Praxiteles e as Afrodites agachadas Nunca estaremos suficientemente gratos àquele rapaz ateniense de nome esquisito. Terá mesmo sido o primeiro a desnudar-nos as moças "esculturadas" para que lhes pudéssemos apreciar a volúpia das ondas da carne, e o serpentear dos torsos, que até aí apareciam somente envoltos nuns folhinhos irritantes (vá lá que não faziam pandan com chapéus de aba larga). Saiu-se em estilo roliço na sua mais que famosa Aphrodite de Cnidos, (da qual só se conhecem as “carradas” de cópias romanas espalhadas por tudo que é museu), desdenhou a estética wonderbra , mas mesmo assim libertou finalmente a arte que só se dedicava às paneleirices daqueles atletas que muitas vezes nem tanga traziam, nem força faziam. No entanto, cá para mim, só uns anitos mais tarde é que verdadeiramente se sentiu o cheirinho da malandrice com as “Afrodites no banho” feitas pelos escultores de Rhodes. Estas deusas agachadas deixam-me virado do avesso, e não acredito que os caracolinh...
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A mostrar mensagens de maio, 2004
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Dia de “tripa” gloriosa Saudoso da sua brilhante metáfora do país de tanga, DBarroso deslocou-se ao balneário do FCPorto para ver como era a tanga campeã. Ainda no rescaldo do entusiasmo gesticulante do congresso, DBarroso irrompeu pelo reino do poliban prometendo que o feito tripeiro não se esgotaria em si, e que iria servir de exemplo a todas as tangas que no fundo somos nós, e que nos arrastamos neste balneário mal canalizado, mas bem arejado e à beira mar plantado. A tanga acaba por ser vítima dum injusto ostracismo, face à sua absoluta falta de equilíbrio estético, no entanto, uma tanga campeã não só apresenta um justificado papel sustentador duma masculinidade que sem ela baloiçaria inoportunamente, como poderá servir para acolher umas tais de retomas, que nesta fase parecem estar entaladas nas partes baixas da economia. A tanga campeã será a que nos libertará da nossa desprezada periferia, nos devolverá a força interior, e nos recolocará no centro de gravidade deste novo corpo m...
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Dia de “tripa” dourada Foi muito bom o FCPorto ganhar. O Mourinho é muito bom também. Como fica sempre giro dizer, se calhar o melhor treinador do mundo. Ontem lá fez a sua pose (todos têm direito a uma, claro) e, sou levado a dizer, pelo menos não bateu em ninguém. O poder político foi comedido nos elogios a Pinto da Costa. Por isso é que são políticos; dão-se ao luxo de ser parcos, deixando para o povo o luxo de ser parvo. Hoje confesso que tenho inveja de não ser do FCPorto, mas se calhar ser “lagarto” moldou-me o espírito a poder ser iluminado e consolável com o brilho alheio. Desde que não venha dum “lampião”.
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Hoje o dicionário não ilustrado fez mais uma incursão rápida na liturgia partidária. Alguns varejos de traça política nas entradas 725 a 735. Congresso – Mecanismo de natureza gregária que cola com cuspo, onde outros artefactos exigiriam espesso betume. Seca rápido, e nem precisa de se soprar muito. Líder – O que transforma qualquer ridículo esbracejo num sinal de trânsito. Retóricas de ocasião – ( do discurso “cinético”) Quando se está quase a terminar uma parte dum discurso, em vez de se ir abrandando, como apontariam as técnicas de boa condução, vai-se antes acelerando e falando cada vez mais alto, para que o aplauso resulte no clímax que – aparentemente - não se alcançou pelas vias tradicionais Comissão política – Os que escolheram as gravatas de turno que condiziam melhor com as camisas de serviço, e que souberam limpar o fatinho a tempo de não se notarem as nódoas das últimas javardices. Moção – Bocejo palavroso que disfarça, ou atraiçoa, um corpo sonolento, ou que faz de antecâm...
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Houve quem tivesse escrito que «entre sombras e luz, num mundo crescente e decrescente, pela janela das traseiras, chega a noite ao fim do dia». Foi há um ano, por uma pessoa que deve ter de certeza a «sua janela das traseiras com vista para o infinito». E é bom ver que não desperdiça o seu olhar essencial. Se eu fosse o Noé gostava que fosse ela a trazer o ramito da boa nova. E depois, olha, até podia continuar a chover.
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Uma papelaria apenas chamada desejo O meu sonho é ser empregado de balcão. Estar ali, numa papelaria, à espera das freguesas, a olhá-las de alto a baixo, a ir arriscando nuns piropos sem manha, chamando-lhes marquesas, e a enchê-las dos rubores da vergonha, mas daquelas vergonhas sem tristezas. Numa rua muito movimentada. E o nome seria “ Sexo, lda”. Com um reclame de luzes cintilantes, provocantes e arroxeadas. Mas era só uma mera papelaria. As pessoas entravam com a curiosidade ao léu, e ali estava eu, de barba escanhoada e seráfica, pronto para lhes aviar uma esferográfica, inebriá-las com uns envelopes perfumados e grátis, derretê-las com o erotismo dum afia lápis, e fazê-las apaixonarem-se pelo papel cavalinho. Pois o meu sonho é ser empregado de balcão, nem vizinho, nem ladrão, nem amante, nem cabrão. Estaria tudo num asseio fresco e barato, e eu com uma solicitude a roçar a nobreza de trato, com os clientes derretidos na minha atenção contagiante, e o material de papelaria ali e...
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Visitors disease A Dra Girassol andou por fora uns dias, certamente naquele bem-bom dos congressos, e agora que voltou, chagou-me a cabeça porque eu não estava a fazer o tratamento em condições, que me andava a esquecer das tomas, e que andava a perder o tempo em “poesias do quotidiano”, para as quais o meu organismo não estava minimamente talhado. Vai daí, deu-me dose reforçada, e agora eu ando aqui pianinho, senão a “gajita” (aqui para nós: ela é impiedosa quando nos desviamos para as terapias alternativas) põe-me a pão e água. Sai tratamento: Dona "Unhaca" VPValente revela finalmente a sua verdadeira vocação de conselheiro matrimonial. Foi então noutro dia (6ªf DN) que ele nos brindou com a sua penetrante análise sobre as estratégias de união - mais ou menos sacramental - dentro das casas reais europeias. Windsors e Bourbons são pelintragem fina, e ele desvenda como se lhes move o coração, da mesma maneira como nos decifraria a receita do bolo de chocolate da avozinha. Ond...
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Isto parece um bocado "horrível"; mas “tem de” se dizer. Rapidinho. Até concedo. A expressão do sentimento ou da crença religiosa pode vir paramentada dalguma ridicularia estética. Dumas poses fatelas, duns sacrifícios descabidos, dumas peregrinagens fantasmagóricas, dumas obediências despropositadas, dumas rezas lunáticas, duma exegese bacoca, dum certo empalamento ideológico, duma sub-reptícia desgraçadinhice, duns proselitismos enrebanhantes, duns apocalipses forçados, dumas fés de churrasco, dumas fezadas na brasa, dumas franquezas no espeto, dumas caridades naftalinadas, dumas esperanças mal arejadas, dumas consciências de almanaque. Mas convenhamos, nada chega ao ridículo da coçadela de tomates da negligência religiosa, certamente acossados pela comichão das epistemologias micóticas, que já mostram a virilha agnóstica em chaga. Quem não acredita podia limitar-se ao seu deserto e ... (Dejadme solo y solitario, a solas com mi Dios solitario, en el desierto; me buscaré en ...
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Agora está na moda dizer que não se pode mandar dinheiro para cima dos problemas. Que isso não os resolve, blá blá blá blá. E eu também vou nessa: mandar dinheiro para cima dos problemas dos outros, raramente resolve os meus. Opções mais variadas no Dicionário não ilustrado . (entradas 715 a 724) Pôr um problema maior em cima – É a técnica do edredon. Só é preciso controlarmos as costuras para evitar acabar a cuspir as penas. O problemazito que ficou por baixo até pode aproveitar para fazer das suas sem ninguém ver. Buscar a bênção da impossibilidade – Na dificuldade burocrática em que ele seja perfilhado pela incerteza, teremos sempre a alternativa de o internar no orfanato das terras do impossível. Uma escola de vida como sabemos. Oração – A intervenção divina substitui bem os paninhos quentes, e muitas vezes é preferível recostarmo-nos no seio acolhedor da divindade, em vez de ser amamentados pela teta da dúvida. Só os mais hábeis não se engasgam naquelas posições esquisitas.E vendo...
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Notas Soltas. Mas não ao léu, nem mal sustenidas. Dó Li esta citação do C. Pavese no blog mymoleskine « Nada se acrescenta ao que ficou para trás, ao passado. Recomeçamos sempre .» Falso. É uma velha falsidade. Nós somos é meros acrescentadores. «Recomeçar sempre» é uma pura ilusão da nossa condição. Gira, enternecedora, empolgante até, mas – resumidamente – uma bela treta. Compra-se em promoção nas feiras da felicidade. Mas, vai-se a ver, nunca traz garantia. A única coisa que até hoje vi renascer das cinzas foi o cinzeiro. E só se não tivéssemos feito muita força a apagar a beata. Nem devemos abusar muito dos comprimidos, como fez o outro. Ré A troca da “Casa Pia” pelas “Sevícias da Pide” parece-me uma evolução interessante. E agora para desenjoar dos “abusos aos presos iraquianos” proporia o “sado-masoquismo na Cruz Vermelha”, e de sobremesa a “sodomia na Misericórdia”. Se calhar a “ lavagem das partes baixas da democracia no bidé dum convento de carmelitas descalças “ já seria pedi...
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Reparei que havia um livro no top de vendas com o inspirador título “ Alternativas ao relacionamento afectivo ”, escrito por um suposto guru de yoga brasileiro, do qual não me lembro o nome. Fiquei em brasa! Eu que me sinto praticamente um especialista nesta matéria e nunca me tinha lembrado disto! O novo dicionário não ilustrado fornece então hoje - aparentemente atrasado - as verdadeiras alternativas felicitárias, e que se encontram fora dessa promiscuidade que são os afectos a roçarem-se javardamente uns nos outros.( entradas 705 a 714 ) Relacionamento comercial – Milagre da natureza no qual "o que um tipo tem a mais", coincide com "o que outro tem a menos". O êxtase produz-se quando o que vende julga que vendeu pelo dobro do que estava à espera, e o que compra julga que pagou metade do que estava disposto. Relacionamento científico – A relação entre a cobaia e o investigador cria inevitáveis momentos de grande empatia. O despojamento no altar sacrificial do pro...
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Desta merda. A porcaria de escrever práqui está a tornar-me uma flor estufada; mais instável, mais ao sabor dos humores e das humidades, mais auto-interpelativozinho, mais “e-agora-o-que-é-que-eu-escrevo”, mais “deixa-cá-ver-se-isto-ficou-benzinho”, mais “ai-mas-era-mesmo-preciso-escrever-assim?”, mais coninha-de-sabão, mais dependente do tremer da mão mais amante da especulação mental, e isto já me está a cheirar mal. Se escrevo é porque não sei se valeu a pena ter escrito, se não escrevi é porque sou uma merda por não ter conseguido, se escrevi é porque não tinha nada melhor para estoirar a merda do tempo, se não arranjei tempo para escrever é porque sou outra merda ainda maior, se escrevi é porque fico a pensar se não podia antes ter ido comer um arrozinho de lingueirão, se não escrevi é porque bem podia ter escrito dado que o arroz estava uma merda, se escrevo é porque não ligam nenhuma à merda que eu escrevo, se não escrevo é porque assim é que ninguém lê esta merda de certeza; es...
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A fé é um mistério. Principalmente para quem acredita. 13 de Maio. O poder em formato peregrino D.Barroso disse que o governo dele não é conservador mas sim reformista. Acho muito bem. O sector das conservas já deu o berro, e antes que o estado providência dê também, há que aproveitar enquanto ainda se pode para ser devoto das reformas. Mas o que me traz aqui é a peregrinação a pé que o Dr DB vai fazer a Fátima com o seu governo. São moças e moços esforçados, que se vão entregar nas mãos da Santa Senhora, para que no seu regaço encontrem o rumo certo. No fundo, será uma oração penitencial neste apeadeiro, que abençoará decerto o roteiro sacro da retoma. D.Barroso está confiante que esta prova de esforço e fé o vai ajudar também a esclarecer-se definitivamente sobre a mítica remodelação. Quem se aguentar, e aceitar o sacrifício com resignação e espírito de entrega, esse sim será digno de governar Portugal! - Meninos estão todos prontos? - Há aqui um problema Sr. Primeiro, os meninos do ...
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"Tramplates", da inveja: Tenho para avisar que esses templates todos novos e abonecados com que andam para aí a pavonear-se são uma grande trampa. Agora anda tudo vendido a coloridos amorfos, a letrinhas tipo propaganda da CDU, a imagenzinhas inseridas ao estilo lírico-existencialista, armados em suplementos culturais, em tomem-lá-que-é-para-não-ferirem-a-vista; isto virou retrosaria fina, e já não há quem se contente em debruar a sua conversa de chacha para cima dum trapo velho. E ainda se queixam das imagens de N. Sª de Fátima, seus iconoclastas de meia tigela, seus vendilhões de palavreado em templos mobilados à pressa e arrendados em time-sharing. Muito obrigado pela vossa atenção, mas parecem-me todos o cabelo do Herman José. E que Deus Nosso Senhor me perdoe, por não ter mais nada de importante para dizer, mas apetecia-me dizer qualquer coisa.
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Apeteceu-me Um dos artistas que mais me ensinou o olhar foi Giorgio Morandi. Ao arrepio das tendências, dos formalismos, e dos informalismos, fez-me ver que a figura é que é devedora da abstracção ( já estou a ficar pirrónico com esta coisa da dívida ) E até foi através dele que consegui fazer uma ponte – muito pessoal - entre os óptimos (mas mais óbvios) E. Hooper e Sean Scully. Os extremos do romantismo do sec XX? ( nem acredito que escrevi isto ). Eu detesto as frases dos pintores, mas não resisto a citar a mais famosa (mas banal, obviamente) de Morandi: “ não há nada mais abstracto que a realidade ». E isto porque a associo imediatamente ao belo título do texto de apresentação do catálogo da exposição de S. Scully no Jeu de Paume em 1996: “ Corps sans figure ”. Estarei a alucinar certamente, pois nunca li sequer nenhuma referência a associar estes dois pintores, mas quando vejo um lembro-me sempre do outro. Metafísico chamam ao italiano, e ao irlandês/americano nem sabem bem o que ...
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Hoje vou catar catapultas A alma foi aquela parvoíce que alguns gregos armados ao pingarelho quiseram dar a impressão que tinham descoberto, nos intervalos entre umas coçadelas de escravas e uns banhos quentes. O pessoal foi acabando por se habituar à ideia, e sendo até uma palavra de rima insonsa lá se foi desenrascando nas estrofes de turno, e mesmo sem que alguém a tenha apalpado em condições, não há anatomista sentimental que não lhe endromine uma fisiologia. E eu claro, também lá me fui afeiçoando ao conceito, e agora o sacana não me larga a peúga. Como além disso detesto bicharada de companhia, acabei por me dedicar a esse fantasma de estimação, que pelo menos não me mija na sala (até hoje...), nem me obriga a ir arejá-la às horas menos próprias (no que diz respeito a rosnar às visitas já não poderei dizer o mesmo...). Noto até – com gosto - que a sua ligação etimológica às “coisas” do movimento parece-me das mais correctas: a maior parte das vezes a “cabra” não consegue mesmo es...
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( Da dívida. Quando se recebe um tesouro fica-se com a alma num cadinho, amarfanhada com alegrias e com aflições. Mas fica-se o dono da gruta. O senhor da senha. O mestre das cerimónias. O que olha para os Ali bábás e pensa: não apanham nada daqui porque «nasci com as palavras dentro de mim». Um tesouro pode ser «agreste ou cruel», mas nunca será «indiferente», irá sempre «apaziguar ou ferir». Apetece-me agora ficar um eterno amanuense. Eternamente refém duma cópia, mas vivendo na «doçura» de um sequestro, de mão dada com a «serenidade fria» da sentinela que «olhava o quotidiano», e o quotidiano era eu. Mas quem guarda um tesouro também fica preso na «ingenuidade perversa» da permanente adoração, no «hermetismo» dum deslumbramento, sufocando «o acto vital que é respirar» no vento fresco. Pois é, mas eu recebi um tesouro por estes dias. Viverei assim num suave embasbaque, encurvado, tapando os reluzentes «prazeres» que assim reflectirão só para mim, e beijando as «mágoas» que alguns r...
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Culpa. A quinta-essência dos traumas de estimação. Sem açaime. E eu que me tinha prometido não ler mais merdas de entrevistas “O sentimento de culpa é uma das minhas especialidades (...) É um dos poucos traços do catolicismo que me ficaram” MFilomena Mónica ao DNA Kumkaraças. Se há ideia feita, preconcebida, estereotipada, enjoativa, flácida e até levemente sacaneante que me complica com os nervos, é esta de que o património da culpa é visita obrigatória nas excursões turísticas às maravilhas monumentais do catolicismo. Pensemos, vá pensemos: a culpa mal regulamentada encontra-se mas é nas almas peçonhentadas de escrúpulos, e que dão mais valor aos princípios que às finalidades ( o dicionário não ilustrado explica ). Até a culpa original vem bucolizada num pomar ajardinado, porra! E associada ao “querermos ser como deuses”, tentação tão batida nos dias de hoje, mesmo que muitas vezes apareça disfarçada de curiosidade intelectualofilizada. Esse “pecado” de queremos servir fantasmas ide...
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Freud A pergunta deste fim de dia é se a tal de “constituição europeia” não devia mas era dizer que nós somos hoje marcados é por uma matriz freudiana. Só que não seria verdade. Um dos grandes legados de Freud foi a sua fantástica atitude perante o conhecimento. Procurar a dança da incerteza. Saber que é na flutuação que se avança. E não nessa puta da causalidade que conforma o processo mental jurássico e previsível da maioria dos pensadores de turno. E nos entorpece uma condição, já de si dada às mexeriquices do parapeito da alma. Mas infelizmente nós somos é marcados por uma matriz pavloviana, valha-nos Nossa Senhora.
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O que podemos ser, se não nos importarmos de não ser nada, ou de ser apenas o que os outros quiserem. São estes afinal os que ainda podem fazer toda a diferença. O dicionário não ilustrado na entradas 682 a 695. Ser mandatário – O que durante a campanha, reparando que não pode ser o pastor, lá consegue ficar a tomar conta dos badalos e a dar cobertura às ovelhas ronhosas Ser pau mandado – Destino reservado a quem viu perdidas as hipóteses de ser matraca, e não consegue alinhar companheiros para ser matraquilho. Ser manda chuva – O que se dedica a brincar com o autoclismo das nuvens, mas que deixa o encantador piaçaba para os faxineiros de turno Ser desenho animado – O que se contenta e revela numa sucessão de semelhanças, não se deixando levar pela sedução da originalidade estática dos grandes planos Ser manipulador de marionetas – O que pode mexer os cordelinhos mas que nunca lhe deixam dar o nó Fazer dobragens – Sofisticado estrabismo de lábios, que permite fazer boquinhas à esquerda...
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(das constatações: Uma das perplexidades religiosas que me acompanha é a da distribuição do dom da fé. Vejo-a sem complexos como um dom, aliviando assim de grandes elaborações metodológicas. Por isso baralho-me e atordoo-me quando “encontro” pessoas que a mereceriam e alavancariam muito mais que eu, e que aparentemente não a possuem (não digo desfrutam, porque também não seria correcto). São pessoas que conseguem viver com moralidades herméticas, esterilizadas e em saponária, e com um sentido do certo e do errado que quase parecem poder dispensar as retrógradas cardealidades catecúmenas, conseguindo pôr a alma em quarentena quando prevêem as nuvens da epidemia. Sinto-me às vezes uma espécie de “Toni Fidélio”, esperando mesmo que só a minha parola e tosca parvoíce – bem rebocada pela ignorância – é que me esteja a impedir de ver o alcance da coisa. A floresta é densa e felizmente, como disse H. Michaux, «a árvore não se interessa pelo delírio do pássaro». Eu cá sou mesmo um mero batedor...
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Dedicado a todos os abençoados que não sabem fazer rigorosamente nada. E dedicado ainda aos que se consomem em ser úteis e produtivos. E mais dedicado ainda aos que pensam que isto é uma perca de tempo. E ainda mais dedicado aos que não sabem perder tempo, e se dedicam a prescrever o tempo dos outros. O novo dicionário não ilustrado enternece-se com aqueles que se martirizam porque não têm tempo, e avisa-os de que não vale a pena fazerem-no de cabeça para baixo porque o S.Pedro também já se lembrou disso. As terapias alternativas nas entradas 667 a 681. Política – Nobre actividade, que em Portugal surge prejudicada porque, ao sê-lo, fica associada a uma marca de presunto Amor ao próximo – Boa oportunidade para quem não quer desperdiçar nenhum pobre dos que tenha mais à mão Dar porrada – Quando a mente despede o corpo, e este reivindica a indemnização mais justa, em vez de se contentar com uma reforma antecipada. Meditação – A suspensão da mente é uma sábia alternativa para quem tem pes...
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Dia da Mãe Arriscaria a dizer que já ajudei a “construir” duas mães. Não... não sou avô! As mães que eu ajudei a “conceber” foram a minha própria mãe, e a mãe dos meus filhos. Tenho de repescar aqui novamente a expressão de Mia Couto: “ Um filho, afinal, é quem dá à luz a sua mãe ”. Mas ao pensar nisto lembro-me outra vez do livro das “ Memórias de Branca Dias ” de Miguel Real. Um texto vertiginoso e envolvente, que acabou por me deixar também relativamente marcado pelas passagens relativas aos muito peculiares partos da personagem, recheados dalguns requintes tipo “Kill Bill na maternidade”, por exemplo: «quando não suportava mais as dores e a barriga se me descaia para a terra, eu alçava a unha afilada do mindinho direito e zás, cortava a carne, a matriz abria-se em pregas, e eram eles a sair (...); mas antes, referindo-se ao primeiro parto, até já tinha dito : « eu gritava e chorava ao mesmo tempo, fazendo força, querendo expulsar aquele bubão de carne que me afligia as entranhas,...
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Alegrem-se pá Tenho de reconhecer que noutro dia tive um momento de fragilidade e comprei um livro. Aliás eram logo cinco (mas os outros vinham atrás, e eu não pude fazer nada) Foi a “História da Arte” do Élie Faure, traduzida pelo V. Nemésio e editada nos anos 50, em 5 volumes. Tenho um pecadilho: leio os prefácios todos; é este o meu elogio escondido e envergonhado a quem tem a infelicidade de ter de escrever um livro, e não lhe bastarem uns carapauzitos de escabeche. E eis que descubro logo esta luminosidade esclarecida, que me salvou o fim-de-semana (eu com qualquer coisita me relaxo, também é certo): “O mal, o erro, a fealdade, a tolice, desempenharão sempre, na constituição de todo estilo novo, o seu papel indispensável como a própria condição da imaginação, da meditação, do idealismo e da fé” Pessoal, devemos estar à beira dum estilo novo! Eu cá já arranjei um cantinho na sala. E estou a meditar, claro!