubrificados, os apêndices manipulares acabam por se ver com funções para as quais não estavam preparados. Cuspir na pontinha pode ajudar quando a unha está a produzir demasiada electric...
“Toni convidado para suceder a Jesus” Título dum jornal referindo-se à possibilidade de mudança de treinador do V.Guimarães A possibilidade de ser “Toni” é um estigma que pode perseguir qualquer mortal que tenha por nome António. Eu dissimulo muito, é verdade, mas por acaso chamo-me mesmo António. Tenho pois essa espada apontada à frágil imagem que incorporo, adocico e avalizo. Mas ai de quem! Ora quando leio que um Toni pode substituir Jesus, há algo que “s’alevanta” na alma, e que me faz repensar toda a existência! Essa mera possibilidade de um Toni vir a representar a perpetuação da imagem redentora do Filho do carpinteiro deixa-me num êxtase semiótico sem paralelo. Muitos foram os nomes escolhidos, mas poucos os eleitos! Poder ser Toni é então hoje uma honra que se me encavalita e acocora de agradecimento. Todos os outros nomes que se ponham na bicha. Nunca uma corruptela virou mito. Nunca um diminutivo chegou tão próximo da divindade. Confesso que não sei como é que este empolgant...
Somos de seres de condição sequestrada, mas de espírito livre. Siga a marinha. Guterres y Zapatero, at the phone Guti – É pá, tu nem sabes na alhada em que te meteste Zapa – Eu se calhar vou mas é dizer já que isto está um pântano Guti – Não, primeiro vê se há aí alguma pintura rupestre no meio duma barragem em construção, e isso entretém logo para dois meses. Zapa – Olha disseram-me que para mostrar que não sou nada um líder fraco, o melhor é meter portagens nas auto-estradas todas Guti – Ó filho, o povo agora quer é relaxar um bocado, não vês que estavam todos cansados de tanto frenesim. Manda a tropa para casa. Dá-lhes uma sopinha quentinha, uns cobertores de lã e conta-lhes aquelas histórias para crianças. O povo está muito carente. Aproveita. Zapa – Mas olha que aqui o pessoal é um bocado bruto, não é como vocês. Guti – Amansar o povo é a nossa vocação, pá! Zapa – Só que isto aqui está um molho de brócolos! Guti – Vocês aí não usam aquele esquema do tabu? Zapa – Aqui o pessoal é p...
Gosto de mulheres de sorrisos esquisitos. Daqueles que parece que estão sempre a gozar connosco. De lábio “entaramelado”. Misturas da René Zellweger com a Frances Mc Dormand ( se um tipo não vai avançando com os nomes dumas actrizes, ainda o tomam por tosco ). São sorrisos um bocadinho ordinários, claro. Um bocadinho provocadores, claro. Um bocadinho negligé, claro. Um bocadinho distantes, claro. Mas são feios os sorrisos perfeitos. São feios os sorrisos que não deixam dúvidas. São feios os sorrisos puros. Mas isto é tudo treta. Verdade verdadinha é que o mundo olha para nós com o sorriso de uma mulher. Hoje o novo dicionário não ilustrado só pede ao mundo: “ me saca um carinho vai ”. ( entradas 558 a 568) Sorriso assustado – Quando o mundo se espanta com o que fazem com ele, mas como não tem capacidade de reagir, encosta-se à fatalidade de não poder mudar de órbita quando lhe apetece. Desforra-se trocando sistematicamente a tonalidade do batôn ao pôr-do-sol. Sorriso arregalado – Quan...
“Paixão, Paixão Não vais fugir de mim Serás paixão até ao fim” H. do M. Confesso que desconhecia a existência de tantos cristólogos, tantos historiadores de fim-se-semana, tantos escriturólogos, tantos religiólogos, tantos sofrimentologistas, tantos padres tantos rabinos tantos cinametófilos, tantos espeleologistas de catacumbas, tantos escafandristas de almas, tantos semitofílicos, tantas visões descomprometidas, tantos especialistas em aramaico tantas almas sensíveis tantas almas racionais tantos descodificadores de fundamentalismos, tantos charadistas da palavra bíblica, tantas vocações para prato de balança, tantos reformadores da apologética tantos indiferentes, tantos arrepiados tantos sacrificiolíticos, tantos marceneiros de evangelhos, tantos benzedores da simbologia cristã, tantos tarólogos da crucifixão e tantas “expressões porreiras” que eu desperdicei com esta orgia compulsiva de parvoíce. E confesso, eu até desconhecia que existisse tanta gente, mesmo só gente. Cruzes. A...
Lição da nespereira. Li noutro dia de forma “emparabolizada” um texto essencial . Mostra como a vida é um percurso de fronteira, de hesitação, de camuflagem e de precipitação. Lembra-me que o homem é um eterno contrabandista, que gosta de roçar-se entre territórios fugidios e de desenhar contornos com linhas imaginárias de transgressão. Mas eu detesto pássaros. Detesto bateres de asa constantes. Detesto peitos em quilha. Detesto boquinhas afiadas. E gosto de negociatas de rua. Fugazes. Entre seres «malhados» e dissimulados. E gosto de minutos que valem uma vida inteira. Só que nunca “vi-vi” nenhum. Mas eu tenho apenas um olhar acessório. E viver é um olhar duplicado.
Cabrões Mas esses cabrões que fizeram isto, a esta hora estarão a fazer o quê? - será que também vêem televisão - será que também levam os filhos à escola - será que também lavam os dentes - será que também lhes dói a barriga Mas a mãe desses cabrões também abriu as pernas para eles saírem? - será que era esperma o que se desmultiplicou em tamanho monstro - será que era útero o que se distraiu em tamanha guarida - será que era parteira o que sacou tamanho saco de morte - será que era berço o que embalou tamanha fronha de horror Mas esses cabrões que fizeram isto, a esta hora estarão a fazer o quê? - será que os filhos deles vêem desenhos animados - será que as filhas deles também têm namorados parvos - será que também mastigam para comer - será que a água que bebem também é líquida Mas que falta de soluções leva um cabrão a tamanha falta de perguntas? - será que não podiam apenas rasgar as declarações de impostos - será que não lhes bastava mijarem num carro da polícia - será que não...
Relativizar é sobreviver. Aprendemos. Relativizar é morrer. Aprendemos outra vez. Relativizar será outra vez sobreviver. Não aprendemos afinal. O mal também é incompreensível. Mas existe. Relativamente escondido. Numa absoluta inevitabilidade? Detesto perguntas.
G. Steiner escreveu que a “ esperança é a gramática ”. De facto, por muito que nos custe, o ser humano precisa da condicional para se definir. A nossa esperança está mas é em apanhar os “ses” correctos. O condicionário Se não fossem as palavras eu preferia ser musgo Se fosse musgo preferia ser artificial para não apodrecer Se não fosse o anonimato eu apodrecia noutro Se me repito é porque me acredito Se eu me levar a sério sou bem levado Se eu não fosse maçador maçava-me de verdade Se Deus não for mesmo misericordioso eu bem posso “ tirar o cavalinho da chuva” Se o mandamento de “Não invocar o nome de Deus em vão” é para levar à letra eu “estou feito num oito”. Se fosse comida gostava de ser aperitivo para nunca saciar Se eu gostasse de problemas detestava soluções Se há gajos porreiros porque é que eu não posso ser um deles Se eu não fosse inseguro conseguia viver pendurado Se eu quisesse leitores deixava-me destas merdas e contava umas piadas Se eu roesse as unhas hoje já não tinha m...
Somos seres de condição condicionada. Temos tendência a fugir do comboio fantasma da simplicidade. E acabamos o dia estragando o marfim a lamber algodão doce. Quem tem medo de sentimentos fortes acaba muitas vezes encolhido no tupperware da conveniência, que muitas vezes ainda está enfiado no saco térmico do palavreado. O novo dicionário não ilustrado leva hoje a alma humana outra vez a engomar antes do beberete. (entradas 548 a 557) Agradecer - Estado de alma negligentemente mastigado pela convenção, mas sempre delicada e deliciosamente digerido pelo coração Desculpar – A ruga que pode ser temporariamente disfarçada pelo vapor da sobranceria, só sai verdadeiramente quando os tecidos da alma são elásticos e em todos os sentidos. Pedir desculpa – Situação em que o batalhão ou morre na praia do fingimento, ou passa pelas linhas do inimigo deixando-o impotente e boquiaberto. Despedir-se – Acto de quem tem medo de estar presente e de quem tem coragem de estar ausente. Oferecer – Acto qu...
Olha, que se lixe Ô femme dangereuse, ô séduisants climats! Adorerai-je aussi ta neige et vos frimas, Et saurai-je tirer de l’implacable hiver Des plaisirs plus aigus que la glace et le fer? Baudelaire, “ Ciel Brouillé ”.
Muitas textos - manhosos ou não - sucumbem àquela expressão “ um bocadinho datado...». O novo dicionário não ilustrado terá de passar por essa provação e hoje escolheu para mote o novo slogan da coligação “ Força Portugal “. Reconheço que me servi de “inspiração” num post do Barnabé . (mas como já escrevi aqui muitas vezes também não dou para esse peditório da originalidade) Temos de dar uma última chance ao modelo administrativo-político da organização dos governos. Honra seja feita a Guterres que ainda quis dar um cheirinho de graça à coisa. Mas o pântano era mais forte. Agora todos os ministérios terão de se adaptar às novas mensagens mediáticas. Hoje uma versão ligeirinha de fim-de-semana. Para compensar não haver o fandango da remodelação, fica aqui um corridinho com outro tipo de inutilidades. ( entradas 538 a 547) Ministério do Ambiente – Deverá ser o verdadeiro motor da limpeza de vícios. Infelizmente o processo passa por filtragens e outras maçadas. Para a “ Fossa Portugal ” ...
Fantasia para dois sargentos e um tanque da roupa Passaram já umas boas semanas sobre a onda laudatória em relação a uma “livro/literatura” que pretensamente seria uma lufada de ar fresco resgatadora da épica ironia nacional. Ele era descobridor de caracteres, decifrador de tiques, desenganador de frágeis e ocos mitos, esparramando as debilidades do burgo. Ele era revolucionário no discurso, rasgador da narrativa convencional, destilada na ordem dos novos “paradigmas romanescos”. Ele era palavras recuperadas ao ritmo da formiga trabalhadora, verbo sempre fracturante e inimagináveis rotinas semânticas. Desavergonhada e orgulhosa dos subsídios recebidos, tornou-se até a escrita funcionária mais chique. E a que melhor era lambida pela corte. Frágil e passageiro consolo o que se baseia no artificialismo das meras técnicas de discurso diferentes, que são tão criativas como um molho de grelos num cocktail de camarão. Frágil e passageiro consolo o que se baseia num passeio de palavras, como q...
O Ben-Hur reciclado A dialéctica da esquerda e da direita será sempre das melhores invenções do homem moderno. É penetrante como o laser e entranhante como o plástico em pré-injecção. Às vezes também um bocadinho robotizada é certo, mas a previsibilidade é igualmente a garantia do efeito. Quando há uns dias me referi ao religare entre “esquerda vaidosa” e “direita reprimida” – que gerou perplexidades e difíceis digestões – queria dizer que a ligação entre estes dois “extremos” se constrói no “inconsciente” individual ( se um dia se provar que isso não existe eu devolvo o sinal em dobro). Todo a esquerda recalca ideias de direita, e toda a direita procura metonímias dos ideais de esquerda. No entanto, este confronto parece que maça muito os espíritos mais sensíveis. E eu sou homem de arranjar soluções, não me arrasto na esterilidade. Proponho assim que a grande clivagem se vá situar num trapézio diferente e, aproveitando para matar mais um “coelho com a mesma calinada”, vou igualmente ...
Daquele gajo que ganha notoriedade à conta do subtítulo deste blog: «Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende.» FP A ideia de que os que detêm o poder «não podendo fazer o que queriam, fingiram querer o que podiam» com que Montaigne termina o seu ensaio “De la liberté de conscience” ( apesar do dito, segundo parece, não ser original dele ), leva-me para este conceito do fingimento de peito feito. O fingimento é um conceito rico, muito bem explorado no “estudo” das relações amorosas, mas não é para aqui que ele hoje me leva (aliás o Avatares nessa área não dá muita margem de manobra – é praticamente o Mourinho da eros-táctica) ver nota (1) Hoje analisarei a eficácia do fingimento no exercício do poder. Ponho a conclusão logo no início que é para os que se especializaram a só ler posts curtos ainda apanharem qualquer coisa: Fingi...
Dá-me a impressão que Deus é daqueles que não brinca em serviço. Mas também, diga-se de passagem, estou a vê-lo a dizer ao Abraão: « É pá naquela brincadeira com o teu miúdo e com o cordeiro, acho que fomos um bocadinho longe demais, e agora a coisa está a fugir-nos ao controlo...» Tal como nos mercados financeiros que funcionam por antecipação, a Paixão este ano também andou cedo de mais a servir várias “causas” sem que o Cruxificado se tenha pronunciado. O novo dicionário não ilustrado temendo que na semana santa deste ano já se esteja a tratar dos santos populares decidiu avançar. Não sem antes se permitir ao arrojo – com um ligeiro “piquinho” a snobismo - de informar que quem até agora ainda não se pasmou a ouvir a Stabat Mater do Pergolesi ainda só viveu por aproximação. ( Entradas- pisando o risco da pura sinuosidade - 527 a 537) Culpa – Milagre envergonhado da liberdade. Solteira – como se sabe – mas muito usada às escondidas. Em qualquer bordel perto (dentro ?) de si. ( e de mi...