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A mostrar mensagens de novembro, 2006
Luna Park “Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.” JB, “Aula de Código (V)”, in Bandeira ao vento, 30 Novembro de 2006
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love letter (aka message in a plastic bag)
Cartas de amor quem as não tem Eu. É triste, mas é verdade. Nunca m’as escreveram. O lado calimérico aponta-me para o imerecimento, o lado arrogante leva-me para a falta de cabimento. A verdade estará no meio: dificuldade em atrair um esforçado mas sentido paleio. Ora se tivesse de elaborar uma teoria, diria: quem nunca recebeu uma carta de amor é porque deve esconder um grande estupor. Mas como não tenho, apenas retenho: alguém que não escreve mas que ama, corre o risco de se perder nos folhos da cama, de desperdiçar o prémio e fica-se pela fama. Primeiro: isto é realmente foleiro, e soa pior que mal, por isso, afinal, ganho tino e refino: amor de letra é foda da treta, é baralhar-se com o testemunho antes de chegar à meta; engrossei em excesso, retomo o processo: o amor escrito é um sentimento restrito, é um lado selvagem que se tempera, mas que nunca chega a domar a fera. Isto atravessa-me um pouco o coração mas leva-me por associação para o conceito de ferida, que é marca do amor q...
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ambrósio, tomei a liberdade de recusar a sua sugestão e preferir algo diferente Jean Dubuffet (1981). Site avec deux personnages (Psycho-Sites). Paris: Centre Georges Pompidou. (acrílico sobre papel reforçado sobre tela, 50×68 cm)
Pedofideismo Parece-me claro que um crente (ora mais temente, ora mais temerário) a Deus, por mais ironia pascaliana ou relativismo kirkegaardiano com que banhe a sua carninha, só consegue um churrasco em condições com umas oraçõezinhas ao deitar. Ninguém aguenta ir para a cama com a prova da causalidade enrolada, nem com angústias hermenêuticas, e muito menos com um Cristo histórico entre o jardim das Oliveiras e os desertos da Galileia. Toda a alma que se preze quer sossego, uma fé tenrinha, que deslize que nem um lombinho assado, e quanto muito um picante ou outro para aquilo não ficar parecido com palometa frita e ainda dar para enjoar. Os evangelistas dizem-nos que Jesus indicava a simplicidade das crianças, e a descontracção dos lírios do campo, como ‘modelo de vida interior’, dando assim uma dica (expressão popularucha para ‘boa nova’) sobre a melhor maneira de adequar a nossa natureza de homo faber-sapiens, com tendência para complicar, à verdade mais fundamental da nossa condi...
Minha estimada senhora, Não lhe bastando ter colocado aqui um dragão de língua de fora, numa afronta directa ao momento de alguma ansiedade competitiva que envolve a minha leonina alma, entusiasmou-se, e youtubou aqui o estabelecimento com uma musiquinha pospunkada dos Soft Cell ameaçando a virilidade construída filigranadamente (eu gosto desta expressão, que fazer) ao longo destas semanas. Espera-se a remissão destas provocadoras atitudes com fotografias de virgens parmigianas, colagens de pintores expressionistas de cariz não suicidário, seguidas de paisagens bucólicas encimadas por versos de sebastião da gama, sendo, no entanto, facultativos, tanto os pôr do sol no portinho da arrábida como as naturezas mortas cubistas. Em querendo fazer uma série, como é de bom tom, tomo a liberdade, senhora, à falta do ferrero rocher, de lhe sugerir algo que possa reflectir uma alma em constante vertigem de originalidade, a título de exemplo, arranjos de flores ou frisos em art deco. Respeitosamen...
on behalf of thy (aka the gregorian cabaret) Soft Cell - Sex Dwarf (Live)
Liedson Custa-me que o principal assunto que me preocupa não esteja também a preocupar a generalidade das pessoas. Não sei se será falta de atenção, se será deslumbramento com as iluminações de Natal, ou andam todos a decorar poemas do cesariny- cesarine como diria o nosso Eanes – ou a discutir alternativas para o TGV (Trauma das Grávidas Voluntárias; atenção, um flagelo! uma mulher quer ter logo o filho às 10 semanas porque já não aguenta com as costas, já tem o enxovalinho pronto, tem saudades do período e assim, e ninguém lhe deixa, acho que nem em Badajoz), não sei, mas não vejo ninguém realmente preocupado com a falta de golos do nosso Liedson, acho que se chama mesmo insensibilidade; chega a dar-me, também tenho de reconhecer, se bem que é mais com after-shaves e azeitonas de elvas. Para além de o sentir triste por se ver acompanhado por aquela dupla de artolas que mais parece uma colecção de armações da multiópticas para maricas ‘Alecsandro & Bueno’ - que quase me fazem sent...
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ong
Luna Park “o amor é um pouco como a fé. ou se tem ou não se tem. não o amor e a fé, mas a capacidade ou a possibilidade de lhes aceder, de ser por eles ‘transfigurados’” f., in “um amor de bond”, Glória fácil em 27 de Novembro de 2006
Todos temos um bocadinho de Agustina B. Luis dentro de nós No público leio que Maria José Nogueira Pinto depois de dizer que Sócrates não tem uma ‘agenda de valores’ (adoro estas expressões, mas ‘homens descascados de ideologias’ também não está nada mal) remata dizendo que o governo nunca lhe ‘pediu para vender a alma’. Ou distraídos, ou inconscientes mesmo; certamente uma consequência dessa negligencia socialista em se fundamentar num conjunto de valores devidamente certificados por anos e anos de bem-fazer ao próximo, filhos do jacobinismo, enteados do materialismo dialéctico e finalmente adoptados como bichos de estimação do capitalismo selvagem. Ora o governo, que tem tanto dinheiro mal gasto, (atrasava-se aí uns quinze dias o plano tecnológico), bem podia deixar-se de arrogâncias e forretices e arranjar algum para comprar a alma de Mizé Nogueira Pinto; não só ganhava uma aforista descomprometida (‘quem exerce um poder moderador tem de o exercer moderadamente’ – género: o verde se...
‘O vale dos Arménios’ (*) Num dos catálogos editados por alturas da exposição de Arshile Gorky na Gulbenkian nos anos 80, no texto de apresentação (escrito pelo seu sobrinho) retive-me nesta frase: ‘É um dos poucos artistas cuja vida nada fica a dever à sua arte…’. Hoje no ‘público’ uma das páginas dedicadas a Cesariny tem como título: ‘viveu à altura da obra e a obra esteve à altura da vida’. Tendo eu para mim que um poeta se faz com a morte, como mais nenhuma actividade - tirando a de coveiro e florista, claro – e que a vida é cada vez mais coisa para ‘decoradores de alfabetos’, viciados em low cost e pauliteiros sem miranda, chego rápido à conclusão: passo bem sem ‘vidas’. A. Gorki quando se enforcou terá deixado escrito: ‘Adeus Meus Queridos’, revelando que da vida, por mais intensa que tivesse sido, apenas deixava os seus queridos; a vida mede-se pelos nossos queridos, não pelos nossos actos. Não tarda cito o Sto Agostinho ou o Erasmo, ou ainda como uma apple strudell, ou desenho...
Folclore, ganzas & pão de mistura É bom que se arranquem uns cabelos por causa desta cegada da festa da música, sim. Todos sabemos que, não havendo dinheiro, a possibilidade de haver palhaços vai diminuindo e só por essa razão a discussão em causa quase poderia ficar arrumada. Mas falta o quase. Temos de considerar que o espírito do ocidental médio – directa e indirectamente, advertida ou inadvertidamente – foi-se construindo muito à conta de megalomanias absurdas, de excentricidades criativas, a par de best sellers, blockbusters e outras la-feriadas afins; vaidades a par de contabilidades; rinocerontes bebés alimentados a biberon, lado a lado com fiscais de finanças a somar facturas de restaurantes. Encenações de Wagner e roupa cagada com algodão doce. Não há uma fórmula para ‘enriquecer o espírito’, como não há uma fórmula para nos tornarmos ‘melhores pessoas’, ou para aguentar um governo socialista sem ficarmos todos com cara de parvo ao fim de poucos meses, mas não é a ver os t...
Luna Park “Que estranha fragmentação entre a emoção e a realidade será esta que nos faz reconhecer a morte anunciada no próprio fôlego da mais inflamada jura de amor, que nos cega perante as evidências…? Já sei porque é que os anjos não têm sexo!” Da Infalibilidade do Previsível, in “Um crânio no poste”, 4 de Outubro de 2006
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(un)biased
Protestólicos e Cantantes Volto ao apaixonante tema. O Cristianismo ecuménico-institucional devia alimentar ainda uma maior amplitude creditícia em vez de estarem sempre a tentar encontrar pontos de união que nem costureiras amestradas. A concorrência doutrinal é uma coisa boa; há pessoas que se dão melhor com um cagaço apocalíptico, outras com um Deus misericordioso em cada esquina, outras com um Deus tão fundo lá no coração delas que quase nunca chega às unhas, nem aos dentes, nem aos outros órgãos mais periférico-pendentes, não há nada a fazer, o Criador ‘pensou-nos e fez-nos’ mais variados que uma boa salada russa, mais mistela que os cogumelos que a minha irmã começou a fazer quando se casou (e, portanto, a primeira vez que entrou numa cozinha por moto próprio e com um mínimo de provas a dar a terceiros; sim miúda, se leres isto, ficas a saber que me traumatizaram tanto como a primeira vez que li os teus sublinhados nos livros do Desmond Morris). Quem vai a uma missa católica (a ú...
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de qui donc a-t-il parlé? (*) “Salomé” (pormenor) - Alfred Stevens, 1888, M.R.B.A.B., Bruxelles (*) Oscar Wilde - “Salomé” (1893)
Quadratura do círculo em directo I ‘Há um programa que separa as águas’ diz o genérico de apresentação. Ora o prémio Moisés do Ano vai para… Quadratura do círculo em directo II Lobo Xavier lembrou-se de Jorge Sampaio. (Devem estar a perder share para a RTP memória) Pacheco Pereira hoje não traz gravata. Lobo Xavier está com as mãozinhas como uma professora minha de ciências da natureza no Pedro Nunes e diz que Cavaco tem ‘problemas de tempo e forma’. Drª Maria, cuide-se, vai sobrar para si. Escrevo rápido mas não consigo apanhar estes gajos. Quadratura do circulo em directo III Sobre a gravata de Jota Coelho não me pronuncio por causa das buscas aqui ao blog, (se bem que ‘exaustor’ continua líder destacado de temas buscados). JC adianta que Ribeiro e Castro foi mais inteligente que Marques Mendes; Pacheco avisa que está irónico; o cameraman até tremeu. Coelho põe o dedo em riste à Portas, mas como não tem botões de punho não dá o mesmo efeito. Até agora o tema continua irrelevante e a ...
Serviço público The Global Oh! Para mais informação - porque todo o contributo para a Paz é relevante e imperdoável a abstenção de tal dever cívico - GlobalOrgasm Blog
Arredondando o eu e distribuindo vírgulas sem casas decimais Já fui casuístico, já fui silogístico, já fui inclusivamente concatenador de vontades e, mesmo nunca tendo deixado de ser quessefodístico nem punheteiro de verdades avulsas, hoje sou cada vez mais coçamascostístico de opiniões avalizadas e vaselinador de interesses. Aliás, se não, reparem nos temas que trouxeram, ontem, algumas almas dispersas, e vagueantes, até aqui: ‘creme barral’ / ‘eucumenismo’ / ‘luna park’ / ‘filoctetes’ / ‘a percepção estereótipo’ Tornaram-se pessoas melhores, certamente, não desfazendo, claro, nas que, no dia anterior, cá tinham vindo procurar as melhores ‘formas de fazer madeixas’. Mas isto lembra-me, é, tudo um pouco, a nova forma socialista de governar, combinado com o título do livro do Santana Fantasma Lopes: mais vale uma percepção na mão do que duas realidades a voar. Actualização: mas hoje as buscas a ‘ferro e tábua de engomar’ também não estão a correr mal.
Luna Park “Os anos são degraus, a Vida a escada. / Longa ou curta, só Deus pode medi-la.” - Sophia de Mello Breyner Andresen
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fiction rule #2 - code, don’t mirror
Spreads de barro Eis que, sem tema, o sarcástico e virulento cronista se aproximava da folha nua, apenas sabendo que tinha de arruinar a reputação de alguém. Ninguém tinha direito ao bom nome, isso era coisa para gente de personalidade fraca e mentes suburbanas, que precisam da imagem para agradar ao patrão, ou para foder a patroa, e assim ele tratava de elevar alguns eleitos a esse altar ‘dos de quem dizem mal’. Hoje sentia necessidade de um delito sexual, poderia mesmo ter de incluir um filho fora do casamento, seria bem disfarçado, claro, apareceria como uma hipocrisia de costumes, um conflito de mensagens, mas seria um rombo definitivo no casco. O cliente tinha-lhe de facto pedido: «faz-me a folha, estou farto de que me digam que sou perfeito de mais para ser verdade, quero os meus vícios autenticados, quero chafurdar na minha própria lama». Pela primeira vez hesitou, pensou se não seria suficiente apenas um pequeno delito fiscal, uma vendedora de sexo ocasional em forma de retençã...
Nova encigolbédia do reynanimal em fassiclus menstruais. Sai próximo das luas novas. (e foi então esta a forma aligeirada que eu arranjei para contrariar a mais famosa verdade cientifica sobre o comportamento humano: a cruel interferência das traiçoeiras fases da lua) Hoje serão quatro exemplares da família dos bloguídeos. Espécie caracterizada por cartilagens sensíveis, omnívora, guelra oleada, penugem caduca e amante de calduços na nuca. As blosgas – animal de escrita quente e despreocupada, gosta de apanhar solinho no lombo mas qualquer fresta lhe serve para se enfiar e refrescar as ideias mais íntimas. Aproveita as superfícies especialmente rugosas para se coçar e desliza bem nas paredes estocadas em tromp d’oeil. Acasala em regime de time-sharing. Os blogamaliões – animal de escrita pegajosa, com mudanças de tonalidade consoante a correnteza hormonal. Piscam o olho em todas as direcções mas depois acasalam em grupos seleccionados pelo cheiro. A amamentação é servida já com adoçant...
Luna Park “Os únicos alheios ao sexo são os anjos e de momento não conhecemos nenhum.” Blog “Sexo”, El Mundo, 3 de Novembro de 2006
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fiction rule #1 - show, don’t tell
Inside blogaring Fui finalmente admoestado de forma formal, e por quem de direito, pelo excessivo fantasiamento e perca do controle da escrita aqui neste estaminé. Demasiadas ideias a pairar na mesma frase, algumas inclusivamente contraditórias e a piscarem o olho umas às outras, trocadilhos de efeito duvidoso, se não mesmo duma previsibilidade cansativa, alguma ordinarice decadente e forçada, deambulação por temas onde não devia meter o nariz por evidente incompetência, alheamento ao ridículo, misturar Deus com miudezas - a roçar o panteísmo marialva, com heresias não autenticadas - enfim um rol de pequenos delitos que seriam suficientes para uma domiciliária criativa a pão e água. Estilo descuidado, foi ainda deixado subentendido, e foi igualmente sublinhada uma certa falta de pachorra para acompanhar textos que depois desembocam sempre no chamado lugar nenhum (a versão caseira e cruzada do ‘ninguém’ shakespeariano do ‘nowhere’ peri-existencialista, contudo). É uma tristeza, no fundo...
Alberta, filha, e se fosses escrever romances a meias com o Rodrigues? Ontem o telejornal do canal 2 terminava com uma reportagem sobre a inauguração da exposição do Amadeo Souza Cardoso na Gulbenkian. A apresentadora, uma tal de Alberta, mas com um olhar relativamente fechado, ia fazendo carantonhas ao comentar uma breve entrevista com Julião Sarmento (o chamado pequeno momento de reportagem) em que este afirmava que se inseria naquele ‘grupo’ de artistas que ‘pinta essencialmente para os outros artistas’. A dita apresentadora, paga certamente ao bocejo provocado pelos seus dotes de mímica carnavalesca, quis deixar no ar – eu sou muito bom a saber o que vai dentro da cabeça dos outros, sim – que o pintor mostrava um elitismo criativo despudorado, tendo até deturpado uma frase dele, ao insinuar que o homem teria dito explicitamente que ‘não pintava para o comum dos mortais’. Mas até podia ter dito; um gajo que pinte para o comum dos mortais é basicamente um parvo. No entanto o que Juli...
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compensação (a lei)
Eucumenismo, tucumenismo e elecumenismo Hoje leio no Público que, a propósito dum tal de diálogo (Guterres&Melicias free, ao menos valha-nos isso), bispos católicos e anglicanos referem-se aos principais temas que aparentemente os afastam, depois de já sanadas outras miudezas teológicas; são eles a ‘ordenação de bispas’ e os ‘pastores homossexuais’, sic. Penso que só o encanto destas fantásticas expressões bastariam para afastar qualquer um, mas adiante, quero mesmo correr o risco de me meter na conversa. O mundo, pelos vistos, anda baralhado por causa do papel que nele desempenham as gajas e os paneleiros, a par dos terroristas e dos pedófilos, (resolvidos que estão os problemas existenciais dos fiscais das finanças e das putas, claro). O que divide efectivamente hoje as pessoas será então : os pedófilos e os terroristas devem ser mortos com um ferro em brasa enfiado no cu, ou basta serem assadinhos no espeto com picante e açafrão; ou então, deve uma gaja gorda e vesga, mas mirrad...
Uma mulher bonita: a definição Não, não vou dizer o que é uma mulher ‘bonita para mim’, isso seria dum ridículo atroz, duma irrelevância quase ingénua; eu vou dizer o que é uma mulher bonita, mesmo, definitely. 1. Nenhuma mulher pode ser considerada bonita antes de ter desenhado o seu primeiro fecho-éclair de rugas. A ruga bem colocada, a acolitar o sorriso ou a estranheza, o cansaço ou a tristeza, é absolutamente essencial para definir a beleza. Se a pele ainda não vincou a sério estamos apenas na sala de espera a gerir suspiros com anúncios de cremalhada. A juventude pode trazer consigo a pelinha esticada, fresca e luzidia, mas, se for para isso, o melhor é ir ver os golfinhos pró Sado. 2. O olhar duma mulher bonita tem de ser distante e indiferente. Uma mulher que concentre o seu magnetismo no olhar está para a beleza como o busca-pólos para o electricista: serve apenas para detectar a existência da corrente mas nunca garante a qualidade da ligação à terra. O segredo está no não-olh...
,Luna Park “Existem dois tipos de pessoas: aquelas que dizem a Deus: ‘ Muito bem, assim será feito’, e aquelas a quem Deus diz: ‘ Está bem, então faz isso à tua maneira’.” C.S. Lewis, ‘The Screwtape letters’, 1943
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mundos de sonho (*) Torii Kotondo (1900-1976), O cabelo pela manhã (pormenor). Japão, 1932 [gravura sobre madeira; tinta e pigmentos sobre papel, 43 x 27,2 cm], Smithsonian Institution, Washington D.C. (*) Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Artroses mentais e outros problemas estereotipo-antropológicos Um estudo publicado na revista Science terá concluído que ‘o desempenho feminino na matemática depende daquilo em que cada mulher acredita sobre predisposições e determinações genéticas ou sociais relativas a esta matéria’ (frase retirada do Público (6ªfª) – eu, desde que inventaram os raios laser, deixei de ler revistas científicas). Afastando-me das piadinhas que se podiam construir à volta da matemática no feminino (vai-se ganhando um lugar no céu à conta destas pequeninas coisas) vou-me reter apenas neste conceito que é o ‘condicionamento baseado na crença em predisposições e determinações genéticas e sociais’. Dizer que a mulher está especialmente determinada por ‘aquilo que é’ + ‘aquilo que pensa que é’ + ‘o que pensa que os outros pensam que ela é’ dá obviamente uma fórmula de sucesso, apesar de ser duma banalidade confrangedora, e algo recorrente. Se eu me puser a pensar que sou piloto de fórmula 1 e pedir à minha m...
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quiz
Param, scutam e otam, mas o comboio já passou há que tempos. João Gonçalves, no Portugal dos Pequenino s, remata um post com a frase-trocadilho sobre a esquerda portuguesa, caracterizando-a como ‘persiste sinistra’. Literariamente feliz, mas julgo que acaba por valorizá-la em excesso. A esquerda (primeiro em regime de clandestinidade e depois de pós revolução) produziu, de facto, em Portugal, o único político de eleição depois de Salazar, que foi Soares, (Cunhal daqui a uns anos ficará apenas como um sofrível desenhador a carvão) mas de resto apenas alimenta, na regra, o que foi mantendo colado com cuspo ao longo dos anos: o intelectualismo bafiento (em média sempre mais fraco que a vida intelectual da direita - que evoluiu para mais aberta, mais culta e mais actualizada – e alinhavado numa cozedura arrastada), o tecnocratismo anedótico (sempre a meio caminho entre a incompetência, o almanaque e a flacidez - e nunca focado como o da direita- apenas babando reformas como quem palita os ...
naif de ponta e mola Eu sou daqueles que ainda achou que o bush não podia ser tão tolo assim (mesmo quando me escarrapachavam as gaffes na cara), eu sou daqueles que pensou que Blair tinha algo por detrás do sorriso ( mesmo que agora até se tenha convertido aos preceitos da santa madre igreja, deixando os ingleses a hesitar entre um sucessor mais cockney ou uma mais posh - pois acho que não há fox terriers, nem after eights disponíveis) , eu sou daqueles que acho que a Segolene vai ganhar porque o Laurent fabius dá muitas parecenças ao mega ferreira, eu sou daqueles que não se importa que a maria joão pires tenha levado os bemois para o brasil, mas não sabia que a contrapartida era o sustenido buarque não nos largar a peúga, eu sou daqueles que ainda hoje dou graças todos os dias pelo dia em que o peseiro bazou dos lagartos, eu sou daqueles que ainda gosta de saramago, apesar d’ele não conseguir descrever sopinhas de leite condensado tão bem como o rodrigues dos santos, eu sou daqueles...
Don Cavacon José Pacheco Pereira, master franchise da ‘lei de gresham’ para o segmento da blogaria, explica hoje no público como o bom blog deve expulsar o mau blog.
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quiz
‘Um’ homenage aos poetes que muite me proporcionaram’ Sim, o nosso Ramalho Eanes também foi proporcionado pelas bênçãos da ‘brisa fresca’ das palavras em degrauzinhos e vai ter a sua recolha de poemas publicada na série do Público. Ora constar que alguém foi proporcionado é algo que me deixa roído de inveja, é verdadeiramente o meu sonho. Trata-se dum verbo riquíssimo de conteúdo e até de uma morfologia léxica bastante envolvente (assemelha-se mesmo a um motor a dois tempos sem estar afogado em óleo). No fundo, aquilo que todos procuramos na vida, qual asterixes, é a verdadeira proporção mágica: sabermos o peso, conta e medida da parte do mundo que nos cabe e a parte onde devemos caber, (mesmo sabendo, claro, que temos um coraçãozinho do tamanho do mundo, e unhas dos pés enormes se não as cortarmos, e pêlos nas orelhas - os homens por cauda dos tais genes holândricos – e mais uma enorme gama de etceteras de todos os tamanhos e feitios, incluindo fogagens na testa por causa da merda das...
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my pleasure
We have no more forgiving’s Teremos desculpa para não sermos felizes? Teremos tudo para ser felizes? Seremos mais desperdiçadores que acumuladores? Teremos mais olhos que barriga? Andaremos na berma sem ver a estrada? Quando Montaigne nos ‘Ensaios’ cita Propércio em «a hera cresce melhor se espontânea, o medronheiro nasce mais belo nos antros solitários e o canto dos pássaros é mais doce sem artifício» (a) estará a instigar-nos a forçar o olhar para a vida e para o mundo sem arte e sem ciência? E sem Revelação? Apenas Sol e lambidelas de cão? E sem amores bem construídos, desenhados para durarem, sejam ele mais erotizados, ou mais agapezados, ora mais água-pesados & acastanhados já agora!? Não acredito na ‘simplicidade’ do mundo, não acredito em labirintos fora da literatura e das galerias de arte, não acredito na mulher sem beleza, não acredito na mãe natureza, não acredito numa filial sem sede, não acredito num Deus totalmente não intervencionista, não acredito numa taxa sem spre...
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“multiflash indian club”
Summa Taralhógica Antes da criação do mundo tudo se resumia a uma arrobazinha palpitante. Deus, cansado de tanto acto e de tão pouca potência, disse à arrobazinha: ‘ó tu, faz-te à vida, não sejas taralhoca e espreme-te bem!’ Ela hesitou e de que maneira: «farei um hula hula ou uma habanera…mas antes que Ele se zangue, vai antes um big bang». Dito e feito, ao sétimo dia já era um fartote, e se não fosse o céu um dilúvio mijar, e a torre de Babel a empinar-se no ar, hoje Sodoma seria a nossa feira popular. Vai daí, todo o ser que se pudesse genuflectir sem ganhar muitos calos, nem bolhas nos pés, foi incorporado num pelotão de robinsons crusoes, sem ilhas nem sextas-feiras, com a alma em ferida, e à cata duma terra prometida. Mais Salomão, menos David (que até rimava com pevide, mas não estou para aí virado) chegou-se ao momento em que a metafísica meteu os pés pelas mãos e o Criador achou por bem vir ver pessoalmente em que estado se tinha transformado a arrobazinha palpitante. Apanhou-...
Luna Park “Os detalhes da sua incompetência não me interessam.” Miranda Priestly, in “O Diabo veste Prada”, 2006
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in fabula
No país dos flippers encantados Foi numa manhã chuvosa, daquelas em que Lisboa faz por imitar outras cidades europeias, que MSTavares® , CPCorreia® e MRPinto® se reuniram como sócios fundadores da Liga dos Amigos dos Plagiadores Não Anónimos. Estavam bem dispostos, contavam anedotas do Sala uns aos outros, pois estava-lhes vedada a piadola original de improviso, e a discussão previa-se desde logo acesa em torno do primeiro artigo dos estatutos: «Será considerado plágio acima das três palavras iguais, ou serão precisas quatro?» MST, que tinha vindo do tratamento dum processo de negação, estava bastante liberal «acho que desde que se mude o título e os agradecimentos finais já deve ser aceite», MRP parecia algo confusa e afirmava que só deveria ser admitido um plágio que fosse descoberto antes das 11 semanas, e CPC, ainda a braços com um processo que tinha instaurado à Microsoft por se lhe ter encravada tecla e o rato no copy paste, afirmava que para o plagiador tinha de haver explicação...
‘Lacedemónios dissolutos e Tebanos entretidos’ Demóstenes falando aos atenienses e chamando-lhes à atenção de como tinham deixado espaço à prepotência de Filipe da Macedónia (pai de Alexandre), a certa altura dizia que o povo ‘já se ia dando por muito satisfeito se fosse repartindo entre si os fundos dos espectáculos ou organizasse alguma procissão’ (*) Ontem, como hoje, e aparentemente como em muitos amanhãs, a sobrevivência do ‘poder’ vai de mãos dadas com a decadência da ‘cidadania’: fundamentam-se ambos numa cirúrgica distribuição de mordomias e numa criteriosa prática de liturgias. E com cada vez menos Bastilhas para tomar, as mais nobres e desinquietas almas vão soçobrando nas revoluções dos plágios, nos arredondamentos das taxas de juro, na legislação do ciclo menstrual, nos financiamentos de pérolas do atlântico, na regulamentação das boas práticas gramaticais e nas dores dos procuradores. (*) da 3ª Olintíaca (ed. Espasa Calpe)
Liguem o exaustor O mundo, desde que descobriu que a «acrilamida se forma durante a fritura, a cozedura no forno e os assados em condições de alta temperatura e baixa humidade», nunca mais foi o mesmo. A busca de culinárias alternativas tem levado a espécie aos maiores horrores, e tem inclusivamente afastado a mulher da cozinha, deixando esta ao abrigo de infestações de homens que agora chegam a dizer «eu relaxo muito a cozinhar». Ora homem que relaxe a cozinhar merece bem que a acrilamida se lhe enfie pelos interstícios da masculinidade que nem um peróxido de carbono amestrado. E isto tudo para vos contar que se está a perder o encanto pela fritura. Repare-se que qualquer dia, estejamos à beira do apocalipse final, ou da reeleição do sócrates, ou de mais uma quadratura do círculo, ou de outro livro do MST, queremos aliviar da desolação da pátria e da diarreia de convicções apregoadas em que vivemos, e apetece-nos dizer que estamos todos fritos, e, já nem sabendo o que isso é, acabamos...
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O mundo às nove semanas e meia Ora faz de conta que sou um feto à beira das 10 semanas e estou perante um dilema intransponível: ou vou desaguar num mundo de cesares da neves e gajas nem vê-las, ou num mundo de fornicações breves e algumas edites estrelas. Dou duas voltas na nhanha onde estou a marinar, esfrego bem as cavidades, assobio pró ar, coço as partes e questiono o criador: Meu, achas que ainda posso invocar a objecção de consciência e bazar daqui, que já não há paciência, sei lá, para a constelação dos berimbaus alados, onde já se fazem tostas mistas aparadas com raios laser, embalsamaram o Marx e fazem sexo tântrico sem xanax? Acho bem que me escondas que a odete santos e o louçã andam por cá, pois não haveria livre arbítrio que aguentasse tamanho condicionamento, mas que puseram uns lápis de cera na mão da Paula Rego e uma viola no colo do bob dylan, !? isso acho que já foi de mau gosto não me teres avisado. Agora, convenhamos, é aborrecido um tipo ser feto praticamente às 1...
A ‘fatal futilidade dos factos’ Oiço neste momento paulo portas na sic notícias. Politicamente foi, é, e será, sempre, um bluff politico; a ‘colagem’ a anedotas como durão e santana - era o que ele tinha à mão na altura, de qualquer modo – não lhe permitiram consolidar o partido do taxi no partido da rodoviária e lá teve de ir recreando e mantendo o seu boneco o melhor que conseguiu e consegue. Por estes dias proporciona uma viragem na estética televisiva: o realizador em vez da previsível focagem da apresentadora-objecto concentra-se em grandes (e médios) planos dos seus botões de punho. Mesmo se de caminho vai dizendo que sócrates é vulnerável e que os monopólios são terríveis, entre outras banalidades ditas em formato de fiscal de linha engravatado - neste momento não sei se voltará a elogiar inês pedrosa – a reter, verdadeiramente a reter: os botões de punho, tirando a antevisão da passagem do neoconservadorismo para o conservadorismo moderado e tudo isto sem parecer o albaran. Qua...