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Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança

A Família Confiança era uma família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e uma ficha de inscrição no acp. Mas voltemos à família Confiança, mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava as expectativas de ninguém. O seu primeiro namorado, César Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma c...

Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo

Cristina Lagarde veio reconhecer que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as cerimónias fúnebres.

Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta

Simão Bivalves sempre fora um reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo de salvação com troika em opção. Pau para toda a colher, arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que se julga ser interruptor. Emprestou a alta verve, a média cultura e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana, contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superiorid...

roda da sorte

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Murmurando entendimento II – pib com laranja

Como o nosso PIB ainda está muito cru para enfrentar novamente a vida lá fora, há que o preparar. Num almofariz coloque as reformas do estado, o crescimento e a competitividade. Esmague até que fique uma pasta. Num tabuleiro de ir à troika tempere o PIB por igual com as reformas de estado esmagadas. Junte no tabuleiro 2 folhas de orçamento de estado, 3 manifestações de polícias, 4 exames de professores e o sumo de laranja. Por fim coloque a manteiga. Leve ao Bundesbank pré-aquecido e deixe assar aproximadamente ano e meio. Entretanto, num tacho, leve à comissão europeia o restante caldo, o deficit público, a manteiga e os miúdos (as gerações mais novas). Tempere um pouco com demagogia e corrupção. Deixe cozer entre 4 a 5 meses, até as novas gerações ficarem tenrinhas. Passado um ano do PIB estar no bundesbank vire-o de forma a que fique com as exportações para cima. Depois das novas gerações estarem fodidas, perdão, cozidas, retire-as...

Murmurando entendimento I

Aparentemente «a troika reconhece erros mas são para manter» o que me parece uma atitude bastante acertada. Julgo até que da nossa brilhante história o ‘erro da troika’ é dos erros melhorzinhos que nós temos feito e para além disso tem a virtude de podermos dizer que não fomos nós, foram os outros meninos. Se considerarmos erros como por exemplo o terramoto de lisboa, a presidência de godinho lopes, a morte de dom Carlos, a aventura de alcácer quibir e a exportação da orsi feher , o memorandum e respectivos folhos foram dos melhores figurinos com que nos equipámos. Vamos-mos lá entender:   nós evoluímos na cadeia alimentar das crises, pois deixámos de ser um país com crise para sermos uma crise com país. Como já vi escrito em qualquer lado: nós não somos os herdeiros dos que foram à Índia, nós somos herdeiros dos que ficaram.

Imaculado Campeão

Como é do conhecimento geral o campeonato de futebol que realmente interessa acabou ontem, no dia da Imaculada, e o Sporting sagrou-se campeão. Reparemos que não se usa por aqui o simples e matafísico verbo ser mas antes um verbo mais digno e adaptado às circunstâncias transcendentais da coisa: sagrar. A lagartada campeã (não é ir à frente, é campeão mesmo, qualquer pessoa decente reconhece que o verdadeiro campeonato acabou ontem) é o sinal que os deuses nos estão a dar num dia em que se celebrou a natureza virginal da concepção do messias. Também os lagartos, sem que nada o previsse, contra todas as regras da natureza, todas as causalidades, revelam-se líderes ao mundo. Limpos, serenos, sabendo compreender e até perdoar, quem quiser misericórdia pode assim aproximar-se que lhe será concedida, políticos e lampiões inclusive. Tal como a Virgem sem saber ler nem escrever se apanhou naqueles preparos, assim o nosso Leonardo nos coloca a todos prenhes, eu inclusive afago hoje a minha ba...

Conto do estar para aqui

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Calixto Semedo desistira de observar baleias desde que encontrara Luísa Ventura a tomar chá em Porto Formoso. Arreliada com a sua sorte Luísa fora desopilar ao sabor de chá verde com jasmim e quando viu que Calixto também para ali estava a pedir um desconto de tempo ao destino resolveu abordá-lo. Estar para ali é diferente de simplesmente estar ali e Luísa tinha esse marcador na gema, pois descobria sempre os que estão para ali por entre os que se limitam a estar ali , seja ali onde for. Calisto estivera a observar baleias na Caloura toda a manhã e tirando ter sido atropelado por uma vaca sem nome nem badalo, nada a sorte lhe tinha colocado na ponta dos binóculos. Sem tendência para as costumeiras neuras insulares pegou na trouxa, respirou fundo três vezes testando o bom tempo nos canais e foi tomar um chá que lhe diluísse o que sobejara da bucha. Pelo caminho rezou três avé marias com um olho no promontório e outro numa ciclista irlandesa que descia a ladeira sem tra...

Ensaio sobre a pieira

Gosto bastante do anticlericalismo em geral e do em particular também, depende, neste, das medidas de cintura e anca. Uma das características interessantes do anticlericalismo de pendor ateu (também o há de pendor católico no qual eu tenho o prazer de participar) ou mero pendor parvo é que se organiza essencialmente numa forma de raiva elaborada sobre uma merda chamada fé que se concretiza numa merda chamada crentes. O anticlericalismo parvo (para sintetizar conceitos) mais moderno revelou-se recentemente nas reacções às personalidades e posições de Bento XVI (agora é que vocês vão ver seus católicos laxistas e prevaricadores) e agora às de Francisco I (agora é que vocês vão ver seus católicos conservadores e hipócritas) Em geral, o anti-clericalista parvo possui um pensamento da família da respiração com falhas . Arranha um pouco mas não chega a faltar o ar. A blogaria sempre foi fecunda em manifestações desta categoria mas, mais recentemente, certos fenómeno...

DesmakerTv

Carl Rosenberg Smith era caracterizador de personagens ficcio-mitológicas desde que tinha sofrido um derrame cerebral em 1997, na sequência da queda de um pónei na feira popular. A sua primeira invenção de sucesso foi o zombie, da qual tem tirado imenso proveito, inclusive lhe permitiu comprar uma vivenda na Verdizela, sonho de criança - quando ia para lá apanhar pinhas para as sardinhadas que o seu pai fazia com os tios. Tendo passado ao lado dos lobisomens, apanhou novamente o comboio com os vampiros, que lhe permitiram comprar um barco de 20 metros, pena é que as finanças o tenham confiscado aquando do célebre irs de 2004, quando perdeu os papeis à porta dum bordel de luxo ali para as lados de são João do Estoril, estupefacto com Zeneida Gonçalves, que acabara de entrar na vivenda com um vestido azul que ele lhe tinha dado, mas abraçada a Gustavo Gomes, um concorrente seu e inventor dos wargs, personagem também de algum sucesso, que este vendera para o game of thrones, tendo r...

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Certo dia, enquanto de refrescava no golfo de tarento, veio ao salão encefálico de Hipaso de Metaponto a ideia de que todos os verdadeiros problemas apareciam quando se queria produzir qualquer coisa a dois. Um era bom, três era a conta que deus fez, mas dois era aquele número que trazia a maior das complicações. Só que era inexorável: o dois existia realmente, não se podia fugir a essa realidade. Como seria então possível construir um dois por forma a que ele não desse tantos problemas. Agarrou-se então à geometria. Juntou uns pauzinhos em mogno do Quénia, comeu duas romãs e três figos, e foi beber uns copos com o seu mestre Pitágoras que andava deprimido por causa de um cateto que lhe tinha entrado para a vista tentando convencê-lo que a solução estava na raiz quadrada do dois. Impossível, disse-lhe o mestre, nem mates a cabeça, não existe tal número, se alguma gaja te pôs os palitos desenrasca-te por outro lado, não esperes que a matemática te safe. Mas Hipaso não se ficou, meteu...
Chaos isn’t a pit, chaos is a ladder. Mindinho

A arca de Nelo #3

Quando Nelo, ex-nelo agora já Nelão Duarte, desembarcou ali na zona do cais do Sodré, decidiu subir a rua do alecrim para ver como paravam as modas no império. Deixou na barca a maior parte das parelhas e fez-se à calçada apenas com Sócrates que, tal como a sua amiga do peito nelinha moura guedes, estava desejoso de testar a popularidade, mas ninguém o convidara para apresentar concursos pelo que vivia torturado. Chegados à zona da rua das flores e ainda sem tragédia à vista Nelo perguntou-se porque se viam tantos paneleiros num país que precisava de aumentar a sua natalidade. Ninguém lhe respondeu em condições, e ele deu-se conta de que havia relaxamento. Sacou do telemóvel e ditou: tenho de fazer um novo código de costumes, algo que fique para a posteridade e não nos deixe nas mãos de constituições mariconças. A par disso vou então fazer um programa cautelar, ou seja, cada português vai vender uma cautela da lotaria do natal a 4 alemães. No final o pinto da costa faz um sorteio...

A arca de Nelo #2

A arca de nelo está ancorada junto ao mar da palha com vista para a casa dos bicos, onde mme saramaga ainda pensa que estamos todos ceguinhos, e o ambiente no convés é de alguma expectativa: aparentemente portas e passos já foram na enxurrada mas ainda não se percebe se é o momento certo de desembarcar. Inesperadamente aparece um pardal vestido de Wellington a segurar um novo livro de gonçalo m tavares no bico, com o título: ‘pilhagens da minha terra’. Josefa Noémia avisa então Nelo Duarte de que se calhar os ingleses tomaram conta disto para fazerem corridas de galgos. Gera-se alguma consternação entre as parelhas de reserva mas Joana amaral dias, alheia às convulsões, avisa que só vai a terra se estiver garantido que o salão de beleza que lhe estica o cabelo e põe betume na cara ainda está operacional. Nelo acha que está na altura de largar o leme e tomar as rédeas. Reúne toda a tripulação, sobe para uma réplica do cavalo de d. José em gesso, e anuncia: doravante serei proclamado N...

A arca de Nelo

Nelo Duarte depois de ter sido Secretário de Estado da Pachacha social única e dos Medalhões de Vitela foi colocado como embaixador especial do instituto meteorológico na primavera árabe. Após ter sido enrabado na praça Tarhir ao ser confundido com uma jornalista da revista Burda, decidiu mudar completamente de vida e voltar à Pátria para a salvar da revolução em curso que estava a ser conduzida pelos libertários do Termidor orçamental. O seu principal objectivo era juntar num cacilheiro, especialmente decorado pela omnipresente vasconcelas, um casal de representantes de toda esta gesta da reforma do Estado e Barracas afins, fazendo dela uma grande arca para que depois do dilúvio não se perdesse nada e Portugal voltasse a ser aquele sonho quinhentista que sempre foi e do qual nunca devia ter saído. O primeiro casal a entrar foi a menina ferreira leite e o escuteiro bagão que tiveram direito a um camarote com vista para a Trafaria e com o rádio sintonizado na rádio renasce...

giuseppina

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  pormenor de Josefina do quadro de J-L David

Alice no país das Braguilhas

É evidente que o título pode parecer apenas um chamariz, no entanto hoje vou-vos contar a história de Marilyn Munro, uma sex symbol que fez carreira no competitivo mundo das mulheres fatais através da sua enorme capacidade para criar ilusões nos homens, e deixou uma legião de fans absolutamente arrasados quando decidiu casar com Carroll Higgs, um engatatão escocês que se valia dum talento raro que consistia em conseguir enfiar um protão onde outros apenas – e em sonhos – viam cavernas para aceleradores de platões. Munro & Higgs rapidamente se transformaram no casal de todas as invejas, e estas atingiram o cume quando foram ambos nomeados nobeles da química pela invenção conjunta da cópula anaeróbica. Ora esta cópula consistia num movimento de ligação molecular em que a mulher recitava sem respirar um acto inteiro do Hamlet enquanto o homem fazia dois big bangs sem tirar nenhum protão do túnel de aceleração. Tal experiência apenas foi possível pois Marilyn Munro levantava ...

«Marta, Marta,

andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária.» Ao evoluírmos no e pelo tempo – fenómeno também conhecido por idade – dois caminhos nos são oferecidos , por regra: o caminho da intolerância máxima (já não estamos para aturar parvos, damo-nos ao luxo de nos irritarmos ou desprezarmos o que não nos agrada, ficamos com aquilo que chamamos pomposa e um pouco petulantemente, exigência, critério, não admitimos manchas em machetes, nem desatinos em isaltinos ), ou então o caminho da tolerância olímpica (aceitamos tudo como fruta da época, compreendemos os defeitos dos outros, vemos anúncios das telhas Umbelino Monteiro com o mesmo prazer que os anúncios dos perfumes da ralph lauren, e se para um martelo tudo é um prego, para um tolerante tudo é vaselina). Ambos são caminhos perturbadores, pois ambos nos puxam para o pior de nós, ou seja, ambos nos exigem uma experiência de racionalidade assistida para a qual não estamos talhados. O único movimento humano n...

Hipóteses de remodelação de Ego #5

Vivermos iludidos é uma inevitabilidade. A grande invenção não é o inconsciente mas sim a dita consciência. No fundo, chamamos ilusão aquilo que realmente existe Desclassificar intelectualmente a realidade é o melhor que fazemos para nos defendermos, dado que temos desvalorizado os sentidos em detrimento do fantasma racional. Doravante apenas o certo:  tatearei, saborearei, cheirarei, verei e ouvirei. Se me sobrar alguma energia apostarei o resto no reflexo condicionado.

The walking bald-headed

Por detrás de uma grande derrota está sempre a vingança de uma mulher. Armando Cigarra bebeu desse fel quando perdeu as eleições à liderança da freguesia de Miranda do Corno. Depois de ter sido tornada pública a sua separação com Zulmira de Lousa, Armando ficou incapaz de colocar todo o seu carisma na campanha e acabou por se arrastar com os dois pés a prometer insanidades mais próprias dum calceteiro reformado. Enquanto isso, Zulmira, caprichando no seu aspecto de falsa fragilidade, ia-se enriquecendo de companhias várias e distintas, gente de poder e influência, distribuindo insinuantes olés ao seu antigo more than everything , que estava careca de saber que a situação tinha acabado com ele e com as suas ambições. Como não bastasse de humilhação para Armando, Zulmira publica com êxito estrondoso um livro sobre a vida do enigmático padre Cunhal, um missionário que introduziu o cristianismo no Cazaquistão e acabou por morrer de cirrose depois de desinfectar um furúnculo no testículo ...

O resgate da recepcionista Riana

Simon Werstein era emissário do BCE em troikas e quadrigas várias pela europa fora havia mais de 5 anos. Já estava habituado a esta vida de itinerância e quando casou com Gloria Fuentes, uma mexicana hospedeira da Lufhtansa não se pode dizer que a escolha fosse apenas ditada pelo amor e pelo seu, dela, belo par de pernas e outros apetrechos arredondados ao qual acresciam umas bochechinhas desenhadas por tintoretto numa tarde em que tinha sido soprado pelos querubins do pincel e pelas potestades do carvão. Naquele dia tinham dormido ambos num hotel em Lisboa, ela fazia escala para Buenos Aires e ele tinha várias reuniões com aquilo que se costuma chamar representantes das autoridades financeiras portuguesas. Enquanto Simon fazia a barba, Gloria já estava na fase final do aperaltamento e ele evitava olhar para gloria et ses jambes para que não desse cabo daquela extraordinária parte do corpo humano que se chama pescoço com um movimento de lâmina mais descuidado. Simon concentrava...

Hipóteses de remodelação de Ego #4

A duplicidade de personalidade (uma espécie de economia paralela da psique) é um tema recorrente, todos a sentimos e há mesmo quem faça disso modo de vida quando não até de subsistência. Sermos apenas um só é um luxo - e um risco - que nem os poetas querem correr. Esta multiplicidade encerra no entanto vários problemas de diversa índole, entre eles, e à cabeça, o problema escatológico da salvação, pois desde logo fica a questão: seremos julgados por qual de nós. Sendo um problema humano ainda com muito por desbravar devemos abordá-lo com a sabedoria dos ignorantes: ir dando a face que estiver mais habituada às bofetadas e guardar sempre uma outra que possa realçar os cremes de beleza. Doravante terei sempre uma face em estado imaculado para qualquer circunstância.

quatro esquentamentos e um pingo nasal

Filinto Valente tornara-se o psicólogo da crise. Aproveitando as circunstâncias ímpares que proporcionam os momentos de dificuldade dita colectiva, criara um modelo de ‘psique em tempos turbulentos’ e, como não era parvo, tratou de emblogar o tema dando-lhe um aspecto moderno assim entre a literatura e a consulta ao domicílio, que satisfaz um largo espectro de clientela, desde os puros curiosos até às puras menopausadas passando, claro está, pelos próprios neuróticos, que não suportam saber que é a dificuldade que comanda a vida. Filinto Valente estava ciente que na base do seu sistema tinha de estar um enunciado cativante; era este: todas as nossas neuras individuais participam de uma espécie de neura colectiva; meramente junguiano poderão pensar já alguns, meramente pragmático diz-vos este vosso servidor. Mas, tal como numa conversa entre porteiras e mulheres a dias não é suficiente um enunciado, há que tirar conclusões e criar potezinhos onde ir encaixando as vár...

A angústia do guarda décimas no momento do cálculo do PIB

Tibério Lamas aguardava com ansiedade os últimos dados. Dois stands de mercedes, um minimercado em Elvas e uma serração de madeira de Arganil tinham-se atrasado a preencher o inquérito mensal e isso poderia fazer a diferença. Já não lhe bastara o sufoco provocado no dia anterior uma correcção feita pela EDP por causa de um contador estragado em Ponte de Lima e agora este atraso. «Para que décima está a pender?» perguntara-lhe o Dr. Chamusca logo pela manhã - aparentemente o secretário de estado não dormira de noite por causa da úlcera e começara a ligar antes do expediente começar. Tibério lidava mal com estes momentos em que o algoritmo de cálculo fazia vingar as suas prerrogativas, e até a vírgula que marcava a décima bailava no monitor comandada pelos caprichos dos luciferes da estatística ou da bela Sechat, arrasando-lhe com o músculo levantador das pálpebras, já de si cansado depois da sua, dele, Clotilde ter resistido às suas, dele, iniciativas de arredondamento lúbrico dur...

Hipóteses de remodelação de Ego #3

Está na ordem do dia – da literatura e da ciência – a manipulação da memória. Nesta moda relevam os minimalismos (decoração tipo cortinado japonês) e os maximalismos (sanefa e folhinhos) tendo como objectivo torná-la o mais inofensiva possível ou mais o mais interventiva possível. Pondo as técnicas de esquecimento a par das técnicas de lembrança todos teremos a experiência de que controlamos mais as segundas que as primeiras. O segredo de qualquer motor que está ligado às rodas é dominar-lhe o ponto morto. Doravante lembrar-me-ei sempre de como não aconteceu. Aí sim: quod abundat non nocet .

Hipóteses de remodelação de Ego #2

Por regra-se retira-se mais prazer do perdão do que da acusação. No entanto, a acusação mostra-se mais redentora nos chamados pequenos detalhes da vida . Talvez seja porque por detrás de uma acusação há sempre um perdão, o que nos levaria à omnipresença do perdão, algo que a nossa psique também não pode admitir naquelas suas leis de autossuficiência. Por outro lado, se somos imperfeitos isso nota-se mais a perdoar do que a acusar, algo estranho a não ser na tal ótica de que a perfeição da acusação deriva da presença implícita dum perdão. Doravante, nunca mais perdoarei, pois posso estar apenas a servir de apoio a uma qualquer acusação.

Hipóteses de remodelação de Ego #1

Por regra somos sempre mal entendidos. O segredo - prático - está na aproximação . As relações mais perfeitas são as que desvalorizam o entendimento em detrimento do equilíbrio, jogando mais na mecânica que na química, ou então aquelas que optam por definir entendimento casuisticamente, segundo a máxima de não ter princípios demasiado elevados para não ter que estar constantemente a rebaixá-los consoante as circunstâncias. Claro que existe uma outra categoria, de mais difícil acesso a seres geralmente denominados por humanos , que é a dos que percebem que o entendimento é apenas mais uma das hipóteses retirada dos manuais de lógica e retórica, uma coisa dos livros, uma Kantilena , vá. Doravante serei compulsivamente desentendido.
Vietnamitas que viveram 40 anos na selva querem voltar por Lusa, texto publicado por Sofia Fonseca Os dois homens, pai e filho, que viveram totalmente isolados na selva no centro do Vietname durante mais de quatro décadas não estão a conseguir adaptar-se à civilização e já pediram às autoridades para regressarem à floresta.

mulheres acima das nossas possiblidades II

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  catarina medici

Aero-remodelismo

Raul Bilirrubina, o famoso escritor de utopias literárias , nas quais usava o pseudónimo de Cardoso Cuco Castelo, aquando da apresentação do seu último livro disse que se iria dedicar à politica. A audiência primeiro pensou que se trataria duma blague para chamar a atenção, mas rapidamente percebeu que representava uma decisão séria. Ao se ter criado um ambiente de alguma surpresa, Cardoso Cuco Castelo, ou melhor Raul Bilirrubina, achou por bem dar mais detalhes sobre o que iria fazer. E eis que revela algo ainda mais inesperado: tinha sido convidado para Ministro das Florestas e preparava-se para aceitar. Não podemos tomar a árvore pela floresta, relembrou, e como ele ficaria com o pelouro da floresta teria ocasião de olhar para todos os outros e dizer-lhes: «vocês só estão a ver a árvore, deixem comigo que eu vejo a floresta» A audiência saltava de estupefacção em estupefacção, apesar de não terem chegado a ficar estupefacientes, e agora já nem sabiam se deviam considerar a...

mulheres acima das nossas possibilidades I

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hilary mantel 

Uma república acima das nossas possibilidades

D. Duarte Pio – Isabelinha, minha querida, se calhar está na altura de fazermos um golpe de estado D. Isabel – Senhor, acho que não tenho nada que vestir para uma ocasião dessas D. Duarte Pio – No estado em que isto está o mais ajustado é um fato-macaco D. Isabel – Querido, chamam-se jardineiras e já não me servem desde que entrámos para a moeda única D. Duarte Pio – Tudo te fica bem, minha rainha, desde que não ponhas uma saia muito travada, pois podemos precisar de correr, por mim tudo bem D. Isabel – Senhor, já mostras a magnanimidade dos grandes estadistas… D. Duarte Pio – Achas que depois devemos manter o menino passos coelho e os outros como ministros do reino? D. Isabel – Credo, Senhor, antes chamar a padeira de Aljubarrota e juntá-la com o Miguel de Vasconcelos D. Duarte Pio – Então e exilamo-los para onde? D. Isabel – Há aquela ilha das cagarras …. D. Duarte Pio – Mas essa já está reservada para o senhor doutor anibal…e se lhes pusermos ta...

Uma salvação acima das nossas possibilidades

Baptista da Silva – olha lá, achas que está na altura de dar mais alguma entrevista? Capitão Roby – eu noutro dia comi uma gaja que é pivot e meto-te na boa numa mesa redonda Baptista da Silva – desta vez tinha pensado em dizer que era observador por parte do kremlin Capitão roby – tem cuidado que eu uma vez comi uma ucraniana com tranças mas fiquei ulcerado no estômago, julgo que estava contaminada Baptista da Silva – sim, tens razão, se calhar opto por dizer que sou fiscal d’excel Capitão roby – por acaso noutro dia comi uma miúda em cima dum power point e ela disse-me que eu tinha um outlook fatal Baptista da Silva – olha, estou a pensar apresentar um estudo que demonstra que há uma correlação directa entre a austeridade e a austeridade Capitão roby – isso lembra-me uma vez em que eu andava a comer umas gémeas que também trabalhavam em correlação Baptista da silva – a libido e a economia andam muito ligados… Captão roby – não me digas…o mais ...