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E, afora este mudar-se cada dia,


Outra mudança faz de mor espanto:


Que não se muda já como soía.

Camões



Luna Park

Pode um desejo imenso / Arder no peito tanto, / […] / Que faz que leia mais do que vê escrito. - Camões, L. V., Ode VI
1st

«Canção, não digas mais; e se teus versos / à pena vêm pequenos, / não queiram de ti mais, que dirás menos.»

Luís Vaz de Camões, «Canção V», in Canções e Elegias
no frost guruism

(ou colectânea expresso de insubstantivos advérbios de moda. ou pastéis de massa tenra com manteiga e banha)

"Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e doi não sei porquê."

Que a blogosfera é um imenso 'intertexto' (antigamente chamava-se plágio à praga mas 'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades' como lá dizia o rapaz d'outras eras) todos quantos por aqui andam o sabem e o refraseamento, acuradamente contextualizado de acordo com as regras do pós-modernismo, dá lugar a um moderno cânone: mudam-se os nomes, mudam-se os autores (se bem que não seja próprio dar nas vistas).

O canonizador moderno e autorizado, naturalmente apoiado numa das abundantes e multiparadigmáticas cátedras disponíveis no mercado selectivamente aberto da glorificação inter-pares, é a versão no frost da arca congeladora que era a censura à antiga: por redução lapidar decide quem, como, o quê e porquê dar a conhecer a um povo faminto de letras e inculto de clássicos.

Que os critérios apresentados sejam meros anacronismos travestidos de parâmetros científicos (é sempre uma inefável emoção ver a sanha com que o recurso à proto-cientifização que é a quantificação se constitui fundamento inútil e muleta despropositada) não é coisa que espante senão burgueses: uma boa parte do que hoje se tem como referência clássica não teve, ao tempo, senão a mesma ou menor estima que a literatura 'light' (soit disant - recupero propositadamente a classificação da 'inteligentzia' nacional) tem nos nossos dias.

O canonizador moderno leu Calvino (*) e esforça-se por demonstrar generosamente a sua abertura: crê que vale a pena ler o 'inominável' "porque é melhor conhecê-lo do que não o conhecer". E, generosamente, procura a luminosidade onde sabe de antemão não a haver. E tem consciência, nauseante e histaminizada embora, de haver quem seja tocado pelas palavras de modo diverso do seu. E constata, com indisfarçável amargura mas inegável respeito, serem diferentes os conceitos de 'amado' e 'amável'.

Não que o canonizador moderno ignore estarem os leitores menos avisados na posse de um quadro conceptual dotado dos instrumentos intelectuais (e/ou afectivos) susceptíveis de consubstanciar uma heurística competente. Pelo contrário, não duvida em momento algum do conhecimento e da capacidade hermenêutica do leitor comum cuja empatia (o primeiro e mais básico dos níveis de aproximação à leitura) ameaçadora com palavras, expressões e ideias vulgares o horroriza.

O canonizador moderno sabe tudo, leu tudo, sobre o efeito da paixão, da dôr, dos sargos escalados, dos daiquiris, dos motores do Cheyenne, das anémonas da vaza ou dos rododendros envasados. E sabe como deveriam, com propriedade e probidade, ser descritas essas realidades. Sabe mas não escreve. Não o faz para não incorrer na vergonha do cliché (vem-lhe à memória, como espuma, resíduos incompletos e inexactos da lírica de Camões, por exemplo), no estafado da teia emocional de Pessanha, no paralelepípedo húmido da não-urbanidade de Cesário ou no desassossego polimórfico de Pessoa, que o traíriam como o caminhar de uma tairoca no polimento do chão da Culturgest ou o estertor do ressonar entre os ouropéis aveludados do S. Carlos.

Mas o canonizador moderno revela-se na sua qualidade didáctica (pedagógica será, possivelmente, um termo mais adequado) ao organizar antologias ao abrigo de um genuíno interesse pelos interesses (e não pelo conhecimento) do público a quem fornece uma adequada, e regra geral veementemente enquadrada, aproximação à 'sua' literatura. Muitas vezes a menos da distância de um dedo ao erro e ao obtuso e longe da distância exigível a uma atitude crítica. Perdoado, talvez, nas suas estratégias de leitura, pela complacência com que se revê em palavras como estas: "mas porque deverei preocupar-me quando há setas no ar, formadas pela antiga arte dos amantes, que vão direitas ao meu coração' (**)?

Nota de rodapé: este é um texto ficcional e, como mandam os cânones, repleto de intertextualidades. Da violação me acuso em (*) Calvino, I. (1994). Porquê Ler os Clássicos? Lisboa: Teorema e em (**) Sting (1987). «Straight to My Heart», in Nothing Like the Sun. Los Angeles: A&M Records.
É tudo uma questão de método. E duma insónia das boas, claro.

Depois de ver meio mundo rendido ao método George (que estará certamente para a crítica literária como o método Milton está para a esterilização de biberons) vejo-me compulsivamente levado a testá-lo face a um dos monumentos mais significantes do nosso património literário que é a lírica camoniana na sua versão sonetada, tanto mais que também o vejo arredado - tal como a até há pouco tempo injustiçada MRPinto – da corrente crítica literária ( senão vejamos há quanto tempo o mil folhas não faz a recensão dum soneto de Camões; meu Deus, nem o Abrupto)
Quero antes de tudo dizer que abracei este projecto com o coração limpo de quaisquer preconceitos e, diria mesmo, prenhe do afã de me encontrar com a verdadeira literatura, com a verdadeira força do génio. E foi assim que ataquei a caderneta dos sonetos tomado duma força quasi obsessiva que me fez ferozmente sublinhar, riscar, dobrar cantinhos, desenhar simbolos fálicos, marcar com pastilha elástica, flagelar, sentar-me em cima do livro com determinadas páginas abertas, deitar borras de café, enfim, tudo fiz para que nada me escapasse, e para que este texto não caísse na venalidade da displicência ou na capitalidade da preguiça, e pudesse mesmo, face ao líquido literaturino que o envolvia, tornar-se uma nova achega na senda do cânone do post literário perfeito.
Entre as várias hipóteses possíveis acabei por me decidir pelo texto camoniano fixado numa edição baratucha dos Sonetos da Europa-América (que por sinal apresentava uma dedicatória do ano de 1988, e que se não me chegasse a envergonhar de a transcrever aqui, pelo menos passaria a ter de tingir a carinha de preto sempre que saísse à rua) aliás, descobri mesmo que devo ter sonetos do camões para a troca suficientes para fazer alimentar aí umas duzentas campanhas eleitorais, ou casamentos de sto António, ou para patrocinar trezentos dias dos namorados ( swatch incluído)

Adiante.

Não será cá mão que me trema, nem Camões que me inibam, nem cá dedos que me fraquejem nesta tarefa.

(esta duas frases anteriores ao serem apresentadas de forma isolada enquadram-se numa lógica de aproximação ao paradigma minimalista)

Mas quero avisar também que "o texto que se segue é embaraçoso para o escritor e penoso para os leitores em geral"; Camões nos seus sonetos repete-se que nem um pivot da continuidade, apropria-se descaradamente de terminologia e mitologia clássica, tem óbvios deslizes de ortografia, despreza o livro de estilo do Público, e abusa daquela coisa de terminar as frases com o mesmo fonema, (alguns chamam rima a isto) retirando a credibilidade aos temas e vendendo-se assim por duas patacas ao efeito comercial fácil. A estereotipação da experiência amorosa é flagrante e o estilo é absolutamente repetitivo e monótono. O fenómeno Camões até me era simpático, pensava até que já me tinha ajudado a engatar uma miúda assim ali para os lados da Rua Santana à Lapa defronte a uma papelaria, mas agora confirmo que deve ter sido mesmo a força do meu beijar ardente que conduziu a tamanho arrebatamento já ali no cruzamento da Buenos Aires.

O «tema nuclear» de Camões é : ele há uma gaja, e ele há ele. E depois é choro, tormento, pouco pau de louro e ainda menos de fermento. Sexo nada, divórcios nada, partilhas de bens nada, sogras nada, putos aos berros nada, Mercedes com louras lá dentro, nada: este gajo não existiu, ou então viveu com a vista vendada.

Os vícios da escrita de Camões são mais que às mães e eu infelizmente não consegui os patrocínios para me poder aqui esplanar ao comprido devidamente ( a multiópticas roeu a corda à última hora e resolveu dar o patrocínio das armações o ‘tico e o teco’ a alguns blogs de actualidade política que fazem pandan uns com os outros) e por isso tive de ser bastante mais selectivo.

A prisão da rima é a primeira imagem que me salta imediatamente à vista. Por exemplo a terminação ‘mento’ é utilizada de forma quase exclusivamente enfadonha com o vocábulo ‘pensamento’ o que, apesar de ter um significado mais amplo na época, é duma pirronice sem limites. E das poucas vezes que falha, ou entra ao serviço o vocábulo ‘tormento’ ou, em casos mais desesperados o próprio ‘vento’ mais ou menos metaforicamente trabalhado. Escandalosamente pastosa é mesmo a repetição na utilização simultânea de ‘pensamento’ e ‘tormento’ , senão vejamos : «e gosto de um suave pensamento/ (…) escureceu-me o engenho co tormento» (soneto nº1) , «que mor glória na vida se oferece/ que ocupar-se em vós o pensamento?/toda a pena cruel, todo o tormento,/ em ver-vos, se não sente, mas esquece« (soneto nº6), «Onde mereci eu tal pensamento / (…) em glória se converte o meu tormento» (soneto nº10) , «ditosa aquela flama, que se atreve / apagar seus ardores e tormentos/(…) que queima corações e pensamentos» ( soneto nº50) , «chamam-lhe amor; mas eu lhe chamaria / discórdia e sem razão, guerra e tormento./ Enganou-se coo nome o pensamento» ( soneto nº56), «que pena pode ser tão certa e dura/que possa ser maior que meu tormento?/ ou como receará meu pensamento/ os males, se com eles mais se apura?» (soneto nº 58) e isto agora nunca mais acabava pois repete-se no nº66, nº 86, nº 96, nº 98, nº 138 e por aí afora que isto nem a escadaria do Bom Jesus. Mas alguma coisa poderia Camões ter em mente, algo de essencial relacionado com a alma humana poderia ele ter descoberto nalguma salada de orégãos enquanto lia o Petrarca. Há gajos assim. E alguns até com as quotas do Sporting em dia.

Seguimos imbuídos do método george-milton, “dir-me-ão que todos os escritores têm as suas obsessões. É verdade. Mas que dizer a isto” : «Eu cantarei de amor tão docemente» ( soneto nº2) , «Eu cantei já, e agora vou chorando» (soneto nº130) , «Cantava, mas já era ao som de ferros » ( no mesmo soneto nº 130), « Com grandes esperanças já cantei /(…) depois vim a chorar porque cantara» (soneto nº 167) e como se não bastasse « Suspiros inflamados, que cantais a tristeza com que eu vivi tão ledo;» ( soneto nº 55 ) onde a coisa já fica de tal forma, que sinceramente mais vale um gajo meter mesmo os papéis para a baixa e passar os dias a discutir as análises da próstata. A lírica camoniana desconhecia claramente o fenómeno da drenagem ( linfática ou outras) e os problemas de infecções que se podem dar no saco lacrimal.

Quando Camões “pensa nas relações homem/mulher” ( eu teria usado mais pudicamente o travessão, mas o método george-milton utilizou o traço oblíquo – querendo induzir talvez que o homem está por cima - e eu quero manter-me fiel a esta ortodoxia) utiliza uma fraseologia quase típica dos amores cromagnoneanos, género «pintada em mim se vê vossa figura» (soneto nº27) , «mas é tão doce vossa formosura/que fico hidrópico doente» (soneto nº27) ( foi mesmo este o grande momento de glória na história da literatura para a palavra ‘hidrópico’ ) , «nem por malícia de ar seja extinta/ a cor, que está teu fruto debuxando» (soneto nº 60) ( onde aparenta que o poeta não gostava de ver mãe e filha a rirem-se uma da outra, numa clara manifestação de pré-marialvismo encapotado) , e para não carregar demasiado este capítulo deixo-vos só esta nota: « Mas este puro afeito em mim se dana;/ que, como a grave pedra tem por arte / o centro desejar da Natureza, / assim o pensamento (pela parte / que vai tomar de mim, terrestre, humana ) /foi, Senhora, pedir esta baixeza» (soneto nº63) que traz a nu a tal ‘nuvem de testosterona’ que tão bem descortina o método george nos personagens de MRP e que aqui Camões é também incapaz de disfarçar face à sua vertigem erótico-abísmico-gravitacional.

E depois, claro, há esta “acumulação infindável” que o método george-milton-esplanar nunca deixa passar fora do seu barómetro particular: «por mostrar quem busca defensão/ contra esses belos olhos, que se engana» (soneto nº7) , «Quem vê, Senhora, claro e manifesto / o lindo ser de vossos olhos belos» ( soneto nº9) , « podem pôr medo a quem nenhum encerra,/ depois que viu os olhos tão formosos» ( soneto nº 12) , «vossos olhos, Senhora, que competem/ coo Sol em formosura e claridade» (soneto nº15) , «Olhos formosos, em quem quis Natura/ mostrar do seu poder altos sinais« (soneto nº 27), e então aqui é que a lírica oftalmológica nunca mais termina, mas eu não queria deixar de realçar um fenómeno caricato que consiste na dificuldade de Camões em pôr 'olhos' a rimar com qualquer coisa que seja de jeito que não este desengonçado do soneto nº29 «perderão toda a graça vossos olhos/ porque pouco aproveita, linda Dama, /que semeasse Amor em vós amores,/ se vossa condição abrolhos»; ora ‘abrolhos’, Santo Deus, Santo Cristo Cruxificado acrescentaria mesmo! Eu evitaria talvez a ambiguidade da palavra ‘folhos’, mas bolas, até a música popular arranja uns ‘alecrins aos molhos’, até a Simone d´Oliveira havia de arranjar maneira de cantar outra rima com dignidade ( por acaso no soneto nº 66 Camões põe aquilo em rimar com tudo: ele é olhos, abrolhos, molhos, antolhos, faltou piolhos mas no fundo também é preciso deixar espaço para os poetas mais recentes poderem brilhar)

Em relação ao chamado, na técnica george, “efeito de realidade” Camões usa o já estafado registo de ‘nada se passa em sítio conhecido’, aproveitando o efeito estético fácil do nenhures! Não há um restaurante, não há uma retrosaria, não há uma festa da Caras, não há um bar de alterne, não há um esquema num parque de estacionamento, apenas disto: «quando bela vista e doce riso/tomando estão meus olhos mantimento» (soneto nº2) , ou « Vivo, Senhora, só de contemplar-vos; e, pois esta alma tenho tão rendida» (soneto nº10) , ou «Se me pergunta alguém porque assim ando, /respondo que não sei; porém suspeito/ que só porque vos vi, minha senhora» (soneto nº25), e então esta: « Lindo e sutil trançado, que ficaste /em penhor do remédio que mereço, se só contigo, vendo-te, endoudeço, /que fora cos cabelos que apertaste» (soneto nº44) … mas isto passa-se aonde, caralho!!! Nem a indicação dum centro comercial, nem uma pista com o nome dum cabeleireiro, nada, isto é da maior futilidade atopográfica que se pode conceber. E, claro, “isto são apenas alguns exemplos, escolhidos criteriosamente para não cansar o leitor”, seguindo fielmente a ortodoxia do método george-milton.

“Por qualquer lado que se pegue nestes sonetos, o mais certo é tropeçarmos em expressões como”: «o fogo que na branda cera ardia/ vendo o rosto gentil que eu n’alma vejo» (soneto 50), no entanto, como as caixas de kompensan devem ter ficado encharcadas lá prós lados do rio Mecon, o rapaz toca de fertilizar o faduncho e atira-nos sucessivos « bem sei que neste estado nada vale,/ que, quem nasceu chorando, justo é/ que pague com chorar o que perdeu» (soneto 136) ou « na vida desamor somente vi, na morte a grande dor me ficou: parece que para isto só nasci» (soneto 153) e caminhando para Bingo: «Assim que nada perde quem perdida/ a esperança traz de sua glória, se esta vida há-de ser sempre em tormento» no soneto 156, o que demonstrou um saudável estado de espírito e um grande testemunho para deixar às sucessivas gerações de portugueses ( Jorge Coelho excluído)

“Podia falar disto e de muito mais, os exemplos queimam-me as mãos” (esta nota anatómica de carácter místico-estigmático é marca d’água do método georgiano) no entanto “desisto, desisto de Camões, mas ainda assim dou-lhe um conselho, dê-se muito feliz pela indiferença com que o método george até hoje o tem tratado”. E eu até teria publicado isto em fascículos, mas a insónia foi das grandes, e os gajos do Planeta Agostini, é o costume, à última hora decidiram-se por uma colecção de bonecas de cristal da Boémia vestidas pela Fátima Lopes.
Rattlesnaking

(em modo Playstation, usarei as teclas, pode continuar com o 'joystick')

Mundson: Gilda, é decente?
Gilda: Eu?
[longa pausa]
Gilda: Claro. Sou decente.
(*)

Expediente(s):

a) Erro seu, a ficha usb, e o acesso à respectiva porta, são as únicas escolhas genuínas de uma Eva-chip; ao invés nada se pode adiantar ou prever em relação à velocidade de processamento (confiar nas indicações mais ou menos mistificantes da rotulagem pode levar a logros danosos) pelo que a qualidade da compatibilidade dependerá da correlação positiva entre publicidade e desempenho. Existe no mercado 'software' susceptível de se tornar poderoso auxiliar nos casos mais rebeldes.

b) Imagem inovadora a sua da estatística como objecto propiciador de sensações físicas, cumprimento-o por ela. O meu silício preferirá sempre cócegas menos algébricas mas mais subtis, desenhadas pela imperfeita sabedoria das mãos.

c) Submissa, pergunto-lhe como me prefere: ofendida ou agradecida?

d) Ou, porque 'pagar é morrer', devo resistir a beijá-lo lenta e suavemente?

Constatações:

i) Thyllias é, obviamente, uma mulher. Negra. Não sei se jogou xadrez mas sei que venceu o 'chiaroscuro' até quando a vida fez batota com ela.

ii) Cházadas não sei o que possam ser, tisanas ainda vá desde que me poupe à alergia que me provoca a turvação proto-proustiana da de camomila pejada de migalhas palavrosas de madalenas fora d'época e de sentido.

iii) Para fechar, chá por chá: pode ser um Ice Tea Green com muito gelo, se faz favor?

Bifidismo final:

1) Neo era apenas um crente e pretensioso hacker nanómetrosexual. Desapontá-lo-ei se lhe confessar o meu reduzido interesse por essa personagem e, como Gilda, claramente preferir Farrell para me soltar o cabelo e desapertar o zipper do vestido?

2) Poucos homens serão capazes de me despentear o 'softwire' (e menos sucesso ainda terão os que me vierem com «you are a knock-out», a cantiga do bandido para a, desesperadamente em busca de deslumbramento, suburbana e doméstica Bonnie) a ponto de os transistores o registarem.

3) Afinal "nunca houve outra mulher como Gilda": uma ruiva sinuosa e exuberante, viperina e tórrida (a quem dificilmente se atreveriam a dar o papel de heroína de um romance negro que a tornasse uma coisinha assustadiça), que personifica o sonho cinematográfico do Adão-side de qualquer Eva-chip. Como disse Camões "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo." (**)

4) A mesma ruiva que, à moda do meu Bairro Alto (e não do Taiwan ou da Baixa da Banheira, descanse), lhe assentaria facilmente uma tacha nos cromados que o deixaria a arrotar Solarine por uma semana, se o senhor tivesse o desplante de lhe chamar gaja. Resta-me desejar-lhe, enquanto Neo suspenso do futuro, a oportunidade de se cruzar com uma Gilda em devido tempo.

Finale ultimo (oppure duetto a sotto voce):

"Tudo o que tem um início tem um fim" (***) e "ninguém tem de pedir desculpa porque ambos temos má reputação, não temos? Não é maravilhoso?" (*)

(*) Gilda (Charles Vidor, 1946)
(**) Os Lusíadas (Luís de Camões, Canto IX, 83)
(***) The Matrix Revolutions (Andy & Larry Wachowski, 2003)

( Da transgressão. Sei muito poucos poemas de cor. Um dos que sabia, era este do Camões: “Transforma-se o amador na cousa amada/Por virtude do muito imaginar/Não tenho logo mais que desejar/Pois em mim tenho a parte desejada”.Disse sabia, porque já não sei. Esqueci-o. Mantinha-o guardado para um momento especial, e quando o usei acho que estraguei tudo. A poesia deve ter um instinto matador nas minhas mãos. Desgraçamo-nos mutuamente, se calhar. Só que eu nem desconfiava disso. Estúpido. Nunca o li como um poema de amor. Sempre vi nele um formidável elogio poético à cumplicidade; reforço: à cumplicidade pura, cristalina, de fina, de filigranada prisão, forte, de siderúrgica fusão. Difícil de descobrir, difícil de sustentar, mas difícil de matar. É até das poucas coisas que sedenta e sacia ao mesmo tempo, e que tem o condão de colocar o desejo na redoma do encantamento. Onde nem a imaginação presta vassalagem ao pecado. Mas isto se calhar são só parvoíces minhas, mas são parvoíces das que doem. )
A neura de mão em mão

à deriva nas nervuras duma sina



O que diria um psicoterapeuta :

- está aí a desenvolver-se um mecanismo pré-depressivo



O que se diria no meio dumas cervejolas:

– Foda-se, sirvam mais uma caneca àquele gajo



Picasso diria:

- Tens de ver ao mesmo tempo as várias faces do problema



O que diria a revista xis:

- Reconcilia-te contigo e com o teu mundo



O que diria a mãezinha:

– Tu tens-te alimentado mal filho



O que diria Camões:

“Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê”




O que diria uma filha:

– Bem talvez não seja o melhor momento de lhe pedir para...



Ivan Gontcharov poria o seu Oblomov a dizer:

- Isto agora passava era com uma boa soneca



O que diria uma secretária:

– O Sr Dr quer que lhe vá buscar alguma coisa



O que diria uma gaja qualquer, num bar qualquer, num hotel qualquer, dum país qualquer :

- Então os negócios não lhe correram bem, deixe lá...Mas eu já cá o tinha visto com melhor cara...



O L. Wittgenstein diria:

- “Toda a dedução ocorre à priori” . As neuras podem cancelar-se mutuamente. Não fazem parte do mundo, mas são o limite do mundo.



Scolari diria:

- Uma pessoa está sempre em construção. Só no final seremos avaliados



Um advogado avesso a litigâncias e adorador de fees, entre duas audiências diria:

- Podemos tentar o acordo noutro dia



A mulher-a-dias diria:

- Eu hoje posso não aspirar no escritório...



O que diria F. Pessoa:

- Bem esse gajo disse tanta coisa, que atascava o servidor do Blogger



Jesus diria:

- Faça-se segundo a Tua vontade