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A mostrar mensagens de dezembro, 2004
Contos duma gajita Uma vez perguntaram-lhe se era com aquela rapariga com cara de anjo que ele se ia casar. Ele riu-se encavacado - não é uma palavra muito bem esgalhada encavacado - e deve ter ficado com um olhar de miúdo que nem cabia em si de contente e orgulhoso por ter desencaminhado um anjo nem que fosse só de cara. Os anos passaram e ele soube entretanto que essa cara de anjo o achou mesmo um miúdo, se espantou por ele ser ainda um miúdo, se calhar se desiludiu de vez em quando por ele ser apenas um miúdo, e chegou a pensar que não era possível haver ainda miúdos assim e ela ter sido metida numa canja dessas. De facto, se os anjos tiverem pele, a pele deles será assim, como a dela, agora nem sei bem se lhe deves dar isto a ler, não quero que fiques encavacado outra vez, ela vai logo dizer que és parvo, claro, mas isso também faz parte, é uma espécie de bater d’asas, para se manter no ar, para se defender dos voos picados que muitas vezes tem de fazer para te segurar, mal sabe el...
Isto às vezes têm mesmo de se escrever estas coisas. Olhó caraças. For you and I have a guardian angel On high, with nothing to do But to give to you and to give to me Love forever, true Excerto da letra de “ True love ” de Cole Porter. E mainada, porque às vezes com cinco de aridez e uma de lamechice, misturado com umas lágrimas mal contidas, é que se faz um coração de betão em condições. Haja uma boa espátula para barrar, claro está.
Küsschentherapie uma sessão de parvódia em vários actos, nenhum baseado em factos, senão estes ainda podiam levar a mal. 1.Laisser faire laisser baiser Deixavam-no estar. Ele ficava ali a falar sozinho, pensava que ainda era o padrinho, pensava que ainda era ele que mexia nos cordelinhos. Mas nós alimentávamos aquilo, íamos beijar-lhe a mão aos turnos e ele dava-nos ordens absurdas. A última que tive era para pregar um cagaço a alguém. Só por acaso é que não cumpri. Deixei estar como estava. Ele também estava doido, era muita coincidência aquilo dar certo. Mas antes beijar-lhe a mão a ele do que a outro. Tem de se beijar a mão a alguém, faz de referência, iam dizendo os mais necessitados duma explicação, há sempre gente que precisa duma razão para se consolar, não lhes chega um beijo, passam a vida a deixar-se andar mas depois não conseguem beijar à toa, afligem-se com uma bênção, atarantam-se com a aparência de servidão, pensam que ser livre é beijar quem se quer e esquecem-se que Deu...
Da inconstância Às vezes apetecia que a vida fosse um vou ali e já venho. Outras vezes não.
E se isto tudo se resolvesse apenas com uns pozinhos de prelimpimpim Leio alguns olhares compenetrados e sérios sobre a morte e o sofrimento – alheios - reflectindo mais ou menos enigmática e simbolicamente quase sobre tudo; sobre a provisoriedade, sobre andarmos sempre atrasados em relação ao que importa, deambulando sobre os medos, sobre as prisões, metaforizando a falta, a esperança, o optimismo, o pessimismo, hiperbolizando a dor, o inesperado, a vida de fronteira, arremessando ao espelho a parte desesperada da nossa condição, citando até romanos lúcidos, muitos gregos e poucos troianos, e procurando esquecer (bem ou mal) que da nossa natureza é mesmo muito também o cagar e andar. Eventualmente chorar. A morte nunca é uma lição para a vida. Só a vida é uma lição para a vida. Sermos uma tosta de pó com uma vidinha pelo meio é algo só suportável e camuflável à base de muitas citações e alguns jogos de palavras. Isto fora rezar o terço, claro está. Precisar que a carne de alguém arre...
Um conto para desviar o olhar das paredes Tinham-se encontrado primeiro num sonho, que pena ele não dar grande valor aos sonhos, e por isso tinha-se desperdiçado uma ocasião das que não faz um ladrão. E ela até vinha com um ar matreiro, sacudindo franjas, desviando olhares, mas não conseguindo disfarçar um certo arrebatamento, fingindo distanciamento, não, ela não conseguia, era mais forte do que o peito lhe pedia, e o peito duma mulher é danado, porque não foi feito para esconder, merecias outro soutien dizia-lhe ele, algo que te segurasse mesmo, mas eu não sou desses, ele não era dos que queria – ou será “conseguia” - guardar as mulheres só para ele; elas ao princípio até gostavam disso, mas depois fugiam-lhe todas, definitivamente, por isso é que ele não acreditava nessa merda dos sonhos, elas aí sim andavam amestradas, nunca lhe faltavam; ele pediu-me para ver se eu podia dar a volta à coisa e eu decidi dar-lhe uma mão, este no fundo é um conto filantrópico, vou dar a mão a um amig...
Pouco mais de meia dúzia de não-há-nadas-como-realmentes pré-eleitorais, nas entradas nºos 933 a 941 do dicionário não ilustrado . Até porque o futuro está nas nossas mãos, mas o sacana alojou-se na zona das calosidades. Vagas de fundo – Semelhantes às ondinhas no cabelo; acentuam-se passando com a escova da ilusão e fixam-se com o gel demagógico. Alisam enxaguando bem numa mixórdia ácida. Acções concertadas – Tendo-se perdido o ensejo de fazer a boa acção, e dado que já não há velhas para atravessar a rua, entretemo-nos a fazer torneados nas bengalas por consertar. Visão reformista – É uma das mais bem esgalhadas miopias liberais, geralmente vem acompanhada com o estigmatismo conservador, sempre de muito belo efeito – estilo noronha da costa - fora as vezes em que afinal se descobre, por debaixo dos óculos escuros, que eram todos estrábicos e nem sabiam piscar o olho. Ideia para o país – Situação grave e limite, quando ocorre é sinal que o país já lá não vai apenas com a realidade. C...
Fuck up comedy Discurso dum político compenetrado Custa-me muito ver-vos de pernas abertas, parecendo que não há quem vos queira, dais sinal dum povo meio rameira, meio prenhe, em todo o caso ( esta expressão é de muito bom tom nos discursos ) sempre dependente duma compenetrada atenção, sempre dependente do esforço dos orgãos democráticos garbosos, firmes e generosos, e eu estou aqui para dizer presente, podem contar comigo, sou boa gente, venha por trás ou me apresente pela frente. Tendes de depositar confiança no futuro, é bem verdade que se não comerdes o pão todo ele pode ficar duro, mas pensai no valor da firmeza, garantirá que não vos perdereis pelas vielas da tristeza, e não embarcareis numa vida flácida com toda a certeza, ela manter-vos-á compenetrados na vossa missão, e não precisareis de andar a passar de mão em mão. Mas sinto-vos uma nação algo frígida, sem conseguir retirar prazer de nada que lhe façam, nem duma brincadeira, nem duma desgraça, também não podem ser assim, ...
O discurso dum Outono decadente das mulheres que já não há Vai assim, de vez em quando com uma cadência abrasileirada porque agora acho que só esses gajos é que escrevem bem Alô, eu sou miss Maple, serei almofadada, serei reclinada, serei de doçura injectada ou de mola aconchegada, secarei o seu suor, serei a doida que você quiser, ou melhor, serei a mulher que você me fizer; serei boneca, darei foda me vez de queca, farei rima quando estiver por cima, sonharás com Baco e faremos de cacho se me puseres debaixo, e se plantar de lado você até ficará arrepiado, ou de olho arregalado, e quando tiver de rolar erudição, eu sacarei da minha cabecinha abençoada e te darei uma tesão danada, e até inventarei gritinhos em latim, verás que nunca ninguém estremeceu assim; serei nulidade para você dar em sumidade, e até serei casta se isso te fizer ganhar na canasta, mostrarei que sou a mulher que te ama e todos terão inveja da tua cama, mostraremos ao mundo que somos o casalinho da nova arca de Noé...
Contos do ele ainda há homens assim E logo tinha de ser também um bom homem. Não lhe bastava ser um gajo inteligente, não, tinha logo que ser prendado, tinha logo que ser um achado, tinha logo que ser um daqueles que põem o coração duma mulher à beira duma merda dum ataque qualquer. Diga ele o que disser, será sempre bem ouvido, será sempre um querido, um cheio de graça, que mesmo bem agarrado nunca faz de carraça. E o sacana, ainda para mais, nem precisa dos jornais para se saber que é bom na cama. Mas ele tinha mesmo de ser um pessoa cheia de doçura, nem que lhe batam muito nunca fura; é o que custa em demasia, ver aquele género de alma fria, mas que aquece até que doa, e sempre na boa, dono de tudo, um sonho de ego, prolixo e mudo, visionário e cego. E mais o cheirinho da humildade de quem nunca falta à verdade, mas que, vendo bem, até poderia mentir que ela acabaria por se vir; isto porque ele era tão bom homem, e depois tão animado, fazia tudo parecer tão variado, com ele nada er...
Discurso dum político dissoluto A dra girassol obrigou a que eu me pronunciasse sobre a situação política porque senão este blog começava a transformar-se num bibelot. Eu bem sei que isto talvez se resolvesse dissolvendo apenas a assembleia, mas vou antes decidir-me, após a devida auscultação das forças da nação - gente com saber a rodos - a dissolver-vos a vós todos: tenho notado que passais já demasiado tempo à deriva; bem podiam andar apenas à toa, ou mesmo numa fona, mas não, quiseram logo pôr-se desenfreadamente à tona, ( e isto até rimava tão tão bem com um orgão genital que eu cá sei) e isso eu não posso admitir-filhos do pecado, enteados da vaidade, dissolver-vos-ei por atacado e em conformidade- verão que não estou a fingir; o máximo que vos posso conceder, e fica assim encerrado o assunto, é que me saciarão definitivamente a sede, e nunca fareis de depósito no fundo, nem ficarão agarrados à parede. Sereis pelo menos poupados ao degradante estatuto de borra, não ficareis ental...