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A mostrar mensagens de junho, 2013

Diz-me que blog não lês dir-te-ei quem és

Foi sem honra nem glória, seguindo os ventos que sopram, que este - quero dizer este aqui mesmo - absolutamente notável blog cumpriu há dias o seu décimo ano de existência, tão caprichosa quanto abnegadamente fútil. Incapaz de mudar a vida aos seus leitores, incapaz inclusive de ter leitores, soube criar uma austeridade avant la lettre : disfrutemos da parra na ausência da uva.

Almoços Grátis. série 3 [18]

O meu diarista português preferido escreveu que «na melhor das hipóteses, a vida é uma soma de ausências. Na pior, uma soma de omissões». Hoje terminei esta minha última temporada no restaurante da L. Fiquei com imensas coisas para lhe dizer, digo fiquei porque ainda estão aqui comigo, naquela zona da garganta que tem uma ligação directa com o saco lacrimal. Comi uma caldeirada que corria por fora do menu, aparentemente resultara de uma ida pontual e especialmente frutuosa à lota de Peniche. Por mais que me esforce não consigo destrinçar o raio dos peixes e também não estava com disposição para conversas taxidérmicas com nenhum empregado e muito menos com a L. Não sei ainda o que ela pensou destas minhas idas ao restaurante, ela às vezes diz-me qualquer coisa, ou manda-me uns recados, mas desta vez ainda não se descoseu (ausência, omissão?). Hoje apareceu na sala umas quantas vezes, acenou-me como quem foge para uma barricada, mas nunca chegou a insinuar que queria falar comigo (ausên...

Almoços Grátis. série 3 [17]

Estava um dia de sol abundante que entrava pelas janelas do restaurante ajudando a desenhar figuras geométricas de sombra por entre as mesas. Nada de artisticamente empolgante mas o suficiente para me distrair do essencial que era: comer. Devia estar há uns quantos minutos a distribuir olhares vazios pela sala quando me vêm exigir uma escolha de menu. Apontei para a cartolina plastificada e colorida sem olhar e pouco tempo depois apareceu-me a rapariga dos molhos com uma cabeça de pescada estendida numa travessa e um sorriso também travesso a atravessar-lhe a cara, da rapariga, não tanto da pescada. Teria mesmo apontado para aquela escolha ou seria ela a aproveitar-se? E traria aquilo alguma mensagem implícita? Ficámos a olhar um para o outro durante alguns segundos, cada um tentando sacar algum sinal que lhe servisse, mas julgo que quem nos visse asseguraria estar a observar um casting para múmias. Faço muito bem de múmia, benza-me Deus, eventualmente farei até um cadáver digno, mal ...

Almoços Grátis. série 3 [16]

Hoje apeteceu-me começar pelos doces. Pedi um gelado para começar, para me encher logo à partida. Lançaram-me uns olhares estranhos mas não passou disso, sentia-se conformismo no ar. Era um dia calmo no restaurante, mais de meia casa mas de gente sossegada, sem exigências especiais e também sem grandes intimidades com os empregados, tirando numa das mesas em que estava um tal de S. que tinha sido sócio do pai de L. no arranque do restaurante e por quem ela tinha – sempre teve - um certo fascínio. Cheguei a falar com ele uma ou duas vezes, era um tipo cheio de interesse e via-se que olhava para a L., para desgosto dela, com um carinho paternal. Hoje vivia entre Angola e cá, seguindo um roteiro muito preenchido e não se percebia bem se a vida lhe corria de feição ou apenas geria a fortuna como quem gere a gaveta das peúgas. Depois do gelado pedi uma espécie de empada de lebre, um prato com ares alentejanos e que, obviamente, não encaixou bem depois dum gelado. É irritante quando queremo...