
Dou-me bem com a religiosidade miserável. Gosto de igrejas com gente sofrida, de pele enrugada, olhar escondido e pecados à flor da dita, apenas procurando carinho na madeira polida do genuflexório, e disponíveis para dar um bocado do seu braço por troca duma alma ainda na fase dos caboucos. Gente que dá uma na chaga e outra na cicatriz; não acredito em angústias limpas, dúvidas musicadas, teologias libertadoras, credos em cinemascope. Mas também gosto daquela pequena baba da hipocrisia, do esgar do escrúpulo, da gente que pensa conseguir lavar a alma com meia hora de cheiro a cabelos oleosos. No fundo o catolicismo adapta-se bem a gente, como eu, pouco esquisita. Gosto da parte estúpida da fé, da boca cheia de palavras de sentido e gosto duvidoso, do dogma desnecessário, da ameaça escatológica. O que seria da fé cristã se não pudéssemos pensar em Deus morto por nós na cruz enquanto desesperamos por uns bons pastéis de bacalhau. O que seria da fé sem a incompetência para perceber o mundo. O que seria da graça sem a desgraça.
Comentários
Felix. M.
Felix
Dispõe sempre, Felix
Felix
F.
F.
Estou a referir-me ao diálogo entre F e AJ. Porque o post do AJ vale mais pelo significado que tem para ele a prática da fé do que para alguém que queira daí tirar alguma referência.
No meio de todas as metáforas compreende-se o desabafo de alguém que vive a fé sem crispações. Talvez um católico mais consumista..não sou eu que vou atirar pedras.
C.
MC, .. aishhh...e o meu sonho que era mesmo ser referência!! :)
C., o Felix julgo que será incapaz de recusar tamanho desafio; mas a timidez, misturada com gosto pelo escândalo, por vezes atraiçoam-no.
F., apetecia-me responder-te à letra, mas agora não posso porque estão aqui senhoras.
F.
sei que não. mas o catolicismo é vocacionado para o rebanho: ninguém gosta de ser sozinho ou viver na fronteira. Ainda asim, o catolicismo permite um anonimato na prática religiosa que por sua vez permite o tal consumismo. bom mas eu não quero dizer que o A, o seja. Não me bastava este post para deduzir isso. eu passei anos a dizer que ainda havia de o ser. estou quase lá.
(por acaso até acho que é mais importante o fenómeno da 'universalidade' do que o do 'rebanho')
F.