«Os heróis culturais da nossa civilização liberal burguesa são anti-liberais e anti-burgueses; são (...) repetitivos, obsessivos, e indelicados, que impressionam (...) - pelo agudo extremismo tanto pessoal como intelectual. Os fanáticos, os histéricos, os destruidores do eu – são estes (...) que testemunham o terrível mundo polido em que vivemos. (...) Há certas épocas que são demasiado complexas, demasiado ensurdecidas por experiências históricas e sociais contraditórias, para poderem ouvir a voz do bom-senso. O bom senso torna-se então compromisso, evasão, mentira. (...) As verdades que respeitamos são as que nascem do sofrimento. Cada uma das nossas verdades deve ter um mártir. (...) Kierkegaard, Nietzsche, Dostoievski, Kafka, Baudelaire, Rimbaud (..) têm autoridade sobre nós devido ao ar doentio que apresentam. É o seu caracter doentio que lhes dá solidez, é o que os torna convincentes. Talvez certas épocas não precisem de verdade tanto como precisam de sentido de realidade, u...
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Feira de Egos - Cabaz de Natal ‘Quanto mais estreitos são os limites da minha vida, mais exagero acerca de mim mesmo’ Don DeLillo Aqui os egos estão todos no mesmo cesto; mas não são egos moles. Noutro dia fui princesa russa. Comecei por ter um preferido. Alguém a quem pudesse dar o braço e, de imediato, me seguissem os olhares da cobiça alheia. Depois decorei poesia épica, com floreados e trinados nas rimas, que garantisse alguns suspiros e um número relevante e estável de erecções na plateia. De seguida dei liberdade a três servos e mandei chicotear outros tantos por causa da água do banho me saber a xisto e fazer borbulhagem na dobra do joelho. Ensinei as damas de companhia a escolher perfumes e a bordar frisos da basílica de minsk, enquanto a mais aprimorada fazia o aquecimento ao pendular do dito preferido, por forma a já me chegar com capacidade de levantar uma bilha com dois alqueires de cevada. Reservava as minhas canseiras para o arrastar da saia, o abrir das pernas e a contem...
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Diálogos da praceta mole Acetila Salicílica – Tens a noção de que o sucesso é sempre uma combinação de tamanho com aspecto? Benzodio Zepino - Catalogas por necessidade ou por capricho? Acetila Salicílica - mero impulso telecomandado Benzodio Zepino – a sofisticação dum inconsciente treinado? Acetila Salicílica - não chega a ser inconsciente porque o mantenho de rédea curta Benzodio Zepino – dominas por convicção ou acaso? Acetila Salicílica - agora deste em fazer apenas perguntas? Benzodio Zepino – foi a maneira que encontrei para que não adormecesses comigo Acetila Salicílica - Confias tão pouco nas tuas capacidades intrínsecas? Benzodio Zepino – não tenho nada de propriamente intrínseco Acetila Salicílica - isso é alarmante: vampirizas, ou camaleonizas? Benzodio Zepino – mais simples: apenas evito ser demasiado específico comigo próprio Acetila Salicílica – Receio de que te comparem? Benzodio Zepino - Não. Adoro ser comparado. Apenas receio que me comparem com a imagem que con...
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Dona Portela Maizum e dona Alcocheta Maizena Numa tarde soalheira a dona Alcocheta e a dona Portela foram passear à serra da Ota à cata dum tal de aquífero que lhes tinham dito era muito bom para esfregar nas costas por causa da espandilose, dos fungos subventrais e da má circulação. Dona Alcocheta – Filha, talvez seja melhor pararmos numa sombrinha a ver se aparece algum avião com pernas e pêlos no peito Dona Portela – Olha, eu lá para os meus lados cada vez mais embarco tudo o que aparece, mas tenho que começar a ser mais selectiva porque o meu cais já não dá vazão a tudo Dona Alcocheta – Mas tu até há pouco tempo eras aquela miúda que dizias te caber sempre mais um na pista desde que viesse com hora marcada!?... Dona Portela – Outros tempos, querida. Isto agora está é para miúdas como tu, que andaram a poupar-se nos campos de recuo de culatra e agora bem podem aguentar umas mangas mais avantajadas Dona Alcocheta – Ah, mas isto do serviço completo não é para todos os mangas, também n...
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Conto que não inclui colchão ortopédico Tinham combinado preparar a velhice a escrever cartas de amor à porta de um lar de idosos. Sentavam-se no banco dum jardim defronte, olhavam um para o outro, trocavam um sorriso cúmplice e começavam a escrever. Ele era levemente repetitivo, ela era suavemente lacónica. De cinco em cinco minutos trocavam os dizeres para contabilizar sorrisos amarelos. Ele adorava as palavras explícitas, ela repelia-as; ela adorava as subliminaridades, ele as sobreposições de ideias; «mas se calhar somos mais parecidos do que pensamos» disse ela, sacudindo o mesmo cabelo pelo qual ele se tinha apaixonado anos antes – mesmo sem lhe tocar, mesmo sem nunca o ter visto. «escrevo para te amar mais e melhor» dizia ele, brincando às fitas métricas com os dedos; «é o melhor que fazes com os dedos?» ironizava-lhe ela; «testa-mos» respondia ele, ensaiando o trejeito dos pianistas; «viemos aqui com o propósito de preparar a velhice, e não para dar espectáculo» corrige ela, po...
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Conversas de Massamá e Molhobom She – Novas danças? He – Não tenho jeito. O mais que alcanço são pequenas mudanças She – Aforismo? He – Trocadilho She – Então se os filhos são cadilhos.. He – ...as palavras também têm direito a ser trocadilhos She – Tiraste-me as palavras de boca He – Estraguei-as portanto She – Por tão pouco, adiantaria eu He – Sou de fraco alcance She – Antes isso que uma desfocagem He – Posso considerar isso um pequeno elogio? She – Por aproximação, apenas He – Há gente que chega a ser feliz apenas por aproximação She – São as melhores felicidades He – Fel e cidade é também uma boa combinação She – Por isso não sou uma mulher doce do campo He – Uma strawberryfieldica woman? She – Este já te saiu rebuscado de mais He – Mas olha que busquei-o apenas uma vez e saiu-me à primeira She – Os melhores amores não são os primeiros He – Posso considerar isso uma palavra de esperança? She – Quem espera nunca alcança He – Voltamos à dança? She – É a versão caseira do eterno reto...
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O pais é demasiada camioneta para a areia que vai na cabeça destes gajos Sócrates tinha decidido receber pinho e lino em privado. Apenas o seu confessor - Freitas do Amaral, como sabemos - estaria presente. Pediu que o tratassem somente por eminência e para não perderem tempo em detalhes. Haveria que combinar rapidamente as gaffes até às férias, mas estava fora de questão não apertar a mão a Carmona, inclusivamente eram bem vindos - e inclusivamente benvindos - abraços, e inclusivamente ao zé, mas que não era ele, ao outro, o que inclusivamente faz falta; para animar a malta, claro. Estariam proibidas gaffes com os incêndios, o Costa, antónio, tinha deixado isso bem claro quando condescendeu em ir para chefe dos calceteiros, também não seriam mais apreciadas as que se relacionassem com diplomas e caixas de bancos, porque o armando vara estava à beira duma depressão, e deveria poupar-se a mizé nogueira pinto porque nunca se sabe o dia de amanhã. Pinho propôs que mário lino fizesse um li...
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plus parvínias Diva. Susto. Perca de voz. Vida quase sem sentido. Opções; um: compor. Impossível, o som despedaçava-lhe a alma pela sinistra via da saudade; dois: letrista. Sucesso. Quem as cantava encantava, que nem chuva deus a dava; qualquer que fosse a música corações dilacerava, a todos garantia bons momentos, só casamentos de noivas de sto antónio foram mais de 500. Até mambos, até modinhas, até tangos. Era o tal chamado «ninguém ficava indiferente». E escrevia as letras compulsivamente; inventou sentimentos que ninguém ainda tinha experimentado. Chamaram-lhe mistura de Afrodite com Freud. Até deu em canção: ‘Afreudite’. E de bónus ainda curava da artrite. Novo susto. Voz de volta. Apenas tinha passado um mau bocado, era diva agora ao quadrado. Novo e inesperado dilema: cantar as suas letras? Tentou; não conseguiu. Sentia-se sempre a cantar num divã. Sentia-se livro aberto. Tinha de optar: ou voz, ou letras. Confiou na providência. Procurou um novo susto para ver o que perderia d...
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and morguínias Pura e simplesmente morreu de amor. Desde a juventude que o tinham convencido que não havia amores sublimes, definitivos, absolutos e únicos. Por isso andou descontraído. Leu com distanciamento crítico, viu filmes com sorrisos amarelos, escutou desabafos com a frieza dum general, caminhou de braço dado com peles de seda sem batidas especiais do miocardio. Era o equilíbrio perfeito entre o que tinha de ser e o que devia ser feito. A vida jogava-se nos valores seguros e numa ou outra carta na manga. Do que chamavam coração retirou apenas os afectos imprescindíveis para o investimento e a poupança. Os chamados prazeres da vida chegavam-lhe como numa matriz: entradas de energia e hormona, saídas de espasmo e suspiro. Preparava-se para morrer de doença não especificada, quanto muito acidente. Mas num dia, sem característica nenhuma especial, nem de clima, nem de santo de calendário, tudo mudou. Ela. Onde antes lhe apareciam causas e efeitos agora apareciam revelações. Ela. O...
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& fodassários Pele e osso. O coração já só trabalhava pedindo licença. Mas falava pelos cotovelos. Os pulmões tinham-se habituado a funcionar de memória e nem precisava de fazer pausas para respirar. Cada hemograma era um poema que ele recitava com música dos Nocturnos do Debussy de fundo. Na sua exposição dos electrocardiogramas, o Berardo tinha-lhe comprado dois e o Guggenheim apalavrara-lhe meia dúzia que tinham umas arritmias parecidas com uma mistura de Fontana com Hartung. Vendeu a próstata para uma instalação do Bill Viola mas já não teve clientes para os tendões de Aquiles. O clássico passara de moda. E a ciência experimental desinteressara-se dele num último momento porque havia saldos no canil. O seu último capricho foi mão de vaca num restaurante muito asseado chamado Pilatos. Para o testamento restou-lhe a dentadura com um molar de quilates, uma carrada de
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Cardápios, infratáfios & avatários Ficara-se. Ali, no meio da procissão. Nem o andor carregava, nem sequer rezava. Nem tinha um olhar doce. Tinham-lhe dito apenas para ir. Com os outros. A fé carregava-se melhor acompanhado, desde que tinham terminado as verbas para eremitas. Sempre o confundiram com a necessidade de separar a fé do sentimento, numa espécie de mundana exigência de separação de poderes. Mas agarrava-se desesperadamente a todos os sentimentos que lhe aconchegassem a razão. Por momentos perdera a visão da cruz num dos cruzamentos. Ia no meio da procissão, entre uma francesa de carrapito e uma freira. Ambas lhe sorriam como semáforos. Ora uma, ora outra. Nunca chegou a saber se estavam combinadas. Ambas vestiam mal mas apenas a freira tinha desculpa. Não chegou a ter tempo para desenvolver essa ideia frívola. Deus levou-o num momento de distracção para não destoar do resto da vida. Quando o descobriram estava de rosas, coberto de.
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Infratáfios, cardápios & avatários Tinha sido uma vida repleta de sexo e esparguete. Declinara ejaculação com parmesão num roteiro de satisfação e deleite . Fizera da manteiga uma companheira fiel e com ela tornara os dias mais fáceis de passar. As mulheres e o amido tinham-lhe fornecido o guião a que ele permaneceu fiel sem um queixume nem uma desilusão. Durante uns tempos metonimizou em fuzillis e platonismos afins, chegou a viciar-se em raviolis e em dançarinas de rumba, mas acabava sempre por voltar sempre aos corpos de movimentos conhecidos e ao macarrão. Nos últimos tempos deixara-se seduzir pela tagliatelle e com ela vieram de arrasto mulheres magras e esguias. O seu corpo não admitia contradições. Nem condimentos exagerados. Nem visões místicas. Foi descoberto consolado, junto a uma adida comercial Bolonhesa, agarrado a uma cama em ferro decapado e carbonara, banhado a .
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Luna Park «Dança comigo a primeira valsa da Primavera: dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera. Já enchi os dias de lutas vazias: estou gasto, cansado, dormente. E a um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda não fico indiferente. Fala comigo na palavra falsa da fantasia (…). É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo. Se este mundo fosse feito para ser doce eu seria doce fosse eu quem fosse.(…) Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar» In ‘ Valsa quase anti-depressiva’ , do Quinteto Tati. ‘Exílio’, 2004
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Avatários Vida farta. De todos credor. Moral definida à partida, lucro obtido à posteriori. Fraquezas feitas forças. Amores que nunca falharam: todos possíveis, todos decoráveis, todos transaccionáveis; todos fogos que ardiam sem atrapalhar. Perfeição desnecessária tal a evidência da eficiência. Desconhecimento da dor de corno e bons abat-jours para as luzes da ribalta. Pulso e pescoço fortes: só vergavam para descontrair e aquecer. Coração de ferro. Olho clínico. Alma de cristal. Nem a terra o haveria de comer. Morreu Conde de Lapidado. Feito em cacos patinando em Carrara, mármore de.
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cardápios Chamavam-lhe o serial kinder. Prometeu e fez: teve uma ninhada de filhos. Foi atrás do mandato bíblico, certificou-me da canonicidade do mesmo na Ordem dos Hermeneutas e entremeou meninos com meninas num fantástico determinismo cromossómico apenas ao alcance dos predestinados da genitália. Um frade, uma florista, um lenhador, uma fadista, um leiteiro e uma jornalista. Hesitou no último, mas tinha um mandato preciso: teria de fechar com um ciclista pois sobravam-lhe dois boiões de lubrificação. Demonstrada a pedalada haveria que amadurecer serenamente dando noções básicas para a vida, ensinando a separar o trigo do joio, a papoila do malmequer, o lugar do homem e o lugar da mulher. Nenhum lhe tresmalhou verdadeiramente, tirando o leiteiro que chegou a fermentar com duas padeiras diferentes, e a jornalista que trocava de editor como quem escolhia frases do dia. Do lenhador e do frade recebeu o combustível para as noites frias, da fadista e da florista a iluminação para as noite...
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Infratáfios Um suor repentino tinha-lhe agarrado a história à pele. Um emaranhado de equívocos, coisas deixadas a meio, indecisões. Más decisões. Mas tudo colado com cuspo. Impossibilidade de aplicar a técnica da tábua rasa e abuso das associações livres. Caprichos que afinal nunca deixaram de ser entusiasmos passageiros. Incapaz de se arrepender verdadeiramente; mais incapaz ainda de se surpreender. Amuos. Auto comiserações. Ensimesmamentos. Labirintos. Falta de exemplo e incapacidade do transmitir. Biografia sem bio, nem brio; e excesso de grafia. Irrelevante. Rezou, mas não chegou sequer a saber se esteve lá perto. Amou, mas sem saber se tinha sido amado. A sua maior glória foi ser incompreendido, mas acabou compreendido entre seis placas de mogno, folheadas a.
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Chegam à zona dos pastéis de Belém, viram à direita, sobem um bocadinho, e é logo ali numa esplanada em relvado panorâmico com vista para o Tejo, e frequentada designadamente por tipos com idade de profetas e que derretem de forma pacata o orçamento da segurança social que tanto nos custa a esfolar aos imigrantes ucranianos. Tentava eu consolar um adepto do Belém – que escreve sobre assuntos semi esotéricos num blog de reminiscências surrealistas - e ao mesmo tempo felicitá-lo pela forma digna e pundonorada como abrilhantaram a vitória dos lagartos na taça, quando sou presenteado por mail com esta pérola (parte até publicada no seu blog miniformalista de expatriado saxofonista, aguarelista da teoria dos jogos e poeta da economia industrial), assumindo, das vísceras, uma revolta da qual só me lembro de lhe ver semelhante quando eu lhe dava fortes cabazadas aos matrecos no Jardim Cinema e a resolver integrais duplos de cabeça. «Vi agora o resumo do jogo no YouTube. O Belém teve sobejas e...
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Mas não podia deixar de dizer isto no domingo da Santíssima Trindade Uma das fontes de sabedoria que encerra o Novo Testamento é a epistemológica. Muita tinta correu e correrá sobre a ‘fiabilidade’ da fé como fonte de conhecimento, no entanto, julgo ser de elementar justiça científica (just a smile, please) recordar que Jesus mostrou que o conhecimento de Deus se tem de se basear na ‘união’ com Ele. É este o elemento constitutivo e distintivo da fé como conhecimento: exige a união (*) com o objecto a conhecer. Facto esse de que ficaram, felizmente, dispensadas as, ditas, ciências experimentais, e, infelizmente, as, ditas, sociais. (*) nota técnica interna: diferente de 'chocar com Ele'
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A day at the races Entrámos em Junho e eu não ia a uma feira do livro há prai 10 anos; sem mais explicações inúteis: fui. Levava um propósito quase de escuteiro: livro-de-blogue-em-livro que visse, comprava, nem olhava ao custo per página, não seria o mesmo que ajudar uma velhinha a atravessar uma rua, ou dar banhinho a um leproso, mas ainda assim era um alento. E um acto de justiça, de camaradagem. Acho que até me fica bem e praticamente somos todos irmãos. E então se eu já tivesse dito mal dele, até lhe pediria um autógrafo, tal fosse proporcionado, numa espécie de via crucis blogo-expiatoris; o serviço é para se fazer bem feito. Mas eis que quando ia quase liturgicamente comprar o último livro traduzido do Roth, porque é o melhor representante daquelas gajos que ainda não perceberam que os romances acabaram há mais de 100 anos e que mesmo assim se esmeram por nos tentar desinquietar - como se alguém trocasse umas ostras com MUM por uma angústia ficcionada - e, vai daí, encontro o qu...
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dúvida metódica Plágio não é o nome daquele godo (de resto praticante de métodos de "colheita" e diplomacia muito politicamente incorrectos nos dias de hoje) que fundou o Reino das Astúrias algures pelo século VIII? E pelágio não é o nome que se dá ao acto de surripiar ideias alheias sem referir a fonte (seja por mero chico-espertismo ou por violação dos nºs 1 dos Artigos 26º e 34º da CRP)? Ah, é ao contrário? E nota-se muito a diferença? É que no fundo este será sempre um dos menos acautelados riscos do autodidacta acrítico. Como se tocar rabecão com a sovela. Ou como se youtube .
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Conto dum pinga amor que desistiu de ser repuxo Disseram-lhe que nunca seria capaz de provocar um amor arrebatador a nenhuma mulher. Esquecera-se de ler Maupassant na idade certa e agora não havia nada a fazer, nunca as conseguia surpreender depois de passados aqueles dois primeiros encontros canónicos. Todas as suas experiências se revelavam traumáticas porque era abandonado no momento mais saboroso, aquele em que a ilusão ainda está na fase ascendente e as referências são todas luminosas construções mentais baseadas em indícios devidamente debruados pela sua imaginação. Ficava sempre inconsolável nos três dias seguintes; no quarto dia dormia, no quinto pura e simplesmente não existia, no sexto comia, mas no sétimo era um homem novo, luzidio como um ovo, e voltava ao serviço com o entusiasmo dum noviço. Tinha algo de bíblica esta sua vida sentimental. Chegou a pensar que o seu coração era uma arca de noé e que estava destinado a coleccionar todas os espécimes de amores falhados por me...