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A mostrar mensagens de abril, 2004
Um dos problemas do novo dicionário não ilustrado é que eu já perdi o controlo àquilo, e já nem me lembro do que escrevi, das alarvidades que distribui, das anormalidades que subsidiei, e das aberrações que lubrifiquei. Hoje fui compulsivamente levado para o tema da percepção que as pessoas fazem uma das outras, e das mistificações que a apaparicam e adornam. ( entradas 652 a 666 ) A Fama – O que transforma as parvoíces que uma pessoa diz em aforismos, e as suas unhas encravadas em cataclismos. O Sucesso – A etiqueta que acompanha a fazenda, sonhada caxemira, que é tosquiada no rebanho que se pastoreia pelo hall de entrada. A Integridade moral – Espécie de laca que garante um penteado certinho, mas não evita as tentadoras lêndeas. O Carisma – Auréola de cânon difuso, boa para realçar um altar bem iluminado, e melhor adornado pelas genuflexões de turno. A Fortuna – Cobertor aconchegante, mas que depois vai-se a ver, não passava duma irregular autorização de descoberto, que acaba por se...
Faz de conta que isto é a caixa dos comentários da “ mal traçadas ” Tenho que confessar e admitir (dois em um – “confessar” é o shampoo, e “admitir” o amaciador) que nunca entrei em nenhuma cozinha. Mentira, entrei duas vezes. A primeira quando uma ardeu toda. Entrei. Mas até não me fez impressão nenhuma; eu nem nunca tinha visto uma, nem dessa forma nem doutra. De facto achei desinteressantes aqueles tons acastanhados do chamuscanço, ainda para mais num estilo degradé fatela, mas de resto nada de excessivo. Confirmei apenas que era um local com o qual podia viver bem sem lá voltar a pôr o corpinho. Simulei um ar desgraçado, estupefacto, interessado, algo penoso (julgo mesmo ter alcançado este ponto de dissimulação), mas nada que me impedisse de continuar a considerar a cozinha um local de frequência dispensável ou mesmo desaconselhável. Da segunda vez foi tudo rodeado de maior liturgia. O Sporting estava prestes a ser campeão depois de largos anos de jejum. Eu iria demonstrar a todos ...
( Da transgressão. Sei muito poucos poemas de cor. Um dos que sabia, era este do Camões: “Transforma-se o amador na cousa amada/Por virtude do muito imaginar/Não tenho logo mais que desejar/Pois em mim tenho a parte desejada”.Disse sabia, porque já não sei. Esqueci-o. Mantinha-o guardado para um momento especial, e quando o usei acho que estraguei tudo. A poesia deve ter um instinto matador nas minhas mãos. Desgraçamo-nos mutuamente, se calhar. Só que eu nem desconfiava disso. Estúpido. Nunca o li como um poema de amor. Sempre vi nele um formidável elogio poético à cumplicidade; reforço: à cumplicidade pura, cristalina, de fina, de filigranada prisão, forte, de siderúrgica fusão. Difícil de descobrir, difícil de sustentar, mas difícil de matar. É até das poucas coisas que sedenta e sacia ao mesmo tempo, e que tem o condão de colocar o desejo na redoma do encantamento. Onde nem a imaginação presta vassalagem ao pecado. Mas isto se calhar são só parvoíces minhas, mas são parvoíces das qu...
Belas Artes “ (...) a grande ruptura que reside na pintura abstracta não se prende apenas com a imagem da realidade. Terá a ver também (...) com a afirmação e autonomização dos valores plásticos propriamente ditos.” De Isabel Sabino em a “ Pintura depois da pintura”. Passa-se rigorosamente o mesmo com a política. Não estará apenas em ruptura com a realidade, assumiu já um grau de autonomização, com valores próprios, e com uma plástica que desdenha o meio, o suporte, e que releva o enquadramento formal em prejuízo do bom gosto. Só que a política não chega a destruir o espaço “pictórico”, apenas o gelatiniza numa bamboleante flacidez.
Avulsário irrelevantico Os lingrinhas de espírito podem ler, mas depois têm de tomar o já clássico nausefe entremeado de nandrolona. Negociações ortográficas ( I ) Já me esquecia de avisar Depois do apoio simpático e competente duma mão amiga, consegui para este blog uma autorização especial para escrever a palavra explendor com “x”. O mundo nunca mais será a mesma pasmaceira. Se eu não me metesse nesta conversa nem era homem nem era nada ( I ) Tenho de confessar que um dos ostracismos léxicos que me desgosta é o que desprimora “prenda” em relação a “presente”. Reparemos que a expressão “tu és uma bela prenda” acaba por ser bem mais interessante, do que o extraordinária “que belo presente que o menino aí fez”. A constatação merdocrática escolheu o termo mais griffado , deixando para o juízo moralista a palavra mais carregada de suburbanidade. Têm de se tirar daqui as devidas ilações (enquanto esta expressão é permitida, claro está), até porque a elação também pode ser socialmente desag...
O tráfico de influenza Uma guerra química à portuguesa Tudo se passa num call center encafuado num escritório mal arejado ali à Estefânea (não, não é o centro de escutas da Judiciária). Uma empresa teve a ideia de oferecer os seus serviços de contágio biológico, enviando diversas estirpes do vírus gripal à cobrança. Tratava-se de permitir com a máxima confidencialidade e profissionalismo que alguém pudesse “desfrutar”, ou fazer “desfrutar”, desta benesse da microbiologia. ... - Tá, aqui fala Soraya, em que posso ser útil - Bem, eu soube dos vossos vírus, e estava a pensar se não poderia pôr aquele rapaz, o Portas, com umas dorzinhas no corpo e uma respiração ventilada... - Ora estou a falar com... - hum... Mário... - Sô. Mário, nós temos um “envelope biológico” com muita saída. Se trata duma estirpe que funciona lindamente nos chamados cachimbos da paz. Tivemos quase a vender uma remessa ao Sô Saramago para ele levar a um almoço. Pulveriza-se na zona da boquilha, e dá inclusive direito...
Pergunta indiscreta mas rápida Que eu faço ao Voz do Deserto Ele diz: «Os profetas diziam nas praças o que muitos não seriam capazes de segredar no confessionário» Eu pergunto : Como é que sabes?
Hoje não há gajas inacessíveis Histórias de desencantar Sempre desconfiei muito dos artistas que se safam à base de truques. Pensava outra vez naquela rapaziada finória que monta a sua tendinha de farturas encostada à banca dos tirinhos da sorte, para poder sacar todo o tipo de clientela desencantada, e servir-lhes arte tenrinha e às trancinhas. Um dos que teve de passar nessa venda de rifas foi, por exemplo, o G. Baselitz, que endrominou bem com a famosa inversão de sentido (primeiro andou a apalpar o terreno com umas árvores ao contrário, e depois foi por aí a fora, com miúdas e tudo, o que nem é próprio). O gajito andava já à toa com a fama de banha-da-cobra-seller, quando acaba por se safar por uma unha negra com a colagem à chamada “ poética posicional ”, desencantada noutro rapaz também muito recomendável que foi o P. Celan. Uma teoria é sempre uma moça amiga que vale a pena ter a jeito, não vá a mulher-a-dias estar com a ciática. Podemos ter de lhe aguentar alguns caprichos é ce...
Uma das muitas artes que não possuo, é a arte de estar e de ser triste. Fico sempre sem pontinha de encanto, desprezado pelas deusas da estética, e rodeado de “ai credos”. Se calhar devia ter fechado definitivamente esta loja, mas o novo dicionário não ilustrado ainda acabou por me trazer – arrastado – para os sinais exteriores de tristeza. Hoje, isto nem é d’ homem. A Tristeza – Grande caloteira quando toca a pagar dívidas e, agora descubro, péssima esfregona quando há que apagar dúvidas. Lágrima ao canto do olho – Esguicho tímido dum canal que, cheio de vergonha, nem irriga em condições, nem nos despeja o esgoto da alma. Olhos molhados – Estéril lubrificação, que na viscosidade que alimenta, só produz desfocagem e turvamentos. A visão torna-se pantanosa, e a sua drenagem faz-se directamente para o aterro da freguesia da desesperança. Aperto no peito – Sintoma que, apesar de termos o consolo de não ser enfarte, temos o desconsolo de não passar com nenhum comprimidinho debaixo da língu...
Abrilada em flor O MFA que me desculpe, mas é assim que eu vejo a coisa Miúdas, bola e dentes. Quando se deu o 25 de Abril de 74 eu era um puto que andava no Liceu Pedro Nunes. Revolucionei à molhada entre os cocktails molotov e as fugas pelo cemitério dos ingleses. Com os chaimites à porta e os pides a rebolarem pela escadaria. Havia porrada. Dei mais do que levei, claro. Um gajo se não tem no passado uma juventude rebelde e dominadora é uma merda. Ah! e apareceram as gajas. Mas porra, elas já na altura sabiam mais que nós. O que eu tive de dissimular a fingir que já sabia tudo! ( penso que para elas os problemas nem eram bem a revolução, nem a evolução, mas sim a ovulação, pela idade que tinham na altura...) A vida ia deixando de ser só o “jardim-cinema”. Mas até foi a descer a Pedro Alvares Cabral, ali ainda antes de chegar à sede do MRPP - é verdade ó Plancha pá o que é feito de ti e do teu caderninho pautado ? – quando uma gajita me explicou como é que se dava um beijo na boca. Ma...
Acompanhei com certo tédio a ênfase dada a algumas tiradas pós-escleróticas do tal livro “ Impasses ” que, se Deus nosso Senhor me proteger em condições, nunca lhe porei os olhinhos em cima. Para indecisões já me bastam as saídas à noite da minha filha. Para delicadezas já me bastam os sermões da minha mulher ( ups!...). Para evidências já me bastam os estragos do meu filho. No fundo eu sou uma pessoa muito caseira. Só que não gramo é pudins instantâneos disfarçados de doces conventuais. Nem fritadas que tresandam a previsibilidade. Exaustor ligado no novo dicionário não ilustrado para as entradas nºs 632 a 641. “Não ter provas” – Estado da natureza em que o argumento perde a piada e fica ao mesmo nível da verdade, se bem que vestindo das melhores marcas. Mas como agora parece que não se tem provas de nada, acabamos por ter de viver todos no bom estilo “À Pai Adão”. Uma boa parra às vezes vale mais que um fraldário de banalidades descartáveis “Análise” – Termo a pedir divã, só que ger...
Flechas de sorte Isto: "O amor existe. Já aquela noção de que o amor pode «salvar-nos» nunca me convenceu minimamente. O amor não nos salva de coisíssima nenhuma. Pelo contrário, é a nós, pequenitos, inconsequentes, quotidianos, e demasiado inteligentes, que compete salvar o amor. E, sendo assim, amor, temo por ti, a sério que temo. “ in Seta despedida É terrível não querer acreditar numa coisa e não conseguir.
Apenas desenrebanhando num desperdício de palavras Mas elas nem sequer são um recurso escasso Admito que detesto livros. Não me encanta nada essa coisa de desfolhar, de andar atrás do que paira escrevenhado. De arregalar os olhos onde outros despejaram as suas conjuntivites verbais. Chegam a estontear-me, tenho de confessar. Que valerá essa coisa que terá certamente um sabor empapelado? O que valerá esse horrível cheirinho tipográfico, que foi sugado aos corantes roubados às florinhas que ornamentavam os prados. Que valerá essa coisa que só vive se for esfregada com os dedos, ou adocicada pela imaginação. É uma sensaboria ter de ler uma papelada encadernada e que nunca se esgota numa só folhagem. Ter de juntar mentalmente palavras, que andam sôfrega, funcionária, e arrastadamente a prestar vassalagem a uma pasta desresinada e poluente! De origem malcheirosa, e nascidos da decadência dum tronco! Que idolatria mais balofa, essa que adora uns folhados insonsos e corrompidos por um padeiro...
Labirintos com ratoeira Mas um gajo vai-se desenrascando Eu lá tinha ido dar uma volta à terra onde uma Santa Senhora apareceu a uns pastorinhos em cima duma Azinheira; (por acaso cheguei a pensar que se eles se estivessem a portar da forma selvática como um dos meus filhos foi brindando toda a pequena multidão penitente, a Senhora de branco talvez tivesse pensado duas vezes em abençoar aquele povoado, e teria certamente questionado o seu Filho sobre certos detalhes da redenção, senão mesmo da própria criação) No entanto, não é este episódio prosaico e irrelevante que me transporta directamente aqui a esta caverna blogspotica. O que aqui me traz, é que estava eu agora a abrir esta máquina-de-escrever-ilustrada, que por acaso até me brinda à entrada com “ A Bela Jardineira “ de Raffaello acompanhada pelo menino Jesus e S. João Baptista, quando o Outlook me escarrapacha com um presente enviado por uma mão amiga com vocação de deusa: a fotografia quase-tipo-passe de Madonna. Fico assim aq...
Hipocondriaquices Cenas duma vida em ambulatório Vou seguindo o tratamento da Drª Girassol. Se calhar já sem aquela sofreguidão da primeira vez; Talvez – hoje - já sem aquela pimenta de “mal dizer” que o acompanhou na primeira dose. Mas eu também – está visto - não sou homem de ficar a olhar para as primeiras pedras; sou mais de segundas pedras. Das que já calcam solo mais duro. Um tratamento, dizem-me, vale pela sua continuidade, pelas tomadas às horas certas, sem interrupções, avaliando sistematicamente os efeitos. Mas muitas vezes toma-se só por tomar. Até talvez por medo à Srª Drª, que, quem sabe, ainda se aborrece, e pode deixar de me passar as receitas, e lá vou eu outra vez para a bicha da caixa. Dona "Unhaca" Uma das figuras de estilo da moda é terminar um textozinho com uma frase curta e seca. Dão até muito boa serventia aquelas frases retiradas de expressões do léxico popular; este artifício de erudita coloquialidade transporta-nos para a imagem do escrevedor como p...
Pronto, só para falar de qualquer coisa, assim....pronto...concreta No chamado “mundo das empresas” é muito frequente, face a uma “indefinição estratégica” – expressão sofisticada também utilizada para substituir o clássico “tudo à nora” - recorrer à figura mítica do consultor estratégico. Todos estão conscientes que a presidir a esta elaboradíssima e ponderadíssima decisão se encontram menos os critérios de eficácia, e bem mais os critérios de relaxe de consciência e de estética de estatuto & decisão. Mas avança-se sempre – haja dinheiro – numa senda de belos almoços e deliciosas reuniões cujo grau de salamaleques depende do montante da factura a pagar. Este é um circuito de manutenção que se repete várias vezes, como convém para estar sempre em forma, e não sermos sobressaltados com obstáculos inoportunos que resultam nas roturas ou tendinites de percurso. O Estado, claro está, já descobriu este formato de alívio de consciências há muito tempo, e neste momento será mesmo o grande...
Apenas eu, comigo, e amparado pelo próprio Fico sempre chateado quando escrevo um daqueles textos “que não leva a lado nenhum”, e que ainda para mais apenas se sacode na tolice das palavras. «É pá mas isso são todos». E olha que “os ventos só sopram a favor daqueles que sabem para onde querem ir”, como diz o pessoal da vela (sempre cheio de tiradas profundas) E olha, também que se lixe. Vou a motor e... - A tua escrita é cansativa. Espiralada. De circuito fechado - Redundante, queres dizer - Sim, e é que nem todas as espirais dão uma boa mola, como sabes. - Então, faz-te um favor: despreza-me - Resolves tudo pondo-te numa concha - O meu sonho é ser bivalve - Para fazeres de vítima? - Não, para poder ter duas almas. Mas uma é só para mim. - Aagh! Mais joguinhos de palavras. - Cada um brinca com o que pode. E eu nem sequer anseio ser perspectiva. - És um desperdício de recursos da redenção - É pá, porra, isso é que eu não admito. Mas serei mesmo? - Não te preocupes, vivemos nos tempos em...
Quem se submete ao veredicto dos outros é um cobarde Quando o próprio não se sustenta a si mesmo é porque está a fazer um frete ao nosso destino de meros "seres de convívio". Precisar de se deixar avaliar pelos outros para saber se valho algo!? Fazer do gosto alheio a regra e o esquadro da minha parvoíce!? Tudo isto é perder tempo em campeonatos de regra marada, e de eliminatórias falseadas. Um amor não correspondido é uma bênção para a alma. Um esforço ou um talento que tenha de ser recompensado e reconhecido é um marasmo de reciprocidade. O novo dicionário não ilustrado hoje está a servir ao balcão shots de autoconfiança com rodelinhas de “arrogância-de-enfeite”; em regime de bar aberto. Dedicado aos bamboleadores da psique alheia, que nos polvilham de ideias enfareladas e précozinhadas sobre como fazer um bom panado de ego. Podemo-nos dar aos outros sem ser numa bandeja de croquetes. ( entradas 625 a 631 ) “Ir a jogo” – Quando nos deixamos imolar pelo fogo da curiosidade,...
Apenas tratando dos canteiros do quintal. Sempre varrendo para o quintal do vizinho. “ E como pessimista e filósofo nebuloso o arrumaram, ele que é a própria imagem da vida activa, da juventude, do inconformismo, da provocação, da coragem – qualidades incómodas – que é preferível deixar no esquecimento por troca com o poeta amargurado, que ele também foi, mas inofensivo, um entre tantos, neste pais de poetas, com um lugarzinho garantido nos compêndios escolares e na cultura geral” de Ana Maria Almeida Martins no prefácio aos Sonetos de Antero de Quental. O sonho de alguns escrevedores de profissão é serem catalogados numa das duas extremidades da fama: Ou “visionário-acutilantes”, ou “lírico-decadentes”. E a poesia é muitas vezes um mero refúgio ou estratagema. Disfarçada de encantamento. Balelas que, a maior parte das vezes, nem sequer ocupam a largura da folha, quanto mais a largura da alma. Quanto mais envenenarem o mundo. Às vezes só mesmo uma "informed guess"- “person” ...
Quando os outros fazem melhor, um tipo deve é estar calado, mas.... Nas últimas entradas do dicionário reparo que me esqueci do “voto de qualidade” , mas reparo também que o Manuel Jorge Marmelo o “ilustrou” muito melhor que eu ( como seria de esperar, aliás). Se bem que eu talvez metesse a minha colherada naquela conversa de miúdos...É que a “vida de infância” é um must da ascética cristã. Todos nos sentimos bem junto ao lugar comum de que a “verdade está na inocência das crianças”, mas poucos se dão ao luxo de experimentar essas "loucas" paragens. A sociedade tributa em excesso tais sinais exteriores de riqueza.
Se Deus tivesse sufragado o seu povo para decidir se haveria de morrer por nós ou não, julgo que o abstencionismo teria tomado conta das hostes. A morte de Deus não seria de todo um assunto que influísse na nossa vidinha, a ponte da Páscoa não se podia desperdiçar ao sabor dos caprichos dum criador indeciso e titubeante, e Ele que se amanhasse sozinho, pois por isso é que era Deus. Mas claro que se criariam logo as inevitáveis ondas do “sim” e do “não”. A sempre empolgante e esclarecida clivagem dos grandes básicos. Uns defenderiam que “sim”, que deveria morrer, porque também tinha de suar as estopinhas e carpir como todos; outros – o do “não” – argumentariam que a Deus já lhe bastava existir e zelar por nós, que não se devia desgastar noutras canseiras desnecessárias. Mas...não... não vou continuar com esta converseta de chacha . Vou-me guardar para mais tarde, para quando tiver de ocupar os tempos mortos entre as análises à próstata e ao colestrol. É que o meu sonho de xéxézice é qu...
A neura de mão em mão à deriva nas nervuras duma sina O que diria um psicoterapeuta : - está aí a desenvolver-se um mecanismo pré-depressivo O que se diria no meio dumas cervejolas: – Foda-se, sirvam mais uma caneca àquele gajo Picasso diria: - Tens de ver ao mesmo tempo as várias faces do problema O que diria a revista xis: - Reconcilia-te contigo e com o teu mundo O que diria a mãezinha: – Tu tens-te alimentado mal filho O que diria Camões: “Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde, Vem não sei como, e dói não sei porquê” O que diria uma filha: – Bem talvez não seja o melhor momento de lhe pedir para... Ivan Gontcharov poria o seu Oblomov a dizer: - Isto agora passava era com uma boa soneca O que diria uma secretária: – O Sr Dr quer que lhe vá buscar alguma coisa O que diria uma gaja qualquer, num bar qualquer, num hotel qualquer, dum país qualquer : - Então os negócios não lhe correram bem, deixe lá...Mas eu já cá o tinha visto com melhor cara.....
Ecce homo. Versão light Meio-calimero style. P’ra desenjoar. Agora constato que não gosto de revistas de automóveis. Se estou para comprar um carro ainda vá lá, mas ora bolas para que é que eu quero ver o que faz um Ferrari se não vou comprar nenhum. É como apreciar um quadro, dizem-me. Se calhar têm razão, mas eu, pelo sim pelo não, mando-os sempre “àquela parte”, para não alimentar mais conversas. Passa-se o mesmo com a poesia amorosa escrita por mulheres. Eu transtorno-me com aquilo. Para quê ficar ali extasiado, se não era em mim que elas estavam a pensar. Não é dos meus lábios que falam, não é do meu suspiro, não é do meu abraço, não é do meu olhar, não é do meu enlevo, nem é do que eu arrebato nem do que eu assolapo, nada daquilo sou eu! Só me vai criar neuras, ou invejas desmedidas, ou estéreis desfalques d’alma. Se for um poeta-homem a falar da sua mulher amada, isso eu vou ainda gerindo na boa. Aliás, até alivio um pouco “reinando” à socapa: «Siiiim, está bem filho, sim sim, p...
Ainda encolhido na tenda Por uma inspiração muito especial lembrei-me de que todos afinal acabamos por ter uma Nadia Comaneci dentro de nós. Ilusionei com as coreografias do trapezismo voador da política e da vida. Só que no acolchoado tapete da minha alma comezinha. Procurando fugir duma mera faena de palavras que se soltaram dos “ferros” falhados, mas sem saber se consegue, o novo dicionário não ilustrado esta semana arranca de trampolim. Fazendo suar a política e a vida, que no fundo, e por muito que nos custe, se acabam por lavar na mesma barrela.( nas entradas 603 a 610) Políticos em “espargata” – Forçam o músculo afastando até ao limite as extremidades, deixando o centro muito exposto e em risco de rasgamento, mas com a consolação de ficar tudo a olhar para eles a ver o que acontece. Aliviar é sempre a posição que se segue. Vidas em “mortal encarpado” – Quando se quer deslumbrar, muitas vezes apalpamos primeiro o terreno numa geometria controlada e angulosa, porque não gostamos ...
Delírios. Mas não tremens . Espero. Recebi noutro dia uma receita para engorda do sitemeter. Quem mo enviou não gosta de nomes, e por isso fica aqui registada como Dra Girassol. Na sua especial perspicácia e saber desfiou-me o rol de drageias a tomar. Comecei hoje o tratamento em sua especial consideração. Numa exposição quase pornográfica de tempo abusado, inutilizado e desperdiçado, aqui vai a dose de cavalo: "Muita unhaca" – Dizer mal por sistema é um registo que tem tendência para esgotar, principalmente se abusarmos dele. Hoje, no entanto vou arriscar em fazê-lo com um blog de que gosto, e que ainda para mais é dos blogs mais consensuais e apreciados, segundo me dá a parecer. Dizer mal do que se gosta é um arriscado - e até eventualmente perturbante - exercício, mas vou fazer isso porque o Avatares tem esse talento de ir aí por fora à busca dos recônditos buracos do desejo e não o deve desbaratar. Só que ultimamente tem-se perdido um bocadinho em descodificações de fa...
Humor muito nublado Pode ser triste mas é verdade. Nunca me ri com nenhuma comédia grega. Nunca me comovi com nenhuma tragédia grega. Nunca me empolguei com nenhuma epopeia clássica. Não me estico tanto como Baudelaire que diz que « é em “nós” cristãos, que reside o cómico », só que acho de facto que essa "gregalhada" toda bem pode saciar a nossa sede referencial, mas depois sabe a pouco. É como um esquema de abcissas e ordenadas: pode-nos indicar às quantas andamos, mas que raio não nos ensina a derrapar nas curvas, nem a fugir com o carro da valeta aliviando uma sacudidela de traseira. (A ignorância é atrevidota, também é certo...) Talvez fosse a falta da televisão que lhes conferia essa sensaboria. Hoje Aristófanes se tivesse acesso à TVI e às entrevistas da MMGuedes, talvez “As Nuvens” fossem diferentes. Arrisco numa mimesis de vão-de-escada. Soares pai tinha mandado Soares filho à escola socrática do Sousa Tavares. Soares filho seria instruído para resistir aos credores...