Reinaldo Ferreira X Sonha a palavra, Detesta a frase, Sabe o encanto Do que é só quase. In ‘ Chopinesque ’ de R. F. Por acaso não gostava de ter posto esta quadra aqui; Mas é “aberta qb a permitir muitas leituras» disseste-me - perdão: ‘disse-me’- e então hoje fez lembrar-me aquilo que todos temos de berengários dentro de nós, não não é de hereges, a heresia não é compatível com a ignorância, é apenas a nossa apetência parola ao simbolismo, a nossa tendência para nos encostarmos e satisfazermos consoladamente com o misterioso, o quase real, e depois quando um Aquino nos vem falar de transubstanciações, apetece-nos logo dizer: façam um filme com isso e depois eu logo penso no assunto. Sonhar com Deus - meio palavra, meio comichão- como um tal de ente diáfano, mistura esotérica de energia e bondade – e exotérica de chuva e sol – fazendo malabarismos com protões, é uma solução de recurso, de sobrevivência à sombra, é o ‘religare’ despachado com ‘marca branca’, correndo o risco de não per...
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Reinaldo Ferreira IX Compra-o; mas compra-o todo, De modo Que não fique sopro ou brisa Nas mãos de um concorrente Incompetente. In ‘ O essencial é ter o vento’ de R. F. Às palavras leva-as o vento como sabemos, mas depois se não houver quem o compre elas viram poeira. A Politica é igual. Só que já nasce poeira. Concorre com folhas secas e com ácaros. Tem vergonha da competência do pólen. Bem-aventurados os que sabem espirrar selectiva e despudoradamente. E os barcos à vela. Somos todos filhos dum orçamento rectificativo.
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Reinaldo Ferreira VIII É pouco tudo o que eu vejo, Mas basta, por ser metade, Pra que eu me afogue em desejo Aquém do mar da vontade In ‘ Da margem esquerda da vida’ de R. F. Mas controlem-te pá. Reparem que os impostos vão subir, o desejo vai levar com a taxa máxima, toda a lasciva vontade vai ter retenção na fonte e todo o sexo será pago por conta. Vai deixar de haver incentivos ao engate indiscriminado e a evasão será penalizada com leoninos acordos pré-nupciais. A castidade será elevada a dedução à colecta, a abstinência obterá crédito de imposto e só não digo para se tornarem eunucos porque o iva dos capamentos não é de 5%.
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Reinaldo Ferreira VII Se eu soubesse que o olhar de toda a gente Te via, por milagre, repelente, Que fugiam de ti como da peste... Nem assim abrandava o meu ciúme, Que é afinal o natural perfume Da flor do grande amor que tu me deste. In ‘ Se eu pudesse guardar os teus sentidos’ de R. F. No dia em que o ciúme desaparecer, o amor passará também a ser uma percentagem do PIB. Virá então uma comissão analisá-lo e chegará à conclusão: temos de cortar rente, sacrificar amizades e aumentar nas cobranças. ‘Apertaremos o cinto’ e nunca mais ficaremos ‘com as calças na mão’. No limite amaremos todos por igual em regime de duodécimos. Ninguém se ficará a rir de ninguém. Para além disso os 6,83 de deficit parece-me um número bem conseguido dado que esgota todos os algarismos atrevidamente arredondados – repare-se que o ‘seis’ é o ‘nove’ ao contrário por muito que nos possa custar e fazer mal às costas, e o ‘zero’ praticamente nem é algarismo tanto mais que foi descoberto pelos árabes – e eu cá qu...
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Reinaldo Ferreira VI O riso rido É dor que finge Ter-se sorrido; Ou azedume De ser excedido. In ‘ Acordes gastos’ do R. F. A época futebolística de 2004/2005 é passado. Agora que já estamos praticamente na época 2005/2006 antevejo-a calma, já nenhum dos ‘grandes’ vive na ansiedade de ainda não ter ganho neste milénio, e Peseiro pode desenvolver o seu trabalho serenamente como se do outro lado estivessem 11 carmelitas descalças, o árbitro fosse um eremita e os fiscais de linha franciscanos. O campeonato será certamente como uma via-sacra, perdão, como um passeio de escuteiros por um mosteiro beneditino. Sem azedumes.
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Reinaldo Ferreira V "Enfim, eu não sou nada, Que há muito já se não propaga a mim O calor de uma anca, E o meu fresco conteúdo Não encontra uma boca E uma sede não estanca." In 'Ânfora fui' de R. F. Esta não comento. É muito feio aproveitarmo-nos do mal dos outros. E além disso todos os náufragos têm direito a uma respiração boca a boca. Países e répteis de pequeno porte incluídos.
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Reinaldo Ferreira IV Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendão, E toque-se um clarim. Serve-se morto. In “Receita para fazer um herói” de R. F. Se o nariz de Gogol cá andasse talvez ainda pudéssemos ser governados apenas por cheiro. Assim resta-nos passar o tempo à procura dum capote que nos ponha a coberto dos desvarios da despesa pública e ir desfrutando desta alegre escravidão que é sermos almas livres dificilmente transaccionáveis. E eu ainda aspiro a uma pachorra anatómica que me faça escrever textos com pés e cabeça. Sendo certo que me consolava mais rindo com Narciso Miranda do que com Jorge Coelho.
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Reinaldo Ferreira III "Ninguém a virgindade lhe roubou Depois de um saque - antes a deu A quem lha desejou, Na lama dum reduto, Sem náusea mas sem cio, Sob a manta comum, A pretexto do frio." In ‘ A que morreu às portas de madrid’ de R.F. O grande sonho de Guterres, sabemos agora, não era ‘ser’ primeiro-ministro mas sim ‘ter sido’, e o sonho de qualquer refugiado neste momento é que estes versos sejam mesmo verdade, porque, pelo andar da carruagem, do frio não vão escapar. E tal como todos os sobreiros agora invejam a fama dos que sucumbiram no cadafalso-lux da Herdade da Vargem Fresca, não haverá indigente que depois deste verso não sonhe com uma virgem fresca e roliça, esteja ela em Benavente, na Chamusca ou na Pocariça, mas aguentem um bocado que eu agora vou à missa.
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Reinaldo Ferreira II "Feliz quem pode parar Onde a certeza é certeza E pensar é só pensar!" In ‘ Que estranha, a nossa verdade’ de R.F. Mesmo que por vezes pareçamos enfiados no enclave dum imbróglio de sobreiros, dum chafariz de autarcas, duma pseudo-pedagogia-cacofonia-sexual e duma proto-constituição-supra-nacional-infra-racional-intra-anal aparecerá felizmente sempre alguém a lembrar-nos: é pá deixem-se disso que não tarda é Natal.
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Reinaldo Ferreira I "Sei que a ternura Não é coisa que se peça, E dar-se não significa Que alguém a queira ou mereça. (…) Eu preferia (…) Que, contra as leis recolhidas (…) Tu me desses a ternura que te peço; Ou que, por fim, reparasses Que a mereço." In ‘ Sei que a ternura’ de R.F. Merecer é um verbo tão estúpido e ressequido como querer. Mas ninguém consegue sobreviver sem se considerar minimamente merecedor de qualquer coisita e sem exercitar a vontade nem que seja para beber um ginger ale fresquinho. Se conseguirmos esquecer por momentos os clássicos russos – tarefa fácil por sinal, desde que não estejamos a mijar sangue – e soubermos suspirar por um afago como a pele reclama o after shave depois da ultima lâmina cumprir o seu dever, Deus só tem mesmo é que se chegar à frente e pôr no nosso caminho um jackpot de festas no cabelo. Ou então tinha-nos feito carecas e o herói do ‘Código daVinci’ era vendedor de capachinhos. Mas isto já sou eu a falar.