detalhe do tecto da Igreja de S. Paulo, em Lisboa
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A mostrar mensagens de fevereiro, 2012
cinzas à quarta
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Ser filho da puta já não é o que era. O tema do insulto já foi tratado por especialistas (Javier Marías, por exemplo, tem dois razoáveis artigos sobre o tema) mas julgo que deverá ser continuamente acompanhado. Como regra geral podemos dizer que o insulto depende mais do contexto que do conteúdo, e como regra particular podemos dizer que ele revela mais sobre o emissor do que sobre o destinatário; como regra entre as duas posso também acrescentar para vosso proveito que a qualidade do insulto é uma fórmula que resulta da soma do inverso da raiz quadrada do alívio que provoca com a tripla potência do remorso que induz. Assim sendo, e considerando que a realidade necessita frequentemente de quem lhe ponha o dedinho na extremidade do colón com precisão e na cadência e rotação certa, julgo ser meu dever alertar toda a comunidade sobre a necessidade de aproveitar as reformas estruturais, ortográficas, mapas judiciários e outros, para acertar o relógio e o higrómetro do impropério nacional...
A Tolerância de Ponti
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Giacomo Ponti cansara-se de ser exigente e decidiu abolir da sua vida todas os comportamentos que envolvessem um mínimo de insatisfação, inconformismo ou intolerância. Queimou para sempre o desejo e passou a estar ao serviço da compreensão total, da resignação, numa espécie de amor desinteressado pelo estado geral das coisas, num situacionismo estético, moral, emocional, um desalternativismo. De tal forma se entranhou no seu espírito esse ideal de stay where you are que Ponti começou a encontrar raros momentos de consolação e mesmo completude naquilo que antes seria encarado como adversidade ou motivo das mais variadas sortes de reacção e revolta. Comia o que houvesse para comer, dava prioridade tanto ao que viesse da esquerda como da direita, via os filmes que estivessem a rodar, punha os cachecóis que estivessem mais a jeito, aceitava recusas, indiferenças, negligências, difamações e insinuações com a mesma calma com que sorvia água simples quando a tinha pedido com gás. P...
commonplacing
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janeiro 1935 - Sarre por plebiscito decide ser alemão março 1935 - É instituído o serviço militar obrigatório na Alemanha setembro 1935 - Leis de Nuremberga redefinem a cidadania alemã fevereiro 1936 - Hitler inaugura a 1ª fábrica da Volkswagen março 1936 - Ocupação da Renânia agosto 1936 - Jogos Olímpicos de Berlim maio 1937 - Encíclica de Pio XI referindo-se à perseguição de católicos na Alemanha março 1938 - Ocupação da Áustria setembro 1938 - Chamberlain em Munique outubro 1938 - Tropas alemãs invadem os Sudetas Checos março 1939 - Tropas alemãs ocupam a Boémia e a Morávia - Roménia reserva a sua produção de ...
Atheism for Believers: a believer's guide to the use of atheism
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De forma algo sonsa os crentes tendem (tendemos) a abordar a dúvida com métodos evasivos se bem que, a espaços, até criativos. Ora usamos a via poética, atolentinando os mistérios da criação com uma patine viscosa derivada da banhoca literária, ora serpenteamos o tema pela via do determinismo psicológico, ora despachamos a questão com um quessefodismo de ocasião, o grande amigo da consciência em particular e das entranhas em geral, diga-se. Assiste-se assim por regra a uma arrumação em cabide ou gavetão, consoante o tamanho e corte, que, com a aparência de humildade cristã, mais não passa que dum grosseiro e inevitável arquivo temporário. Há pois lições importantes a retirar das diversas manifestações de ateísmo mais ou menos recreativo. De primeiro temos a considerar que há espaço para um momentum ateista na nossa vida, ou seja, nós precisamos de conseguir negar a existência de Deus nem que seja esporadicamente, pensar que tudo isto não passa dum broche de bactérias com fungos e...
verso à terça
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Inversão no seu contrário. Retorno sobre si próprio. Recalcamento. Sublimação. Freud, in Triebe Und Triebschicksale o que dito assim: die Verkehrung ins Gegenteil. die Wendung gegen die eigene Person. die Verdrängung. die Sublimierung . bem que merecia também um acordo ortográfico. A inconsciomância praticada pelo Sigmund não se debruçou sobre estas novas grafobias e eu penso que ele teria algo a dizer sobre esta recusa à batida em retirada das consoantes mudas, dos hífenes e do caraças. O apelo à sua prevalência revela o descoberta duma nova pulsão que é a pulsão piegas. A pulsão piegas predispõe-nos à neurose da falta da consoante. Ficamos assim piegas, chorosos, tristonhos e não nos queremos separar delas. No fundo muitos de nós tínhamos transferido para todas aquelas consoantes e hífenes muito do nosso eu e agora ficámos apeados. Hoje sonhei que estava a ser picado por três catos e, não sei, mas acho que já não fui picado da mesma forma. Ac...
A minha Pátria é a míngua portuguesa
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Depois de ultrapassados com sucesso os stress tests, o governo português encheu o peito de ar e disse que queria também passar nos crash tests. Como seria previsível esborrachámo-nos contra quase todo o tipo de paredes e apenas alcançámos os mínimos contra um pladur produzido em marrocos aproveitando restos de pentelhos de camelo. Face às evidências e à indigência expectável, e em vez de estarmos a vender o país às pinguinhas o governo desistiu da diplomacia económica e deu um mandato de venda de partes do país a Severiano Fernandes, o conhecido Rei dos Pastéis e das Sandes. Tendo feito fortuna a fatiar aglomerados de gordura de porco e a enfiá-los entre duas glamourosas pranchas de cereal fermentado, Severiano convenceu o governo que conseguiria enchouriçar também bocados dos país e vendê-los como lombo fumado de civilização ocidental. A sua primeira operação foi a venda da RENA (rede de esgotos nacional) a um grupo paquistanês com interesses em toda e qualquer merda e que tinha...
O fim da Wille zur Macht
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Nietzsche escreveu que os filósofos são advogados de defesa dos seus preconceitos a que chamam verdades. Infelizmente há cada vez menos gente capaz de lutar pelos seus preconceitos e com vergonha acrescida de lhes chamar verdades. Já ninguém quer ter o poder sobre si próprio, já ninguém quer ter o poder sobre os outros, saltámos para um nível superior de indiferença sem ter esgotado as potencialidades do anterior. Baixámos os nossos padrões, quase como Trotsky disse: 'basta que um homem se encontre, ao contrário dos outros, em cima de duas rodas com uma corrente (...) para que a sua vaidade comece a inchar como os pneus'. Acabou a era dos grandes vaidosos. Hoje o nosso orgulho fica-se em querer manter de pé uma consoante muda.
M.O.M.
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Lúcia e Armando estavam com problemas em gerir os seus mal-entendidos e a desenvencilharem-se das rasteiras que traz uma vida em comum. No entanto, decidiram por mútuo acordo que isso não era razão suficiente para se separarem. Para tal haveria que criar um mecanismo que estabelecesse uma espécie de desentendimento organizado, algo que em vez de apelar para a mais tradicional união na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, deixasse antes bem clarificado quais as pontes de discórdia, e estabelecesse as regras para o que era uma dedução e o que era uma intuição, ou o que era uma ironia e o que era uma piada, e por aí adiante. Chamaram o Dr. Sílvio e pediram-lhe o esboço dum MOM, um Memorandum of Misunderstanding . Silvio Saraiva era um especialista em reconciliações impossíveis, tinha no seu currículo verdadeiros milagres da concertação conjugal e considerou este processo de parasociabilidade um desafio à sua altura. Hoje, o seu trabalho no Memorando de Desentendimento de Lúcia ...