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A mostrar mensagens de agosto, 2006
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Fazedor de rebanhos Pega-se, para começar-se, em meia dúzia a fazer de vítima, mais uns três ou quatro, parecidos mas diferentes, a fazer de mártires, e nunca esquecer, nesta altura, de juntar logo outros quatro a fazer de perseguidos com um no meio a fazer de ingénuo; logo de seguida coloquem-se, bem juntos, os que fazem de irónicos e os incompreendidos, e acrescente-se uma dupla de crédulos a emparelhar com outra de incrédulos; é o momento certo de introduzir os fartos de boa experiências e os a quem abunda a capacidade de compreender os outros; para terminar, aconselha-se uma fila de aureolados pelo mistério entremeados com os suficientemente esclarecidos; pontilhar eventualmente aqui e acolá com engraçadinhos ou irónicos, sem nunca esquecer os de memória espevitada -seja de formato curto ou comprido - e os de imaginação arrebitada; se houver tempo será sempre preferível arranjar ainda dois ou três originais combinados com outros tantos dos que nunca se deixam enganar. A fechar mesm...
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Contos com uma bossa nova mas sem camelos II Achavam que as suas opiniões políticas eram coisas muito íntimas e por isso dedicavam-se às questões do sexo. Nesse dia tinham ido para casa dela; entre um instrumental de ‘Tanto mar’ e umas revistas de viagens ela mostrava-se inesperadamente ansiosa. «Com músicas destas um homem nivela por cima e amolece as partes baixas» resmungava ele, ainda acrescentando, à procura de uma piada mais sofisticada «este gajo aqui lembra-me sempre a música do kusturica depois de tomar uma dose excessiva de relaxantes musculares». A chicobuarquização do sexo era algo que o aborrecia, o seu corpo não valorizava o charme e só reagia com a ivetesangalização das hormonas. E ela sabia-o. Mas ela também sabia que primeiro tinha de o arreliar um pouco. Há certos homens assim, precisam de se irritar um bocadinho para desenvolver depois. «Os homens são muito previsíveis», pensava ela, já sem dar demasiada importância (até há tipos que escrevem livros à conta disto). D...
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Contos com uma bossa nova mas sem camelos I Tinham como amigos comuns apenas as personagens secundárias de romances que não bestsellerizaram, os heróis esquecidos de epopeias mal resolvidas e os anjinhos anónimos e meio debotados dos quadros renascentistas. Amavam-se, mesmo, e acompanhavam-se mútua e gueixamente nesse mundo tão real como a música que ouviam juntos. Pintavam a quatro mãos, ao som de Toquinho em ‘Aguarela’ e inventavam cores só deles, sombreados só deles, curvas só deles. Tinham também um andar só deles - mistura de ronda de guarda fiscal com deambulação de frade em ruminação de vésperas – e gostavam de se perder para o treinarem melhor em ziguezagues devidamente disfarçados. Um dia cantaram juntos Caetano e as notas saíram-lhes tão puras que ‘com cinco ou seis rectas fizeram o castelo’ onde se beijariam no ‘silêncio da noite’ ‘juntando o antes, o agora e o depois’. Perceberam que quando Deus inventara o tempo dispensara-os das suas tormentas, dos seus enganos e deixava-...
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Conto de Beachbop & swinging days III Mas ainda estava guardado Charlie Parker para um Relaxin’ at Camarillo, a fazer jus ao nome e a preparar a pele para ‘funky blues’. Muitas vezes só vale mesmo a pena a música que se sabe deixar arrastar, que sabe ’ficar para aí’, como aqueles amores que não conseguem ser escritos porque envergonham as palavras, e vivem tanto das pausas como dos frenesins. Charlie Parker enervava-o, porque fazia o inesperado tornar-se previsível, como se o livre arbítrio fosse uma brincadeira para deuses com falta de animação. As coisas mais insípidas da vida são as surpresas e os crescendos em piano porque, ainda para mais, dão a ilusão de que o céu é o limite, quando, o limite somos nós. Quer estejamos organizados em estados, ou bandos ou pandilhas; ou seitas, ou quartetos de cordas. Quer o nosso desejo fosse apenas fugir para Cantaloupe Island enquanto a alma ficava à espera do seu ponto rebuçado. Se bem que, se bem que, todos temos um dia em que trocaríamos ...
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Conto de Beachbop & swinging days II Tinha sido com ‘Lush live’ que Chet lhe prestara o seu primeiro servicinho cupidiano. No entanto, apenas servira de aperitivo para um Sonny Rollins em ‘Decison’, onde, ao seu ouvido - também fraudulento – tudo lhe pareciam trompetes. De castigo, durante dois anos apenas se deu a ouvir guitarra, apenas lhe passou pelos ouvidos um envolvente e quente ‘west coast blues’, e não se sentia capaz do saxofone, nem de trocadilhos mais palavrosos . Quando voltou ao ‘Stopper’ do bom do Sonny sentiu que já não tinha o estômago preparado e teve de digerir muitos clarinetes antes de lá poder voltar de peito feito, que nem profeta em crise de terras prometidas. Chet fazia-lhe ainda mais falta agora que Benny Carter já não o surpreendia com ‘Angel eyes’. O próximo big bang, Deus vai fazê-lo ao som do Coleman Hawkins, e aí sim, body and soul ficarão definitivamente ligados, e S. João baptista vai comer gafanhotos para o Mississipi.
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Conto de Beachbop & swinging days Chet baker cantava qualquer coisa como «let’s get lost’ … in each other eyes… let’s tell the world we are in that crazy mood..» , com aquela voz a fugir para o efeminado, enquanto os miúdos lagartavam nas dunas; num riso que cruzava o cacarejar nas subidas e o uivar nas descidas mostravam um mundo que não existe. Nas fotografias antigas apenas a areia aparentava ser a mesma. O nome dos cremes ia mudando, reflectido um progresso de plástico em cima duma pele de estufa. Os feitios ora se arredondavam ora se lapidavam num processo de sobrevivência, meio de selva, meio de salão, mas os olhares já não conseguiam ficar pendurados numa surpresa qualquer, num disparate, numa inconveniência. Se não fosse o Chet Baker o mundo seria um mero duke ellington entremeado de Coltranes. Mas, se não fosse o cool, o tempo nunca mais teria voltado a ser afrodisíaco.
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Da curiosidade (dos 'contos' e da vida pelas cartas da Senhora Baronesa) Ter-se-á passado mais de um ano sobre o acaso da leitura de um post num blog cujo nome não retive - e de que apenas me recordo estar alojado no Wunderblogs - sobre a, para quem necessitar de classificações, chamada 'escrita feminina'. Numa recente passagem por alguns blogs novos - pelo menos para quem se fidelizou a uns raros três ou quatro, todos quase contemporâneos deste -, supostamente escritos por mulheres, vinha-me frequentemente à ideia a crítica mordaz lida nesse post . Crítica essa em que, se calhar não por acaso, a autora Clarice Lispector - de quem, de resto e mau grado o óbvio de uma escrita aforística em que se ensaia a intelectualização por transferência do território instintivo das vivências próprias ou alheias, aprecio algumas obras - era um dos alvos. O que li nesses blogs femininos encaixa - apesar da abissal diferença de Lispector, no que à qualidade da escrita se refere, em ...
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Conto sem assador Acordou mulher bomba. Vestiu-se à pressa e meteu qualquer coisa à boca. Sim, essa mesma boca que o tinha beijado horas antes. Correu para o autocarro, sentou-se a olhar pela janela para lado nenhum como tinha visto num filme e pôs-se a pensar na vida. Sim, essa vida que nunca tinha vivido. Não parou mais de dois segundos na mesma cena, passou pela infância que nem um foguete, fez a baixa adolescência num abrir e fechar de olhos, e nem perdeu tempo com a perca da virgindade. Sim, ela já tinha sido virgem. Encalhou no primeiro amor, como todos aliás, mesmo aqueles que nunca o tiveram. Sim, principalmente esses. Um ligeiro solavanco apanha-a numa discussão com o pai, subitamente sobe-lhe pela espinha uma saudade desse homem que o coração agora arquivava como referência. Sim, tinha coração de arquivista. Não se muda de flashbacks com facilidade e com a inevitável cabeça atirada para trás suspira uma contrariedade inesperada, vinda dum período confuso, tão cheia de homens ...