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A mostrar mensagens de outubro, 2006
Luna Park A barraca dos tirinhos (com dedicatória) “Eu acho que, se alguém abre as portas da sua casa às revistas cor-de-rosa ou à «imprensa de referência», mostra a filharada e as molduras douradas, a cama e a mesa, o pijama e a correspondência particular — está no seu direito, e há até uns vagos seres que vivem disso com aplauso do povo e lantejoulas na televisão. Mas se alguém decide reservar para a sua vida privada aquilo que é a sua vida estritamente privada, se alguém não está disposto a mostrar em público aquilo que é apenas seu, qualquer violação dessa intimidade é um crime — quer isso aconteça nas páginas de um jornal, no colorido de uma revista ou até na reserva impiedosa de um blog. […] O povoléu não quer apenas sangue e escândalo; quer também escândalo onde não há, para que possa alimentar a sua inveja e a sua própria natureza. A privacidade é o maior dos bens no universo público.” Francisco José Viegas, in “A Origem das Espécies“, 31 de Outubro de 2006
‘O mundo é portátil’ ‘Para quem não tem nada a esconder’. Canta Marisa Monte no seu ‘infinito particular’. Esta frase tem tanto de verdade como dizer que o bacalhau à Brás é um prato de batatas fritas palha. Primeiro, nós, pela natureza das coisas, escondemos tudo, porque essencialmente tudo se passa no nosso interior, e a transparência não é prerrogativa que nos encaixe ontologicamente. Mas, por outro lado, somos autênticas caixinhas de pandora com o fecho estragado, e deixamos sempre uma fraldinha de fora que nem gaiatos. Concluindo: esconder ou mostrar não são características que ajudem a definir-nos, já para não falar dos óbvios: escondemo-nos mostrando-nos, e mostramo-nos escondendo-nos. E tudo o que é portátil um dia acaba por fazer doer o braço. Bom bom é um ‘mundo’ rebelde, mas que no final do dia, quando a tarde ‘já não é senão melancolia’, nos venha sussurrar ao ouvido que se sente bem connosco, mesmo que o coração esteja retido na clareira dum fogo posto.
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‘glory box’
Pinturas morais (ou, pomposamente, apontamentos avulsos para uma história da consciência - agora que se descobriu que ela é mais intocável que uma virilha consagrada) Foi recentemente descoberta o que se julga ser a verdadeira consciência do homem de Neandertal. Vinha embrulhada em folhinhas de palmeira polvilhadas com caganitas de albatroz e um bocadinho desbastada, por causa, certamente, dum acto sexual mal conseguido ou mesmo rechaçado, que teria levado a espécime a arrastar com a carola pelas paredes rugosas da caverna por mais de duas luas cheias. Os testes com o carbono 7238 trouxeram à epiderme científica não só a datação do primeiro problema moral, que aparentou estar relacionado com a criação duma ‘zona de não mascadores de folha de urze de Madagáscar’, como, surpreendentemente, o momento do primeiro remorso (da dita consciência): quando se sentiu responsável (não culpada, porque a ‘culpa’ aparentemente só foi descoberta anos mais tarde quando um tal de Moisés andou a brincar ...
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telepathy
‘Cash against documents’ Pensava ele. Ele pensava que se pagasse antecipadamente, e tudo direitinho, sem notas marcadas, haveria de ser bem servido – e haveriam de gostar mais dele. Fiava-se naquela conversa fiada de que não há almoços grátis – não alcançava que tudo nos é, no limite, absurdamente gratuito - e gostava de se mostrar arrogante, senhor de si, na hora de pagar; por isso pagava sempre antes, obstinadamente antes, imolando-se no culto da antecipação (tinham-lhe dito isso, sem que ele o tivesse compreendido). Sentia que a dívida, por mais ténue e escrupulosa que fosse, lhe sujava as mãos, e vivia de beiços lambidos nesse provincianismo financeiro de boas contas. Um dia disseram-lhe «se me pagas antes não tenho vontade de te vender nada». Pensou que era uma artimanha para lhe levarem mais dinheiro, um bluff de cartilha. Riu-se, e anuiu com aquela condescendência que pretende demonstrar situação controlada & segurança ilimitada. Mas passaram-lhe a perna e ele não sentiu nad...
‘A culpa é da vontade’ ‘Que vive dentro de mim’(*) Esta coisa do querer e não poder, com ‘p’, é um dos encantos da nossa sinuosa passeata sobre as planícies e os penhascos da Criação. O desejo é um constituinte elementar da nossa natureza, (a par das úlceras de estômago e da sinusite nos dias melhores, das vertigens de fim do mundo e ser enrabado por lampiões, nos dias piores) e o quadrado mágico dos seus adjacentes - realização, frustração, repressão e alienação – contém as flores que o adornam. Hoje falarei sumariamente da realização do desejo. Trata-se muitas vezes de algo semelhante a começarmos a pensar no nosso avozinho que nos levava à bola, ensinava a pescar, dava 2 m’reis para as castanhas e contava as histórias do David Crockett e acabarmos a eleger o Guterres para 1º ministro. Realizar um desejo é básica, ontológica e dialecticamente fodermos, com ‘f’, um sonho, corromper uma memória, trocarmos uma festa no cabelo por um toalhete húmido. O grande problema é que, enquanto o d...
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la dolce vita
interrupção involuntária da sensatez.
E quem não salta é lampião P. Arroja, o ‘eles falam falam’ da blogosfera política, e que ‘voltou’ como uma espécie de kit mãos livres da opinião liberal, chegou-se à frente, sprayou com a laca de belo efeito ondulação permanente e acenou com o abano refrescante do ‘big brother liberal’ (infelizmente não tem fornecido sevilhanas). O chamado liberal moderno (ou antigo, mas pintado com cores mais folclóricas), e praticamente científico e teológico, tem uma característica peculiar: é ele que autodefine o que é absoluto e o que é relativo. Mas, aqui, P. Arroja foi mais à frente e alargou, refinando simultaneamente, o rol das definições: o que é de moral e o que não é, no fundo, o que se resolve por si (ou, leia-se, o que ele não sabe resolver) e o que precisa de intervenção dele (ou, leia-se, o que os outros não sabem resolver). O liberalismo ‘filosófico’ assenta numa sonsice intelectual, e também ela sofismática: ‘não existe uma avaliação absoluta das coisas desde que cada um as possa medi...
Miss Diore & Miss Sheisedo Onde está um taco e umas bolas nem sempre estão três tabelas disponíveis para os servirem. Miss Diore – Sabes querida, há por aí quem nos queira comparar… Miss Sheisedo – Nem estou a ver o que possamos ter a ver uma com a outra.. Miss Diore – Talvez o facto de não haver homem que nos ligue mais do que aqueles 3 minutos que a curiosidade leva a tomar fervura no tachinho da concupiscência. Miss Sheisedo – Credo, que palavreado; em ti eles olham para o vértice inferior, compreendo-os, mas comigo sinto-os a reterem-se em tudo aquilo que eu sou e os inspira. Miss Diore – Minha linda, tens-te numa conta que quase estás a descrever o cruzamento entre uma estrela de Hollywood com uma personagem bíblica. Não tens aquela coisa com pêlos à volta que liga a tua vida interior ao mundo, ou besunta-la com pão ralado como quem disfarça bofe um panado? Miss Sheisedo – Estás focando nesse interstício da feminiloide – até me fazes gerundiar, credo – porque só sa...
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turn around, please
fdp’s Terminarei hoje este tríptico inicial sobre os Factores Decisivos de Progresso e logo com um dos mais propícios a engalanar a prosápia: ‘a iluminação e a obstinação’ dos seres predestinados. Mas eis que estava já a preparar-me para afiar a serrilha das analogias, qual brincos pingados de filigrana reflectindo arco-íris na feira das vaidades, quando leio isto: «(…) Em Sófocles é através desta recusa em aceitar as limitações humanas que a humanidade alcança a sua grandeza. É uma grandeza conseguida não pela ajuda e incentivo dos deuses, mas pela fidelidade do herói à sua natureza posta à prova, sofrendo e morrendo; é então um triunfo puramente humano, mas que os deuses, a seu tempo, reconhecem e com que eles, certamente, à sua maneira misteriosa e distante, rejubilam» (*). Pessoal , isto caiu-me mais fundo do que estava à espera, ainda tentei desanuviar insultando metodicamente aquele rapaz vestido de encarnado que andava a dar festinhas ao cabelo do João Moutinho e a mandar o Quar...
fdp Outro dos mais importantes Factores Decisivos do Progresso é o ‘abuso de confiança’. Trata-se dum fenómeno de razoável alcance, desde o palavreado jurídico a pavonear-se nas intricadas relações entre o ordenamento legal e o social , até à bancada da fruta onde a freguesa gosta de atestar da consistência dum melão que ainda não é dela, e ilustra um mundo que se foi construindo a pisar riscos, a sacar braços quando só nos ofereciam a mão, e a coçar até à ferida onde só se passaria uma comichão. Conseguindo colocar a consciência própria e a alheia na mesmo tacho em que se cozinha o interesse e a vontade (condimentada por um desejo que gosta de não saber explicar), o homem, entre o peito feito e o rabo a abanar, foi conquistando prerrogativas a um Deus que apenas conhece por interposta criação – e que transforma constantemente numa ‘jangada de pedra’. A existência sempre foi uma combinação entre o atrevimento e a incerteza, o colapso e a palpitação, com a confiança a servir de ponte e ...
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round&round&round
Pago com duas de excitação por uma de monotonia Dizem-me que ‘os elásticos também pasmam’, como que me avisando de que todas as resiliências podem derivar em grandes pasmaceiras. Mas, as cordas, se não forem periodicamente esticadas, um dia apenas servirão para nos enforcarmos nelas, ou para chicote nos momentos mais imaginativos. Cada um devia ter direito também a uma autoridade reguladora, para que soubéssemos fazer os nós sempre nos sítios certos, confinarmos o comprimento pasmado e controlar a tensão. Mas o problema está nos nós e não na elasticidade da corda. Abençoados os que sabem fazer lacinhos e tocar harpa.
fdp O estudo dos Factores Decisivos do Progresso sempre foi algo que me apaixonou e me fez perder a cabeça, desde a observação dos raios laser, ou do atum em conserva, ou mesmo o funcionamento do enclave de neurónios situado a noroeste do bolbo raquidiano. Penso, contudo, que um dos fdp que tem sido continuamente desvalorizado e mal catalogado, é o caso do ‘abuso da posição dominante’. Quer estejamos no ambiente das teorias do mercado e da concorrência, ou do sexo, ou da astronomia, este conceito é duma riqueza que tem andado em desbaratamento sucessivo. O que seria dum planeta sem a sua lua, o que seria o canto do galo sem o seu poleiro, como seria uma noite de sexo grátis e empolgante sem a devida preparação através dum pacote de sms sem taxa de adesão; acrescentaria mesmo, ao arrepio de algum rigor científico: o que seria dum caranguejo sem um ascendente de escorpião. Para já isto deve servir-nos para um enunciado simples: num sistema equilibrado de dominação a eficácia depende esse...
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senso
Psicanalismo polirecreativo Parece-me ser de elementar justiça relembrar que o ‘Feio’ oferece maiores aberturas estéticas que o ‘Belo’. Darwin a olhar 5 minutos para a cabeça duma minhoca alcançaria mais rapidamente o âmago do universo do que Einstein a olhar duas horas para as curvas da Mónica Belluci, já para não falar do mais gratificante uso que a Maria de Lurdes Modesto faria a umas caras de bacalhau demolhadas num alguidar em detrimento dumas sardinhas saltitantes na lota. E então se considerarmos que Freud tricotaria o inconsciente dum psicótico duma forma que deixaria envergonhado qualquer confessionário de maters lacrimosas y sus bambinos, e que esculpir Apolos e pintar tectos de Capelas Sistinas só nos pode fazer apanhar alguma tendinite, eu não hesitaria em concluir que o futuro do mundo só pode estar mesmo nas mãos de conservadores barrigudos, de punhos decorados a borrão de pelikan, semi-ébrios, excêntricos, a cheirar a charuto da republica dominicana, pingando botox neuro...
Metaphysical Secret As zonas íntimas do ser sempre funcionaram como estimulante aos vendedores de afrodisíacos do pensamento. Ora mais ostra, ora mais pau de Cabinda, o ser apresentou-se à humanidade tão despido como os pombinhos do Génesis, mas mais descarado que uma polpa de cicciolina. Viciado na haute-couture desde os primeiros tempos, foi sempre tentado a usar trapinhos feitos à medida: desde o rendilhado mais atrevido da substância, procurando airosamente separar o essencial do acidental, até à Lycra dialéctica do acto e da potência, que lhe permitiram ajustar-se ao bamboleamento e torná-lo mais atractivo, passando pelo invitável corpete da não contradição que sempre o ajudou a manter a ilusão duma cinturinha ao abrigo da flacidez fenomenológica. Ou seja, desde que Mary Parménides Quant o apresentou ao mundo de mini-saia que o ser nunca mais foi uma pouca-vergonha, e nem a burka escolástica, nem o kimono heideggariano, nem o wonderbra desconstrutivista conseguiram empalidecer o f...
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