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A mostrar mensagens de dezembro, 2003
Naturalmente Recolho de Eduardo Lourenço o angustiante confronto da nossa condição entre a «tragédia cultural da domesticação da natureza», e a definição dessa mesma condição pela «vontade de descobrir o mundo, de o conhecer e transformar». O problema é que a nossa peregrinação é feita desta malandra mas luminosa arreliação. Felizmente a “Natureza nunca toma partido” (*) dos seus adoradores, pelo que “desdenho” a «imposição das leis de um naturalismo preguiçoso, limpo e espontaníssimo». E como desfruto ao descer um elevador panorâmico, que esventrou uma falésia a caminho duma praia burguesa enquanto oiço apenas o Billy Joel !... A “poesia” e a “natureza” são apenas grafismos sui generis e sobreavaliados duma criação que não precisa de pedigree. Nem de incompetentes como eu para as apreciar. E um ano novo que não vos “reveille” do bom sonho. (*) Frase retirada do livro de Gonçalo Tavares “Um homem : Klaus Klamp” . Óptima revelação – minha... – deste final de ano que, arriscando num “la...
A “ascética” do “ano novo vida nova” realça o cocktail da ingenuidade humana misturada com a sua crueldade. O novo dicionário não ilustrado não podia perder esta ocasião para apelar ao sossego que é a bebida pura do “deixandar”. Numa singela homenagem ao “adia tudo” de Pessoa. ( entradas 399 a 409 ) Começar de novo – É o sonho da vida-em-playstation. Tudo ao alcance de um botão e duma password. Só que o software do Destino é de download ilegal, e quando pensamos que o sacámos, verificamos que afinal vem cheio de vírus. Agora é que vai ser – Se formos nós a dar o tiro, nunca faremos falsas partidas. Os mais espertos levam a linha da meta no bolso de trás. Mudar de vida – Os momentos de viragem são encantadores, principalmente se pudermos estar ao leme a beber uns refrescos, com o resto da tripulação dividida a esfregar o convés e a entreter-se com as velas. Pôr o passado para trás das costas – O peso acaba por nos curvar em demasia, e a dança “do que lá vai, lá vai” soará a samba fa...
Born in us Hofmannsthal diz no Livro dos Amigos que “A cerimónia é a obra espiritual do corpo “. Nem é uma frase especialmente feliz, mas traz-me à pele a sensação de excessiva valorização do simbólico, que hoje é recorrente nos vários “discursos da modernidade”. O cristianismo vive duma fortíssima tensão entre o simbólico e o apego aos factos. Tudo se resolve – penso – naquilo que se pode chamar a “descoberta de Deus dentro de nós”. Todos somos um presépio. Onde Deus nasce sem cerimónias. Boas festas.
O natal foi como Deus quis. O novo dicionário não ilustrado despoja-se das suas vestes de reles definidor, e entrega-se com o desprendimento possível ao banho da contemplação. Hoje não se me vai despedaçar o coração, mas também não o porei muito ao alto; estarei antes “ao jeito” do personagem de S. Beckett : o ventrículo na sabedoria do presépio, e o aurículo na futilidade dos factos. ( entradas 389 a 398 ) Sagrada Família – Desde que os anjos deixaram de aparecer nos sonhos, a família perfeita ficou entregue aos pesadelos da sorte. Reis magos – O poder já foi errante, inconformado e reconhecido. Agora erra em conformidade, e desdenha depois de ter comido. Recenseamento – Um acto de contagem administrativa esteve na origem das circunstâncias do natal fundador; Os novos filhos da estatística pelam-se para recuperar esse poder imperial. Ouro, incenso e mirra – Os bens mais preciosos não são cobiçados, mas apenas recebidos. Estrela guia – O novo firmamento deixou-nos entregues às luas de ...
Hoje o novo dicionário não ilustrado ficou obcecado com alguns dos grandes sequestros da nossa condição e do nosso tempo. ( entradas 376 a 388) Billyes reféns de Mónicas – Quando uma nódoa dum vestido, traz um homem “espermido” até ao tutano. Corpo refém da alma – Quando uma vontade férrea é um joguete na mão dum etéreo oxidante. Alma refém do corpo – Se um espírito nobre se entrega à ditadura das boas maneiras, não passamos duma mosca fugindo eternamente da sopa, sem chupar sangue nem zumbir em condições. Durão refém de Portas – É a sina duma grande mijadela. Tal como na clássica teoria do valor, os últimos pingos são os que podem estragar tudo. Sexo refém do prazer – Quando o hermafroditismo é a ameaça que percorre as veias dum cacilheiro chamado desejo. Homem refém de Deus – Suave submissão camuflada de amarga fatalidade pelo entulho do orgulho. Schröder refém dos Verdes – Quando “um banana” fica entalado num molho de brócolos, a salada da crise sabe tanto a palha que só se fala do...
O novo dicionário não ilustrado avia mais meia dúzia de dispersos do “flagrantário” real ( entradas 370 a 375 ) Europa em crise – Quando a cartografia política se excitou, ficámos entregues a desenhadores de mapas com falta de canetas de feltro às cores. Os sublinhados substituíram os coloridos e - everest dos lugares comuns – os números e as palavras assumiram a vertigem de arredondar as pessoas. Legalização do aborto – Nas prescrições para escolher as doses certas numa civilização saudável, esta página estava rasurada. A auto-medicação tomou conta das hostes, e agora não há farmacêutico que convença ninguém que a “barriga” duma mulher não é um jarrão de flores que se amanham a condizer com a cor das paredes. Julgamento de um ditador – Quando não se consegue definir a rês do réu, a barra do tribunal é mais um aparelho de ginástica em que as piruetas garantem sempre a pontuação máxima. Choque de culturas – Quando um véu cobre um rosto apregoando que salva uma alma, o melhor é benzermo...
O Rei Lear do Sheik suspiro Tinha lido a "estupefacção" do TerrasdoNunca pela falta de opiniões profundas sobre o Iraque..... e preparava-me para reagir de forma esclarecida quando uns olhitos azuis muito abertos, daqueles que só reflectem as boas angústias raiadas da alma, me lançam o apelo para mais uma sessão de “Rei Leão”. Incapaz de reagir, fui arrastado para aquela selva com o enfado da paternidade resignada. Entreguei o olhar ao espírito amansado pelos bons predadores, sem despertar no ódio aos predadores maus. A lei daquela selva que nem se discute, que até pode provocar o choro das crianças, é uma lei também frágil, mas sustentada por uma força “enjubada” num poder que se exerce e pronto. Se for preciso ficar a ver as estrelas ao relento com um javali mal cheiroso, pelo menos que se vá mandando umas piadas. O folhetim seguirá inexorável. Torna-se-nos difícil hoje, olhar para o poder naquele estado bruto em que ele pura e simplesmente é exercido. Aparentemente esse ...
Aquilo que se chama a “chicana política” é o que "ela" tem de mais interessante, porque é na nobreza da pequena intriga que se descobrem os verdadeiros cavaleiros andantes. A neblina do flirt ideológico turva os contornos, e muitas vezes desperdiça-nos a alma no trabalho da focagem. Hoje o novo dicionário não ilustrado está novamente de ânimo leve e aprecia o cair das últimas folhas do Outono do nosso contentamento.( entradas 363 a 369) Fundações – Animadas de um sonho filantrópico, almas sem borra concentram a boa vontade numa cafeteira, que ferve de interesses e transborda de arrufos de comadres. Cooperativas – Animados de um sonho, juntam-se umas quantas pessoas que ou pisam uva por interposto “presunto”, ou pagam imposto por interposto contribuinte. Institutos – Animados pela conciliação do sonho burocrata com a aurora liberal, uma mão cheia de nadas armados em “valores”, convidam um punhado de cifrões armados em “convicções” e enchem uma casa bem mobilada. Comissões parl...
Olho vivo Outro brinde inesperado do Avatares ! Nunca se pode ver uma fotografia de Juliette Binoche e ficar indiferente. Se me olhassem sempre assim até eu me fazia antropólogo.
A Obsessão Santana No seu excesso de zelo a defender o PSD das tropelias de Portas e de Santana, J. Pacheco Pereira ( artigo do público)esquece que uma canditatura presidencial com sucesso é um projecto essencialmente pessoal. Ao alcance não dos mais capazes, não dos mais brilhantes, não dos mais serenos, não dos mais lógicos, não dos mais filantropos, nem dos mais sonsos. Não vale a pena tentar ser o grande desmistificador da trivialidade, porque é para esse lado que ela dorme melhor. Desarmar “o tal de populismo” apenas com artifícios de racionalismo esclarecido, mais não faz que entrar no número dos palhaços do circo, vestido de cão amestrado. O melhor que o país pode ter é mesmo ver os pretensos candidatos irem-se chegando à frente dando o corpinho ao manifesto. Um pião testa-se rodopiando, os peões é que se testam e sacrificam deixando-se comer pela rainha. J.Pacheco Pereira utiliza com mestria a técnica de argumentar ao som da música que sabe gostarem de ouvir os que o lêem, mas ...
Sic transit gloria mundi Como a brigada de trânsito está muito habituada a lidar com os comportamentos altamente agressivos e atípicos dos condutores portugueses, o sr. Figueiredo lembrou-se de enviar a dita brigada substituir os GNR que estão no Iraque, e assim aproveitar para aliviar a tensão que se vive no seu seio.(e a Nélinha FLeite ficou finalmente com o pelouro das multas de trânsito...) A primeira “operação stop” nas estradas da nova Babilónia decorreu em beleza.( mas a SIC não estava lá ) Aproxima-se um carro com Bin Laden e Saddam, e é mandado parar pela nossa brigada.... Brigada (cabo 1º) – Podiam-me mostrar os documentos sff Bin Laden (que ia ao volante) – Ó Sr. Guarda este carro por acaso é da minha mulher, e ela é que tem os documentos na carteira ( Saddam não consegue disfarçar uns risinhos) Brigada (cabo 1º) – E tem possibilidade de contactar com a sua senhora? Bin Laden – O problema é que ela agora não pode atender porque ficou com a burka entalada num pesponto da baín...
Estrelas carentes As relações humanas – dizem – são muito ricas - “Já confiei mais em ti do que confio agora” Formam um universo de geometria variável - “Antes ouvia alguém a dizer que tu tinhas feito alguma coisa, e bastava tu dizeres que não tinhas feito que eu acreditava em ti” com os eixos a dançar - “Já tiveste razão para desconfiar de mim, agora não” num constante big-bang - “Se casarmos vais estar sempre a perguntar a que horas saio, a que horas entro, e eu não tenho paciência para isso” E quem marca o norte são as estrelas cadentes - “Não dá para casar contigo se continuas assim” apanhadas pela lente da curiosidade -“ Olha, vamos ver no que isto dá” só é pena que espreitar seja feio. - "É que eu já não sei viver sem ti" Mas se não olharmos para as estrelas elas deixam de ter razão para brilhar
O real despojado (...) Olá! Eu cá sou o “real”. Estou um bocado saturado. Estão sempre a maçar-me com descodificações. Andam todos com a mania de me apanhar os tiques, e eu sinceramente já não tenho paciência para aturar tantas opiniões e tantos olhares finos e penetrantes. Com os gregos eu safava-me bem, porque os tipos inventaram aquela coisa dos deuses, e como havia um para tudo eu passava despercebido assobiando para o lado entre escravos e guerras púnicas. E o Platão até deu uma ajudinha com o esquema da caverna, só que eu passei lá um Inverno desgraçado porque aquilo era muito húmido e tive de desistir. É que isto de “existir” já é um desassossego por causa das intrigas surdas entre o “ser” e a “essência”, e agora o pessoal ainda quer que eu tenha de servir de ama-seca à “substância”. Sinceramente, um “real” não é de ferro e qualquer dia vou-me amancebar com a “poesia” para ver se não me chagam mais o juízo. Bem é verdade, eu ainda tive alguma esperança há uns tempos com aquele ...
Dissertar sobre o liberalismo é uma perca de tempo. O liberalismo é uma trivialidade ideológica que não acrescenta nada na “ciência” política. Enfoca de esguelha a análise do estado, e reduz-se a meia dúzia de frases feitas, que alguns filósofos bem falantes ajudaram a cicatrizar. Até um caniche pode ladrar liberalmente, mas mesmo com um belo berloque, nunca alcançará ser um ilustre, sensato e empolgante burocrata. O novo dicionário não ilustrado põe a enxugar um conceito que tem tido várias lavagens no programa errado.( entradas 353 a 362 ) Estado liberal – Espécie de "kitchenete" que algumas "casas" possuem. Algo que tem que existir porque senão até parecia mal; fica ali encafuada num canto da sala com umas mobílias de design italiano, mas o pessoal da casa o que grama mesmo é ir comer fora. Estado absolutista – Quando o déspota iluminado negoceia o “contrato social” de forma a nunca precisar de restituir o sinal em caso de incumprimento. Estado de sítio - Circun...
Constou-me que o lema escolhido por Rui Rio para a sua governação foi “ Rigor e Consciência Social”. Eu confesso até gosto deste rapaz, e tenho pena de não me ter lembrado dele nas ultima entradas do novo dicionário ... Novo paradoxo do Rui Rio – Um homem pode estar na câmara do Porto sem estar na cama com o FCPorto. Não foi no entanto esta entrada apócrifa que me trouxe aqui. Foi a constatação de que os conceitos “rigor” e “consciência social” não combinam. Esta última expressão tem tantas valências que nunca poderá será rigorosa. Em tempos ( 6 de outubro) o Novo dicionário não ilustrado já se tinha debruçado sobre alguns estados de consciência, mas este tinha-lhe escapado. Hoje para tapar este buraco, vai uma rodada especial de argamassa :( entradas 343 a 352) Consciência Social ( versão S. Freud ) – Estado de libertação do recalcamento produzido em criança por termos assistido ao nosso pai dar um enxerto de porrada num pobrezinho que estava arrastando a asa à nossa mãe. Afinal era u...
Culto da Personalidade Vinha a descer pela auto-estrada que foi iniciada por Salazar e terminada por Cavaco, quando sou alertado pela rádio criada por Rangel que a dita está cortada. Ainda a tempo, desvio pela auto-estrada “criada” por Guterres e passo ao largo das serranias onde Pedro se encontrava às escondidas com Inês, não muito longe do pinhal mandado plantar pelo D.Dinis. Faço tangentes às linhas onde os generais de Napoleão deram com os costados, e quando estou a chegar à Padre Cruz, oiço na rádio do CBarbosa, que o Sr. Figueiredo (ministro) vai anunciar o nome do novo comandante da Brigada de Trânsito. Chiça! Parem com essa merda dos nomes e digam mas é onde estão os radares.
Este blogue é praticamente científico. Mas somítico. Arranja as premissas nos saldos, nunca vira as costas a uma boa promoção de sofismas e adora ser o primeiro a descobrir uma teoria pechinchada no meio dos trapos velhos. Por princípio o novo dicionário não ilustrado não tem princípios, mas também não se deixa levar pela ladainha da ambiguidade. ( entradas 334 a 342 ) Novo teorema de Pitágoras – Quando um político de esquerda absolutamente quadrado se encontra com outro político de direita absolutamente quadrado para traçarem uma política transversal, o resultado é um rotundo fracasso. Novo paradoxo de Giffen – Quando sobe o preço do pão é garantido que as forças do bloqueio vão passar o tempo nas padarias a comer papo-secos de empreitada. O consumo anacrónicamente vai subir porque não há graveto para o bife do lombo; os talhantes ficam “em brasa”, o FAssis arrisca-se a levar com outros “papo-secos” e o PS fica mais uns tempos sem ver o “padeiro” que entretanto foi gozar o pagode. N...
Agora um pouco de política porque não podemos passar o tempo a tratar de assuntos sérios Corri alguns riscos confesso. Fui ler o artigo do FLouçã no Público despido do conforto dos preconceitos. Não sei...falava daquela coisa dos estudantes, com um carinho contra-corrente que apetecia; eu que até adiro com gosto pueril àquela ideia esquerdófila do ensino universal e gratuito, vejam lá...sublinhei passagens e tudo!( às escondidas claro...) “para além do discurso etéreo das televisões sobre o país imaginado (...) existe uma política confrontada com as escolhas sociais que nos vão mudando“ Ai que ele vai fazer a folha aos mitificadores da nação! A coisa prometia...mas afinal o FLouçã , desde que o nomearam para grande descodificador da realidade, virou anjinho em FM. ... meteu a cassete do “caça liberalismos” do costume, e deixou de enxergar que não existe política nenhuma de “transformar o país num imenso mercado sem direitos sociais”. Há uma mera gestão do negócio de ocasião. O país ge...