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A mostrar mensagens de março, 2009
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Paul Strand, Abstraction Bowls , 1915

Luna Park

Take One «Esse é o mistério indomável que desorienta os nossos desejos» Take Two «The point is that people read about love as one thing and experience it as another. Well, they expect kisses to be like lyrical poems and embraces to be like Shakespearean dramas» (by miss Constance Petersen) Take Three « [Hitchcock sempre soube que] As mulheres abrem como as flores e que o branco esconde muitas vezes o negro e vice-versa» All at ‘ Dias Felizes’ the shadow without bull blog

Luna Park

«Algo é algo; será suficiente» de Pirandello, em ‘ Questa sera si recita a soggeto’

Luna Park

«Tinham aceite o fracasso, mas não podiam aceitar o destino. Tinham baixado a cabeça, confundidos, perante a perversa e cruel lei segundo a qual a coisa propriamente dita podia ser menos preciosa do que a simulada» De Henry James, em ‘ The Real Thing' . (tradução de Abel Barros Baptista para a revista Ficções)

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Die ferohlixe Vicenxafete

«Construímos para nós próprios um mundo em que podemos viver, supondo a existência de corpos, linhas, superfícies, causas e efeitos, movimento e repouso, forma e conteúdo. Sem estes artigos de fé ninguém suportaria viver agora! Mas isso não os dá ainda como provados. A vida não é argumento , porque as condições de vida poderiam incluir o erro.» F. N.

‘A vida não é argumento’ [9/9]

Naquele que é o nono, e último, episódio desta saga, se bem que com prejuízo sério para o desfrute da audiência, pois praticamente todas e cada uma das falsificações seriam dignas duma moldura, sinto que não posso desertar sem esmiuçar três aspectos, sem os quais nunca se entenderá nem a vocação nem o desígnio dum verdadeiro falsificador. Será que tive sempre sucesso nas minhas falsificações? Não, apesar de um falsificador com nome a defender não se poder dar ao luxo de falhar muitas vezes. Reconheço que uma vez falhei. Pensei a dado momento da minha carreira lograr apresentar ao mundo um conjunto inédito de letras de canções da Elis Regina, canções que ela teria guardado para quando um novo amor incompreendido irrompesse definitiva e gloriosamente pela sua vida. Escrevi as canções, nove, dei-lhes um toque popular, mas digno e sentido, cuidei da métrica, da rima, da simbologia, e posso dizer que cumpriam bem mais que os mínimos para um negócio decente. Mas ninguém lhes pegou. Todos aca...

‘A vida não é argumento’ [8/9]

A minha falsificação mais arrojada foi mesmo quando produzi uma ‘suposta’ sequela do ‘Pickpocket’ de Bresson. Seria, no fundo foi, um ‘Pickpocket II - la rédemption’, filmado no metro de Paris, num formato próximo do documentário e, por isso mesmo, com uma plausibilidade bressoniana mais controversa, ou seja, o enredo era comandado pela vertigem da circunstância e não por uma subliminar predestinação. No entanto, o encaixe financeiro que se me afigurava possível motivou-me de forma irreversível: soubera que um coleccionador belga de filmes raros e minimalistas pretendia criar uma espécie de museu da cera do cinema e, constou-me, precisava duma relíquia mediática. Eu sentia-me a pessoa certa, aparecendo-lhe com um Bresson em registo quase de hidden camera. Bresson, iria eu revelar em primeira mão, teria realizado esse filme sem ninguém saber, apenas ele com a sua câmara, - quase como num confessionário – e pensava ter destruído a fita quando, no auge de uma dor de dentes, a enterrou atr...

‘A vida não é argumento’ [7/9]

Tenho de confessar que o meu maior desafio como falsificador deu-se quando vendi uma obra falsa ao próprio artista falsificado. Tal aconteceu em meados dos anos 90 quando apostei forte na falsificação dum curioso Rauschenberg. Tratou-se duma peça baseada em combinações de caixas de cartão de embalagens de pistachios do Lidl e do Printemps, alegadamente criada pelo artista no princípio dos anos 70, e em que a forma periférica do conjunto fazia lembrar uma mistura entre o altar dos Jerónimos e um guarda fatos do Ikea. Lembro-me que demorei apenas um Sábado de Aleluia a fazê-la, mas ainda tive de pedir à minha vizinha de baixo uma etiqueta de Sonasol para lhe dar alguma corzinha. Saliente-se que ficou um conjunto harmonioso, apesar de ter corrido alguns riscos da minha mulher-a-dias o ter aviado pela conduta abaixo, e até acabou por me dar vazão – numa colagem a imitar pegadas de urso polar- a uns bilhetes de metro de várias cidades europeias que eu coleccionara em miúdo, e dos quais me e...

‘A vida não é argumento’ [6/9]

Uma das minhas falsificações mais bem sucedidas, e de desfecho curioso, coincidiu com uma experiência na literatura apologética. O falsificador é também um produto das circunstâncias, e deve saber ler as tendências, e a economia, do seu tempo: por exemplo, há momentos em que nos devemos perguntar: para quê desgastarmo-nos num Shakespeare quando nos podemos safar perfeitamente com um Pirandello? Mas noutros devemos questionar: porquê desperdiçarmos tempo com um Molière se podemos avançar directamente para um Mário Crespo? Quando me ocorreu falsificar um sermão do padre António Vieira sentia que não corria apenas atrás do meu prestígio, ou do dinheiro, mas sim atrás também duma purificação da alma. Como tema escolhi a relação entre a parábola do semeador e a plantação da cana-de-açúcar. Tentaria nesse sermão o célebre missionário jesuíta mostrar que a boa terra era aquela em que nascia a doce cana e não a terra saloia onde apenas medravam cebolas e agriões. O novo povo eleito era assim o...

‘A vida não é argumento’ [5/9]

A minha única incursão no mundo da fotografia foi atribulada. Quis jogar uma parada alta e avancei para a falsificação dum tríptico de Mapplethorpe dedicado a rabos chineses descaídos (procurando vir a aproveitar financeiramente a suposta revelação da existência duma sua fase secreta e alternativa à das pilas grandes e pretas). Pela primeira vez dependia explicitamente de terceiros: chinesas de rabo descaído. Como se pode antever sou um falsificador perfeccionista e já com algum pedigree, e jamais utilizaria um rabo que não fosse de chinesa, mesmo que o pudesse substituir por outro semelhante e com sucesso. Por isso, compreenderá o leitor, ficar, de certa forma, na mão do rabo descaído de uma chinesa era algo que me preocupava; profissionalmente. Aluguei exclusivamente para o efeito um atelier em Cabo Ruivo, e contratei três moças à saída dum restaurante, onde tinha comido um pato lacado, por acaso até bastante saboroso, para além de 23 crepes, que foi a forma utilizada, por força do i...

‘A vida não é argumento’ [4/9]

Quando tive a ideia de falsificar um texto de Freud sobre a importância das dores nas costas na formação da personalidade obsessiva, tomei, por precaução, a decisão de colocá-la numa fase em que o autor ainda embrionava nas suas teses sobre o inconsciente e a pulsão, e onde o recalcamento era ainda confundido com a azia. No entusiasmo da escrita corri alguns riscos, era difícil simular com credibilidade o nível de ansiedade intelectual que Freud deveria manifestar, mas tinha-me treinado meses antes com um pequeno negócio que efectuara com duas cartas de Lou Salomé a uma costureira de Wiesbaden. Foi-me fácil encontrar papel e máquinas de escrever da época junto de alguns vendedores de velharias em Viena e assim em dois meses tinha a obra pronta. Sabia que tinha uma relíquia nas mãos, algo que o próprio Freud gostaria de ter escrito, algo que ele próprio me compraria se estivesse vivo. Quase que nem me senti um falsificador o que me deu uma certa frustração. A minha vítima cliente foi um...

‘A vida não é argumento’ [3/9]

A falsificação que marcou definitivamente a minha dedicação exclusiva a esta actividade, foi a de um quadro de Turner. Já tinha tentado um impressionismo mais duro, ou maduro, mas fui confrontado com a desconfiança da directora dum museu em Antuérpia, que mesmo sendo apenas especialista em coxas de Rubens, torceu o nariz a um Monet vegetariano que eu tinha pintado depois dum almoço de petinga frita. Turner não é um falsificante fácil, mesmo que tal possa parecer à primeira vista. Segundo vim a apurar, o sentido e o vigor das suas pinceladas estava directamente condicionado pelo que ingerira no jantar imediatamente anterior. Passei assim duas semanas seguidas a comer uma mistela de cebola e batata-doce até sentir que já estava preparado para pintar uma maré-cheia na Cornualha. Saiu-me bastante bem, tanto em colorido como em ortodoxia de pincel, nenhuma cor parecia trair o espírito do mestre, de tal forma que depois de terminada a obra cheguei a hesitar em assinar o meu nome. O que geral...

‘A vida não é argumento’ [2/9]

Uma das falsificações que mais me entusiasmou foi a de um suposto original inédito (dactilografado) de Beckett. Na altura ainda hesitei entre ele e a Gertrude Stein, mas tive receio da opção pela americana pois, mesmo sendo literariamente mais fácil de falsificar, corria o risco de não poder apresentar uma história consistente sobre como me tinha chegado às mãos. Escolhi um conto breve, semi-labiríntico, brincando com as palavras ‘amours' e ‘moeurs’, encaixada cronologicamente entre a tradução francesa de Murphy e o original de Molloy, e não me foi difícil provar a consistência do texto, torneado à volta duma cena em que Miriam (a protagonista, digamos assim, se é que alguma coisa era protagonizada) repele o seu amante à base do arremesso de cadeiras chippendale em pau santo e de traições de índole sexual com um marceneiro de Lille. O alfarrabista de Rouen a quem vendi o dito produto não fez muitas perguntas, nem discutiu o meu preço (o suficiente para aguentar 10 Júlias em primeir...

‘A vida não é argumento’ [1/9]

Aceitei a minha vocação profissional para falsificador já ia para os dezasseis anos. A primeira experiência de mediano sucesso foi a pintura da quase-cópia dum Mondrian que vendi ao museu municipal de Aix-en-Provence. Na altura a explicação que dei foi que o tinha recebido em herança do meu tio avô, que afinava saxofones e que o tinha obtido como pagamento do próprio artista. O curador do museu era o que agora se chama de gay, mas na altura apenas me pareceu estranho, distraído e dado à exuberância do gesto. O quadro não me teria demorado quase nada a pintar, não fora o tom do encarnado que não me saiu bem à primeira; por falta de experiência, umas vezes aroxeava, noutras alilazava. Com o dinheiro que recebi comprei uma edição dos irmãos karamanzov em segunda mão e levei uma miúda chamada Júlia – também em segunda mão - a jantar a Monte Carlo. Corei três vezes, mas na altura já não tinha tantos problemas com os encarnados. Não me lembro do nome do restaurante, mas sei que, no dia segui...

Rubber season

Por muito que custe ouvir, o proselitismo católico não é um método de inclusão; estará mais próximo duma convocatória, e a vocação cristã abre brechas, não serve para tapa poros. A universalidade do catolicismo andará sempre de mão dada com uma certa exclusividade ; o cozido à portuguesa explica analogicamente muita coisa: aceita todo o tipo de enchidos, mas dificilmente combina com salmão fumado. O cristianismo não é, pois, uma religião de equilíbrio, obviamente, e daí patrocinar estoicamente essa coisa fantasmo-alegórica chamada teologia – uma ciência peculiar de gestão de conflitos. Quem procura o equilíbrio, hinduiza-se, tapa-se com um mantrinha, toma duas de nirvalona, emborca dois karmas tónicos e recosta-se na busca da sabedoria e justiça eternas.

A Asneirologia da Moral

Dom Gaspar Formosinho, como tinha muitos gases, foi escolhido pela tribo para definir a moral para os próximos 5 anos. Na tribo os períodos de moral são de 5 anos. Depois desse período muda para outra. Novas premissas, novas urticárias. Uma das regras que historicamente fez mais furor foi aquela em que se podia apalpar miúdas desde que fosse com as costas das mãos. Fez tanto sucesso que chegou a temer-se uma mutação genética nesta face das extremidades, que começavam a aparecer cada vez mais com a pele fininha. Bem, mas Gaspar, talvez influenciado pelo seu constante estado de espasmo interior, definiu como principio moral director o Princípio da Contenção. A tribo iria reger-se por uma consciência firme mas contida. Contenção no sal, a tribo estava a afeiçoar-se à tosta mista em detrimento da broa, educação cosmopolita em contentores e não em palhotas, pois a tabuada parecia colada com cuspo, contenção nos salários dos feiticeiros da tribo, que deixavam de poder lançar cartas à comissã...

Rubber sucks

Faltam em Português edições decentes do Novo Testamento. Desprovidas daquele aspecto beatizante, ou sem as paneleirices de algumas edições especiais. Seria um favor que se fazia à palavra de Deus e às pobres vítimas da nossa condição de alienados descendentes duma ascese escravizante, se alguma empresa capitalista fizesse uma porra duma edição como se faz num livro normal, com capa normal, papel normal, paginação normal, letra normal, anotações normais, índices normais e, saliente-se, sem ilustrações de merda. Haveria mais leitores, melhores leitores e menos pessoal a ter de se debruçar sobre o empolgante tema da borracha na pila. No entanto, a beleza dos evangelhos não é essencialmente literária, como agora se insiste por vezes, é, sim, uma beleza cultural : no cenário duma revelação com redenção (género bacalhau com todos), Deus expõe-se a uma história, envolve-se numa moral, compromete-se numa teleologia, empolga-se numa retórica, e faz de folha para definir o vento , como diria o p...

The fox hunt

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Winslow Homer Homer abandoned the human subject entirely in “The Fox Hunt” of 1893. A fox ventures forth to forage for berries on the snow-covered land, and a sinister line of starved black crows converges to attack him. The ensuing life-and-death struggle will be over quickly, but the pulse of nature that drives the winter ocean against the cliffs in the distance will go on forever. in Encyclopaedia Britannica

Desmaker corner

Queria apenas deixar registado que achei o gran torino um filme mediano e até desconsolado. Já corre e vai continuar a correr nos próximos dias baba mais ou menos viscosa sobre o dito e acho bem desmarcar-me. Cenas enfiadas à pressão, [clint a passear no banquete dos chinocas; clint a defender a miúda chinoca dos pretos; clint a ser visto pelo feiticeiro chinoca] cenas mal estruturadas, [o passado de clint com a mulher, o chinoca a trabalhar para clint, clint na Coreia; a relação de clint com a miúda chinoca] cenas mal aproveitadas, [a personalidade do chinoca, a confissão de clint, a cadela de clint; o jardim de clint; a leitura do testamento de clint], cenas mal filmadas, [a tentativa de roubo do carro do clint; o tiroteio à casa dos chinocas] cenas enchouriçadas, [clint no barbeiro] mau casting, [a namorada do chinoca; os pretos, a nora do clint] e uma multidão de etc’s. A malta agora enternece-se com uma velhice griffada (Roth’s, Clint’s, Oliveira’s, e até já algum Saramago) a fala...

Almoços Grátis [18]

Escusado será dizer-se que estive vários dias sem pôr os pés no restaurante. Voltei lá hoje devidamente treinado no estilo ‘como quem não quer a coisa’. Aguentei o estilo nos primeiros dois minutos. As salas estavam repletas de gente. L. mostrava-se um enigma com pernas. Eu, numa progressão geométrica indexada às garfadas duma horrível salada de salmão, ia desfazendo a minha pose, e não parava de rosnar para dentro, ansiando por um gesto qualquer de L., que agora já lia as minhas previsíveis ausências com a cartilha aberta na página certa. Aparentemente eu estaria numa posição de suposta vantagem: posso ir ao restaurante sempre e só quando quiser, enquanto ela tem de lá estar sempre, e servir-me quando eu for. Aparência. Quem escolhe é afinal escolhido. Será que Deus tem mesmo a consciência disto tudo?

Almoços Grátis [17]

Hoje uma das mesas corridas estava ocupada com um grupo de amigos de L. Quando entrei ela estava sentada nessa mesa, num canto, mas, para todos os efeitos, sentada na mesa. Por isso, ceguei; nem percebi se havia sequer mais alguma outra mesa no restaurante. E ela ria-se, ria-se, ria-se como nunca a tinha visto. Pedi arroz de pato, tendo sido o único critério: algo que se pode comer sem sequer olhar, e tem um sabor tão banal e constante que não merece qualquer atenção especial. Refira-se que ela até se levantou para me vir atender, mas eu parecia uma mula empalada. Felizmente essa mesa cancerosa estava no meu perfeito ângulo de visão, e para sobreviver ao almoço não tive de parecer um lançador do peso. Eram todos tipos com aquele interesse plastificado: temas óbvios e reacções óbvias; aculturados ao sabor das pousadas de Portugal e da Easyjet. Todos produziriam, quando lá chegassem, meias idades de panfleto do BES. Eram, são, os amigos de L. É obviamente mentira que se escolhem os amigo...

Almoços Grátis [16]

Pouco mais de meia casa. Quase só clientes ocasionais. Filetes de garoupa fresca como prato do dia. L. vestia uma saia larga e uma blusa justa, tudo em tons de azul marinho. A luz que entrava pelas enormes janelas punha-lhe os cabelos acobreados. Eu nem tocava no chão, era só matéria do pescoço para cima. Dizia que sim a tudo; não podia correr o risco de estragar alguma coisa daquele quadro de renascença tardia com um não despropositado. A certa altura chamei L. com um aceno digno da Sagração da Primavera. Tive sete segundos para inventar o que lhe queria dizer. Ela riu-se, uma, duas, três vezes. Agarrou os cabelos a simular o rabo-de-cavalo. Falou-me das notícias que passavam na televisão da sala ao lado. Não posso jurar que eu não tenha feito uma pose exagerada de ouvinte interessado. Já desciam querubins pela chaminé da lareira quando a mesa ao lado nos interrompe e pede uma torta de laranja. Fixei-lhes as caras; hesitei em sufocá-los ali mesmo, ou ir, com mais calma, comprar uma ar...

Almoços Grátis [15]

Num dia de enchente o F. e a C. foram almoçar comigo. São casados e sócios. Ele um poço de bom senso, ela um vulcão em actividade. Teve um fraco por mim quando era mais nova. E eu, se calhar, um fraco por ela. Mas tanta fraqueza fez-se força e soubemos ir cada um à sua vida sem ter desperdiçado porcelana. Ainda hoje ela me controla como se fosse a guardiã dum dote. De vez em quando também vão ao restaurante, mas nunca tínhamos ido os três. O meu receio era que ela se apercebesse dalguma coisa. Iria perceber de certeza, eu tinha de estar preparado para isso. Mas a perspicácia feminina tem sempre uma brecha; no caso dela era adorar uma boa distracção. E eu distraía-a com facilidade, mas não deixava de ser um almoço de risco. L. estava demasiado ocupada para o cruzamento de olhares dar um filme francês. Mas olhá-la era sempre uma missão. Solitária. No pain, no fear. Uns dias guerreiro, noutros cordeiro. «Aquela rapariga olha muito para ti, não olha?», «Deve pensar que eu entro nalguma tel...

Almoços Grátis [14]

Estive então vários dias sem ver L. no restaurante - nem em qualquer outro sítio, se adoptarmos a concepção de que a memória e a imaginação não têm direito a lugar. O primeiro dia em que a vi novamente, ontem, foi demasiado intenso para ser contado. È como tentar contar a história do centro da circunferência. É tão central, tão óbvio, que não se consegue dizer nada. Hoje estava uma casa fraca. È muito instável de freguesia. O prato do dia, bola de carne, talvez não seja alheio a isso. L. descobriu que eu odeio bola de carne; só não sabe que eu detesto comer em geral. Não é tanto a comida, é mesmo comer. Podia dizer que hoje foi um dia normal. Normal é um estado muito mal compreendido: normal nunca é entendido como normal apenas. Comi uma tarte de cogumelos que a cozinheira algumas vezes faz. Pareceu-me que L. ficou contente por eu ter escolhido isso. E eu fiquei feliz por ela ter ficado, ou pelo menos ter parecido ficar, contente. Não comi sobremesa nem café, e saí à pressa, algo indef...

Almoços Grátis [13]

Depois de não ter ido lá um dia, acabaram até por ser dois, por vezes acontece, - a vida corre mesmo o risco de ser só aquilo que acontece – voltei lá hoje. Estava menos de meia casa e algo estranho no ar. O prato do dia era Cordon Bleu. Raro, muito raro. Devo ter feito uma cara de admiração que levou uma das empregada a rir-se. L. não havia maneira de aparecer. Pedi cataplana, uma coisa que apenas faziam por encomenda e para doses de duas pessoas, só para testar, para ver se acontecia alguma coisa de diferente do habitual. Apareceu logo o pai de L., o dono do restaurante. Conhece-me, claro, mas sabe há muito que não gosto de conversa sem tema. Sou muito estruturado nas conversas. «Está à espera de alguém?». Não podia dizer ao homem que estava à espera da filha. Ele acha-me um pouco estranho. Até é bom quando nos acham estranhos e distantes, e mesmo arrogantes, assim temos menos coisas para explicar; por isso um «não», com um sorriso generalista foi suficiente. Já tinha dado meia volta...

Almoços Grátis [12]

Novamente casa cheia. Mas desta vez um alvoroço diferente. Principalmente junto de uma mesa em particular. Finjo que não me interessa e sento-me com um ar distante; mas forçado. Uma actriz estrangeira era o centro das atenções. L. não conseguia passar alheia e deu-me um sorriso corrido no meio daquele gesto que costuma significar ‘confusão’. Era um dia bom para lhe apreciar o passo, a desenvoltura, não o aspecto frágil, mas aquele lado organizado, e dominador, que têm as mulheres inteligentes quando se sabem desejadas; saberá mesmo? Mandou uma outra empregada vir-me servir. Não era a primeira vez; registe-se que não era a primeira vez. De vez em quando faziam uns linguadinhos fritos que eram muito apreciados; comi disso com o desinteresse habitual. E bebi vinho. Só muito raramente bebo vinho, mas o vinho ajuda-me a apreciar os ambientes sem me envolver neles. Dá-me distância, sem anular – numa primeira fase – a percepção. Alivia-me dos detalhes. E o essencial era ela. L. . Não comi sob...

Almoços Grátis [11]

Casa cheia. Cheiíssima. Pela primeira vez não havia mesa livre. Eu nunca reservo. Reservar é uma demonstração de fraqueza; planear é uma fragilidade. Mas improvisar é uma selvajaria; e eu agora sentia-me na selva. Que iria L. fazer. Viu-me. Ficou nervosa. Não tinha uma resposta imediata. Desapareceu por uns segundos e depois dirigiu-se a mim. Rezei para que me demonstrasse alguma intimidade. Não pedi um beijo, claro, isso seria ao nível de afastar as águas do mar vermelho a Moisés. «Hoje há frango na púcara; é um instantinho» E, acto contínuo, serve-me uma taça com champanhe, que trazia dissimulada atrás das costas, acompanhada dum sorriso com sabor a morangos. Fiquei que nem pastorinho em Maio à beira duma azinheira. Ela é a filha do dono do restaurante, pode tomar assim algumas liberalidades. ‘Ave, ó cheia de graça, my name is Angel Gabriel, e tu serás feliz para sempre comigo’. Quando me sentei ainda me tremiam as pernas. Felizmente nem foi preciso pedir. Comi o frango na púcara sen...

Almoços Grátis [10]

J. é um tipo que faz imenso sucesso com as mulheres. Hoje foi comigo lá almoçar; aquilo é-lhe natural, acho que ele nem precisa de se esforçar. Tem um físico banal, um aspecto banal, uma cultura banal, um paleio banal; mas não há mulher com o certificado de hormonas em dia que lhe resista. Já estão a ver: fui fazer outro teste a L. Neste jogo da paixão amorosa de vez em quando fazemos de bichinhos de laboratório; faz parte. Esperei para ver o que ele escolhia, e qual a reacção dela. Como de costume ele teve de fazer o número do ‘que me recomenda’. Ela riu-se. Até dá raiva. Sorrisos daqueles só lhe cacei duas ou três vezes. Penso que ela só está a fazer-se de simpática porque ele está comigo. Os poetas já explicaram esta coisa do amor ser cego. Ele escolhe cozido, deixando no ar aquele sentimento de que se pôs nas mãos dela. Sacana. Eu, ainda com menos fome naquele dia, refugio-me nos filetes. Penso que já disse, os filetes dão aquele ar de que ‘somos da casa’; e assim enviei-lhe uma me...

Almoços Grátis [9]

Caminho sobre brasas. Estava uma casa composta e ainda não tinha esgotado nada da ementa. Muita escolha para quem não se interessa por comer acaba por ser desconfortável. Hoje usei um «o que é me que recomenda hoje?»; é raro fazê-lo, e muito menos com um ‘me’. Não gosto que me recomendem a comida, e muito menos ela, e muito menos hoje; depois sinto-me obrigado a gostar e, como não gosto de nada, a probabilidade de ter de mentir é grande. Eu geralmente nunca preciso de mentir, posso mandar mentir por mim. É uma hipocrisia dupla. Felizmente L. não sabe isso. Bem, em rigor não faço ideia do que ela sabe ou não sabe; em maior rigor ainda nem sei sequer se ela se interessa em saber o que quer que seja. No fundo, de que precisa ela de saber de mim para me servir comida à lista. Sabe que olho para ela; sim, isso ela sabe. E sabe também que me alimenta. Já não me lembro do que comi hoje. Seremos nós mais aquilo que comemos ou aquilo que vemos?

Almoços Grátis [8]

Não sei se terei feito bem. Uma amiga tinha combinado almoçar comigo e acabei por ir lá com ela. Podia ter evitado, mas; mas; mas; mas. Eu sei que quis testar a reacção de L. Foi uma decisão muito arriscada. Depois não teria condições, nem pretextos para explicar, para atenuar, para enquadrar, para nada. O restaurante estava com pouca gente, quase só dos habituais, e eu passei o almoço que nem um restaurador de quadros à procura do mais pequeno sinal de ciúmes na cara de L. Os seus ciúmes seriam o meu troféu. O seu desinteresse o meu cadafalso. Tanta tragédia num mero restaurante, cheguei a pensar. Pedi salada russa, mas cada garfada parecia um rodar da roleta. Sim, havia tensão no olhar de L.. Posso garantir que sim; cheguei a rezar para o bingo: L., transtornada, deixaria cair um tabuleiro a rebolar estridentemente pelo chão; mas os deuses não me permitiram essa prova incontestável. Ainda a testei no café, mas a mulher ciumenta às vezes refugia-se no zelo, eu sei. L. serviu-me o fina...

Almoços Grátis [7]

Casa fraca e ambiente estranho. O prato do dia nada disso indicaria, o bacalhau à Brás é uma receita alegre e muito procurada. L. traz um olhar vago, distante; desfocado. Circula entre as poucas mesas com clientes como se fossem obstáculos. A primeira vez que passou por mim fez um daqueles gestos com a mão que podem querer dizer qualquer coisa. Ora qualquer coisa é igual a nada. E nada, na minha condição, é igual a tudo. Não me consigo concentrar na minha missão e apenas como. Tenho uma certa pena de não gostar de comer. Ter fome irrita-me até. Penso que se L. fosse florista eu teria de ir todos os dias ao cemitério. Certamente haveria de arranjar um morto de estimação. A minha cabeça é salva nesse momento pela clássica mousse. De Chocolate. Detesto chocolate. Mas não acho bom que ela saiba; poderia reagir mal. Será mesmo verdade que somos mais o que escondemos do que aquilo que revelamos?

Almoços Grátis [6]

O restaurante é utilizado frequentemente para almoços de trabalho. As pessoas sentem-se confortáveis. Eu também lá estou em trabalho; obviamente. O meu ofício é vê-la. Aliás, não serei o único. Se calhar começo a habituar-me a não ser o único em nada. Naquele restaurante não se consegue perceber onde está a fronteira entre a gula e a luxúria. Numa mesa grande tinham encomendado arroz de pato e L estava a ser muito solicitada. Pedi também arroz de pato para testar. Arrisquei; perdi: já não havia e ela não se mostrou pesarosa. De raiva nem escolhi nada. Disse que tinha uma reunião e não podia perder tempo. Acabei por comer só uma sopa e saí. Pedi a Deus para ser atropelado. Deus foi razoável. Começou a chover. Voltei para trás e; e ela emprestou-me um chapéu-de-chuva. «Amanhã há pataniscas», disse-me, como quem nos dá o número de telefone. Se alguém me disser hoje que Deus não existe enfio-lhe com o chapéu-de-chuva pelo cu acima. Será que no céu há pataniscas?

Almoços Grátis [5]

Hoje comi esparguete. Quando há esparguete na ementa eu sinto que L. prefere que se escolha esparguete. São coisas que eu sinto. Apenas por isso escolho o esparguete, pois é uma comida que exige demasiada atenção. E é um prato obsessivo; não ajuda quando apenas se está ali para acompanhar a passada frágil e irregular de L. Mas há momentos na vida em que as únicas opções são a obsessão ou o desinteresse. Felizmente ela trazia uma notícia só para mim: havia farófias. Ela sabia que eu gostava de farófias, e eu considerava que isso era um segredo só nosso. É a ilusão mais saborosa, a de que se partilha um segredo. Ninguém mais pediu farófias. Vi um brilho nos olhos dela; mas também estava muita luz. O restaurante tem janelas grandes. O que ajudaria a ver melhor agora podia tapar-me a verdade. Será que os olhos afinal também podem mentir?

Almoços Grátis [4]

Só dei conta que já estava no restaurante depois de ter começado a comer. E eu que nem vou lá para comer. Deve ser a rotina. Surpresa, Novidade, Entusiasmo, Hábito, Rotina, Desinteresse, Fim; acho que é esta a sequência teórica. Ainda bem que tinham daquelas batatas fritas às rodelas. Só as batatas fritas às rodelas me conseguem afastar de pensamentos pessimistas, é mesmo a única coisa que me faz sentir que estou a comer. A L. trazia umas calças de ganga apertadas e uma blusa de algodão com a gola rendada; cintada, obviamente. Eu olho sempre com detalhe para o que ela traz vestido; acho até que ela já reparou que eu olho muito para ela; mesmo sendo eu muito discreto. Mas quando se quer ver, o olhar nunca é discreto. Hoje havia um grande burburinho na sala. Grupos. Ela estava, por isso, mais nervosa. O riso dela era, assim, um riso mais nervoso. Não que eu gostasse menos; mas nesses dias é menos provável que ela se ria directamente para mim. Ou melhor, ri-se para mim, mas não é claro qu...

Almoços Grátis [3]

Hoje cheguei mais tarde e muitas mesas já estavam desfeitas. O prato do dia tinha sido arroz de pato, mas já não havia. Eu gosto quando o prato do dia esgota, porque a L. sente que tem de ser mais atenciosa comigo. Eu sei que pode ser apenas uma cortesia comercial. Comercial no sentido de artificial. Hoje fiquei a pensar nisso até chegarem os bifes em cebolada. Quando já não há o prato do dia eu peço sempre bifes em cebolada. É uma técnica. Resulta. A L. sabe que eu nesses casos peço sempre bifes em cebolada e ri-se; parece a tal cumplicidade. Se calhar é um automatismo; e um automatismo pode ser pior que uma artificialidade. Entretanto veio a salada de frutas e esqueci-me de pensar mais nisso. A fruta distrai-me também. Será que uma cumplicidade por ser automática perde valor?

Almoços Grátis [2]

Casa Cheia. E não era dia de cozido. Talvez fosse a mini saia de L; ou então o coelho à caçadora. Os clientes ocasionais não poderiam sequer saber, mas talvez tivessem ouvido falar. Estas coisas sabem-se; não são só as coisas más que se sabem. O cheiro do coelho acicata os restantes sentidos. Infelizmente o meu sentido preferido é o tacto; num restaurante acaba por se tocar em poucas coisas. Muito menos na L.; muito menos quando traz mini saia; muito menos quando eu nem sequer tenho fome. No entanto é óptimo não ter fome, a fome distrai. A sede já se leva melhor. Hoje estive mesmo para lhe dizer que só lá estava para a ver, mas não tive coragem. É estranha a quantidade de coisas simples que é preciso ter coragem para fazer. Comi filetes. Ela às vezes ri-se quando eu peço filetes, por isso digamos que é uma escolha relativamente segura; relativamente. Mas fico sempre sem saber se deveria ter comido outra coisa. Será que a hesitação nos tira carácter?

Almoços Grátis [1]

Entrei, estava meia casa. Uns, os do costume, outros, ocasionais; uns adaptados, outros, via-se bem, não. Para comer, todos. Todos menos eu. Eu realmente estava lá para observar, ter de comer era o preço que pagava para ver. Polvo era hoje o prato do dia. Gosto quando polvo é o prato do dia, os olhos dos comensais têm um brilho diferente e a silhueta de L. torna-se mais ondulante. L. é uma das empregadas. Diz-se, dizem, ouvi, que ela tinha um amante secreto entre os clientes. Faziam-se apostas sobre quem seria. Todos apostavam primeiro em si próprios. Eu também apostava que apenas poderia ser eu. Hoje não comi o prato do dia, optei por vitela estufada. Ninguém mais estava a comer vitela estufada e assim eu poderia distinguir-me. Uma forma de alguém se distinguir é por comer coisas diferentes dos outros. Deve ser assim desde o princípio dos tempos. Mas hoje não foi ela que me veio servir a vitela. Não é um bom sinal, não. Um rapaz, - sem nada que o distinguisse de especial - dos ocasion...

Die ferohlixe Vicenxafete #2

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O homem de Pequim , Nature ©

Die ferohlixe Vicenxafete

«Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos, sempre mais obscuros, mais vazios e mais simples do que estes» (nº 179)

Um dois três experiência (III)

Existe também uma derradeira explicação para isto tudo, e também está no céu: é lua cheia e eu não me calo. Pareço uma porteira. Hoje deu-me para isto e ainda a acrescentar abri um pacote de pevides descoloradas, que comprei – há meses! - numa nojenta bomba de gasolina perto de Sabadell e que já estão a fazer uma tangente apertada ao prazo de validade. O sal combinado com a lua aboborada devem estar para a minha mioleira como o manuel alegre está para a vesícula de sócrates, e como não tenho à mão nenhum candal para mandar para o caralho, e os putos já estão a dormir, desforro-me neste tasco, neste desprotegido e incauto tasco, que não se pode defender de mim. Nem eu dele, vendo bem; vou para dentro.

Um dois três experiência (II)

O post aqui debaixo parecia um cavalo de troia cheio de carmelitas irlandesas a tentar converter o irão pela via do whisky. É triste não saber como vos demonstrar que apenas a experiência da fé pode ajudar a compreender que o amor humano não é uma quimera, tal como é triste o josé lello ser português, e eu ser lagarto, ou terem acabado as areias na pastelaria aqui em frente. No entanto, apesar da experiência falhada, mesmo sob os auspícios (expressão que está a cair em desuso, infelizmente) da divina sapiência (só trabalho nessa base) julgo importante dizer que a distância que separa o espaço da fria erudição teológica, do espaço da religião de gente corrente que se esforça por viver no meio do mistério da condição humana, é a mesma que separa o espaço do amor do espaço da sua insegurança: ou seja é impossível existirem um sem o outro. Tal como não haveria cultura grega sem escravos, não há amor sem dúvida. Só digo banalidades. Mas a racionalização do amor é também uma novidade cristã.

Um dois três experiência

Olhar para a religião como algo que serve para dar sentido à vida é tão confrangedor como olhar para ela como fonte de verdade. Em ambos os casos é ir ao engano. Aliás, o cúmulo místico de encontrar consolo na verdade não passa de um número de circo para – sobredotados - malabaristas da alma. A mensagem cristã é essencialmente uma mensagem de vida, de renovação, de ensinar a experimentar a presença de Deus; quando Jesus diz que é a ‘verdade e a vida’, a primeira parte está lá só para dar algum aspecto retórico de seriedade, ou seja, para abespinhar um bocado mais a rabinada. A experiência religiosa deve, por isso, afastar-se o mais possível duma luta intelectual, ou, até, duma luta moral e teológica; ou seja, aqui têm mesmo razão os espiritualismos de cordel: o importante é o Amor a Deus. No entanto, Deus está sabedor de que a experiência religiosa (leia-se: o processo pelo qual o espírito humano se liga com o divino ) é uma experiência cultural. (*) Por isso, a maneira de acreditar ...

The Crabbe Corner

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A The World of Interiors deste mês (a melhor revista aparentemente de decoração do mundo (*) e sem gajas para distrair a atenção nem nada) traz um especial ‘Design Week Fabrics’ praticamente dedicado a este blog, e eu não podia deixar de scannear dois postalinhos para vòceisss; apreciem à minha responsabilidade: este primeiro, que permite dar um ar fresco e viçoso ao rebanho... e agora este outro, que permite dar um ar mais imperial e clássico ao seu dark side... (*) reparem nesta frase que arranca com a reportagem: «Trotting out everything from candy-striped cottons to the plushest of velvets…»; escrevem que nem uns baudelaires cruzados a prousts dum caralho. E nem pus a que tem uma cabrinha deliciosa adornada com uns richelieu tassels senão até lacrimejavam.

Luna Park

Todo o semeador / Semeia contra o presente, Semeia como vidente, (…) Sem saber se o chão é duro / e lhe recebe a semente Miguel Torga, em ‘ Canção do Semeador’

Genesis ao raio X

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Frequentemente (esporadicamente, vá) me pergunto porque terá Deus inspirado o escritor bíblico com a metáfora da costela. Note-se que não ponho em causa a costela em si, até me parece um pedaço de corpo bem escolhido, - colocado numa zona a meio caminho entre as zonas de desfrute e as zonas dos bicos de papagaio, e bastante preferível a um fígado ou a uma verruga – apenas me pergunto das razões por detrás da escolha. Concedo que poderá ter sido algo mesmo da lavra exclusiva do escritor , que se sentiria no momento especialmente acossado, ou mesmo espartilhado, por algum processo de emancipação mais veemente, não ponho de lado essa hipótese, mas motiva-me mais a elucubração positiva sobre a opção da costela. Reparemos que o mundo ainda vivia uma fase de comunhão (não forçada) com o ambiente, e uma solução literária na altura baseada num elemento mais vegetal (um pinhão, um caroço de azeitona, ou um pezinho de agriões) ainda hoje poderia ser vista com outros olhos, e eventualmente manti...

O talho do foi-se

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Andrew Swifete inventara a elixir do amor, por mero acaso, enquanto investigava uma técnica de levedura com malmequeres geneticamente modificados. Utilizando apenas as pétalas de bem-me-quer, inesperadamente, duma espuma amarelada exala um odor que fulmina Andrew, deixando-o de beiço caído pela miúda que lhe servia todos os dias um palmier coberto ao lanche. Sabendo que a ciência se escreve muitas vezes direito por linhas tortas, Andrew não se mostrou céptico perante o fenómeno e começou a sair com Luisinha Faulkenere, seguindo o balanço fornecido pelos milagrosos fungos. Luisinha desconhecia por completo as razões da súbita paixão de Andrew e vivia encantada o seu conto de fadas da pasteleira com o bioquímico. Mas com o que não contava o nosso par de pombinhos era com a intromissão do talho do senhor Costa Melville , onde Luisinha se abastecia das costeletas de borrego e do coelho caseiro. E isto porquê, perguntará eventualmente o ocasional – mas atento - leitor. Porque o elixir tinh...

a talhe de foice

Há muito tempo que o dicionário não ilustrado não falava dos artifícios do amor. Será o amor mais uma conveniência para a espécie, ou mais uma impertinência para o indivíduo? Meia dúzia de entradas (1289 a 1295) sobre as forças ocultas da cabala amorosa. Apetecer – Estado de espírito comandado secretamente pela vontade, mas que se consegue camuflar bastante bem sob a capa da oportunidade Querer – Combustível da era da primeira revolução industrial da alma, e que, por deixar muita fuligem, tem vindo a ser substituído com crescente sucesso pelas baterias portáteis do dar-jeito. Poder – Espécie de instrumento derivado da vontade, não sujeito a qualquer regulamentação, e que permite obter a rentabilidade desejada sem grande empate de capital afectivo. Convir – Movimento contabilístico da vontade que serve para saldar as contas entre o esforço necessário e o bem-estar suficiente. Interessar – Mecanismo clássico da vida selvagem que o homem incorporou na sua vida pela via intravenosa e q...

The blade runner

O inconsciente é um dos melhores exemplos da famosa faca de dois gumes. Um dos lados serve para barrar o compacto amanteigado da existência, fornecendo-nos uma camada gelatinosa de ilusões, o outro fatia-nos o lombo estóico em finos e delicados carpaccios de resignação. Em qualquer dos casos deve enxaguar-se bem depois de usar e guardar sempre com a ponta obsessiva virada para baixo.

The dark side of the wool #n

A todo o relãçamento se segue uma nova tosquia.

Luna Park

O que é preciso é gente Gente com dente Gente que tenha dente Que mostre o dente Gente que seja decente Nem docente Nem docemente Nem delicodocemente Gente com mente Com sã mente Que sinta que não mente Que sinta o dente são e a mente Gente que enterre o dente Que fira de unhas e dente E mostre o dente potente Ao prepotente O que é preciso é gente Que atire fora com essa gente De Ana Hatherly, ‘ Esta gente/Essa gente’

Depilocracia

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'Como Guardar o Desejo', lápis ikea sobre pasta de celulose prensada 80 gr, colecção particular, sem assinatura

Homo Congressistus

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O dicionário não ilustrado volta às lides políticas com o alto patrocínio da sardinha portuguesa. (Com as entradas 1281 a 1288, dando mais um contributo para o espiolhar sociológico da nossa grei) Pobres de espírito – Mistura de contornos bíblico-rabelaisianos, e que define o espécime do homem da polis que gosta de pensar com a sua cabeça, desde que esta não destoe muito da dos que estão ao seu lado. Pragmáticos – Designação que acolhe nas mais diversas teorias com a designação de ‘oportunistas’, mas que no fundo caracteriza filosoficamente o tipo de pessoas que prefere a certeza dum lugar à incerteza duma ideia. Desocupados – Abrange o género de pessoas que tanto podiam estar ali como na feira da Malveira a apalpar melancias. É talvez o grupo sociologicamente mais válido e coerente, e com maior potencial de concentração onírica. Encalhados – O congresso parece-me um lugar fadado para o engate. E com características que se encaixam tanto no género tímido como no género marialva. Repar...

Sublimação & pevides

Tudo já foi escrito sobre o poder. Afrodisíaco, Corruptor, Fascinante, Alienante, Funcionário, Solitário, Carismático, Circunstancial. Todos já o experimentaram e experimentam, seja ele mais explícito, mais exposto, ou mais silencioso ou camuflado; seja ele magnânimo e empolgante ou, pelo contrário, mesmo decadente ou desesperado. Muitos não sabem viver sem ele, e transportam-no como um paramento, outros até se sentem incomodados quando ele se lhes depara, como que vestindo um casaco muito apertado. Uma coisa é certa: o poder, em variadas circunstâncias, deixa as pessoas a viver em função dele, e retira delas - em simultâneo - o melhor e o pior. Poucas coisas têm essa influência nas pessoas. Nietzsche, quando nos seus fragmentos dispersos sobre o modelo dionísico do homem completo e superado, escrevia que o «homem não sucumbia sob as contradições» e que, por isso, devia seguir o exemplo ‘grego’ de integração de todos os seus instintos, sentimentos, conhecimentos, mitos, vontades, hábit...