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A mostrar mensagens de julho, 2011
Ventris Tractatus
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Tratado de Pançalogia Na Inglaterra do entre guerras Colin Flissburg tornou-se conhecido pelas suas curiosas teorias de abordagem ao binómio corpo-personalidade. Não eram umas teorias quaisquer, mas não passaram à posteridade. Talvez alguma excentricidade não ajudasse, talvez a pouca clientela da altura não ajudasse, talvez a falta de sensibilidade aos temas não ajudasse, talvez os tempos em geral não o tivessem ajudado. Seria uma pena que nos dias de hoje, ao ter acesso privilegiado a elas, eu não as recuperasse, tal a sua actualidade e tal o carácter simultaneamente revolucionário e prático que elas encerram. Colin era um dependente das então famosas 'opalines' de Convent Garden, uns biscoitos deliciosos com sabor a alecrim com mostarda que tinham a peculiar propriedade de deixar criteriosamente colocados resíduos lípico-decorativos na zona abdominal. Colin decidiu então passar a observar barrigas, a classificá-las, e a estabelecer correlações com os comportamentos daque...
de girino a sapo parteiro
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Saraiva Gusmão era um sapo toleirão e Isabelinha Rebordosa uma libelinha caprichosa. Esta é a história dos dois, vinda do tempo em que os animais sabiam coisas. Saraiva, quando parecia ainda estar fresquinha a sua saída da girinidade, andava pelo charco distribuindo lampeduzadas. Isabelinha achou-lhe piada e deixou-se namorar num nenúfar recatado, defendido por uma cortina de juncos que lhe abafavam as gargalhadas. Riam juntos e em separado, mas namoravam mais de sonhos que de beiços. Cada dia que passava Saraiva parecia aos olhos de Isabelinha um sapo raro, tocado pelos espíritos do charco, e deixava de ser apenas o sapo brincalhão, mais se parecendo quase um sapo-da-guarda, um elfo da coaxada. Com o tempo Saraiva foi fazendo com que o charco parecesse a Isabelinha um mare nostrum, e ela deslizava por entre as nuvens, que se tornavam caravelas tais as preciosidades que ia descobrindo no seu saraivinha cor de oiro velho, uns verdadeiros tesouros babushcamente den...
L'homme a inventé le pouvoir des choses absentes (*)
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Pacheco Pereira está quase a conseguir passar aquele cabo que separa os tipos chatos e irritantes para o patamar das coisas fofinhas. Ainda passará intermitentemente pela tormenta das marés da excentricidade, arrastará sempre a sua flana de iluminado rezingão, alimentar-se-á do sistema e doutros ecteteras avulsos, mas acabará por flutuar pela casa da branca de neve de forma bastante decente, dando-nos até uma ou outra maçã de venenos subliminares para trincar. Como é ténue a fronteira entre a indiferença e a imunização o veneno deve ser bebido às golfadas. «os dias de hoje em que metade do mundo diz-nos que mesmo que façamos tudo o que devemos fazer ficamos na mesma situação do que não fazendo nada e a outra metade diz-nos que se fizermos tudo o que temos a fazer, talvez possamos fazer outra coisa, cuja não se sabe bem qual é» Foi sempre assim. Será sempre assim. E, geralmente, quem não está bem não se muda, arrasta-se; os mais activos, claro, os outros deixam-se arrastar. A caminho ...
Desmaker memória
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Por causa da morte de L. Freud repesco aqui um post do remoto mês de fevereiro de 2004. É um post banalíssimo, mas serve à causa. Flesh. Flesh. Flesh . Acabei por ficar com o Lucian Freud na cabeça. Por acaso acho que é um pintor que revela mais do que apenas a sua pintura. Sinto que acaba por ficar “ofuscado” pelo F. Bacon (com quem obviamente se influenciou e conviveu) e isso é algo que me atrai: alguém que fica ensombrado por outros que são mais fulgurantes, radicais, mais de “encher o olho”. A “nova” figuração na pintura “produziu” dos mais interessantes – fantásticos diria mesmo – artistas (Hooper foi até uma das primeiras “discussões” de que eu dei conta aqui na blogosfera doméstica). E L. Freud tem um percurso peculiar que vale a pena avaliar. Ele “parte” dum classicismo inicial (agora menos conhecido), fruto duma aprendizagem “tradicional” no estúdio dum retratista (Cedric Morris ), bem misturado com uma intensidade psicológica penetrante e suavemente desesperante (chegar...
Hamlect - minissérie
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ela - Olha, espermatozoide deixou de ter acento no ó. ele - Isso não abona na fertilidade nacional. ela - Achas que toca a todos? ele - Todos, como? ela - Se, por exemplo, tu ficarás menos fértil também? ele - Desde que a glândula se mantenha circunflexa acho que não haverá azar. ela - Mas a gaita-de-foles vai perder a força do tracinho. ele - Já me parece mais grave. ela - Nada que se compare com o desaparecimento do cê da erecção. ele - Esse já era esperado, o organismo teve tempo para se adaptar, incluindo na fase do jato. ela - E talvez na fase da retração já não se vá sentir tanto a falta. ele - Será tudo uma questão de expectativas ou expetativas. ela - Aí sim vai haver uma perda, penso. ele - Diz que diminuem as desilusões. ela - Tudo é suscetível de nos desiludir... ele - Até se calhar a própria susceptibilidade depois de perder o pê. ela - Sim, quando alguém perde certas susceptibilidades de estimação é sempre de desconfiar. ele - Acho que, pelo si...
Bonecas de Luxo
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Um dos mais radiosos e eloquentes sinais da nossa oficial decadência é que noutro dia a mena mónica deu uma entrevista pós-menopausica ao jornal de negócios e já ninguém ligou nenhuma. Mena Mónica foi-se transformando numa espécie de medina carreira da misandria e longe vão os tempos em que as suas alarvidades de largo espectro entusiasmavam ou irritavam hordas de desocupados. No entanto, há sempre uma réstia de compulsão interior que nos (me, vá) leva a ler merdas do calibre de «as mulheres também gostam de seduzir os homens mas não o fazem duma forma tão (...) pateta.», quando podia perfeitamente ter ocupado o tempo a comer um coelho na brasa duma tasca aqui pertinho, mesmo que não se vislumbrem gajas em condições num raio de 5 kilómetros, tirando uma que há atrasado vi num semáforo a comer um calipo e que vestia um filha-da-puta-dum-vestido justinho em tons que me lembravam a madre teresa de calcutá mas sem as partes madre nem calcutá. Dar audiência a mena mónica hoje significa ...
Pandovsky-Roudine uma história de vida.
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Preocupado com os índices daquilo a que chamava a Indiferença Idiota, Zbigniev Pandovsky decidiu escrever o seu primeiro tratado de Resignação Criativa que intitulou de 'Os Refúgios da Mente'. A primeira edição continha apenas 4 capítulos (Sexo, Plantas aromáticas, Competição e Metafísica) e foi apresentado publicamente numa sessão especial do '2º congresso de Teatro Experimental da Saxónia' realizado em Leipzig em meados dos anos 50. O sucesso foi inesperado - pelo evidente exotismo do tema - mas retumbante, o que levou a que Zbigniev acabasse por criar a disciplina de 'Serenos Suplícios' na Universidade de Hamburgo. As suas aulas eram muito frequentadas e rapidamente Alina Roudine, uma emigrante russa e filha natural dum cônsul francês em Omsk, se tornou sua discípula e apoiante indefectível e fiel. Zbigniev e Alina acabaram por casar numa boda discreta - se bem que devidamente patrocinada pelos deuses do alambique - em Estrasburgo e foi já conjuntamente qu...
Como é para a menina io
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Perdão, para a Senhora Dona Io ! Aqui vai: 1. Existe um livro que relerias várias vezes? Nem pensar, eu faço isso com alguns mas é só como quem come salgadinhos e aperitivos salteados...a Ana Karenina é o meu pistachiozinho, o livro do desassossego é uma fava salgada, e vá...quando tenho o estômago em bom estado ainda trinco e retrinco um ou outro caju do dostoievski. Acompanho sempre com uma pinga do pavese. Mas são meros expedientes para ir entretendo a boca, nada mais. 2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? São raros, raríssimos, os livros que leio até ao fim. Desde pequeno que me ensinaram que era feio rapar o prato. ( e também não tenho grande jeito para acabar nada - que também é a principal explicação da arrastada existência deste blog) 3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria? Se não ficar passado dos carretos lerei o Novo Testamento até ao fim dos meus dia...
O maravilhoso mundo dos jean-claudes
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Era uma vez um brinquedo, mas um brinquedo que, desta vez, fugiu à iniciativa monopolifágica das grandes multinacionais do sector e foi inventado por um tipo curioso de engenhocas: os buro-engenhocas da moeda única. Inventaram e foram de férias. Agora, quem está a tomar conta da linha de montagem são dois encarregados: junker & trichet. Ora estes encarregados têm um problema sui generis: ficaram com o brinquedo nas mãos e agora, em vez dum brinquedo único, cada cliente quer um à sua medida e, pior, como o produto foi anunciado com garantia vitalícia, quem tem um em casa avariado já se está a colocar ao balcão a exigir reparação à borla ou, os mais afoitos, até querem um novinho em folha. Os nossos junker & trichet como não bastasse têm outra cena marada: dado que os brinquedos andam sempre de mão em mão e as crianças muitas vezes desmancham-nos, e dum fazem meia dúzia, neste momento não sabem quantos brinquedos estão nas mãos dos meninos. Há até meninos, caprichosos ou...
sete vezes nove não é igual a nove vezes sete
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1. Quando G. se despediu de F. fê-lo duma forma displicente, sem carinhos ambíguos nem frases de charneira, foi um adeus de currículo, uma coisa para ficar. F. enterrou essa despedida num canto do seu jardim das rejeições estúpidas, um canto onde nem os cães mijavam descansados, mas onde as chuvas ensopavam, nunca deixando lugar para a merda secar. O clássico cada um foi à sua vida prega partidas várias e naquele caso estava de serviço um destino dos que espreita sem se fazer notar. O Grande Pêndulo parecia perro e quando voltou bateu com estrondo. G. e F. gaguejaram com as suas primeiras investidas, ambos se explicavam e nada parecia ter explicação. O novelo foi-se desfiando aos poucos, cada borboto no encalço do seguinte, mas experimentando palavras antes caladas no segredo do preconceito, e na dúvida que transporta sempre o excesso de certeza. Os sentimentos mais banais pareciam bombas voadoras apanhando o balanço do Grande Pêndulo. Conseguiram fazer duas ou três paragens do te...
golden chèvre
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(uma espécie de Dark side of the wool especial) O principal problema dos rebanhos não é o lobo, nem a ovelha negra, nem sequer o pastor negligente. Tal como o totalitarismo não é um problema da história, mas sim da antropologia, tal como a corrupção não é um problema da política mas sim da natureza e tal como a gula não é um problema do estômago mas sim da alma, o problema dos rebanhos começa quando algo se passa em torno do elemento que faz de cabra. A cabra tem péssima fama - julgo até que o próprio cabrão consegue atrair algum carinho - mas faz gala e uso disso. Geralmente uma cabra adquire prerrogativas especiais dentro do rebanho e gosta de se assumir como um joker do pasto, escolhendo os lobos a dedo e muitas vezes até querendo condicionar a hora da sesta do pastor ou o destino da tosquia. Mas há sempre uma altura em que a cabra se estica e as forças vivas do rebanho revoltam-se e convencem-se de que uma cabra, mesmo especial, não acrescenta nem apascenta nada de...
Junqueira
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O facto da chamada 'nossa dívida soberana' ter sido hoje classificada de Junk deveria consolar-nos, enternecer-nos, orgulhar-nos inclusive, e ser imediatamente aproveitado de forma inteligente, colocando a dita no local que lhe temos já há muito naturalmente destinado, ou seja, na Rua da Junqueira, ali perto vá, não sejamos picuinhas, precisamente no Museu de Arte Antiga. Assim, os nossos credores quando quisessem saber como ela estava, pagavam o bilhetinho e iam visitá-la nas salas do Museu. Teremos assim a primeira dívida soberana a ser elevada ao estatuto de património artístico. Poderá não ser um Taj Mahal, ou mesmo um tesoiro das mil e uma noites, mas será certamente inspiradora de grandes momentos de gratidão e saudade. Penso já na realização de algumas exposições temporárias da nossa 'Dívida da Junqueira'. Por exemplo, às primeiras quintas de cada mês mostrávamos a dívida que tinha servido para construir a Expo, aos fins de semana apresentávamos a dívida que tin...
Prestação de Serviços
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Junta-se Tabela de Preços referente à limpeza, ou simples ajeite, de arquivos de blogues visando a emancipação dos seus autores de opiniões eventualmente incomodativas para futuras incorporações em serviço público de salvação do país. - Introdução de itálicos ou eliminação de bolds [ 0,25 € por letra] - Colocação criteriosa de vírgulas [0,50 € cada] - Expurga de vírgulas a fim de tornar as frases mais ambíguas [0,75 € cada] - Colocação de advérbios de modo relativizantes [ 6, 25 € por cada grupo de 5 advérbios, excluindo 'alegadamente' em que o preço sobe para 8,25 € ] - Inclusão cirúrgica de termos que retirem assertividade: 'como', 'tal', 'género', 'quase', 'tipo' [10 € por cada grupo de 10] - Inclusão corrida das expressões de teor suavizante: 'parecido com', 'há quem diga que', 'ainda se poderia pensar que', 'más línguas ainda concluiriam que', 'não se fosse dar o caso de' [25 € por cada...
The dark side of the wool # n + k
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Quando a lã é escassa deve-se escolher se a culpa é da ansiedade da ovelha, do desleixo do pastor ou da cobiça do lobo. Também se pode dar o caso de ser do desleixo da ovelha, da cobiça do pastor e da ansiedade do lobo. Restaria concluir que os rebanhos perfeitos se fazem com a cobiça na ovelha, a ansiedade no pastor e o desleixo no lobo.
e agora, como já há governo (e mesmo sem bairrão, mantemos a bairrada) : sexo
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Num homem biologicamente normal (no sentido estatístico do termo) as suas maiores frustrações são sexuais. Ou seja, fodeu menos do que queria, fode menos do que pretende e antevê foder menos do que desejará. A austeridade sexual masculina é uma evidência civilizacional. É claro que estas frustrações vêm, para seu (do homem) equilíbrio e sanidade, sempre camufladas de outro tipo de frustrações (chamadas frustrações de mitigação) como sejam as sentimentais, ou as de realização profissional ou até as de pendor ético, em casos mais desesperados. Assumindo o teor sombriamente freudiano do acima enunciado, importa dizer que apenas um homem anormal (em todos os sentidos do termo) consegue admitir abertamente este facto, seja por razões de sociabilidade, convicção moral, ou apenas porque dá algum mau aspecto à sua imagem para terceiros, ou mesmo segundos. Por outro lado, as frustrações (em geral) são apenas uma pequena parcela da nossa vida psíquica e conheço muito pessoal que nem sequer ...