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Verso à Terça


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.


Manuel Bandeira in Estrela da Vida Inteira

verso à terça


Inversão no seu contrário.
Retorno sobre si próprio.
Recalcamento.
Sublimação.

Freud, in Triebe Und Triebschicksale


o que dito assim:


die Verkehrung ins Gegenteil.
die Wendung gegen die eigene Person.
die Verdrängung.
die Sublimierung.

bem que merecia também um acordo ortográfico. A inconsciomância praticada pelo Sigmund não se debruçou sobre estas novas grafobias e eu penso que ele teria algo a dizer sobre esta recusa à batida em retirada das consoantes mudas, dos hífenes e do caraças. O apelo à sua prevalência revela o descoberta duma nova pulsão que é a pulsão piegas. A pulsão piegas predispõe-nos à neurose da falta da consoante. Ficamos assim piegas, chorosos, tristonhos e não nos queremos separar delas. No fundo muitos de nós tínhamos transferido para todas aquelas consoantes e hífenes muito do nosso eu e agora ficámos apeados. Hoje sonhei que estava a ser picado por três catos e, não sei, mas acho que já não fui picado da mesma forma. Acordei triste, já nem Sublimierunguei nem nada, calcei os chinelos entre um Verkehrung e um Verdrängung, mas o café já não me soube da mesma forma. Mudam-se os lapsos mudam-se as vontades.

verso à terça


Per noi uomini
e per la nostra salvezza
discese dal cielo
e per opera dello Spirito Santo
si è incarnato nel seno della Vergine Maria
e si è fatto uomo.


in Credo, versão em italiano

verso à terça (*)

How I love to laugh when the crowd laughs
While love slips through
A theatre that is full
But oh baby
When the crowd goes home
And I turn in and I realize I'm alone
I can't believe
I had to sacrifice you

parte de poema cantado por Patti Smith a Janis Joplin , relatado em Just Kids, de Patti Smith

(*) hoje à quarta

verso à terça

Deito-me neste divã e o que vejo são nuvens.
Nem sempre brancas aliás,
amarelas, castanhas,
rosadas, por sorte,
como agora em Setembro, duas ou três escarlates,

principio a contar as nuvens amarelas
e as nuvens castanhas

se as amarelas forem em maior número que as castanhas
não reprovo este ano

duas amarelas e uma castanha.

António Lobo Antunes (semi-aldrabado) , in Não entres tão depressa nessa noite escura

verso à terça (*)

L’amour est un bouquet de violettes
L’amour est plus doux que ces fleurettes
Quand le bonheur en passant vous fait signe et s’arrête
Il faut lui prendre la main
Sans
attendre à demain,
L’amour est un bouquet de violettes
Ce soir, cueillons, cueillons ses fleurettes
Car au fond de mon âme
Il n’est qu’une femme
C’est toi qui seras toujours
Mon seul amour

Refrão duma Canção de Luis Mariano, ilustrada com um pormenor duma aguarela de E. Batarda (exposta neste momento em Serralves)

(*) hoje despachadinho já logo pela 2ª

verso à terça


Na profundidade da limpeza bate o coração das cores.

Neoblanc Gentil, in Cores VivasTodos os Dias

treta à terça

Só há duas atitudes esteticamente decentes a tomar em relação àquilo que não se percebe: ou se idolatra ou se escorraça. Este ano o nobel da literatura foi entregue a um caramelo sensível portador dum veículo de comunicação chamado 'sueco', algo que se mostra tão incapaz tanto para fazer relatos de bola (o verdadeiro teste a uma língua) como para engatar miúdas (inclusivamente as suecas, que, como se sabe, adoram pretos subsarianos por causa das línguas que utilizam e semióticas afins). Para além dessa deficiência, um indivíduo que se dá a conhecer por um nome a roçar o desenho animado americano, decidiu introduzir-se nos meandros da indescritível arte de juntar palavras simulando pequenos partos sem dor e que nalgumas culturas peripatéticas se convencionou chamar de poesia. Dessa escolha para a vida resultaram pequenas obras de marcenaria sem madeira denominadas poemas e que foram bastante apreciadas inclusivamente por gente que tem de profissão apreciar, designadamente os apreciadores, de tal forma que o referido prémio foi dado por todos e mais alguns como muito bem entregue. Possuído por aquele sentido de cidadania responsável que me caracteriza fui em busca da expressão poética impressa do supracitado sueco, e convencido fiquei quase logo à primeira com uma tradução para a língua de cervantes & casillas que o apresentava dotado d' «um equilíbrio controlado entre o fantástico e o exacto, entre a liberdade e a consciência lógica» que me deixou palpitante, mesmo tomando comprimidos diários para controlar a palpitação, registe-se. Insuflado já com o figurão que aqui viria fazer com o último verso do ano percorri com dedicação aquela versejaria já devidamente traduzida, calculando que o difícil seria escolher, e vendo-me já a fazer de domingos a olhar para o luxuoso banco de suplentes dos lagartos. Infelizmente, não contando com a tirada em que «cada pessoa é uma porta entreaberta /que leva a uma sala para todos», não fui epifanizado pela sua escrita e isso reflecte-se num grande vazio interior que agora me atormenta, algo digno dum poeta, note-se, e inclusivamente sinto uma piquena vertigem, espero agora que «a suave pendência se vá acentuando/ e imperceptivelmente se transforme em abismo», pois dizem os especialistas que é esse abismo que separa os poetas dos vendedores de electrodomésticos, inclusivamente (aí vão dois) vou lançar uma empresa de excursões para poetas ali à boca do inferno; refeições não incluídas porque a fominha também faz parte, e hoje em dia vê-se muito poeta com a barriguinha em dia. Mas eu estou benzinho, não se tranströrmem comigo e continuação de boas festas, extensivo à Sinead O'Connor.

verso à terça

Cedo ao rasto de restos que
me tenta até ti (...)

Posso
disturbar
o teu espaço? Entrar e ficar a ver?

(...) Procuro
com a precisão de poros a
mulher dentro da pedra.

(...) Desenrolas (...) o
novelo que te veste (...)
lavo-o até
ao teu cheiro até respirar de ti
o perfume verdadeiro.

[abandalhamento de: ]

João Luís Barreto Guimarães, no poema 'Imersão', em Rés-do-Chão

verso à terça

É apenas que este calor e este movimento são como
o movimento e o calor de uma mulher.

Não é que haja no ar alguma imagem,
Nem o fim nem o princípio de uma forma:

Há o vazio. Mas uma mulher em oiro puro
Queima-nos com o roçar do seu vestido

E uma dispersa abundância de ser,
Mais definida por aquilo que ela é -

Porque ela é desencarnada,
Transportando os cheiros dos campos estivais

Mostrando o taciturno e no entanto indiferente,
Invisivelmente nítido, o único amor.

Wallace Stevens, in The Auroras of Autumn (trad. de Maria Andresen de Sousa, para 'Antologia')

verso à terça

E muitas coisas
É preciso manter, como sobre
Os ombros o peso
Da Lenha. Mas os atalhos são
Adversos. Pois dissociados,
Como cavalos, avançam os unidos
Elementos e as antigas
Leis da Terra. E há uma ânsia
que sempre impele para o desregramento. Porém muito
É preciso manter. E a fidelidade urge.
Porém nem para a frente nem para trás queremos
Olhar. Deixamo-nos embalar, como
O barco que no mar baloiça.

F. Hölderlin, in Hinos Tardios (Trad. de Mª Teresa Dias Furtado)

Conversa à terça

A situação trágica grega é: o que deve ser será. Daqui o maravilhoso dos deuses, que fazem acontecer o que desejam; daqui, as normas mágicas, os tabus ou os destinos, que devem ser cumpridos; daqui, a catarse final, que é a aceitação do deve ser. (...)
O poético dos gregos é que esses destinos, tabus, normas, parecem arbitrários, inventados, mágicos. Talvez simbólicos.

Cesare Pavese in Ofício de Viver (trad. de Alfredo Amorim, entrada de 26 de Setembro de 1942)

bónus:

Estás só. Ter uma mulher que fala contigo não é nada. A única coisa que conta é o abraço dos corpos. Porquê, porque é que não o tens?
«Nunca o terás». Tudo se paga.

idem, entrada de 8 de Fevereiro de 1946

verso à terça

Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.

Henri Michaux, in Poteaux d'angle (trad. de Júlio Henriques, para 'O Retiro pelo Risco')

verso à terça (*)

No fundo da minh'alma há um terno segredo,
solitário, perdido e que jaz repousado;
mas às vezes meu peito ao teu vai respondendo,
todo a tremer de amor, vibrando desesp'rado

G. G. Byron , The Corsair (tradução de David Mourão-Ferreira)

(*) mas já quarta a fundo

verso à terça

Oh, bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

Camões, Luisvazde

verso à terça

Pastai então, povos mansos, pastai!
Não vos acorda o clamor da honra.
Os dons da liberdade a um rebanho
À matança ou tosquia destinado?
Vossa herança é, por todo o sempre,
O jugo de chocalhos e a aguilhada.

Aleksandr Puchkin, in Ermo semeador da Liberdade (Tradução de Nina e Filipe Guerra)

verso à terça

Depois de nós, não é certamente o dilúvio,
e tão pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima
no Reino da Justiça, com as suas quatro estações, será
temperado, de modo que um colérico, um melancólico,
um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos
de três meses cada.

Iosif Brodskii , in Paisagem com Inundação (tradução de Carlos Leite)

verso à terça

O mundo nunca está pronto
para o nascimento de uma criança


(Na urodziny dziecka
swiat nigdy nie jest gotowy)


Wistawa Szymborska , in Rozpoczeta Opowiesc, tradução de Lord James Google.

verso à terça

Pó cheira a raio de sol,
mel bravo à liberdade,
boca da moça à violeta,
e o ouro não cheira a nada.
A reseda cheira à água,
amor à maçã rescende,
mas agora já sabemos -
só o sangue cheira a sangue

Anna Akhmatova, in Resposta Tardia (1943, tradução de Nina e Filipe Guerra)

verso à terça (*)

Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes,
entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas

V. Maiakovski , in Escárnios (1916, tradução de Augusto de Campos)

(*) mas já a entrar pela quarta