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A mostrar mensagens de setembro, 2013

O resgate da recepcionista Riana

Simon Werstein era emissário do BCE em troikas e quadrigas várias pela europa fora havia mais de 5 anos. Já estava habituado a esta vida de itinerância e quando casou com Gloria Fuentes, uma mexicana hospedeira da Lufhtansa não se pode dizer que a escolha fosse apenas ditada pelo amor e pelo seu, dela, belo par de pernas e outros apetrechos arredondados ao qual acresciam umas bochechinhas desenhadas por tintoretto numa tarde em que tinha sido soprado pelos querubins do pincel e pelas potestades do carvão. Naquele dia tinham dormido ambos num hotel em Lisboa, ela fazia escala para Buenos Aires e ele tinha várias reuniões com aquilo que se costuma chamar representantes das autoridades financeiras portuguesas. Enquanto Simon fazia a barba, Gloria já estava na fase final do aperaltamento e ele evitava olhar para gloria et ses jambes para que não desse cabo daquela extraordinária parte do corpo humano que se chama pescoço com um movimento de lâmina mais descuidado. Simon concentrava...

Hipóteses de remodelação de Ego #4

A duplicidade de personalidade (uma espécie de economia paralela da psique) é um tema recorrente, todos a sentimos e há mesmo quem faça disso modo de vida quando não até de subsistência. Sermos apenas um só é um luxo - e um risco - que nem os poetas querem correr. Esta multiplicidade encerra no entanto vários problemas de diversa índole, entre eles, e à cabeça, o problema escatológico da salvação, pois desde logo fica a questão: seremos julgados por qual de nós. Sendo um problema humano ainda com muito por desbravar devemos abordá-lo com a sabedoria dos ignorantes: ir dando a face que estiver mais habituada às bofetadas e guardar sempre uma outra que possa realçar os cremes de beleza. Doravante terei sempre uma face em estado imaculado para qualquer circunstância.

quatro esquentamentos e um pingo nasal

Filinto Valente tornara-se o psicólogo da crise. Aproveitando as circunstâncias ímpares que proporcionam os momentos de dificuldade dita colectiva, criara um modelo de ‘psique em tempos turbulentos’ e, como não era parvo, tratou de emblogar o tema dando-lhe um aspecto moderno assim entre a literatura e a consulta ao domicílio, que satisfaz um largo espectro de clientela, desde os puros curiosos até às puras menopausadas passando, claro está, pelos próprios neuróticos, que não suportam saber que é a dificuldade que comanda a vida. Filinto Valente estava ciente que na base do seu sistema tinha de estar um enunciado cativante; era este: todas as nossas neuras individuais participam de uma espécie de neura colectiva; meramente junguiano poderão pensar já alguns, meramente pragmático diz-vos este vosso servidor. Mas, tal como numa conversa entre porteiras e mulheres a dias não é suficiente um enunciado, há que tirar conclusões e criar potezinhos onde ir encaixando as vár...

A angústia do guarda décimas no momento do cálculo do PIB

Tibério Lamas aguardava com ansiedade os últimos dados. Dois stands de mercedes, um minimercado em Elvas e uma serração de madeira de Arganil tinham-se atrasado a preencher o inquérito mensal e isso poderia fazer a diferença. Já não lhe bastara o sufoco provocado no dia anterior uma correcção feita pela EDP por causa de um contador estragado em Ponte de Lima e agora este atraso. «Para que décima está a pender?» perguntara-lhe o Dr. Chamusca logo pela manhã - aparentemente o secretário de estado não dormira de noite por causa da úlcera e começara a ligar antes do expediente começar. Tibério lidava mal com estes momentos em que o algoritmo de cálculo fazia vingar as suas prerrogativas, e até a vírgula que marcava a décima bailava no monitor comandada pelos caprichos dos luciferes da estatística ou da bela Sechat, arrasando-lhe com o músculo levantador das pálpebras, já de si cansado depois da sua, dele, Clotilde ter resistido às suas, dele, iniciativas de arredondamento lúbrico dur...

Hipóteses de remodelação de Ego #3

Está na ordem do dia – da literatura e da ciência – a manipulação da memória. Nesta moda relevam os minimalismos (decoração tipo cortinado japonês) e os maximalismos (sanefa e folhinhos) tendo como objectivo torná-la o mais inofensiva possível ou mais o mais interventiva possível. Pondo as técnicas de esquecimento a par das técnicas de lembrança todos teremos a experiência de que controlamos mais as segundas que as primeiras. O segredo de qualquer motor que está ligado às rodas é dominar-lhe o ponto morto. Doravante lembrar-me-ei sempre de como não aconteceu. Aí sim: quod abundat non nocet .

Hipóteses de remodelação de Ego #2

Por regra-se retira-se mais prazer do perdão do que da acusação. No entanto, a acusação mostra-se mais redentora nos chamados pequenos detalhes da vida . Talvez seja porque por detrás de uma acusação há sempre um perdão, o que nos levaria à omnipresença do perdão, algo que a nossa psique também não pode admitir naquelas suas leis de autossuficiência. Por outro lado, se somos imperfeitos isso nota-se mais a perdoar do que a acusar, algo estranho a não ser na tal ótica de que a perfeição da acusação deriva da presença implícita dum perdão. Doravante, nunca mais perdoarei, pois posso estar apenas a servir de apoio a uma qualquer acusação.

Hipóteses de remodelação de Ego #1

Por regra somos sempre mal entendidos. O segredo - prático - está na aproximação . As relações mais perfeitas são as que desvalorizam o entendimento em detrimento do equilíbrio, jogando mais na mecânica que na química, ou então aquelas que optam por definir entendimento casuisticamente, segundo a máxima de não ter princípios demasiado elevados para não ter que estar constantemente a rebaixá-los consoante as circunstâncias. Claro que existe uma outra categoria, de mais difícil acesso a seres geralmente denominados por humanos , que é a dos que percebem que o entendimento é apenas mais uma das hipóteses retirada dos manuais de lógica e retórica, uma coisa dos livros, uma Kantilena , vá. Doravante serei compulsivamente desentendido.