As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 2 – Compêndio de teoria política para mulheres curiosas 5º capitulo - A almotolia de bomba Poderia o leitor apressado e displicente, no seu legítimo direito embora, pensar que este pequeno estudo se limitaria a ser um exercício ligeiro de misoginia recreativa, mas efectivamente aqui pretende-se apenas desenhar um contributo, humilde que seja, de natureza técnica sobre a forma de melhor incluir a mulher numa actividade que lhe é agreste e para a qual se deve preparar não apenas perseguindo os clichés típicos de ser ‘uma gaja tesa’. A mulher que sinta o apelo da coisa pública, não se contentando assim com o poder que lhe é conferido pela natureza e que possui – irresistivelmente - na coisa privada, tem que saber de antemão que o mundo, por estar consciente disso, parte desconfiado com ela: «ela vem para aqui fazer o que não consegue em casa» Já aflorámos aqui o papel que as assessorias desempenham no refrescamento e fortalecimento do corp...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 2 – Compêndio de teoria politica para mulheres curiosas 4º capitulo - Limas murças e bastardas Uma das paragens obrigatórias neste percurso analítico em torno das miudezas mais íntimas da mulher enquanto animal político é o estudo do papel do humor. A sociedade ocidental, por razões de sociologia reprodutiva certamente, sedimentou bem a ideia de que o humor utilizado pelo macho-político é sinal de inteligência, perspicácia e alguma irreverência, mas se for utilizado pela mulher pode ser sinal de badalhoquice e ligeireza de raciocínio. Assim, a utilização do humor por parte da fêmea-política deve respeitar algumas regras que impeçam o suicídio da sua imagem e a recambiem para as instituições de beneficência, casamento incluído. Comecemos pela auto-comiseração lúdica. Este elemento estruturante do humor masculino está completamente vedado à mulher; ou seja, a mulher não se pode colocar em zonas de fronteira, de dúvida, onde a verdade e a ...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 2 – Compêndio de teoria politica para mulheres curiosas 3º capitulo - Chave de grifo Se no que dizia respeito ao penteado da mulher-política esta devia escolher modelos colocados na mediana do espectro decorativo e evitar as zonas da periferia estética, já no que concerne à personalidade a desenvolver passa-se precisamente o contrário; a mulher que se entregue às mesmas actividades de lellos, narcisos & jerónimos deverá colocar-se na extremidades do estereótipo feminino: ou mulher-sacana, ou mulher-santa. Evitei para já a utilização dos termos bruxa-puta-cabra no primeiro caso e de mamã-avozinha-fada-madrinha no segundo, por estarem demasiado colados a desabafos de teor ero-intimista e peri-freudiano que poderiam desviar-nos do verdadeiro teor científico-experimental deste compêndio. A primeira e principal razão para esta regra do extremos prende-se com o sentimento comum do cidadão indefeso: «se era para ser uma pessoa normal prefe...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 2 – Compêndio de teoria politica para mulheres curiosas 2º capitulo - Joelho femea Uma das questões cruciais para o sucesso da mulher-política é a organização e qualificação do seu assessoramento (*). A mulher quer-se assessorada em condições e para tal precisa de assessores competentes e dum local conveniente para se assessorar; como um bom assessoramento nunca é de mais, poderia mesmo dizer-se que para a mulher o assessuro morreu de velho, não fosse o caso de, geralmente, ela dar cabo dele antes. Para o assessoramento da mulher-política o elemento essencial é o famoso ‘Gabinete de Estudos’. A escolha do local e da decoração do Gabinete de Estudos representam um momento chave na carreira de qualquer mulher-política. A mulher empossada, antes de definir qualquer política que seja, deve, em primeiro lugar, escolher os cortinados do ‘gabinete de estudos’. O cortinado estará para a mulher-política como o chauffeur está para o homem: é um c...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 2 – Compêndio de teoria politica para mulheres curiosas 1º capitulo - Tarraxa A política é coisa para homens, à semelhança do berlinde e dos pêlos nas orelhas, mas certas mulheres com empenho, afã de colaborar, pouco jeito para o entrelaçamento de fibras naturais e algum cuidado com as articulações podem esporadicamente exercê-la com sucesso e até com algum benefício para a sociedade em geral e os cabeleireiros em particular. O primeiro aspecto técnico que a mulher-política deve controlar obrigatoriamente é precisamente o penteado. Aqui, a regra básica nº1 é: nunca armar nem soltar demasiado. A mulher de cabelo muito armado tem tendências despóticas e, já se sabe, mulher muito despotada acaba por se prejudicar. O cabelo com muita soltura também pode indicar problemas de continência, o que, para além de dar sinais duvidosos para as forças armadas, revelará um inconveniente deslumbramento hormonal, perdão, orçamental. Consensualizados em...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 7º capitulo - Girândola de foguetes & salva de morteiros Existe também a questão fóbica. A mulher tem receio que o amor lhe estrague a pele, o homem tem receio que o amor lhe estrague a carteira. Por isso a mulher é epidermicamente esquiva e o homem trabalha por investidas que preservem o valor residual. O não feminino é diplomático e vem sempre acompanhado de muito creme hidratante, o não masculino é bruto como uma saída de bolsa em pleno crash. Sendo o espécime feminino um falso passivo e um estratega simulado serve-se do amor-sentimento como o defesa preguiçoso se serve da regra do fora de jogo: dá um passo em frente para deixar o homem com cara de parvo a olhar para a bandeirola. O homem de tendência bondosa, como o são quase todos, é um eterno atacante a tentar iludir o fora de jogo, e é incapaz de assumir que pouco mais capacidade tem do que jogar pelas laterais como um galg...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 6º capitulo - Vulcão de estrelas A noção pós romântica de que o homem é um ser geneticamente impreparado às mãos do ser hormonalmente superior que é a mulher faz ciclicamente algum sucesso estético, no entanto, este pequeno compêndio em capítulos não pretende abusar de nenhum efeito de miserabilismo lírico. Para a mulher, o sentimento-amor vem programado como sendo um resíduo tóxico, algo como o subproduto duma parafilia que o espécime masculino não conseguiu estripar da sua cadeia artesanal de sentimentos avulsos. Ciente deste defeito de fabrico do homo sapiens, - versão com pendentes na zona púbica - a mulher fez, desde há muito, correr a ideia generalizada de que está sempre em suspenso duma grande paixão que a apazigúe que nem uma canção do José Pedro Pais, dando, por isso, azo a que o homem desenvolva aquela lúbrica convicção de que se pode constituir no objecto essencial para a ...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 5º capitulo - Cauda-de-pavão Este pequeno estudo não podia deixar de elaborar sobre uma das situações mais trágicas do jogo amoroso. Ora a mulher, tendo também alguns traços humanos, esporádica, mas muito raramente, é acometida de momentos de fragilidade e fraqueza que a levam a iniciativas de pendor sincero e carinhoso para com o seu parceiro afectivo. A riqueza científica destes momentos está precisamente no tipo de reacção do homem e não tanto no tipo de carinho desenvolvido pela fêmea em estado de quebra psicológica passageira (não passam, contudo, daquelas absurdas festinhas no ombro, e um ou outro toque de raspão nas patilhas do homem – única razão para a sua existência, registe-se). Por não pretender ser exaustivo vou apenas tratar dos dois principais tipos de reacção: a ‘reacção de espanto e terror’ e a ‘reacção de inchaço de peito’. A ‘reacção de espanto e terror’ é a que oco...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 4º capitulo - Candela romana Depois do último desvio epistemológico pelas veredas do ciúme e da posse, regresso para tratar dum problema estrutural da relação sentimental-amorosa: a maturidade afectiva do homem bom. Trata-se dum típico ‘conceito-atlântida’, ou seja, fala-se muito dela mas parece que não existe. Afectivamente o homem de boa índole é eternamente um aprendiz amoroso, mas é apenas a mulher que tem essa plena consciência desde o primeiro momento. O homem, bem flatulado na sua ignorância, cinco segundos depois de receber o primeiro beijo de volta sente-se mais poderoso do que um general de Alexandre; contudo, a mulher, detentora dos meios de exploração sentimental, se numa primeira fase o deixa alimentar essa ilusão, posteriormente aplica em doses rigorosas a receita da austeridade quando ele menos espera; fá-lo assim compreender, pela via abstémica, que o amor de uma mulhe...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 3º capitulo - Balona de calibre Devemos agora fazer uma pequena derivação pelos mecanismos de dissonância cognitiva que actuam na psique masculina em plena destilação no alambique amoroso. O homem bom e saudável está plenamente convicto que ser amado pela mulher que o destino lhe atribuiu é um direito que lhe assiste, mas, paralelamente, sabe que tem de lutar por essa propriedade, perdão, esse tesouro. É da turbulência desta ambivalência que resultam as primeiras reacções imprevistas e arriscadas por parte do homem. Assistem-se assim a momentos em que o trincar duma bochecha, uma mão deslizando pela parte interior dum cós, ou mesmo uma onomatopeia mais arrojada, assumem a forma que o homem bom escolhe para testar se já está numa fase de usufruto ou se ainda tem de continuar a porfiar na fase de conquista mas com a armadura já toda escavacadinha. A mulher parece então que foi treinada ...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 2º capitulo - Fogo preso A etapa seguinte representa para o homem bom o desprendimento total das leis do amor próprio e da noção dos limites do chamado bom senso. Vendo a satisfação da sua carência afectiva presa por fios, começa a tentar entrelaçá-los, e assim fortalecê-los, à base da clássica ‘técnica dos miminhos’. A noção de miminho é das mais críticas para a compreensão total do ‘jogo amoroso’. O miminho é uma espécie de mijadela hominídea tentando marcar afectivamente o território da fêmea, baseando-se na suposição de que a mulher é um animal sensível. Ora está provado que a única zona sensível das mulheres são os pés, ou seja, a mulher só é sensível no que concerne à possibilidade de usar ou não sapatos de salto alto sem desenvolver joanetes. Assim, enquanto o homem se esforça com técnicas sofisticadas de festinhas no cabelo, pico-pico-saramicos nos dedinhos e, numa fase mais a...
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As anotações de um picheleiro dos afectos Caderno 1 - Tratado de educação sentimental para homens bons 1º capitulo - Primeiros fogachos A mulher gosta de ser amada sem que se dê por isso. O homem gosta de fazer figura de parvo a amar, sem dar por isso. São estas as premissas básicas do chamado ‘jogo amoroso’, um comportamento concreto da chamada espécie humana e que a atravessa desde a infância até à falência hormonal. A etapa inicial do envolvimento amoroso, a que normalmente se dá a designação de ‘primeiros fogachos’, é sumariamente caracterizada pela gestão da carência. O homem está carente (registe-se: o homem é eternamente carente por desígnio divino), e a mulher está fodida por não ter ninguém a quem foder o juízo (registe-se: a mulher precisa sempre de foder o juízo a alguém por desígnio dela). A combinação entre estes dois estados de alma geralmente resulta numa aproximação gradual (diz-se hesitante) por parte do homem, completamente refém da hipótese de rejeição, enquanto que ...