Mas a pêra rocha pode ter razões para se queixar. Julgo que uma das minhas ‘vocações’ perdidas deve ser a de diletante teológico. Algo ali entre a devoção mística aldrabada e a heresia descomprometida, e que consiste em falar sobre a natureza de Deus sem ter a mais pequena preocupação em acertar. Mas como, e à semelhança de 99,9% dos degredados filhos de Eva, tive de arranjar algo mais decente para me sustentar, acabo por exercer esta ‘vocação’ de forma intermitente, sendo, por assim dizer, um teolabarista em regime de precariedade pois não consigo nenhum vinculo duradoiro com qualquer dogma com credenciais, sendo certo, contudo, que a precariedade é uma condição bem ajustada no que diz respeito ao conhecimento, se não mesmo à convivência, com Deus. O abstraccionismo teológico (tal como alguma literatura, as pinturas do mestres flamengos, os pistachos do lidl, e acompanhar os filhos a andar de patins em linha) é, antes de mais, uma verdadeira vacina contra o vão deslumbramento que as c...
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A mostrar mensagens de abril, 2008
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Strudel free Três maçãs povoam miticamente a mente do ocidental médio com ou sem prepúcio desbastado. Tratam-se, por ordem cronológica, da clássica com que Eva mais a sua amiga serpente tentaram Adão, de uma outra que Guilherme Tell, com a sua besta, teve de trespassar depois de colocada em cima da carola do filho e, finalmente, a que caiu na moleirinha de Newton e o inspirou a desvendar-nos com que forças se tece o universo e paraísos fiscais adjacentes. (deixo de fora a big apple e outra marca de computadores e telemóveis por falta de verba neste post) Desde a revolução francesa que se procura uma fruta para destronar esta polpa iconoclástica da maçã, mas, tirando os morangos com a Kim Basinger, nenhuma se conseguiu impor com tanta abrangência de semiótica, inconscientes e miudezas afins. Assim, cruzando os locais míticos da moral, da nobreza de ideais e carácter, e do conhecimento, a maçã soube colocar-se nos lugares certos para ser a fruta eleita duma civilização e não deixar espaç...
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Miss Take Tinha ficado em segundo. Não passava dum concurso de poesia num grupo desportivo de Souselas, mas ele tinha ficado em segundo. Procurou desesperadamente as causas. Talvez ‘pélvico’ não tivesse caído bem nas provas da secção naturalista, talvez a rima de ‘suplício’ com ‘fenício’ parecesse forçada aos olhos do júri, tanto mais que o enredo poético se passava ali para os lados de montemor-o-velho. Talvez se tivesse baralhado na métrica ao contar pelo dedos, ele não sabia, nem nunca saberia, as razões, as combinações de razões, eram infindáveis. Se calhar apenas ‘falta de mundo’, como se costuma dizer, sentimentos apenas ouvidos, e nunca realmente experimentados, nem de raspão. Uma mãe insipidamente benevolente, um pai ausente, irmãos meramente invejosos, patrões perdidos nas cambiais, colegas bem casados, namoradas de foda clássica, vizinhas sem neuras nem taras, pão nunca amassado por diabos de primeira ordem, saberia lá ele. Ficara em segundo; isso sim. Num caralho dum concur...
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1ª Interparoquial Social-coninhas Correu em ambiente de exaltação a 1ª Interparoquial Social-coninhas, que congregou todos os social-coninhas na diáspora. O movimento social-coninha tinha-se desenvolvido em torno daqueles que se exilaram depois da grande purga ribauchevique e, motivado por fortes preocupações patrióticas, exigia que o social-coninhismo fosse devolvido às elites que realmente o merecessem. As bases social-coninhas haveriam de entender, pois, mesmo turvadas pela cortina obscurantista do populismo, eram filhas dum genuíno anseio de liberdade e justiça (se bem que não desdenhassem um bom frango na púcara). O reformismo socrático tinha adormecido a alma social-coninha portuguesa por uns tempos, mas, agora, quando o Cancioneiro (com ou sem Fernanda) deixasse de entreter, as forças do social-coninhismo teriam de estar preparadas para os seus Marats e Robespierres poderem decapitar em condições, cortando pelo picotado. Por falta de verba, as correntes proudhonistas e bakuninis...
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Poesia Deus, duas ou três luas novas antes do big bang, (antes deste sofisticado fenómeno pirotécnico era sempre lua nova) terá logo suspeitado que a rapaziada iria alimentar alguma tendência para complicar as coisas. Ainda houve ali uns momentos de vai-não vai, com a cena do Abraão, mas o tipo já estava velho e, ainda para mais sem nenhuma mulher tesa por perto, não foi capaz de pedir justificações, explicações, nem sequer varinar um bocado com Deus, perdendo-se assim uma oportunidade soberana para deixar esta cena toda mais esclarecida e simplificada. Depois é o que se tem visto, atraídos por uma merda chamada gravidade, vivemos agarradinhos a uma massa de ferro e silício e galileicamente às voltas duma bavaroise plasmosa, distraindo-nos com a realidade, que a uns dá para fazer poemas, a outros dá para foder tudo, a outros dá para fazer puzzles, e outros até desconfiam que ela exista mesmo. Ou seja, isto ficou mais em aberto do que a defesa do Sporting com o Gladstone, e deixou o sem...
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Guerras da Depuralina Dona Linhaça e as manas Farelas tinham acabado de sair do gabinete de Seu George da direcção geral de saúde com a informação de que tinham de fechar o estaminé em Depuralina Bay. E aqui estão elas em estado de varinagem. Dona Linhaça – Vocês são umas dondocas intriguistas, é o que é! Eu, com os meus serviços, ponho qualquer freguesa na linha passado uma semana, enquanto que vocês: é só paleio para depois venderem os cremes para as estrias. Dona Farela Trigo de Vasconcelos – Tu afugentas-nos é a clientela com hipotermias e cirroses, qualquer dia ainda dizem que causamos frigidez por tua causa. Dona Farela Aveia de Menezes – Mana, deixa-a que ela é uma invejosa, cola-se a nós só para aparecer nas revistas, mas pouco mais serve do que para polir móveis. Dona Linhaça – Ó minhas fareleiras de merda, sabem lá o que é ter uma vida de trabalho, subida a pulso, se não vos fermentassem bem não serviam nem para papo-seco. Dona Farela Trigo de Vasconcelos – Ora já me viu esta...