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A mostrar mensagens de julho, 2009

stanzas for music (*)

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There be none of Beauty's daughters / With a magic like thee; / And like music on the waters / Is thy sweet voice to me: / When, as if its sound were causing / The charmed ocean's pausing, / The waves lie still and gleaming, / And the lull'd winds seem dreaming: // And the midnight moon is weaving / Her bright chain o'er the deep; / Whose breast is gently heaving, / As an infant's asleep: / So the spirit bows before thee, / To listen and adore thee; / With a full but soft emotion, / Like the swell of Summer's ocean. (*) Lord Byron (1815) Stanzas for Music © 2009 University of Toronto.

Explico agora com mais profundidade ainda

Os fundos de colecção do Bloco de Esquerda iniciaram a sua fase de monetarização e economia paralela. «Tu Zé, que vales apenas 15 votos, vais para a marcha popular do Costa a troco de duas tshirts do Che no tamanho da Drago (colecção Cenoura 89), tu Miguel LGBTLGTB d’Almeida vales 3.500 votos vais para o Sócrates mas a troco de bar aberto no Frágil para o grupo parlamentar durante um mandato, tu Joana-a-Dias vales 67.560 votos, ficas a tratar do canil. Tu, Rui Tavares ainda só vales 753 votos, mas podes valer mais depois de treinares o flamengo e cortares a barbicha, ficas ainda, o Fazenda vale 5 votos mas se se rir pode chegar aos 6, fica, o Pureza vale 2 ou 3 consoante representar Alfarelos ou Mamarosa, mas não temos mais ninguém para a Pocariça, fica. Tu, Arrastão d’Oliveira, não sabemos quanto vales, mas, pelo sim pelo não, ficas por causa duns olhinhos que a Clara Ferreira Alves te fez; trocamos ainda aquela moça que foi com o Miguel Portas para Estrasburgo - já fez o servicinho q...

Mas hoje já estou com uma profunda capacidade para impressionar.

Sinto-me requintado . Praticamente incapaz de qualquer estridência , - para ouvir um ruído que seja, os estimável leitor terá mesmo de encostar o ouvidinho à tela – irei explicar-vos várias coisas sem recurso a muletas , dispensarei inclusive onomatopeias, e nem sabem o que me custa não usar assim uma bucha clássica tipo huumm, ou mesmo um splash, ou um grrrrrr, ou até um zzzt. Ficam assim afastados da minha explicação cães e gatos, fora de questão animais ferozes, quanto muito uma joaninha, ou então um colibri paralisado das asas. A talhe de martelo (não está disponivel a foice) lembremo-nos que foi a metafísica escolástica que nos deixou como testamento a única definição que dispensou figuras de estilo: ‘Deus é aquele que é’. E assim, mesmo sem reticências, deixou-nos pendurados com a noção de puro ser, puro acto. Uma verdadeira explosão metafísica que dispensa pornoexclamações. E isto tudo para (vos) expressar a minha semi-exclamativa consternação: e então nenhum partido convida a D...

Francisco José!...

Um aluvião possidónico assolou de repente a blogaria literaloide portuguesa: a aversão ao ponto de exclamação. (pelos vistos até recuperando um esgar mexiano de 2007, mas duma altura em que ainda precisava de dar um pouco nas vistas). O texto de JMSilva então apresenta um acervo de tiradas dignas duma espécie de Paula Bobone da crítica literária (‘sintoma da absoluta falta de requinte estilístico’, ‘ideal para adolescentes idealistas’, ‘prenúncio de estridências capazes de furar o silêncio da leitura’, ‘profunda incapacidade de alguém se fazer explicar’, – esta é dum tal de Palomar, Senhor – ‘muleta dos maus escritores que querem impressionar’, etc) recolhendo o maior chorrilho de granulado para dissolver desde o discurso dos irmãos castro nos prémios gazeta dos desportos. Ora então queridos especialistas em escrita explicativa de requinte sem muleta , dizei-me, como vai significar um ‘bum’ sem ponto de exclamação, um peidinho sem cheiro?, (calma, ponto de interrogação ainda não fura ...

Luna Park #99

«A minha sátira é a minha doença», Mickey Sabbath, in Teatro de Sabbath de Philip Roth

O Epigrafómano (que merda de título, francamente)

«Que rosto era o teu antes de o teu pai e a tua mãe se terem encontrado?» de um Koran Zen Epígrafe in ‘ Souvernirs Pieux’ de Marguerite Yourcenar Todos os cristãos (e não só) são reféns da frase: «Deus criou o homem à sua imagem e semelhança?» (Livro do Génesis ). Dizem que é figura de estilo. Dizem.

O Epigrafómano (este título também saíu uma bela trampa)

«Les poètes ont cela des hypocrites qu’ils défendent toujours ce qu’ils font, mais que leur conscience ne les laisse jamais en repos» de Racine, carta a Le Vasseur em 1660 Epígrafe in ‘ Tolstoi ou Dostoievski’ , Cap II, de George Steiner. Lá está, no fundo, somos todos poetas.

O Epigrafómano

«Ó Deus, fechado numa casca de noz eu poderia julgar-me rei de um espaço infinito [: se não fossem os sonhos maus que tenho]» de Shakespeare, Hamlet , II, 2 Epigrafe in ‘ El Aleph’ de Jorge Luis Borges Ou seja, O Inferno , 400 anos antes de Freud e Sartre

O Epigrafómano

«Não são as próprias coisas, mas as opiniões acerca das coisas o que atormenta os homens». Epictetus, Encheiridion Epigrafe in ‘ A vida e opiniões de Tristram Shandy’ de Laurence Stern Esta tasca está a tornar-se chata. Nem sequer se consegue inclinar decentemente para si própria, quanto mais virar-se decentemente para o mundo; ora parece um torcicolo permanente a fazer trejeitos para tentar ver alguma coisa, ora põe a mão no lombo para se conseguir manter de pé direito. Já são demasiados anos a lamber opiniões como se fossem sabão. [Não é que eu esteja atormentado, mas o que é essa merda de que todos falam da 'passagem do tempo num banco de jardim de sto amaro'? Sinto que posso estar a passar ao lado de algo realmente importante]

O Epigrafómano

«Abre bem os olhos e vê». Júlio Verne, 'Miguel Strogoff' . Epígrafe in ‘ A vida modo de usar’ de Georges Perec. Pior que deixarmo-nos iludir pelas aparências é desperdiçarmos as evidências.

«Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós»

A frase do título (da Epistola de S.Paulo aos Romanos) está escrita num placar verde-garrafa instalado na A1 quase à saída de Lisboa. Deverá tratar-se de mais um apelo insinuante de alguma 'igreja evangélica', tentando vir a entrar na alma ( e se calhar bolso) do automobilista pelo flanco peri-apocalíptico, ou seja, apelando ao espírito de intocável que qualquer cristão dalguma forma transporta e qualquer pagão aspira. Desde sempre que o cristão teve de incorporar na gestão da sua vida o problema das ‘forças do mal’, e, talvez mais rebuscado, o problema do sinal e do castigo. Nenhum católico (digo católico porque tenho dificuldade – por desconhecimento - em entender a alma protestante) poderá certamente dizer que nunca atribuiu (sentiu) algo de mal que lhe aconteceu (a ele ou ao mundo) como uma manifestação clara duma admoestação de Deus. A manifestação da vontade de Deus na criação é um grande cabrão dum mistério. Mas ninguém se dispensa de ir dando palpites. Precisamos mesmo...

O Epigrafómano

«Ora vamos lá! Usemos da imaginação e passemos uma hora bem passada a contar histórias, que as nossas histórias servirão para educar os nossos heróis» Platão, A Republica , Livro II. Epigrafe in ‘ A História Secreta’ de Donna Tartt. Penso que, se no tempo de Platão existisse televisão, ele seria a Júlia Pinheiro de Atenas.

2999 Odisseia no Erospaço

(e este blog associa-se assim às comemorações da chegada do homem à Lua) O astronauta John Capuchini mais do que pisar novos planetas gostava de treinar acoplagens com a sua nave ‘Little Apricot’. Saía pela tardinha, enquanto toda a galáxia estava na matiné, e entranhava-se pelo espaço na busca da acoplagem perfeita, a last frontier das acoplagens, mesmo que efectuada em condições de grande adversidade, inclusive chuvas de cometas ou de mary’s poppins. Naquele dia ‘Little Apricot’ tinha-lhe solenemente comunicado que não estava disposta a ir para perto de planetas com muito arvoredo, pois os radares eram muito sensíveis, e não estava para ficar emaranhada nalgumas moitas. Foram assim para a órbita do planeta Berardo (tinha o nome do antigo empresário português, numa homenagem à doação da sua colecção de cuecas de renda pintadas de luas por Joana Vasconcelos) uma espécie de Saturno mas com anéis em forma de arco-íris. Uma das coisas que costumava deixar John Capuchini um bocado sensível...

Luna Park

«But I swear I’ll never kiss anyone / Who doesn’t burn me like the sun / and I’ll cherish every kiss like my first kiss » Jens Lekman, ‘ And I Remember Every Kiss’ in ‘Night Falls Over Kortedala’

O epigrafómano

«Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» S. João, XII, 24. In ‘ Os Irmãos Karamazov’ , F.M. Dostoievski Perto do ano 22 a.b. (ou seja, 22 anos antes da bloga), quando se juntava uma adolescência arrastada a uma maturidade enfiada a ferros, tive o entretenimento de ir ‘coleccionando’ as epígrafes dos livros que lia. Escrevia-as num livro de quadriculado comprado numa papelaria ali na Rua Poiais de S.Bento, antes de se entrar na Calçada do Combro, e depositava nelas imensa esperança, pois considerava que condensariam toda a mensagem da obra, eram, por assim dizer, um núcleo de sabedoria, uma fusão de estudo e inspiração. Nas voltas da vida o caderninho perdeu-se. Noutro dia, ao trazer uma epígrafe (dum livro de P. Roth) aqui para um post lembrei-me do caderninho e desse costume. Recuperar essa memorabilice é o renascimento possivel que vou arriscar. Oscilarei entre livros antigos e novos. Com ou sem...

Container Age

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Os tempos mais recentes ficaram marcados por duas polémicas sobre contentores: a das aulas para os ciganos em Barcelos, e a sempre-eterna do terminal de contentores do porto de Lisboa. Em qualquer dos casos transparece alguma sub-valorização da figura do contentor, que já não tinha boa fama desde que Melanie Klein se lembrou de lhe sacar o poder metafórico para as suas teorias de alavanca infanto-mamária, se me é permitido assim expressar. Ora o contentor – como se pode observar aqui, ou aqui , ou aqui , a mero título de exemplo (há milhares de merdas destas) – não merece. Para além de vos puder contar dezenas de coisas que se podem fazer num contentor – como se constatar aqui , ou aqui , ainda também apenas a título de exemplo – julgo ser importante voltar a dignificar o contentor e jamais deixar que ele fique ligado a este período de tanga da nossa história. O contentor é inequivocamente uma marca da nossa civilização e, para além disso, assume-se como o parente pobre do novo demo q...

O Aperitivo Categórico

É conhecido o fraquinho que Kant tinha por amendoins salgados. No entanto, o que é menos conhecido é que ele viveu atormentado toda a sua vida porque pensava que o pistachio era um aperitivo de categoria superior e, muito provavelmente, seria o próprio aperitivo universal que, no fundo, explicaria e daria sentido a todos os outros aperitivos. Atormentado por saber nunca vir a conseguir atingir o amendoim em si, desforrava-se comendo altas barrigadas do dito, endereçando ao aparelho intestinal os problemas que o seu idealismo em busca de almanaque não lograva descortinar, chegando mesmo a dizer: o amendoim sem o pistachio é um conceito cego. Os últimos anos da sua vida foram dedicados a uma experiência de teor pragmático-metafísico: comer amendoim mas procurando ter a experiência do pistachio; tratava-se pura e simplesmente de pôr de mãos dadas o empirismo e o racionalismo, deixando a intuição beijar na boca a experiência. Sabendo ter sido injusto para muitos outros aperitivos, deixou i...

«When I said I wanted to be your dog»

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Jens Lekman vem (cantar) a Portugal. No artigo da Ípsilon de hoje, o Bonifácio de turno refere que os amigos de Lekman dizem das suas canções «isto não aconteceu assim», desconfiando de tanto sofrimento, de tanta, soit disant, ingenuidade sentimental. Eu gosto imenso de Lekman. Da voz, das melodias, dos textos, é isso mesmo: há ali um grau de pureza que desmancha as defesas, que mina a casca. E acho que se devemos investir em algo ‘ingenuamente’ é no sentimento. Se há algo que a experiência humana nos oferece de brinde é sentirmos ingenuamente ; é esse sentimento que vai polindo por dentro a nossa redoma. Polir por dentro. Pura seiva dentro da mais dura casca. Mas temos de tratar bem da casca para preservarmos a seiva. As modernas teorias da neurosentimentologia gostam de compartimentar e catalogar os sentimentos, (ou emoções, como se queira chamar) procurando caminhos, bifurcações, crochets e viadutos na mente. Especulando sobre as estratégias da nanoquímica. O mundo das canções (de L...

Ex-combatente

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A liga dos ex-combatentes da política declara para os devidos efeitos que aceitou como sócia honorária a ex-combatente Roseta, que depois duma vida de entrega às mais diversas e nobres causas, ficou ferida em dívidas. Foi-lhe assim atribuída uma suite com vista para Monsanto num lar da Misericosta, com serventia de contabilista, cozinheira e motorista. Poderá doravante dedicar-se ao tricot anti-santana e à inauguração de estátuas da Natália Correia, declamando o seu verso: «Confia. Eu sou romântica. Não falto.» Corando um pouco, claro.

Entalhes Felizes. #6 A Providência

Era o dia da inauguração da exposição de Pierre Soulages. Muita excitação na sala. Ela andava sem eira nem beira; com um copo de martini na mão, só para ter as mãos ocupadas. Tinha saído dum grupo que falava de férias na Martinica e passara de raspão por um outro que falava da fotogenia de Leonardo de Caprio. Nada a satisfazia. Ainda só passara pelas pinturas ao de leve. Ele estava bloqueado num quadro das séries mais traçadas, mais ‘caligráficas’. Via-se que não arranjava a posição certa para ver os quadros, parecia que tinha até de fazer alguma ginástica para os apanhar. Dava um bocado nas vistas. Ela não resistiu e pôs-se ao lado dele. Sem saber porquê, poisou o copo e começou a imitar-lhe os gestos, as coreografias do corpo. Inesperadamente confirmou que certos quadros se viam melhor de esguelha. Ele reparou. Chamou-a. Abraçou-a. Inclinou-a. Pôs-lhe a mão entre as pernas. Levantou-lhe os pés do chão. E voaram só com o olhar. Dizia-se que pareceram anjos. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes #5 A Fortuna

A papelaria chamava-se ‘Sonho de Luz’ e estava a abrir. Era muito cedo e a sua clientela fixa ainda não começara a chegar. Ele foi o primeiro cliente. Vinha com um papel dobrado na mão com três números escritos. Abria-o e voltava a dobrá-lo. Intercalava com mordidelas de lábio cada vez mais prolongadas. Via-se que olhava para as capas das revistas e para os títulos sem os fixar, ou melhor, sabendo que não encontraria lá o que queria. Parecia preocupado, quase perdido. Mas também não encontrava tudo o que precisava naquele papel. Ela entrou pouco tempo depois. Dum envelope tirou um cartão. Mais números. Ela nem para os jornais olhava, mas a sua mão tremia enquanto segurava no cartão. O dono da papelaria estava atarefado e não dava conta, ia apenas pedindo-lhes delicadamente para não o atrapalharem no meio da loja. Encostaram-se os dois no balcão ao mesmo tempo, apoiando apenas os punhos e como que à espera que um raio lhes abanasse o corpo. Cada um com o seu berço de números na mão. A c...

Entalhes Felizes. #4 A Sina

Da tenda das farturas fumegava a nuvem com o melhor cheiro do mundo. Mas a feira estava ainda nas suas horas mortas. Numa roullote ao lado, onde a porcaria e a ferrugem eram rauchenberguinamente promovidas, prometiam-se leituras de mãos. Ela tinha acabado de se sentar junto da cigana quando Ele se começou a aproximar. Abrandou então progressivamente o passo, mas com a sua bomba cardíaca já ligada no máximo e o sonar em posição de combate; - «a menina hoje vai apaixonar-se», arrancou logo a cigana - o seu andar revelava a hesitação da alta espionagem, - «por um homem que nunca viu antes» - serpenteando entre os poucos e tímidos comedores de algodão doce fora d’horas, - «e não vai perceber porquê» - mas de repente o corpo autonomizou-se, - «nem vai conseguir resistir-lhe» - avançou movido a pólvora fresca, - «pela primeira e última vez na vida vai ter uma certeza absoluta» - com o olhar feito culatra, - «mas vai ser ele a agarrá-la» - e engatilhou-a. A cigana não teve tempo de passar rec...

Entalhes Felizes. #3 A Predestinação

A lavandaria chamava-se ‘Alfazema ao luar’, um nome romântico mas dalguma forma ridículo para uma lavandaria a seco. Ela esperava duas calças pretas, uma de linho e outra de algodão, e ele esperava duas calças cinzentas escuras de lã. Era uma espera que parecia mesmo pedir alguma impaciência, mas ambos se mostravam calmos e sem pressas. Nenhum bufava, nenhum tamborilava dedos no balcão, nenhum fingia ler mensagens no telemóvel, nenhum fingia fazer contas de cabeça, nenhum coçava nada que fosse para além do óbvio. As calças chegaram, foram entregues, e recepcionadas, com uma destreza mecânica e profissional. Encaminharam-se juntos para o elevador que levava ao estacionamento, mostrando apenas aquela proximidade que une dois seres do mesmo sistema solar e que controlam mutuamente as rotas de translação. Mas as calças estavam trocadas e repararam nisso em simultâneo. Previsivelmente dariam um sorriso, uma gargalhada até. Mas não. Fizeram apenas aquele levantar de sobrancelhas que ilustra ...

Entalhes Felizes. #2 A Coincidência

A música que arejava o ambiente parecia ser da Lisa Germano, mas na prateleira as mãos buscavam material mais electrónico. Ele vinha da letra L, tinha passado com calma pelo Lindstrom, arrepiou caminho depois pelos Lambshop sem parar, e agora parecia fazer uma pausa nos óbvios Knife. Ela, que partira da outra ponta, mais lenta, tinha olhado com a candura obrigatória para os Air, rira-se nos Arquitecture in Helsínquia, mas parecia torcer o nariz nos Atlas Sound. Os dedos indicadores de ambos acabaram por se encontrar num inesperado ‘The moon and the melodies’ dos Cocteau Twins & Harold Budd. Ele fez aquele gesto reflexivo e defensivo de empinamento dos dedos, mas ela pareceu não se incomodar. De repente os braços estavam cruzados. Ela espreitava um David Sylvian e ele não resistira aos Calexico. Deram o primeiro beijo mesmo em cima do Moon Pix da Cat Power. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes. #1 O Acaso

Era uma daquelas esquinas que se dobravam com dificuldade: angulosa, na encruzilhada de duas zebras para peões, com uma loja de cafés dum lado e uma de produtos eléctricos do outro. Ela desfez-se apressadamente do táxi, cumpriu o ritual obrigatório de esticamento de saia e puxou pelos galões do perfume; ele saía da loja com um pacote de café, ‘moagem grossa’, ‘selecção da Colômbia’, e ainda o cheirava numa pose semi-religiosa. Os olhares chocaram antes dos odores, já se sabe que a velocidade da luz não tem concorrência, e a natureza tem destinado um pequeno sorriso especial para essas situações abençoadas. Foram unidos por uma súbita necessidade de comprar um ficha tripla. Saíram de mão dada. Pouco mais sei.

Cajuda

Os charutos e o whisky que estiveram na origem do post anterior [eu sei que não leram] acabaram, e pensei em voltar aos jornais para chocalhar as ideias. Mas os jornais apresentaram-se fracos, tirando o facto de Cajuda dizer no Público ser ‘mais inteligente do que aquilo que parece’. Ora quando há muitos anos eu tive de escolher uma pessoa para me irritar: escolhi Cajuda. Estive indeciso entre ele e o Martelinho, um cabrão dum jogador do Boavista que entrava sempre no final dos jogos contra os lagartos para nos marcar um golo. É evidente que apenas o futebol nos cria genuínas urticárias (a politica, a literatura, e as vizinhas dos lado apenas dão azo à comichão ou ao prurido) e Cajuda foi a que me calhou; mesmo que ele apresente nome de aperitivo efeminizado , o que, por si, até podia levar-me a criar alguma empatia, pois a minha paixão por aperitivos – não confundir com preliminares – é uma das marcas mais estáveis da minha personalidade, tirando um sofisticado estado de incompreensão...

Um autor [e dois emplastros] à procura dum personagem

Lobo Antunes anda completamente em brasa. Sousa Tavares e Pulido Valente elegeram-no como espécie de subject of understanding e declararam que ALA nunca tinha criado um único personagem de jeito em toda a sua obra, sendo assim um escritor falhado. (*) Ora ALA não se conforma, e há mais de um mês que se fechou num rés-do-chão ali para os lados da Póvoa de Stº Adrião procurando uma personagem que seja definitiva e que, pelo menos, cale aqueles dois invejosos (entre os mais de dois milhões que nunca conseguiram acabar um livro dele) e autênticas línguas de trapos. ALA, que depois de ‘ter lido um fellatio fabulosamente descrito por Jackie Collins’, ficou incapaz de escrever sobre sexo, e que certamente não esquece que o seu querido Conrad escreveu que ‘as mulheres são alheadas da verdade e vivem num mundo próprio’, pensa estar agora destinado a criar uma singular personagem feminina, uma mulher de excepção que faça esquecer Kareninas e Bovaries, Salomés e Penélopes, mas que ao mesmo temp...

Luna Park

I wish you were here, dear, I wish you were here. I wish I knew no astronomy When stars appear, When the moon skims the water That sighs and shifts in its slumber. I wish it were still a quarter To dial your number Iosif Brodskii

Fisioterapia

É a melhor profissão ao cimo da terra, não tenho hoje qualquer dúvida. Grandes filhos da puta. Recuperam lesões, diz-se, dizem. À base das aparentemente inocentes repetição, tensão e alongamento, forçando uns movimentos, evitando outros. Ligam e desligam a seu bel prazer, como se fossem os deuses da prisão e do alívio. Ora vão aplicando cirurgicamente o gelo, ora sabem ir distraindo com os ultra-sons, insatisfeitos em dominar a carne querem dominar o tempo também, fazendo a perseverança trilhar os mesmos caminhos do deboche. Estão quase sempre muito próximos da paciente (‘da’, sim, é o caso que aqui mais me interessaria discorrer) para que os movimentos possam ser, por si, totalmente controlados, para que quando o músculo, ou o tendão, ou o ligamento estiver a responder, eles possam ouvir e traduzir à paciente, ávida da sua descodificação, ávida do seu olhar e da sua mão. Sacam gemidos como um padre saca salvé-rainhas. As pacientes entregam-lhe por várias semanas ou meses partes import...

Ponto 68

(Não tarda eu era o único gajo que não citava a encíclica do Papa) «Por sua natureza, a pessoa humana está dinamicamente orientada para o próprio desenvolvimento. Não se trata de um desenvolvimento garantido por mecanismos naturais, porque cada um de nós sabe que é capaz de realizar opções livres e responsáveis. (…) Ninguém plasma arbitrariamente a própria consciência, mas todos formam a própria personalidade sobre a base duma natureza que lhes foi dada. (…) É preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normas fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu coração.» Mas, foda-se, no ponto 65 também se pode ler isto: «Se o amor é inteligente, sabe encontrar também os modos para agir segundo uma previdente e justa conveniência» Calma que eu comecei a ler do fim para o princípio, fazendo jus ao sábio princípio de que são os fins que justificam os meios. Mas até é no início que é logo tudo dito: «A caridade na verdade (…) é a força propulsora principal para o v...

Brush Tango

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colecção Berardo, pormenor de

'the road not taken'

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Two roads diverged in a yellow wood, And sorry I could not travel both And be one traveler, long I stood And looked down one as far as I could To where it bent in the undergrowth; Then took the other, as just as fair And having perhaps the better claim, Because it was grassy and wanted wear; Though as for that, the passing there Had worn them really about the same, And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black Oh, I kept the first for another day! Yet knowing how way leads on to way, I doubted if I should ever come back. I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: two roads diverged in a wood, and I -- I took the one less traveled by, And that has made all the difference. Robert Frost

Moonwalk

«Cada terceiro pensamento será a minha sepultura» (*) A nossa cartomante Miriam a certa altura, - todas as mulheres têm, por assim dizer, certas alturas - teve a tentação de se lançar na assessoria à elaboração de listas eleitorais. A política era algo que lhe surgia muito ligado às forças do cosmos e à ocultação, e onde as cartas poderiam ajudar a desembaraçar certos novelos que, por exemplo, a ambição, o oportunismo, ou a simples burrice acabam por criar. Sabedora de que a arte da política vive muito de momentos e de circunstâncias, Miriam tentou desenvolver um modelo que pudesse ver interagir as pessoas com os lugares, numa espécie de inclusão cruzada de cartomancia toponímica; ou seja, para candidatos de litoral haveria que testar as cartas essencialmente em signos como peixe e caranguejo, em terras lezíricas touros e carneiros, em zonas de estepe leões, nas zonas desertas escorpiões e virgens, e por aí fora. A ideia foi muito bem vendida e praticamente todos os partidos aderiram, ...

Moonfolk

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Margot era uma aquariana, guitarrista duma banda do chamado pop alternativo, mas onde o alternativo significava que alternava entre um estilo durutti column e um estilo arcade fire (um ex-namorado caranguejo era violinista), ou seja, como pura aquariana, tentava disfarçar a sua férrea vontade de tudo controlar sem que ninguém desse conta, com uma – totalmente planeada – pendular variação de estilos. Certo dia, um baterista capricórnio, de seu nome Henri, - mas um Capricórnio de fim de fase, a acenar a aquário - apresentou-se querendo integrar a banda, trazendo no seu curriculum dois solos num concerto de Beck em Birmingam. Margot, justificadamente à defesa – a forma aquarianamente mitigada de calculismo -, levou à consideração da nossa cartomante Miriam a hipótese de integração de Henri. Aliás, acabou mesmo por ficar conhecido como ‘A hipótese Henri’ o estudo que Miriam desenvolveu para analisar os processos de passagem de Capricórnio para Aquário. Miriam começou a lançar cartas numa s...

Moontalk

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Miriam era uma astróloga-cartomante especializada em Capricórnios. A especialização em determinados signos era uma tendência recente no mundo da astrologia e das cartomancias avulsas, tendo começado por ser, logicamente, olhada com bastante desconfiança, tanto mais que, para além disso, não parecia ser uma opção sensata ao reduzir dessa forma o espectro da clientela. No entanto Miriam apostava numa estratégia: toda a gente que se preze, e mesmo não preze, tem um problema real (fora os imaginados) e específico (fora os gerais) com um Capricórnio. Chegou a pensar também no caso dos Caranguejos, mas verificou que os exemplares deste signo, em muitos casos, são apenas incompreendidos e bastaria um pouco de paciência e finca-pé para se levarem as questões a bom porto, não sendo necessário entrar por vias que impliquem mais despesa com tal desígnio horoscopolar. Mas o caso dos Capricórnios era bem diferente, tanto mais que não poucas vezes assumiam uma combinação explosiva: teimosos (que nem...

Corn Flakes

A secção de gaffes do think tank de Sócrates reune de emergência este fim de semana a fim de discutir a política de gaffes para o exigente período eleitoral que se aproxima. Tendo perdido Pinho, o principal fornecedor de material de primeira, com o crescente apagamento de Lino e face à entrega da alma ao criador de Candal, o PS terá de encontrar sangue novo para renovar o seu capital de gaffes, não podendo deixar todo o orçamento entregue a José Lello e Ana Gomes. A gaffe assume crescentemente na política uma posição de relevo, e todos sabemos que muito do futuro se pode jogar numa gaffe certeira. O PS sabe o quão arriscado poderá ser deixar gaffes nas mãos de arrivistas, amadores, ou de meros curiosos em lapsos, ou mesmo biscateiros de calinadas. A fim de precisar os conceitos, hoje o dicionário não ilustrado , nas suas entradas nºs 1311 a 1314, dá um primeiro passo, que, sendo um pequeno passo para este blog, será um grande passo para todos vós. Gaffe – É o instrumento mais nobre da...

Nails R Us

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Uns dos recantos mais pitorescos da paisagística feminina são as unhas exuberantemente pintadas. Para além das evidentes funções para as quais a morfologia aponta, parece claro que as forças dirigentes da criação (leia-se Deus ou o pirilampo mágico evolucionista) destinaram a estas queratinizadas extremidades um papel singularmente decorativo. Algo a que a mulher chamou imediatamente um figo, e que, depois da orelhinha, se assumiu como o suporte mais procurado para as suas fantasias de cor e luz, e a tornam num autêntico fogo de artifício com pernas, deixando para trás muita passarada tropical, ou peixinho de águas quentes. No entanto, afigura-se-me que a pintura decorativa de unhas desempenha no universo feminino também uma dupla missão: ajuda a controlar o impulso exibicionista e a manipular a orientação do interesse masculino, que são, como sabemos, os dois calcanhares de Aquiles da feminilidade: gerir simultaneamente a auto-imagem, e o efeito dela em terceiros; a mulher é um puro s...