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Entalhes Felizes. #6 A Providência

Era o dia da inauguração da exposição de Pierre Soulages. Muita excitação na sala. Ela andava sem eira nem beira; com um copo de martini na mão, só para ter as mãos ocupadas. Tinha saído dum grupo que falava de férias na Martinica e passara de raspão por um outro que falava da fotogenia de Leonardo de Caprio. Nada a satisfazia. Ainda só passara pelas pinturas ao de leve. Ele estava bloqueado num quadro das séries mais traçadas, mais ‘caligráficas’. Via-se que não arranjava a posição certa para ver os quadros, parecia que tinha até de fazer alguma ginástica para os apanhar. Dava um bocado nas vistas. Ela não resistiu e pôs-se ao lado dele. Sem saber porquê, poisou o copo e começou a imitar-lhe os gestos, as coreografias do corpo. Inesperadamente confirmou que certos quadros se viam melhor de esguelha. Ele reparou. Chamou-a. Abraçou-a. Inclinou-a. Pôs-lhe a mão entre as pernas. Levantou-lhe os pés do chão. E voaram só com o olhar. Dizia-se que pareceram anjos. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes #5 A Fortuna

A papelaria chamava-se ‘Sonho de Luz’ e estava a abrir. Era muito cedo e a sua clientela fixa ainda não começara a chegar. Ele foi o primeiro cliente. Vinha com um papel dobrado na mão com três números escritos. Abria-o e voltava a dobrá-lo. Intercalava com mordidelas de lábio cada vez mais prolongadas. Via-se que olhava para as capas das revistas e para os títulos sem os fixar, ou melhor, sabendo que não encontraria lá o que queria. Parecia preocupado, quase perdido. Mas também não encontrava tudo o que precisava naquele papel. Ela entrou pouco tempo depois. Dum envelope tirou um cartão. Mais números. Ela nem para os jornais olhava, mas a sua mão tremia enquanto segurava no cartão. O dono da papelaria estava atarefado e não dava conta, ia apenas pedindo-lhes delicadamente para não o atrapalharem no meio da loja. Encostaram-se os dois no balcão ao mesmo tempo, apoiando apenas os punhos e como que à espera que um raio lhes abanasse o corpo. Cada um com o seu berço de números na mão. A certa altura os papéis juntaram-se. Magnetismo na papelaria. E revelou-se uma série de 6 números. Já tudo fazia sentido. Chamaram rapidamente o dono da loja. Ele deu-lhes os parabéns e perguntou o que iriam fazer a tanto dinheiro. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes. #4 A Sina

Da tenda das farturas fumegava a nuvem com o melhor cheiro do mundo. Mas a feira estava ainda nas suas horas mortas. Numa roullote ao lado, onde a porcaria e a ferrugem eram rauchenberguinamente promovidas, prometiam-se leituras de mãos. Ela tinha acabado de se sentar junto da cigana quando Ele se começou a aproximar. Abrandou então progressivamente o passo, mas com a sua bomba cardíaca já ligada no máximo e o sonar em posição de combate; - «a menina hoje vai apaixonar-se», arrancou logo a cigana - o seu andar revelava a hesitação da alta espionagem, - «por um homem que nunca viu antes» - serpenteando entre os poucos e tímidos comedores de algodão doce fora d’horas, - «e não vai perceber porquê» - mas de repente o corpo autonomizou-se, - «nem vai conseguir resistir-lhe» - avançou movido a pólvora fresca, - «pela primeira e última vez na vida vai ter uma certeza absoluta» - com o olhar feito culatra, - «mas vai ser ele a agarrá-la» - e engatilhou-a. A cigana não teve tempo de passar recibo, nem de desejar felicidades. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes. #3 A Predestinação

A lavandaria chamava-se ‘Alfazema ao luar’, um nome romântico mas dalguma forma ridículo para uma lavandaria a seco. Ela esperava duas calças pretas, uma de linho e outra de algodão, e ele esperava duas calças cinzentas escuras de lã. Era uma espera que parecia mesmo pedir alguma impaciência, mas ambos se mostravam calmos e sem pressas. Nenhum bufava, nenhum tamborilava dedos no balcão, nenhum fingia ler mensagens no telemóvel, nenhum fingia fazer contas de cabeça, nenhum coçava nada que fosse para além do óbvio. As calças chegaram, foram entregues, e recepcionadas, com uma destreza mecânica e profissional. Encaminharam-se juntos para o elevador que levava ao estacionamento, mostrando apenas aquela proximidade que une dois seres do mesmo sistema solar e que controlam mutuamente as rotas de translação. Mas as calças estavam trocadas e repararam nisso em simultâneo. Previsivelmente dariam um sorriso, uma gargalhada até. Mas não. Fizeram apenas aquele levantar de sobrancelhas que ilustra o espanto e, como que tivessem ambos a chave de todas as decifrações, e já o soubessem de antemão, puseram tudo num mesmo saco, alugaram uma furgoneta e foram treinar pores-do-sol para uma praia de nudistas. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes. #2 A Coincidência

A música que arejava o ambiente parecia ser da Lisa Germano, mas na prateleira as mãos buscavam material mais electrónico. Ele vinha da letra L, tinha passado com calma pelo Lindstrom, arrepiou caminho depois pelos Lambshop sem parar, e agora parecia fazer uma pausa nos óbvios Knife. Ela, que partira da outra ponta, mais lenta, tinha olhado com a candura obrigatória para os Air, rira-se nos Arquitecture in Helsínquia, mas parecia torcer o nariz nos Atlas Sound. Os dedos indicadores de ambos acabaram por se encontrar num inesperado ‘The moon and the melodies’ dos Cocteau Twins & Harold Budd. Ele fez aquele gesto reflexivo e defensivo de empinamento dos dedos, mas ela pareceu não se incomodar. De repente os braços estavam cruzados. Ela espreitava um David Sylvian e ele não resistira aos Calexico. Deram o primeiro beijo mesmo em cima do Moon Pix da Cat Power. Pouco mais sei.

Entalhes Felizes. #1 O Acaso

Era uma daquelas esquinas que se dobravam com dificuldade: angulosa, na encruzilhada de duas zebras para peões, com uma loja de cafés dum lado e uma de produtos eléctricos do outro. Ela desfez-se apressadamente do táxi, cumpriu o ritual obrigatório de esticamento de saia e puxou pelos galões do perfume; ele saía da loja com um pacote de café, ‘moagem grossa’, ‘selecção da Colômbia’, e ainda o cheirava numa pose semi-religiosa. Os olhares chocaram antes dos odores, já se sabe que a velocidade da luz não tem concorrência, e a natureza tem destinado um pequeno sorriso especial para essas situações abençoadas. Foram unidos por uma súbita necessidade de comprar um ficha tripla. Saíram de mão dada. Pouco mais sei.