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Teologia da desilusão

Deus é quem menos cumpre as nossas expectativas. Tal como quem amamos acaba por ser quem mais nos falha, Deus está frequentemente a jeito para que lhe apontemos o dedo - mais ou menos piedoso - da desilusão. Em geral exigimos-lhe que seja mestre no campeonato das grandes contradições: esteja perto sem nos chatear, seja previsível mas surpreendendo-nos, esteja longe mas fazendo companhia, nos dê o possível na medida do impossível e nos dê o impossível na medida do possível, em suma, também já estará habituado a que ter de ser só nosso mesmo sendo de todos. Quem já se sentiu abandonado por quem ama (e quem nunca sentiu isso não sabe o que perde) entenderá facilmente que não há maior desilusão que uma ausência incompreensível. A religião permite apenas uma ligação imperfeita, o Deus que nos foi concedido não passa da clássica sombra projectada no fundo da Caverna, e a sua graça pouco mais efeito dá que uma terminação de lotaria. Sendo que a espiritualidade é uma técnica de gestão da des...

Teologia da Abstracção

Por regra, no excêntrico universo da análise moral, consideramo-nos pecadores em abstracto mas boas pessoas em concreto. Com facilidade assumimos uma contrição quase estética sobre uma tendência genérica para a imperfeição (não confundir com a maldade) mas confrontados com um contacto objectivo com ela somos facilmente levados a descartá-la, ou a camuflá-la sob capas do psicoloden, quando não a veementemente negá-la. A experiência da culpa definida e circunscrita é muito mais penosa que a falha assumida como uma tendência imanente de malandragem, ora literária, ou mesmo cómica. Por outro lado todos temos pecados de currículo, pecados que nos ficam bem, como adereços de moda ou relações de conveniência. Ou seja, a imoralidade-como-composição é uma das boas invenções do espírito humano no intuito de se proteger desse peso esmagador que é a existência duma lei moral omnipresente. Assim, a batalha essencial da alma malabarista é conseguir transferir do concreto para o abstracto a sua li...

Liga da Solidariedade

Resultados da 1ª jornada Sport Lisboa e Bem-fazer - 1   / Companhia Portuguesa da Caridade   - 0 Depois de uma primeira parte muito equilibrada, o S.L.B. soube aproveitar muito bem uma falha da C.P.C. numa distribuição de fanecas fritas com arroz de tomate demasiado apurado e depois segurou a vantagem até ao fim, tendo até desperdiçado uma ocasião soberana de aumentar a vantagem com uma entrega de leite magro no banco alimentar de Elvas mas que acabou por ser substituída à ultima hora por duas toneladas de lingueirão de conserva que não foram aceites por pacheco pereira devido à sua origem religiosa das reservas da quermesse de páscoa da paróquia de benavente. Desportivo das Sopas - 2 / Cobertores Sport Club - 2 Foi um jogo bastante bem disputado com incerteza constante no resultado. Se o C.S.C. com a sua primeira distribuição de edredons com enchimento de poliester conseguiu adiantar-se no marcador, rapidamente o D.dS. não enjeitou a possibilidade de...

Dívida Metódica

Subsídios para uma reestruturação Primeiro pega-se numa dívida e analisa-se o credor; antes de nos pormos a verificar para que teríamos precisado nós do dinheiro, haverá que escalpelizar porque teria precisado o credor de nos emprestar. Em segundo lugar haverá que dividir a dívida em várias parcelas: nunca o dinheiro serve para apenas uma coisa, a dívida é como a dor de rins: 1/3 é má postura, 1/3 é deficiente movimento de fluidos e 1/3 é a presença de cálculos agressivos. Por isso, quando nos pedem que paguemos algo, comecemos primeiro por alterar apenas a postura. É péssimo fazer reembolsos de cócoras. Terceiramente (é o adverbio de modo de estar em terceiro) devemos considerar que antes de chegarmos ao milhão temos de passar pela dezena, depois pela centena, de seguida para o milhar e por aí adiante, e apenas se der tempo analisaremos os seguintes, pois ninguém percebe decentemente o valor de um milhão se não tiver derretido antes uma boa centena de milhar. Ou sej...

Porta 9B

Encontraram-se num restaurante que ocupava o espaço ao lado da galeria. Era um restaurante popular, com uma clientela fixa e onde nem Arménio nem Áurea, curiosamente, alguma vez tivessem entrado. Não seria o local mais aconselhado para uma conversa de reatamento, ou balanço, ou até de reconciliação, mas foi o que ela escolheu, e mais uma vez ele, inexplicavelmente, se mostrou incapaz de a contrariar. O prato do dia era cozido, um grupo de padres e seminaristas ria-se numa mesa próxima, como que querendo demonstrar que sob determinadas condições afinal a carne vale, por mais fraca que possa ser. Seria a carne algo que os unia ou os separava, pensou Arménio enquanto observava o excesso de formalismo de Áurea. Ainda ele   não se tinha refeito de uma certa estranheza em relação ao seu comportamento, quando ela o convidou a sair e a darem uma volta pela rua. Passaram por uma loja de sofás e entraram, ela queria renovar a decoração do seu escritório e pretendia comprar uns sofás para ...

Porta 9A

Enquanto Arménio subia era assaltado pelos pensamentos mais vulcânicos que jamais tinha experimentado. Ainda estava a meio das escadas quando ouve a voz de Áurea, vinda dum patamar mais acima, pedindo-lhe para ir andando para a loja que ela já lá iria ter. Que saudades ele tinha daquela voz que já lhe revolvera todas as glândulas num passado não muito distante. Desceu de forma automática - sempre lhe tinha obedecido, como que movido por uma força inexplicável - sem sequer ter pensado no que significava a tal loja na qual ele nunca tinha reparado, nem sequer sabido da existência. Mas lá estava, era uma galeria de arte novinha em folha, aberta certamente havia poucos dias e onde se podiam ver, entre outros quadros, algumas das suas aguarelas. Mal sabia Arménio que nunca mais subiria ao escritório de Áurea. Os seus clientes tradicionais tinham-lhe feito ver que ela não poderia prestar tanta atenção ao portfólio de Arménio e que isso a estaria a dispersar, desperdiçando eficiência e...

Porta 9

Arménio Jasmim subia aquela rua íngreme como o começara a fazer regularmente desde o início do ano. Por regra não assumida escolhia o lado da numeração par, mas naquele dia frio e seco preferiu o sol que se apresentava acolhedor do outro lado. As portas não lhe eram tão familiares, as caras dentro das lojas também não, uma ou outra talvez, do café ou da papelaria onde entrara três ou quatro vezes, se tanto. Ia observando com alguma atenção mas sem aquela curiosidade que produz verdadeiras descobertas. Foi assim com um ar meio displicente que deu de caras com uma tabuleta no número 9 que anunciava 'Drª Áurea Martins - Solicitadora'. Poderia ser mais um escritório entre muitos, mas um impulso sem explicação perceptível fê-lo entrar. Uma solicitadora poderia ser aquilo que ele precisava ou mesmo ansiava inconscientemente. Mas uma dúvida tinha-se-lhe instalado logo nos primeiros lances de escada: seria alguém que faria o que ele solicitasse, ou alguém que solicitasse por e...

úlcera no duodécimo

Desde que o homem decidiu que os astros lhe comandariam a vida que dividimos o tempo em anos e os anos em meses. Daí até duodecimarmos a existência foi um pulinho mais curto que aquele que leva a gosma da faringe ao céu da boca. Assim, confrontados com uma marcação de passo que era imposta pela posição da nossa lua face ao nosso sol, quisemos libertar-nos desse espartilho astrológico através daquelas delicatessens cronológicas chamadas décimo terceiro mês e subsídio de férias. Foram épocas em que o homem se pensou um mago do tempo, um esticador de horas, um novo deus do calendário. Foram décadas bonitas, em que espatifávamos uma bastilha em cada seis meses, mesmo sem ser preciso ver a praia debaixo das pedrinhas da calçada. Mas vamos agora voltar ao mísero ano-de-doze-meses, ficando novamente reféns da ditadura da traslação e teremos de pôr a imaginação outra vez a trabalhar para driblarmos o inexorável. Como se não bastasse termos perdido a companhia desses dois duodécimo...

ano karenine

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(...) já tinha notado há muito que quando as pessoas se sentem incomodadas pela sua excessiva docilidade e submissão, muito depressa se tornam insuportáveis por uma excessiva exigência e susceptibilidade Início do cap. XXXII

Teologia da Hibernação

Com um deus distante e uma fé invernosa escolheu o seu deserto interior para refúgio maldito. Mau conselheiro de si próprio mas desconfiado do conselho de alheio, entregou-se a memórias vagas e recalcamentos persistentes, desatou os nós que trazia no estômago e esperou pela pancada. Veio ao terceiro dia, como uma ressurreição pagã, disfarçada de dor de garganta, pois tudo que vale a pena precisa da dor para ter dignidade. Agarrado pelas entranhas superiores perdeu-se em divagações sobre a culpa e o destino, a sorte e a má sorte, o reconhecimento e a incompreensão. Estava no consolo que toda a ingratidão propicia quando um Espírito Santo sem orelha lhe sussurrou duas verdades de demonstração inacessível para o seu grau de sofisticação no momento. Forçado a crer como alternativa viável, aconchegou-se naquele prazer demoníaco que é todo o desprezo pelo que nos rodeia e soltou a língua em forma de avé-maria sem graça. Recolhido na oração dos simples, deixou o coração divagar pel...

continuidade - repetição

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Ali Bábá e os quatro-mil-milhões

Quando Gaspar descobriu que na caverna do estado social estavam escondidos quatemimnhões foi a correr contar a Passos.   - E como é que lá entramos?   - 'Abre-te selassié', acho que é a senha, e se lá conseguirmos entrar vai ser canja pormos as mãos nos quatemimnhões! - Achas que não vai estar lá mais ninguém? - Vamos num dia em que haja manifestações! Gaspar e Passos esfregavam já as mãos com a imagem de um pote cheio de quatemimnhões quando lhes apareceu Portas a dizer que também queria ter uma palavra a dizer sobre os quatemimnhões. - Mas tu não sabes qual é a senha! - rematou logo Gaspar.   -   Sei sissinhora, é: 'Abre-te Lagarde'! - Não é, Toma! E essa só manda no departamento de bijutaria e marroquinaria e os quatemimnhões são despesas sociais. - Então vou perguntar ao Bagão Felix e ele diz-me a senha - Ora, ora, espertinho, a senha já não é a mesma, ehehe, pensas o quê!? Portas irritado manda chamar Mota Soares. ...

the dark side of the wool #n+k+l

Um dia o pastor enquanto tosquiva uma ovelha descobriu uma moeda dobrada no meio da lã. Olhou à volta e no cimo de um monte viu o lobo a rir-se atrapalhado e com um dente partido. Depois virou-se para o lado da planície e viu o fiel cão com o seu mealheiro ao pescoço. Fez-lhe uma festa rápida e tirou-lho. Já se preparava para o abrir e contar as moedas quando constatou que tinha lá inscrito em tempos: nem tudo o que é fofo é lã.

sol - sombra

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Dead Can Dance II

Uma das principais conquistas do novo Purgatório-social é que Deus Nosso Senhor doravante apenas terá acesso ao visionamento das nossas vidas depois de criteriosamente editadas. Enquanto antes nos apresentávamos ao Criador e seus acólitos de forma bruta, desde a refundação do Purgatório que temos direito a pequenos ajustes efectuados por anjos especializados em limar as arestas do pecado. Muito boa gente hoje ainda amocha anos e anos à espera duma vaga no Céu porque pura e simplesmente ninguém teve o cuidado de cortar pedacinhos sem importância da sua passagem por este degredo de Eva, muitos deles até certamente apenas pequenas distracções ou mesmo meras manifestação de respeito perante tentações que se apresentavam generosas e determinadas. Todos sabemos perfeitamente que mudar um enquadramento ou desfocar um ou outro plano são suficientes para transformar momentos de natureza mais duvidosa da nossa vida em meras circunstancias de confraternização e formas alternativas de viver algu...

Dead Can Dance

Deus, como seria de esperar, olha para nós com curiosidade divina. A curiosidade divina consiste numa espécie de auto-redenção do criador que recebe o homem-feito-deus e lhe administra a eternidade chave-na-mão com uma paciência infinita. Mas o homem há muito que pôs Deus na borda do prato (há quem diga que é o local onde guardamos o que gostamos mais para depois degustar com cuidado) e Ele teve de reestruturar o Purgatório face à nova realidade religiosa. Podemos chamar a este novo local, para utilizar uma terminologia d'época: o Purgatório-social. A meio caminho entre a eternidade-ameaça e a eternidade-protecção este novo purgatório tem apenas para fornecer aos penitentes os serviços mínimos de penitência e adoração. A comissão instaladora definiu assim as suas funções: garantir apenas que perceberam a merda que fizeram e a merda que deixaram por fazer. Ou seja, deixamos de ter a possibilidade de vislumbrar antecipadamente a experiência de O ver face a face, mas por o...

basta cromossomar um mais um

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A sexta avaliação

Carlos Fontes estava ansioso naquela terça-feira que arrancou com uma desconsoladora neblina. Iria estar com Luísa pela sexta vez e dos outros encontros não conseguira retirar um percurso, uma casualidade de emoções, reacções, suspiros ou sequer sorrisos, um love path . Cada encontro era um universo novo a descobrir, nem sequer percebia se se daria uma translação ou uma mera rotação, nos momentos que estiveram juntos o tempo parecera-lhe saído da cauda dum cometa desgovernado. Umas vezes faladora e expansiva, noutras circunspecta, em momentos lúcida e racional, noutros lúdica e enigmática. E como seria que ela o veria? Nunca conseguira perceber. Cada abraço era um exame, o simples olhar dela era uma cirurgia, cada carícia uma ecografia, cada beijo fugaz era saboreado como se duma ressonância magnética se tratasse. Desta vez encontraram-se num pastelaria de bairro junto a uma praça quase vazia duma zona antiga da cidade. Luísa apresentou-se calada e na expectativa. ...

perto - longe

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À espera de Murphy

Não há muito tempo o blog 'dias felizes ' (hoje com outro nome não menos beckettiano) numa série de 'aforismos naturais' (melhor que o natural só mesmo aquele com pedaços de frutas silvestres) escreveu: «Não se deve esperar muito de um feitio que balança entre o ensimesmado e o trocista». Dos vários garruços que pulularam de imediato à minha volta quando li aquilo, praticamente todos me assentaram que nem uma luva feita à medida, no entanto não comentei a descoberta com ninguém, não fosse deixar a descoberto a minha careca de gajo-do-qual-não-se-pode-esperar-grande coisa. Retive no meu ensimesmamento (que tem tanto de estéril quando de oportuno) a consciência de grande inútil e trocei (na medida do possível) comigo próprio naquela base de que antes estar quieto que estragar, pois antes um murphy na mão que dois godots a voar.

valha-nos nossa senhora da emasculada conceptualização

Senhores de uma pívia intelectual de bom porte os novos-sábios vieram tomar o lugar dos novos-ricos. Aparentemente tudo apontaria para que ficassemos mal servidos. Mas até não. A energia que antes fazia desabrochar fábriquetas de peúgas e tshirts, se bem que algumas de duvidoso porte vindas do grande maná da esperteza saloia, hoje dá à luz dondocas de salão de chá não dançante com o pomposo nome de comentadores. Gente incapaz de produzir um mínimo de riqueza que se possa apalpar com dedos de gente, (aquilo que agora a gíria chama de bens transaccionáveis) encaixou-se na fresta dos grandes bordéis do pensamento e fez nascer o novo cluster dos entertaineres de opinião, opinioristas praticamente de cédula garantida e com rodado preparado para qualquer tipo de piso. Mas o facto é que dalguma forma houve bom time to market nesta decisão dos mediamakers. Os canais generalistas têm novelas, reality shows e um ou outro concurso, e os canais de notícias fazem a festa com estes banality sh...

blocogamia

De todos os grandes temas do momento, designadamente, o video-do-marcelo, as declarações-da-jonet, a visita-da-angela-doroteia, e o novo casal-do-bloco, apenas este último me parece de real importância. Não se trata, como aparentemente se poderia supor, de uma liderança bicéfala, (aliás, é até aos homens, isoladamente considerados, a quem geralmente é atribuída essa qualidade de pensar com duas cabeças) trata-se antes, e   numa primeira análise, de uma tentativa de re-hormonização do poder. Face à carga erótica que geralmente está acometida a qualquer liderança, o bloco de esquerda enveredou por dessexualizar o exercício do poder e fê-lo precisamente: sexualizando-o. Face à herança hermafrodita de Louçã não seria fácil encontrar uma solução que não esta de amancebar heterosexualmente dois espíritos de esquerda num único casulo trotskista. E é assim que se traz para o maravilhoso mundo da termodinâmica homem-mulher uma nova e empolgante categoria. Face a relações menos o...

a (refundação da) mulher de confiança #2 - a bota chelsea

Neste processo de minúcia que é a reforma profunda da mulher portuguesa não devemos encolher-nos perante estigmas ou preconceitos de qualquer espécie. Assim, ao 'diz-nos com quem andas dir-te-ei quem és» há que juntar o, até mais óbvio e consensual, julgo,   'diz-me o que tens nos pés dir-te-ei como andas'. Se no primeiro capítulo deste breve ensaio comecei pela cabeça, será agora de elementar justiça dar cobertura à outra extremidade. O pé-de-mulher (conceito que se situa nos antípodas do também familiar pé-de-atleta ) constitui-se não só como um dos grandes mistérios do erotismo feminino mas principalmente na consagração da mulher como o real sustentáculo duma sociedade em permanente volatilidade e ciclomaníaca. Deixo desde já claro que não pretendo elaborar aqui nenhum libelo contra modas como o salto ou o cano alto, mas antes reforçar aquilo que constitui o núcleo de confiança que se pretende encontrar numa mulher: firmeza e flexibilidade. A bota chelsea consegue con...

frente - trás

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Lafayette & Talleyrand

A revolução em Portugal acabou por não conseguir gerar uma mitologia decente e consistente. Se, por um lado, Soares ainda se aproximou do brilho da liturgia aristocratico-revolucionária, dando cores persistentes à primavera politica e construindo em seu torno uma película   lafayettiana de esplendor e espontaneidade, nada de jeito se produziu no outro extremo. Chegados à troikicidade do momento olhamos à nossa volta e não encontramos nenhum grande calculista, nenhum grande e perene manipulador de bastidores. Vários candidatos foram ficando pelo caminho (marcelos, almeidas santos, jaimes gamas, angelos correias, etc) sem deixarem nenhuma marca que não o episódio ou flirt irónico e conspirista. Chegados aqui vemos que a revolução em Portugal não produziu nenhum Grande Cínico, alguém que trouxesse no sangue a dissimulação em estado puro, um reflexivo obsessivo. E que falta nos faz a existência desse pólo agregador de todas as forças da especulação e do genuíno amor aos bastidores e...

aguentómetro

nível 1 -   lembram-se daquele tempo maravilhoso em que se discutia se o couvert devia ser pago em separado? nível 2 - lembram-se daquele tempo fantástico em que o grande problema do mundo era o racismo na África do sul? nível 3 - lembram-se daquele tempo em que a salazarenta ponte 25 de abril ficou bloqueada porque os camionistas não queriam pagar o aumento das portagens? nível 4 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que se era a favor ou contra a invasão do Iraque? nível 5 - lembram-se daqueles tempos em que evitávamos comer carne de vaca por causa da espongifórmica? nível 6 - lembram-se daquele tempo em que a principal questão nacional era um problema técnico sobre o novo aeroporto: ou em cima das estacas da Ota ou entre os sobreiros de Alcochete? nível 7 - lembram-se daquele tempo maravilhoso em que o engenheiro guterres não sabia calcular percentagens do pib? nível 8 - lembram-se daquele tempo em que o sporting tinha equipa de futebol? ní...

telúrico - etéreo

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salafixologia

Ao contrário do que somos levados a pensar, o epíteto «salazarento» , que alegadamente terá ofendido Gaspar, victor e ministro,   não se deve tanto ao mobilizador ideológico-idiomático 'salazar', mas antes ao sufixo 'ento' que, com o aditivo do 'z' já possuído pelo referido salazar nos conduz directamente a 'cinzento', cor interessante para combinações mais clássicas no vestuário, mas que nos remete para um universo de retrogradismo e bafio. Vejo assim que está ao nosso alcance definir uma nova classificação semântica dos vários salazarixos. Observemos. Se utilizarmos o   'salazarosa' podemos lograr injuriar a preceito alguém que esteja próximo do lobi gay; se quisermos dizer que um politico está com um discurso mortiço e cambaleante poderemos chamar-lhe um 'salazarombi'; se por acaso alguém entrar por um discurso decadente de vaidade e bazófia poderemos utilizar o novel adjectivo 'salazarófia'; se pretendermos desconsiderar alg...

a (refundação da) mulher de confiança #1 - a bandelette

Qualquer homem num determinado momento da sua vida precisa de ter uma mulher de confiança. Seja qual for a posição formal que ocupe na sua vida (cuidado que as mães nunca são de confiança) trata-se de alguém em que ele possa encontrar aquilo que não tem, nem nunca terá, por força duma fatalidade que se dá pelo nome de natureza . A mulher, sem deixar de ser também uma construção social e cultural, (como o homem, de resto, mas este menos) encerra em si um pouco daquilo que apenas a religião consegue fornecer com estilo, ou seja: o mistério. Apesar de Pessoa ter alertado para que «o único mistério é haver quem pense no mistério», é impossível fugir à inegável capacidade que a mulher tem em se constituir numa espécie de metafísica com pernas ( e mais qualquer coisa de bónus). A mulher, ciente dessa sua característica desde muito tenra idade, (mantendo-se, muitas delas, inclusive tenras por muito tempo) tem uma forte tendência para lhe ir acrescentando muitos outros atributos que aca...

novo-velho

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O Estado Marsupial

Depois de ter sido decretado o óbito do chamado Estado Social toda a comunidade politóloga e sociolofílica se reuniu para desenvolver um novo modelo de Estado que, para além de lhes continuar a dar trabalho, pudesse igualmente dar aviamento à quantidade de impostos que começariam a sobejar nas contas públicas. Tendo acordado em manter uma posição de apriorismo na definição de Estado, oposta, portanto, à recente tendência pragmatóina, (na qual o Estado é o que derem os impostos, uma espécie de Estado em regime de trabalho temporário) os especialistas começaram por construir o enquadramento conceptual para um Estado neoplatónico, um Algo que tem de estar ali , leviatanico e seguro, mesmo que não se veja nem sinta. Arredada a vertente minimalista de Estado-central-da-securitas, em que cada cidadão estaria ligado a um posto de intervenção rápida que enviaria um piquete apenas em caso de arrombamento social, estabilizou-se num conceito de Estado-como-central-de-acolhimento. Afastados o...

a economia da estupidez

Ser estúpido é algo que requer uma utilização criteriosa de amplos recursos. Em geral podem encontrar-se 2 grandes tipos de estupidez: a natural e a elaborada. O primeiro tipo está bastante bem difundido pela espécie e é uma das chaves mestras da nossa sobrevivência a par do polegar pênsil, do uso do fogo, do cartão de crédito e da roda. No entanto, mesmo esse nosso talento inato para colocar a realidade ao serviço das nossas entranhas mais íntimas exige treino e interacção com vários recursos, designadamente o desprezo pelo semelhante e , nos casos mais sofisticados, o desprezo por nós próprios. Deixando um pouco de lado este tipo de estupidez natural, debruçar-me-ei no segundo tipo que chamarei de estupidez-elaborada. Quando se diz, por exemplo: não há limites para a estupidez - é precisamente desta que estamos a falar. A estupidez elaborada tem, desde logo, um ponto de contacto muito relevante com a natural, trata-se da pose. A pose estúpida é a combinação do talento natural-...

windianápolis #n

The wind blew all my wedding-day, And my wedding-night was the night of the high wind; And a stable door was banging, again and again, That he must go and shut it, leaving me Stupid in candlelight, hearing rain, Seeing my face in the twisted candlestick, Yet seeing nothing. When he came back He said the horses were restless, and I was sad That any man or beast that night should lack The happiness I had. Philip Larkin in Wedding Wind

claro-escuro

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windianápolis #4

O wild West Wind, thou breath of Autumn's being, Thou, from whose unseen presence the leaves dead Are driven, like ghosts from an enchanter fleeing, Yellow, and black, and pale, and hectic red, Pestilence-stricken multitudes: O thou, Who chariotest to their dark wintry bed The winged seeds, where they lie cold and low, Each like a corpse within its grave, until Thine azure sister of the Spring shall blow Her clarion o'er the dreaming earth, and fill (Driving sweet buds like flocks to feed in air) With living hues and odours plain and hill: Wild Spirit, which art moving everywhere; Destroyer and preserver; hear, oh hear! .   de Percy B. Shelley, in Ode to West Wind

Pussy Diet

De todos os grandes compensadores psico-fisiológicos da humanidade ( álcool, tabaco, velocidade e sexo) apenas o sexo não contribui devidamente para a cobrança fiscal. Por estar muitas vezes associado a actividades proibidas por lei, nalguns casos penalizado pela chamada moral vigente, e em muitas culturas ligado aquilo que geralmente se chama a esfera íntima de cada um, o sexo tem estado arredado da fiscalidade tradicional. Ora, sendo, destes quatro compensadores, aquele que está presente junto de nós há seguramente mais tempo e sendo aquele que, julgo, nos está mais amplamente consolidado, não parece normal que viva arredado dum papel activo de contribuição para a fazenda nacional. A dieta libidinosa a que o nosso orçamento do Estado se tem submetido deverá pois chegar ao fim. Até há alguns anos, a prática sexual , ao contrário dos outros compensadores, não compelia à utilização de nenhum produto, costume esse que com o tempo se foi alterando via o uso e consequente comercializaçã...

a economia do pensamento

Desaparecidas as ideologias em parte incerta e depois de uns anos à volta de super-estruturas de desenrasca tipo civilização, ocidente, tolerância, ética e outras avulsas da família das convicções, aterrámos na era dos conceitos. Como estamos ainda numa fase embrionária escondemo-nos frequentemente em figuras de estilo de maior ou menor efeito, metáforas de atavio, fazendo apelo a uma imaginação que vive descompensada por falta daquilo que antes lhe dava gás que eram os famosos valores.   Assim, nesta era emergente dos conceitos - à qual ainda nos adaptamos quais netherdales do pensamento abstracto - já tivemos de pôr de lado as grandes motivações e os grandes desafios e estacionámos na berma, junto ao maravilhoso mundo dos possíveis. Começamos, e bem, por baixo. Definimos os novos sofrimentos, as novas decadências e assim pensamos fugir aos cálculos piedosos da miséria e do desespero. De rabo a dar definimos como roubo a falta de jeito e como bomba o apertão, dando assim algum ...

a economia da virtude

Há muito que o consumo tinha substituído a fé como principal motor da actividade e da ilusão humana. O consumo veio acompanhado de conceitos sedutores como a imaginação, a felicidade, o bem-estar, a liberdade, o progresso, e a fé foi ficando mais ligada a corrupção de almas, a liturgias bafientas, a estruturas de opressão emocional, a fanatismo , a irracionalidade e a regressão. Ora nestes tempos em que o processo de moeda ao ar que impregna toda a evolução humana entrou numa fase em que nos é apresentada a outra face temos para nos entreter o confronto semi-titânico entre a austeridade e a temperança. Assim, enquanto a austeridade nos revela os lados negros da privação, da insatisfação, da frustração, a temperança tem o seu tempo de antena para nos indicar o caminho da sobriedade, da paciência e da discrição. A opção para quem se sente fodido e mal pago é empertigar-se casto e ponderado. Se antes era preciso separar o consumo do desperdício, hoje é preciso separar a temperança ...

Windianápolis #3

No boughs have withered because of the wintry wind; The boughs have withered because I have told them my dreams William Butler Yeats, in   The Withering of the Boughs

Tsunicómio IV - Alvaladoscopia

Enfiaram um tubo pelo rabo do sporting adentro e foram encontrar uma espécie de pandilha doutro mou, dum memorandum of unconsciousness; mas nem tudo é o que parece. A parede estava bem lubrificada, todavia contraía-se por tudo e por nada. O ecrã mostrava movimentos espasmódicos por dá cá aquela palha, uns divertículos faziam de pombinho e outros de gralha, enquanto alguns procuravam um treinador que os salvasse outros procuravam um árbitro que não os tramasse, em ambos os casos evitando a cólica e aproveitando o flato para energia eólica. Tratava-se dum exame de urgência não houve tempo de esvaziar bem a tripa oleosa e ainda para lá havia restos de pentelhices misturadas com a mucosa. Foi avaliada a situação e o diagnóstico dito um em formato solene, que lá se instalara uma marosca perene. Seriam Lampiões? Sócrates? Um perdido par de colhões? Algum benefício fiscal desgarrado? Ou restos dum penalty mal assinalado? Uma virgula mal colocada num decreto? Uma maioria anulada por um veto?...

Tsunicómio III

A lagartada afunda-se e nós andamos preocupados com a merda do país como virgens néscias. O afundamento leonino é algo que nos devia pôr todos a pensar: há na realidade algo que está por dentro e tudo mina. Não pode ser só incompetência, não pode ser apenas cancro, não pode ser apenas aldrabice, não pode ser apenas azar. Mas também seria abusivo dizer que o Sporting encarna o grande mistério da Impenetrabilidade do Ser, ou seja, meia dúzia de caralhos que não conseguem - há anos! - pôr a jogar outra meia dúzia de caralhos (não se escandalizem com tanto caralho e pensem como as boas gentes do norte que dizem que caralho é virgula) não é o suficiente para definir um problema metafísico. No entanto, algo estará quanticamente no interior daquele cabrão de sistema chamado sporting club de portugal e que compete com o misticismo judeu, a cabeleireira da judite de sousa e até aqueles modelos empíricos do gaspar devidamente benzidos por borges & macedos. Temos excesso de interioridade e ...

Windianápolis #2

  This is how the wind shifts: Like the thoughts of an old man, Who still thinks eagerly And despairingly. The wind shifts like this: Like a human without illusions, Who still feels irrational things within her. The winds shifts like this: Like humans approaching proudly, Like humans approaching angrily. This is how the wind shifts: Like a human, heavy an heavy, Who does not care. Wallace Stevens, «The Wind shifts» in Harmonium , 1923 (recolhido da "Antologia" ed. Relógio de Água, 2005)

Tsunicómio II

No dia da sua implantação o presidente da dita nem sequer pode sair à rua. Não é bonito e não há busto que disfarce o desconforto que isso devia significar para quem tenha um pingo de sensibilidade e bom senso na pinha. Não se trata de um efeito secundário da hibernação de soberania em que vivemos, é importante que se diga, trata-se duma má ponderação do momento que vive o País. Um presidente que não está próximo do país, mesmo que essa proximidade fosse litúrgica ou fetichista, perdeu a sua função. Já não é símbolo, já não é refúgio, já não é inspiração e muito menos referência, tornou-se um saco de boxe, um desabafador, uma espécie de relvas com estudos. Com a relação entre cidadão e Estado a ficar reduzida e estrangulada numa relação de sacador-contribuinte vêm abaixo todos os pilares duma sociedade que se arrastou nos séculos a tentar eliminar despotismos, prepotências e iniquidades. O presidente eleito duma República   devia dar o peito ao saque e ter consciência que não est...

Tsunicómio

Um dos paradoxos básicos da eficiência é que: o mercado será tanto mais eficiente quanto menor for o nível de eficiência apercebido pelos investidores. Foi como que apostando numa extrapolação teórica deste paradoxo que muitas medidas orçamentais foram sendo tomadas: os contribuintes iriam eficientemente na onda porque não percebiam o que estaria realmente por detrás da coisa . Alguma ignorância era assim uma variável importante do modelo . Mas aparentemente incorporamos um tal nível de ignorância que faz dar a volta aos ponteiros do modelo e demos cabo dele. Nem os paradoxos resistem.

Windianápolis

Who has seen the wind? Neither I nor you: But when the leaves hang trembling, The wind is passing through. Who has seen the wind? Neither you nor I: But when the trees bow down their heads, The wind is passing by. Christina Rossetti, in «Who Has Seen the Wind?», The Complete Poems (Penguin Classics, 1993, p. 143)

Ó da Guarda

Face às várias espirais e cornucópias do momento (recessiva, depressiva e sodomitiva) o Reino dos Céus teve de reavaliar a sua ancestral estratégia para os Anjos da Guarda. Foi assim devidamente empossada pelos Arcanjos Miguel e Gabriel uma Comissão para a Análise do Papel do Anjo da Guarda Durante o Resgaste e elaborado o respectivo livro branco. Deste documento irei destacar alguns excertos das conclusões que, dalguma forma, poderão dar uma iluminação a todos nós, designadamente no nosso posicionamento face ao oculto, o desconhecido, e a todos os modelos econométricos em geral, com ou sem projecção arenoso-ocular.   « (...) Esta Comissão teve o cuidado de escrutinar os conteúdos programáticos vigentes desde as aparições em Fátima, por forma a calibrar o modelo de Anjo da Guarda de Portugal face aos novos dados, quer sejam eles o grau de desprezo pelo transcendente,   quer o nível oscilante de penetração do cagaço cósmico nas consciências mais materialistas, quer me...