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A mostrar mensagens de fevereiro, 2009

Desfazedor24

Em pleno arranque de Quaresma temos o povo da nação a falar sobre conas ao léu. Chama-se a isto pegar a abstinência pelos cornos. A conferência episcopal hesitará agora certamente entre uma carta apostólica sobre a celulite ou uma pastoral de emergência sobre os preliminares, enquanto a CGD aproveitará a onda lançando a ‘Conta Perna Aberta’ destinada a investidores em cimenteiras; a nova administração do Banco Privado, entretanto, já garantiu para a sua campanha de recolha de fundos uma tanguinha de Soraia Chaves beijada por Salazar. No cocktail quaresmal teremos pois o sexo e a banca de mão dada, e nunca a expressão ‘cinturinha apertada’ foi tão polissémica. Neste momento, nem a propósito, Marta Crawford entrou-me pela televisão adentro a falar sobre o 'orgasmo clitoriano'. Soa bem, parece o nome duma legião romana especializada em perseguir catecúmenos intumescidos num Domingo de Ramos. Penso até que se os certificados de aforro se começassem a chamar ‘Fundo de Intumescimento...

a vez da arte

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Matisse, H. (1938). Reclining Nude . Carvão s/ papel, 60.5 x 81.3 cm. MoMA: New York.

fado menor, maior (*)

Revejo tudo e redigo / Meu amor de toda a hora Minha amante, minha amiga / Amanhã, ontem, agora Revejo tudo e consigo / Um amor quase perfeito Eu já nem sei se é comigo / Se é contigo que me deito No linho deste meu corpo / Todo bordado d’espanto Um coração quase morto / Bate nos fados que canto Fado longe, fado perto / Fado distância de mim Que às vezes, é um deserto / Outras vezes um jardim Entre todos os meus fados / Só este fado de amor Nos junta, quando afastados / Sendo menor é maior (*) letra de Ary dos Santos; repertório de Carlos do Carmo
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E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía. Camões

Luna Park

Ausentes são os deuses mas presidem. Nós habitamos nessa Transparência ambígua, Seu pensamento emerge quando tudo De súbito se torna Solenemente exacto. O seu olhar ensina o nosso olhar: Nossa atenção ao mundo É o culto que pedem. Sophia de Mello Breyner, in Homenagem a Ricardo Reis

Na cama com o Estado

[1] A libertinização do casamento civil está para a organização da sociedade como a desregulamentação dos fundos de investimento esteve para os mercados financeiros: falta apenas saber quem irá fazer de madoff, de subprime e de colateral. Desde que fora da alçada da supérflua supervisão do Banco de Portugal, julgo que o casamento civil deveria passar para a vigilância duma alta autoridade reguladora dos costumes e boas práticas antropológicas, (juntamente com o uso dos galheteiros e a protecção da arriba fóssil, por exemplo) para se evitar uma futura nacionalização apressada, da qual resultaria, nefastamente, um dia todos ficarmos casados com o Estado, num grande e pangâmico casamento comum. [2] A sociedade precisa de mais tabus. Só o tabu nos consegue focar em coisas que podem realmente absorver – aliviando - energias negativas. O tabu é em bastantes casos preferível à paranóia, em primeiro lugar porque não dá tanto cabo do estômago, e depois porque dá azo ao desenvolvimento da ilusão...
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1ª imagem conhecida de Nª Senhora. Catacumba de Priscilla, Roma

Selecção on the rocks

Carlos Giveganho passou por ser um apanhador de bivalves algarvio que viveu há mais de duzentos anos na zona de Cabanas de Tavira, e que dedicou a sua vida entre a taxinomização de conchas e o aperfeiçoamento da técnica do mexilhão em vinagrete Não fora os apontamentos que escreveu num caderno comprado numa papelaria da Manta Rota, e ainda hoje seria impossível ter acesso à sua revolucionária teoria da Selecção da Rocha pelo Mexilhão. Aproveitando quase todas as marés vazias durante dois anos, Giveganho percorreu a costa algarvia no seu bote ‘Tabémabelha’ mais de quatrocentas vezes, estudando a forma como o mexilhão ia aperfeiçoando a maneira de se agarrar e ir fazendo dieta junto à rocha, sem se deixar lixar pela força ignóbil da ondulação, e dando a entender aos veraneantes que seria mais vantajoso irem comprar conquilhas na lota de Tavira. Aparentemente condenado à mera decoração de pratos de salada de gambas, ou ao preenchimento de meias doses aldrabadas de arroz de marisco, Carlos...

Tão

Em cada esquina te vais Em cada esquina te vejo (...) Tão perto de mim tão longe (...) Tão dentro de mim tão que (...) Tão longe de mim tão perto Ninguém assim por ninguém Manuel Alegre, in Balada de Lisboa

Luna Park

No diário de Sándor Marai (*), faz hoje precisamente 25 anos, ele citava este verso do poeta húngaro Babits: «Não é o cantor que pára a canção, é a canção que pára o cantor» (*) ‘ Diários 1984-1989’ , ediciones Salamandra, 2008

Luna Park

«o melhor é a ignorância ao quadrado , aquele saber que nunca se poderá saber», Pedro Paixão, na Radar, hoje, agora.

Já só tenho meia garrafa de Bourbon em casa.

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Se bem que ninguém me tenha perguntado, o vasto auditório ficou certamente curioso em relação aos métodos de Garibaldi Soveral. E eu, evidentemente, não tinha contado tudo o que sabia. Por vezes temos de mastigar bem a informação para não nos engasgarmos Soveral ficara marcado, e até mesmo fascinado, por uma descoberta: certas pessoas tornavam-se mesmo boas pessoas só por pensar que eram boas pessoas. Numa primeira fase julgou tratar-se apenas duma ramificação do mecanismo da dissonância cognitiva, mas rapidamente percebeu que as auto-avaliações morais tinham um potencial altamente ficcionável e, surpreendentemente, encaixavam sempre nos perfis de personalidade e de socialização que nem uma luva. Garibaldi sentiu-se como um espeleologista perdido que de repente tinha descoberto uma frecha de luz. (esta imagem é dele, apenas a replico sem quaisquer intenções de apropriação) A mente humana – lato senso – era afinal essencialmente uma história. Mas uma história com exigências de sentido ...

Luna Park

«Delegava as fadigas de governar em seis ou sete adeptos. Era estudioso da meditação e da paz: um harém de cento e catorze mulheres cegas tratava de aplacar as necessidades do seu corpo divino» Jorge Luis Borges, in ‘ História Universal da Infâmia’

História universal da insânia

Garibaldi Soveral vendia enriquecimentos biográfico-morais. Não se tratava de identidades falsas, nem álibis, nem sequer historietas de engate e muito menos currículos ou passados de aluguer. Garibaldi pura e simplesmente convencia as pessoas suas clientes de que eram boas pessoas. Fazia de vícios virtudes e de maçadoras debilidades autênticas fortalezas de carácter, e tudo sem recurso a químicos, nem manipulações hipnóticas da consciência, nem a varrimentos arqueológicos da infância. Apesar das suas fartas habilitações académicas foi expulso de todas as ordens profissionais que certificavam poderes sobre a psique, e impedido de anunciar publicamente os seus serviços depois duma série de providências cautelares pedidas pelas mais diversas igrejas, que começavam a temer a total desertificação de confessionários e demais assembleias de dizimistas. A técnica de Garibaldi, se lograr sintetizá-la, - jamais alcançá-la, nem mesmo compreendê-la - consistia em apresentar o bem como um êxtase, u...