Na busca do Santana Graal Ou do: só agora é que cheguei à mesa do banquete, e então tenho de comer tudo ao mesmo tempo, e rápido, para poder acompanhar os outros comensais . Será que o mundo também se dedica a passear à nossa frente espojado numa bandeja? Talvez não seja numa bandeja tão mítica como a que passeou com o Graal à frente de Parsifal, que se mostrou manietado e “atraiçoado” pela sua cortês falta de curiosidade ( ?), ou como a que trazia a cabeça de João Baptista a pedido de Salomé, manipulada por sua mãe Herodias, e que explorava uma irresponsável e cega promessa feita por Herodes, mas se calhar o mundo até pode vir mesmo é apresentado num “cacilheiro dos desmanchos”, como um espectáculo feito à medida dos novos coristas da realidade, que vivem do expediente de mostrar as cuequinhas e são pagos por uma espécie de erecção-fee , ou dos que vivem da provocação, tentando vender um foie gras de progresso onde não está mais que um paté de ideologia manhosa, ou daqueles que também...
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A mostrar mensagens de agosto, 2004
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A dry soul, but shacked, please Isto é para aquela menina que não sabia que as almas se devem apresentar sequinhas, e que se escandaliza com conversas absurdas. Ou do prazer que dá escrever pensando em alguém que não nos vai ler certamente, até porque pode dispor das parvoíces a metro e à discrição, sem ter se maçar muito vindo aqui a este tasco, que não passa duma “sepultura mal caiada” de palavras pouco apocalípticas e a caminhar para apócrifas. Das almas secas. A alma é aquela coisa que vive ali encavalitada entre o metabolismo e a metafísica, que irriga sofregamente com tudo que é líquido manhoso, não olha a cheiros, nem a diluentes, e apresenta-se ao serviço em praticamente todos os corpinhos que um dia serão apenas espíritos a esvoaçar pelo sagrado éter, mais paraíso menos paraíso. A drenagem é o trabalhinho permanente destas almas em etapa purgante, e uma alma sequinha é pois o estádio mais perfeito a que uma alma pode aspirar. Uma alma que nem uma condensaçãozinha esteja a faze...
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Contos do amor gozoso Ou do efeito perverso de não saber dançar Giuseppe era o verdadeiro guru do humor da pátria. A referência das referências, o pai de todas as buchas de riso, aquele a quem a veneração quase assumia laivos duma nova religiosidade, onde crentes e sacerdotes se uniam, e fabricavam eles mesmo os seus próprios deuses de bricolage, à facon, no cadinho incensado da risada redentora. Todos o adoravam praticamente sem excepção, numa unanimidade confrangedora, desde a mente mais sofisticadamente transgénica até ao espírito mais ecologicamente rústico, desde o pelintra mais revoltado até ao magnate mais acomodado, desde o «bêbedo olímpico ao servente abstémio», como diria S. Beckett. Fazia, ele sim, o verdadeiro Pleno (não aquela merda de tisanas que se apregoam por aí). Era dono da montra mais cobiçada pela plateia do pronto-a-rir da urbe, onde os convidados misturavam nervosamente o medo de serem bandarilhados em público, com o irreprimível desejo juvenil de serem entroniza...
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Contos do só deus sabe ou do efeito de não se andar a par das notícias Tinham um casamento armadilhado pelo amor. E só Deus sabe o quanto ela o amava. Era um genuíno casamento por conveniência; pois nada é mais conveniente que o amor, nada ajeita melhor as coisas, nada deixa melhor as coisas como elas são, nada é mais conservador que o amor. Quando ela o enganava – sim, Francesca enganava-o claro, com aqueles desenganos da carne – ele apenas dizia «só quero é que não sejas inconveniente, não te esqueças que nós amamo-nos». Ela nunca conseguia resistir quando alguém lhe chamava lascivamente e com sotaque andaluz: «Ó rubia!» Só que aquilo também não passava dum mero efeito marmoreado no conveniente estuque amoroso. Pietro sabia isso. Era tão conveniente apenas amarem-se; nem se ajeitavam mesmo a ter mais nada em comum, nem sequer precisavam de rezar ao mesmo Deus, aliás ela até dizia como a Elis Regina que «não sabia rezar, só queria mostrar o seu olhar», os deuses haveriam de compreende...
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Apenas para falar do tempo Um representante português (será atleta?) nos Jogos Olímpicos justificou parte da má – péssima – prestação porque a aba da sua casaca estava sempre a bater no dorso do cavalo durante a prova de dressage . Certamente andou a treinar de cuecas, e agora o animal ressentiu-se de tão pouca ligeireza olímpica e da incomodativa batidela de aba de casaca. Eu também vos digo, se uma aba de casaca me andasse a bater nos costados enquanto eu escrevia esta coisa, certamente não sairia nada de jeito, só que agora também reparo que já estou de cócoras há mais de dez minutos, os pezinhos estão a ficar dormentes, e a cabecinha irá certamente desforrar-se devida e proporcionalmente. Mas é verdade, às vezes tudo nos atrapalha, parecemos uns eternos reféns dos caprichos das baixas e das altas pressões, e até parece que não passamos de cavalinhos de cortesia em permanente dressage , uns armados em alazões à espera do embasbaque da audiência, e outros engaranhados à espera do seu...
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Para limpar Ora pois 1 Desemperremos «A chama ergue-se na vertical , incapaz de manter-se rasteira , de deixar-se abaixar, tanto com é incapaz de estar parada; do mesmo modo o nosso espírito está sempre em movimento, e é mesmo tanto mais ágil e ardente quanto mais nobre for» Séneca, Cartas a Lucílio , carta nº 39 – 4, ed. FCG Ora pois 2 Sem perder de vista que «o cofre é um mero acessório do conteúdo» Séneca, Cartas a Lucílio , carta nº 87 – 18, ed. FCG Ora pois 3 Mas: opiniondesmaker forever «Todos os nossos juízos estão suspensos da opinião comum. Não são apenas a ambição, o luxo, a avareza que se regulam por ela: também sentimos as dores de acordo com a opinião. Cada um só é desgraçado na justa medida em que se considera tal» Séneca, Cartas a Lucílio , carta nº 78 – 13/14, ed. FCG
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Mas agora também reparo Proibido a crianças-adultos em fase de construção de personalidade Que raio, aborrecem-me tanto os moralismos da série “coisas bem acabadas”. Mas parece que só assim é que se forja um carácter forte: fomentando o dever de acabar aquilo que se começou, de nunca deixar nada por terminar, de fazer as coisas bem feitas. E ainda para ajudar à festa este moralismo de almanaque parece irritantemente fazer todo o sentido. Mas arrepiam-me ( coitadinho ...) tanto as coisas que fazem sentido; são uma espécie de damas d’honor do não menos arrepiante “estava-se mesmo a ver”. Semaforizam-me a existência. Mas desgraçadamente não nos safamos dessas éticas do “acabar o que começámos”. Dessas moralidadezinhas de “menu do dia”, que acabam por ignorar displicentemente o ensinamento que se poderia retirar dos rodízios em constante reabastecimento. Mas que porra, realmente, isto de que para se ter uma personalidade forte é preciso sentir a responsabilidade de terminar, já me está a ...
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Contos para algum dia Lorenzo podia dizer-se que ainda era um rapaz. Sonhava em ser alpinista, iria ser alpinista tenho agora a certeza, agora que vou escrever esta história, claro; só que não o seria para sempre; esta noção de “para sempre” faz confusão quando ainda se é ainda rapaz, não é bem fazer confusão, é mais não interessar para nada, ou melhor, o “para sempre” é quase um dado adquirido quando se é rapaz, é uma espécie de borla dada à juventude, para compensar as exigências desleixadas da nostalgia. Não sei se era o “ver o que os outros não viam” que o seduzia, nem sei se era o “estar mais próximo do que quer que fosse” que o seduzia, eu cá, que sou o narrador-patrão desta história, gosto mais de pensar que ele era seduzido por viver fascinado, por ir vivendo consumindo pouco oxigénio, num despojamento energético, vivendo numa ofegância provocada por um cansaço quase desejado, quase obsessivo - esse conceito tão reflexivo - o cansaço próprio duma alma que se julga trepadora, e...
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Como se fabricam os líderes partidários é a questão que deixa no ar o Terras do Nunca , a propósito do granel a que se assiste na linha de montagem do Largo do Rato. Ora ele veio de férias, parecia cheio de garra, mas foi outra vez de férias, só que já se sabe: uma pergunta do Terras merece sempre resposta, e o dicionário não ilustrado acho que nunca tinha tido esse privilégio. Algumas das características principais das fábricas de lideres partidários na entradas 847 a 857 Matéria-prima – Em princípio qualquer coisa serve, mas o essencial é que seja conhecido o lote, porque se houver problema há que saber identificar a quem pedir responsabilidades Cobranças – É crucial ter a certeza de que o putativo líder é bom de contas, ou seja, ele tem de estar consciente de que tem de pagar a quem deve eleição, e isso é bem mais importante do que fazer o que deve com ela. Logística – Será determinante aferir se o produto é de fácil manuseamento porque senão esturra-se o dinheiro todo em empilhado...
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O dicionário não ilustrado já deu bastante do seu corpinho a tratar dos vícios do poder, por isso hoje em estilo de veraneio vai tratar dos vícios, ou dos tiques pronto, de quem não detém o poder. Entradas 837 a 846. Dizer mal – É a maneira de ter sempre os pés quentinhos sem necessitar de caminhar muito para exercitar a circulação. Encapotar a cobiça – Como quem usa a borracha mas para disfarçar os males de piç... ( não me contive ) Condicional ( abuso do ) – Técnica sofisticada, mas que vai-se a ver, mais não é mais que a música que acompanha o fado do “ai se eu mandasse”, como qualquer comichão que gostaria de ser alergia. Desvalorizar – O que se faz ao uso, para satisfazer a idolatria malévola duma posse ausente, tal como reage uma mola da roupa que sabe nunca poder vir a ser gancho para o cabelo. Agoirar – Acto de grande magnanimidade que só é ultrapassado pelo de desejar boa sorte, tal como o sonho duma calosidade é ser vizinha duma unha encravada Cochichar – Substitui bem as pa...
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Noites transitórias Um dos episódios da vida de Jesus que sempre gostei foi o da “Fuga para o Egipto”, pelo que representa e ( é pá agora de repente começou a dar na MTV um teledisco do George Michael num ambiente debochado e bacanalizante, não sei será a melhor inspiração para escrever isto, mas adiante ) para além disso porque lhe estão associadas belíssimas obras de pintura espalhadas por todo o mundo. E o que me trouxe mesmo até aqui a este tema foi ter reparado subitamente numa dessas pinturas que infelizmente nunca tive ocasião de apreciar ao vivo: trata-se dum “Descanso na fuga para o Egipto” do Orazio Gentileshi, e que está no museu de Birmingham. Apesar de O.Gentileshi sempre me ter parecido que pouco se “desfez” do seu mestre Caravaggio ( ao contrário da sua filha Artemisa, por exemplo), até esteve benzinho neste quadro. São José dorme esparramado de cabeça tombada, enquanto N. Sra dá de mamar ao menino Jesus. Nada demais. O burro observa, e o realismo do quadro faz o resto “...