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A mostrar mensagens de maio, 2013

Almoços Grátis. série 3 [15]

Hoje escolhi uma japonesice que aparecia no menu. Um rolos de salmão a envolver uns pedaços de peixe manteiga misturados com um queijo que, não duvidando que proviesse duma vaca, já não ponho as minhas mãos sobre aquilo que a dita pastaria ou pastará. Não sei onde é que a L. desencantou aquelas ideias, mas revelou-se bastante bom. O restaurante estava à pinha, tive inclusivamente de esperar por uma mesa vaga, o que aconteceu pela primeira vez desde que lá voltei. Numa das mesas estava um antigo amigo da L. e , como seria de esperar, ela ia-se desmanchando em solicitude. De vez em quando fazia-me umas caretas, daquelas que podem dizer tudo mas que na realidade não dizem nada e nos deixam à solta numa equação de biorritmos. Chamei a rapariga dos molhos com o intuito de me meter com ela mas, como seria previsível, sou bastante melhor no improviso e saiu-me uma piada qualquer meio desconchavada que já nem me lembro bem. Certamente por educação riu-se e, hélas, passou-me (tecnicamente pode...

Almoços Grátis. série 3 [14]

O tempo instável pregou-me uma partida e entrei no restaurante meio encharcado. Solícita, uma empregada bonitinha veio emprestar-me um turco para me secar « se desejar». Desejo, claro, eu nunca perco o desejo. No dia do juízo final terei mesmo de o fazer depor para me atenuar o balanço das penas. Fiquei indeciso entre as ovas e uns mexilhões panados que eram uma das novidades que ainda não tinha experimentado. Sentindo se calhar alguma solidariedade escolhi-os. «Boa escolha, estes são de mergulho» disse a rapariga dos molhos que por estes dias já não é capaz de passar sem largar uma da sua graça. A L. estava encostada ao balcão e quando me viu teve a tentação de se aproximar, mas rapidamente a reprimiu como que uma voz interior lhe tivesse soprado uma buzinadela. Não há pior desprezo do que aquele que resulta de um desejo reprimido, gostaria de lhe ter dito. Óptimos mexilhões. Também seria receita do cabrão do óscar? Movido por um impulso, daqueles ainda não explorados pela ciência ne...

Almoços Grátis. série 3 [13]

Hoje escolhi franguinho da guia. É uma receita que a L. já costumava fazer antes e que eu apreciava especialmente. Não tem nada de original, mas é muito saboroso e eu hoje não queria correr riscos. Sentei-me numa das mesas mais próximas da entrada da cozinha e apelei a todas as minhas reservas de curiosidade para tentar perceber o que se passava do lado de lá. Reparei que havia uma televisão nova na parte de dentro do balcão, talvez a L. quisesse acompanhar mais de perto as notícias nestes tempos de tsunicómio e austeridadismo utópico, ou então estava mesmo apaixonada por algum enterteiner…Bocejei uma ou duas vezes e a rapariga-dos-molhos não perdeu tempo a perguntar se me tinha deitado tarde. Respondi-lhe que ter um harém às vezes rebenta-nos com o sono. Foi aos risinhos para a cozinha e depois trouxe-me o franguinho com um recado inesperado: «sabe que a dona L. agora vai todos os dias ao cabeleireiro?». Com a primeira asa trinquei a língua, com a segunda rasguei o esófago. Este esqu...

Almoços Grátis. série 3 [12]

Hoje passei por uma livraria antes de ir para o restaurante. Levava comigo uma novidade absoluta por debaixo do braço e iria desfolhá-la entre pratos. Peguei de forma compenetrada no menu e pedi algo que já andava há dias para experimentar: ‘Delícias de bacalhau’ , e sobre a qual já assistira noutros dias a imensa animação pelas mesas. A rapariga dos molhos quando recolheu o pedido não resistiu a lançar-me um «estava a ver que não pedia este». A L. estava deslumbrante. Não desfazendo nos outros dias, hoje havia qualquer coisa de valha-me deus naquela mulher: um vestido cor de caramelo muito justo e um novo corte de cabelo que me parecia estar mais alourado. Penso que fariam doses familiares de baba de camelo só com a minha cara a olhar para ela. Numa das suas passagens pela sala (hoje estava muito solícita para uma mesa onde estava um jornalista da televisão – as mulheres derretem-se com um certo tipo de homens que, bem, que se lixe) olhou para mim com ar de que me queria dizer alguma...

Almoços Grátis. série 3 [11]

Pelos vistos estamos na semana dedicada aos doces. Sentia-se até um certo cheirinho pela sala, e, talvez, um ou outro sorriso mais aberto. Os doces são, de longe, onde a L. mais se realiza e onde consegue dar mais enfase ao seu cunho pessoal. Se a expusessem ao discurso psicanalítico julgo que os mecanismos perversos da livre associação a levariam rapidamente a chamar-me de ‘melgaço’, uma mistura de melga com melaço, que será como o seu inconsciente me trata em momentos de exasperação. Apesar do episódio do último dia hoje eu também estava bem disposto e até receptivo a alguma ironia, inclusive daquelas que só se distinguem do escárnio porque são ditas em ritmo de murmuração, o que lhes dá um poder encantatório a que nenhum homem resiste. Confesso, até podem sussurrar ao ouvido de um homem que ele é a maior merda desinteressante do universo que ele entenderá isso sempre como um convite pre-coital. Pedi lulas recheadas. Ó séculos que eu não comia umas lulas recheadas. Recheadas com...

Almoços Grátis. série 3 [10]

Não se pode dizer que hoje me tenha sido fácil ir lá almoçar. Devo ter entrado de cara carregada pois duas ou três pessoas fixaram-me o olhar e também não posso ser assim tão feio. Lembro-me que ia a pensar que aquele restaurante tinha respondido bem aos dias difíceis da austeridade. Não sei se era engenho ou arte mas havia até uma sensação de prosperidade crescente a impregnar muitos detalhes que definem uma casa daquelas. A L. tinha vestida uma saia burberry ligeiramente travada, uma blusa de seda creme bem cintada e via-se que tinha acabado de chegar de algum local que a tinha feito feliz. Se é de senso adquirido que se correm riscos desnecessários ao regressar a um local onde já fomos felizes, por outro lado devia ser aconselhável voltar a um sítio onde já fomos infelizes e que nos traga memórias desagradáveis, para fazer uma certa purga de maus passados, por assim dizer. Não sei se terei coragem de abordar a L. com um pretexto destes, assim tão vago e quase literário, ainda estou...

Almoços Grátis. série 3 [9]

Hoje o restaurante inaugurava uma nova ementa. Pelos vistos ninguém estava à espera, fora um segredo bem guardado. A L. gosta de transmitir esse aureolado enigmático, mas também já deve saber que é um risco que corre, nem todos os estômagos estão preparados para absorver surpresas ao ritmo da sua imaginação (capricho - a imaginação feminina chama-se capricho). O novo folheto-menu tinha sido desenhado por uma amiga ( a L. gosta de mostrar que tem amigas – e amigos - para todas as ocasiões) e parecia saído dum conto de fadas tal a fantasia colocada no nome dos pratos. Reduziam-se as opções em carnes puras, aumentava a aposta em souflés, empadas, folhados e papas afins e o peixe voltava a ser o rei da festa. Mas o bombo da dita continuaria a ser eu. Pedi ovas de pescada grelhadas, uma novidade. Nada como atacar pelo lado da entranha feminina e esperar pela pancada. A L. rodava de mesa em mesa a auscultar as reacções, recebia elogios como uma estrela de cinema, puxando bem a cabeça para t...

Almoços Grátis. série 3 [8]

Quando entrei hoje no restaurante levava comigo uma estranhamente-estranha-estranheza espalhada por todo o corpo. Tentei sacudi-la com duas ou três parvoíces mentais da família das boas recordações mas essa estranhamente-estranha-estranheza esbarrava sempre com os poros da pele fechados não a deixando sair. Sentei-me numa das poucas mesas livres, a casa estava bem compostinha como nos velhos tempos dos deficits glamorosos, e anda nem tinha coçado convenientemente a testa já a rapariga-dos-molhos me vinha provocar com um previsível (encomendado?) «então hoje não trouxe nenhuma das suas amiguinhas?». Como andei a treinar olhares corri-a com um do género dos fulminantes que a fará desaparecer para a freguesia dos couverts durante uma semana. Foi substituída por um rapaz de toque apaneleirado, qualquer restaurante que se preze tem de possuir um exemplar desses, e a L. quando toca a escolher paneleiros esmera-se. Ainda pensei que me fosse sugerir salsicha em couve lombarda, mas não, f...

Almoços Grátis. série 3 [7]

Hoje levei comigo a S. a almoçar. É uma mulher que se enquadra na tipologia clássica de ‘parar o trânsito’. É minha cliente, tem um negócio em fase de stress, já a salvei de muitos apuros, mas hoje leva uma vida semi-regalada. É casada com um tipo porreiro, pachola e bom rapaz, um pouco estúpido até. Não quis vir. Certamente acha, e bem, que eu não lhe desencaminharei a mulher, ou melhor, que a mulher não se perderá por minha causa. Não abona muito nas minhas capacidades, mas também ninguém sabe. Dois segundos depois de termos entrado a L. já tinha toda a fotografia da situação fornecida pelos espiões de sala, cada um atento e especializado ao seu detalhe, aliás o que tinha o pelouro de medir a altura das mini-saias não disfarçou muito. A S. tem umas pernas de capa de revista (para além de um rabo de vitrine, um busto de republicana, uma cintura de sereia e uma carinha de anjo em fase de magnificat). Pedimos ambos uma paella, fica sempre bonito comer a meias com uma mulher daquelas. F...

Almoços Grátis. série 3 [6]

Hoje o restaurante transmitia uma boa disposição para a qual eu não conseguia encontrar explicação, nem sequer impressão, nem sequer aquele instrumento híbrido da mente (eventualmente fusão dos dois anteriores) que é a célebre intuição. Não percebo mesmo como nunca apareceu nenhuma corrente filosófico-artistica chamada intuicionismo (tipo gnosticismo laico) que aqui me daria certamente elementos para caracterizar o ambiente de frescura e alegria que se vivia naquele restaurante. A L. apresentava uma espécie de melancolia da família do desgosto leve, mas bem disfarçada por uma pose absorta, como que indicando que as mamas estavam na sala mas a alma ficara a marinar junto à batedeira numa tigela com piranhas em vinagrete. De todo o modo, hoje foi o primeiro dia, desde que tinha voltado ao restaurante, em que pude observar bem o corpo dela. Não sei se foi de propósito mas o que é um facto é que ela várias vezes se encostou ao balcão com aquele ar de diva em pleno exercício do seu mún...

Almoços Grátis. série 3 [5]

Ontem era, e foi, dia da espiga. Entrei no restaurante com um estado de espírito animado, levando o bilhete no bolso de fora do casaco, ali à mão de semear mas de forma a poder fazer aquela encenação do que ‘não sei bem se o trouxe ou onde o pus’ se tal viesse a ser necessário. Todas as mesas tinham um toque decorativo alusivo ao dia (tentará a L. exigir da decoração aquilo que o coração não lhe dá?), ora uma espiga, ora um malmequer, ora uma margarida e preparava já para me sentar numa qualquer quando a rapariga-dos-molhos me dirige, sem possibilidade de apelo, para uma mesa que se destacava com uma certa imponência por ter um ramo completo e rico a servir de astro rei no centro. Uma mesa com dois pratos postos: «Hoje vou-lhe trazer um rolinho de carne especial». Fiquei semi anestesiado, com a imaginação a dar mais voltas do que um encefalograma conseguiria apanhar, e procurando pela sala todos os sinais que me pudessem indicar se iria acontecer alguma coisa que alterasse o meu futur...

Almoços Grátis. série 3 [4]

Lombo. Hoje apeteceu-me mesmo um daqueles bifes de lombo. Redondo, cheio duma carne sem sombra de nervos, liso, quase artificial, mesmo produzido à base de um bocadinho de photoshop culinário. Comer como quem guia numa autoestrada vazia, sem ter de saborear, sabendo de antemão que o corpo vai receber aquilo com a mesma naturalidade de quando boceja ou tosse. Era o dia do aniversário do restaurante, havia um tiramisu especial, e a L. andava de mesa em mesa, numa roda-viva , entregando-se a todos com o mesmo esmero com que se dedicava a nem sequer dar nota da minha presença. A diferença entre presença e existência é que se a esta última chegamos a ela pela puta da filosofia, à presença só lhe tocamos mesmo quando sentimos que alguém gosta de nós. A L. já tinha gostado de mim, claro, há dois anos até me escreveu que o único sal que conhecia era o meu. Se calhar estava a mentir, um anjo pôs-lhe pimenta na língua para sempre e agora culpa-me por isso. Deixei metade do bife no prato, podia ...

Almoços Grátis. série 3 [3]

Sexta-feira e sala cheia. A proximidade do fim-de-semana descontrai-nos e põe os sentidos mais disponíveis para o lado deseconómico da existência: comer mais do que precisamos, correr mais do que precisamos, descansar mais do que precisamos, pensar mais do que necessitamos, conviver mais do que necessitamos, beber mais do que necessário e etecetera e tal mais do que necessitamos. Como que a compor o ramalhete L. trazia vestido uma saia também um pouco mais curta do que aquilo que seria necessário para ela, mas um pouco mais comprida do que seria necessário (e proveitoso) para mim. Ainda me lembro da primeira vez que lhe vi as pernas (um bom bocado delas, para ser mais rigoroso) despidas pela primeira vez ali junto ao rio. Já levava a memória um pouco acima do joelho dela quando fui impelido a escolher o menu pela empregada-dos-molhos. Reparo de caminho que ela também é benfeitinha, benza-a deus , e escolho bacalhau à Brás sem perder muito tempo a exercitar o pouco livre arbítrio que a...

Almoços Grátis. série 3 [2]

L. estava cá fora a fumar. Via-a ainda ao longe e obviamente hesitei. Ela deu conta da minha mal trabalhada hesitação, deitou fora a metade do cigarro ainda não fumado e sem esboçar qualquer sinal relevante entrou para dentro do restaurante. Minto, mostrou um certa indiferença daquelas arraçadas de comiseração. Mas por que caralho é que ela agora teria pena de mim? Será que já tinha coitadinho pintado na testa e até se via a mais de 100 metros? Quando entrei ela já não estava à vista. Contaram-me que agora passa mais tempo na cozinha e menos na sala. O meu hemisfério esquerdo diz-me que isso é porque tem um novo amante de imponente barrete branco mas o meu hemisfério direito diz-me que é porque não suporta ver casalinhos felizes a comer no seu restaurante (por óbvias saudades minhas). É a saltar de hemisfério em hemisfério que escolho um risoto à bulhão pato, novidade absoluta do menu, e para quem começou tardiamente na vida a gostar de comer pareceu-me uma boa opção, sempre podia ima...

Almoços Grátis. série 3 [1]

Passaram outra vez dois anos até lá voltar. Parecia ter tudo mudado estando tudo na mesma. Toalhas de pano com uma tonalidade rosácea, guardanapos cor de sangue, pratos verde pálido, copos roxos como que a querer disfarçar venenos novos. Uma paleta anunciando um arco-irís de sentimentos contraditórios. O faqueiro também era diferente, o garfo apresentava um inequívoco formato de forquilha, facas sem bico tentando simular suavidade e o contorno das colheres a esboçar a translação do astro que nos calhou na rifa. Nenhum músculo externo de L. deu sinal de vida quando me olhou pela primeira vez. Dos músculos internos não sei o que dizer. Comi costeletinhas de borrego, sem molhos, sem saladas, sem acompanhamentos, sem merdas que pudessem disfarçar qualquer porra que lá tivessem metido e que me pudesse dar cabo das glândulas. Quando pedi a conta, veio um empregado novo, bem parecido, a brilhar como que saído dum masterchef, trazendo-me um bilhetinho decorado com papoilas: «para ti é sempre ...