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Hamlect - minissérie


ela - Olha, espermatozoide deixou de ter acento no ó.

ele - Isso não abona na fertilidade nacional.

ela - Achas que toca a todos?

ele - Todos, como?

ela - Se, por exemplo, tu ficarás menos fértil também?

ele - Desde que a glândula se mantenha circunflexa acho que não haverá azar.

ela - Mas a gaita-de-foles vai perder a força do tracinho.

ele - Já me parece mais grave.

ela - Nada que se compare com o desaparecimento do cê da erecção.

ele - Esse já era esperado, o organismo teve tempo para se adaptar, incluindo na fase do jato.

ela - E talvez  na fase da retração já não se vá sentir tanto a falta.

ele - Será tudo uma questão de expectativas ou expetativas.

ela - Aí sim vai haver uma perda, penso.

ele - Diz que diminuem as desilusões.

ela - Tudo é suscetível de nos desiludir...

ele - Até se calhar a própria susceptibilidade depois de perder o pê.

ela - Sim, quando alguém perde certas susceptibilidades de estimação é sempre de desconfiar.

ele - Acho que, pelo sim pelo não, podemos ficar pelo tema do espermatozoide sem acento.

ela - És uma joia.

ele - É ótimo que o reconheças ao fim deste tempo todo, foi preciso ter perdido o acento também?

ela - Entre perder o pê ou perder o acento acho mais grave perder o acento porque pês há muitos.

ele - Sempre pensei que eu fosse a tua exceção de estimação...

ela - Estim'as melhoras.
O barril ultrapassou os dois libidos no mar do norte, mas há quem especule em édipos esterlinos. Sem complexos.

Aloísio Frias era um psicanalista da velha escolha e sempre tinha resistido às tentações de refreshing metodológico. No entanto, um dia sentiu necessidade de experimentar a libertação desse espartilho e lançou o serviço telefónico 'SOS Pulsão'. Encarou o momento com uma mistura de ansiedade e curiosidade mas nunca esperou ter logo no primeiro dia uma chamada que lhe haveria de mudar a carreira. Aloísio Frias quis que este seu novo processo mantivesse a atitude clássica e tinha definido exigir aos tele-im-pulsionados que se deitassem num cama confortável e olhassem para algo que lhes transmitisse serenidade e confiança. Depois de ter recebido a chamada enganada duma senhora que tinha uma tendinite há coisa de 35 anos, foi a vez de atender uma outra chamada…

Utente- O meu nome é José e acho que estou com uma pulsão.

Aloísio Frias – Em primeiro lugar, sr José, está confortável?

Utente José - Sim, mas tenho andado com sonhos esquisitos…

AF – Podemos começar por aí, conte-me lá então esses sonhos, se lhe convier.

Utente José – Só na última semana foram dois com a bruxa má, três com a madrasta da cinderela, dois com a madre Teresa a abrir um hospício no teatro da trindade, e um com o pai natal a fugir para Marrocos, para já não falar daquele em que eu fazia festinhas a um Santana Lopes insuflável ...

AF – Humm, e porque é que esses sonhos o perturbam?

Utente José – Acho que estou fodido, e que isto está a virar do eros para o tanatos.

AF – Acha-se portanto a entrar numa rota vertiginosa de destruição?...

Utente José – Acho que estou a perder o domínio sobre mim próprio… e a ser conduzido por forças que não controlo… o barril de petróleo, a euribor e até os gajos de barbas que também já lixaram o Menezes e o Soares.

AF – Sente que o perseguem mesmo, ou que apenas andam por aí…

Utente José – Acho que... me espreitam, é isso.

AF – Interessante; e consegue ver-lhes a cara, sentir-lhes o bafo, ou são apenas sombras, sensações, algo recôndito na marquise da sua consciência?..

Utente José – Neste momento é já algum cagaço técnico mesmo…

AF – E o medo é algo que o incomoda?...

Utente José – Sim, foda-se, prefiria peixinhos da horta, ou mesmo polvo à lagareiro.

AF – Humm, lembrou-se de comida… e logo só de peixe…

Utente José – Pois… então até os cabrões dos pescadores, que já ninguém sabia que existiam, se lembraram que são gente…

AF – Hélàs, isto é a força da associação livre a trabalhar no inconsciente!…

Utente José– Merda, não me diga que esses filhos da puta também se vão manifestar…

AF – Calma, isto são os valores da psicanálise, continue José… eu tenho o tempo todo e são só 0,60€ por minuto… podemos voltar aos sonhos.

Utente José – O mais intrigante de todos foi mesmo o da bruxa má que apareceu quando eu fazia de branca de neve e julgava que já controlava os anões todos.

AF – Todos?…

Utente José – Pois... o cabrãozito do Resmungão virou-se contra mim e foi conspirar para a mina… olhe dr Aloísio, apetece-me matá-lo com um daqueles corta papeis que servem para abrir os livros de poesia antigos…

AF – Muito bem José, deite tudo cá para fora…é a falar que se cura...

Utente José – Gosto da sua voz calma, o sr dr lembra-me um amigo meu que foi para a construção civil, para o Porto, ele abandonou-me, ele saberia dizer-me o que fazer, não sei, e acho agora que o dr Aloísio o pode substituir ..

AF – Calma José, esta ligação que começa a sentir por mim é algo normal, que acontece durante a terapia, continue a contar-me os seus sonhos… a fazer o seu encontro com as palavras...

Utente José – Hoje acordei com suores frios por causa dum sonho em que eu estava preso num sanatório e era uma mulher parecida com a margarete thatcher, mas em escanzelado, que me vinha dar um antibiotico alaranjado, mas que não era Bactrim, dizendo: «a partir de agora são três tomas, meu querido, o teu pulmão anda a fraquejar muito, e isso já lá não vai só com jogging». Não sei, dr Aloiso, eu por um lado fiquei à rasca, mas por outro lado ela lembra-me a minha mãe quando me dava umas sandes de paio com queijo de cabra que eu nunca mais comi em Lisboa.

AF – Bem sr José, vamos fazer assim, isto já vai para cima de 300 € e os gajos do concorrência agora andam com pouco que fazer e ainda me lixam com a acusação de estorsão pela forma utentada, e por outro lado já tenho outra chamada em linha, dum gajo chamado Ribau Esteves, que diz que já não sabe quem é o pai e a mãe, e antevejo um Édipo colorido, não posso perder. Agora então o meu amigo vai levar o cãozinho a fazer chichi, depois bebe uma camomilazinha com mel e depois, em princípio, vai sonhar comigo, com o Tony Carreira, com o Raul Meireles e com as bochechas da Manuela Moura Guedes e isso passa-lhe.
Guerras da Depuralina

Dona Linhaça e as manas Farelas tinham acabado de sair do gabinete de Seu George da direcção geral de saúde com a informação de que tinham de fechar o estaminé em Depuralina Bay. E aqui estão elas em estado de varinagem.

Dona Linhaça – Vocês são umas dondocas intriguistas, é o que é! Eu, com os meus serviços, ponho qualquer freguesa na linha passado uma semana, enquanto que vocês: é só paleio para depois venderem os cremes para as estrias.

Dona Farela Trigo de Vasconcelos – Tu afugentas-nos é a clientela com hipotermias e cirroses, qualquer dia ainda dizem que causamos frigidez por tua causa.

Dona Farela Aveia de Menezes – Mana, deixa-a que ela é uma invejosa, cola-se a nós só para aparecer nas revistas, mas pouco mais serve do que para polir móveis.

Dona Linhaça – Ó minhas fareleiras de merda, sabem lá o que é ter uma vida de trabalho, subida a pulso, se não vos fermentassem bem não serviam nem para papo-seco.

Dona Farela Trigo de Vasconcelos – Ora já me viu esta sopeira, mana, ainda agora saiu da esfregona e já acha que é vaporetto!?

Dona Linhaça – Queridas, fui eu, com a minha humildade, que revolucionei a indústria da queima de gorduras, vocês apenas dão aquela passageira sensação de enfartamento, estão para a beleza como o preliminar para a foda.

Dona Farela Aveia de Menezes – Enfartada estou eu de te aturar, minha ramelosa e fussangueira, na ânsia de ganhar o dinheiro todo duma vez já nos puseste nas bocas do mundo.

Dona Linhaça – Vocês é que precisam de estar sempre a aparecer, ó grandes farufas, mas, se não fosse eu, bem que vocês podiam abanar o corpinho todo que ninguém vos usava o farelo!

Dona Farela Trigo de Vasconcelos – E ainda somos obrigadas a ouvir isto, acho-te uma linhaça, nem tinhas onde cair morta se não te tivéssemos trazido para a depuralina!…

Dona Farela Aveia de Menezes – E mais, sem nós, ela, nem a Kate Moss emagrecia! Esta Linhaça, que não tem onde cair morta, mais depressa andava a besuntar preservativos.

Dona Linhaça – Sim, filhas, abanem o farelame, abanem, pode ser que enganem algum herbalife que ande à míngua…

Dona Farela Trigo de Vasconcelos – Ó mana, iutuba-me esta gaja, e manda-a para a asae para analisarem as imagens, pela tua rica saúde.
Ler com as 'vogais articuladas na parte de trás da boca para que o som destas seja trazido para diante'. Cuidado para não trrincar a língua.


Ângela (mas a Merkel, não a do cinematógrafo) queria fazer uma märquise nova na sua vivenda com vista para o lago Chiemsee e lembrou-se logo do seu amigo engenheiro José S. para lhe fazer o projecto. Vai daí telefona-lhe (ainda tinha a número desde a cena do referendo) e lá se entendem em alemão técnico:

Ângela – José, que bom ouvirrr-te, querrrrido. Ainda fazes aquelas märrrquises forrradas a azulejos com desenhos da casa de banho da mesquita de Marrraquexe?

José – Parrrra si tudo, Ângela, querrr perrfil em alumínio, ou em madeirrrrra?

Ângela – Eu de perrrfil também já não beneficio muito, olhe tanto faz, se lhe derrrrr mais jeito pode fazerrr mesmo de frrrente.

José – E diga-me querrrida, a sua frrrente está virrrada a sul, ou a poente?

Ângela – Olhe, José, deve estarrrr virrrrada a poente, porrrque à minha märrrrquise já ninguém lhe toca vai parrra uns anos bons

José – Não se menosprrreze, querrrida, ainda vai darrr perrrfeitamente parrra uma mesinha de bilharrr ou uns matrrraquilhos! Eu tenho um desenhadorrrr em vila pouca de aguiarrr que faz umas märrrquises que são um mimo, parrecem autênticas barrrronesas!

Ângela – Eu sabia! Quando o vi na prrrimeira vez vi logo que estava aí um homem com uma visão que trrransformarrria qualquerr märrrquise num palácio de crrristal!

Jose –Ai que me faz corrrarrr! Perrrguntam-me os meus assessorrres se querrr porrtinhas de corrrerr ou de abrrrir em parrr?

Ângela – Eu de abrrir em parrrr já me aflige muito na zona lombarrrr, mas de corrrer… não sei… tenho uma prrima na alta saxónia que ficou entalada nas calhas dum frresadorrr da bavierrra…

José – Ângela, não se meta com esses trrrapalhões, a melhor märrquise é a famosa märrrquise de Rapoula, na Guarrda, e um prrrojecto pelo qual eu me rresponsibilize, já sabe, fica à minha rresponsabilidade, nem as andorrrinhas lá vão cagarrr nem nada!

Ângela – José, estou ansiosa, mas não rape tudo! Até estou com pele de galinha, ter uma märrrquise prrrojectada porrr um dos grrandes da eurrropa! Serrrá que depois darrrá para estenderrrr uma rroupinha, ou plantar uns coentrros?...

José – Märrrquise que eu prrrojecte é incompatível com o efeito estufa! Querrrida, querrrias-me apanharrrr desprrrevenido! Malandrrrra!

Ângela – Hummm, uma märrrquise com aspirrrração! José, tu és o meu Bierderrmeierrzinho! Que arrrrepios na espinha! Quando a Eurrropa forr a märrrquise da China tu serrás a nossa salvação!
Castelo de S. Jorge +1

Depois da conquista de Lisboa aos mouros, Afonso Henriques e Martim Moniz tomam uma ginginha em Alfama, enquanto não aparece o Nunes, e como não havia gente suficiente que soubesse ler para fazerem um referendo, decidiram traçar eles mesmo o Plano Estruturado e Integrado de Desenvolvimento Orientado e Harmonização Estratégica Concertada e Ordenamento Sustentado Sintética e Articuladamente Mormentemente (peidohecossam), dado que dom Cravinho tinha ficado com o cavalo atolado e preso a uma estaca numa zona húmida ali para os lados de Alenquer.

Martim Moniz – este castelo já não está em condições e eu acabei entalado na porra da porta, tendo até estragado o melhor colete que me tinha sido debruado por uma freira de Salamanca em folga de clausura

D. Afonso Henriques – teremos então de escolher uma localização para o nosso próximo castelo, algo que imponha respeito aos cabrões dos monhés e os leve a entreterem-se lá para as terras da toblerónia

Martim Moniz – eu acho que devíamos antes optar por um centro comercial, uma coisa assim de raiz ali no sopé da serra de Monsanto e que também entretenha a judiaria

D. Afonso Henriques – Não sei se não deveríamos fazer primeiro um anexo para cachorros quentes ali em Cacilhas para nos protegermos dum contra-ataque mais demorado

M. M. – isso é ser de vistas curtas, Alteza, nas terras de sua mãe já pensam em fazer os jogos olímpicos, e não tarda fumam porco preto, enquanto a gente ainda assa castanhas

A.H. – temos de precaver o futuro dos nossos filhos, MM, lá porque tu te entalaste numa porta não podemos estoirar já o dinheiro todo da bolota em escadas rolantes quando ainda nos falta fazer um mosteiro na batalha e uma torre nos Clérigos.

MM – Acho que aquela zona de Monsanto merece algo assim de bonzinho desde que um cunhado do Viriato foi apanhado com uma pastora ao pé de Queijas atrás duma carrinha de coiratos

AH – Mas essa zona de sopé é ambientalmente muito sensível, e há quem diga que daqui a uns anos ainda vão aí chocar pintos, o melhor, se calhar, é fazermos umas catacumbas no terreiro do paço, e se as dedicarmos aos santos inocentes ainda saco uma bula ao Papa

MM – Se quer os favores dessa gente o melhor é fazer com que Nossa Senhora dê cá um saltinho

AH – Isto não está fácil porque não temos nenhuma pista de aterragem em condições e a Santa Senhora ainda se pode magoar

MM – Então, antes de tudo, devemos começar por aí, a nossa prioridade neste momento devia ser plantar azinheiras ao pé do Entroncamento

AH – Tu está-te a passar ó Martim, se a N Senhora escolhesse uma árvore para aterrar seria sempre numa macieira para nos libertar do castigo de Eva, ou então numa figueira para acabar com a maldição

MM – fodasse ó Afonso, alteza do caralho, tu queres ver que ainda acreditas nessa merda, aquilo do Génesis é simbólico, porra, parece que ainda não desmamaste da Urraca!

AH – É nos símbolos que se constrói a nossa identidade, mas pronto fica já aprovado: não embarcamos em simbólicas asneiras, vamos plantar azinheiras. Seremos uma nação protegida, não precisaremos de mais muralhas

MM – Eu acho que ainda nos vamos lixar, e se estivesse aqui o Cravinho ele fazia-te ver que estás a ser dominado pelos lobbies da sacristia. É na zona de Monsanto que está o verdadeiro eixo de 'desenvolvimento polinucleado'.

AH – Martim, que misturas é que andas a fazer com a ginjinha!? Nem sabes o que queres. Eu sempre disse que eles te tinham entalado qualquer coisa mais sensível, se calhar devias ir passar uma temporada às termas para descansares e amaciares a zona pélvica.

MM – Eu acho que as azinheiras são compatíveis com um centro comercial na encosta de Monsanto. De manhã o povo rezava, depois à tardinha comprava uns trapinhos e à noite ia à bola, e assim nós já podíamos ir treinar aos dardos no lombo dos beduínos sem nos chatearem.

AH – É pá, pareces um ditador obscurantista, a minha mente está focada em grandes desígnios: a fé e o progresso sustentado são desígnios nacionais e, depois de rezar, o povo deve ir todo fazer jogging para Monsanto.

MM – Não tarda voltam os mouros e eu quero ver como vai ser, enfiam-te os desígnios pelo cu acima e, em três tempos, põem a rainha a fazer dança do ventre para os gajos e a servir-lhes cházinho de menta.

AH – Então se calhar devíamos avançar já com uma guerra santa, o melhor é fazermos um mosteiro ali para os lados de alcântara, ou isso ou uma seca de bacalhau.

MM – Agora já o vejo a pensar em grande, Alteza, e isto com uns pastelinhos leva-se muito melhor, tem toda a razão.

AH – e ainda alugo os castelos aos chinocas, e, com jeito, passo a reforma em Cartagena com duas sherazades a contarem-me histórias

MM – Tudo bem Alteza, manter até ao fim a cabeça fria e a pila tesa, mas eu continuo a achar que isto ia bem era com um centro comercial, o povo ia vendo as montras…a nossa muralha mais forte é um povo bem entretido com uma boa padroeira.

AH – Então se calhar ainda construo uma padroeira dos descobrimentos, ou então uma padroeira de Aljubarrota, ou mesmo uma fundação ao pé de são Sebastião da padroeira…

MM – fodasse, isto está mas é por um triz, ainda acabamos em Badajoz para ter de parir um filho, e, não tarda, deixa de ser um país, e passa a ser um trocadilho
Nico & Tina

Nico – Querida, estás a tornar-te um vício para mim

Tina – Gosto de te saber dependente, dá-me uma sensação de poder

Nico – Eu sei, mas esta submissão também é algo que me excita

Tina – É pena que, com tanta restrição, agora não possamos estar sempre juntos

Nico – Mas o afastamento ainda me excita mais

Tina – Tu excitas-te com tudo, é o que vale

Nico – Não, só tenho pulmão para ti

Tina – Essa exclusividade tanto me serena como me cria ansiedade

Nico – Deves aprender a respirar fundo…

Tina – Gosto mais quando me flirtas sem filtro

Nico – Mas há algo que me desestabiliza….

Tina – Os velhos ciúmes, querem ver…

Nico – Sim, não suporto a presença irritante dos chocolatezinhos ou das pastelhinhas elásticas

Tina – Sabes bem que somos apenas amigos, nada mais significam

Nico – Desconfio de tudo o que venha embrulhado em papel às cores

Tina – És tão complicadinho e inseguro.

Nico – Desde que me andaram a medir o teor de alcatrão nunca mais fui o mesmo

Tina – mas, querido, tu ainda estás tão bem, acho que até estás cada vez melhor

Nico – Não tarda ainda me aromatizam e enfiam num cachimbo qualquer

Tina – Ah, queres ronron, já devia ter percebido

Nico – Acho que temos de ir para uma sala com exaustão…

Tina – … para uma verdadeira intimidade basta que exista em bom cinzeiro…

Nico – Cerâmica ou metal?

Tina – humm… já só sonho com aquele dia que seremos beatas e estaremos juntinhos…

Nico – …um isqueiro e uma cabana…

Tina – uma marca de batôn e uns dentes cerrados…

Nico – aboquilho-te toda…

Tina – livra que agora até parecias haxixe…

Nico – Não sei o que é que esse gajo tem a mais que eu.

Tina – Deixa lá, são cunhas. Ainda há-de chegar o teu dia, vais ver.
Diálogos da praceta mole

Acetila Salicílica – Tens a noção de que o sucesso é sempre uma combinação de tamanho com aspecto?

Benzodio Zepino - Catalogas por necessidade ou por capricho?

Acetila Salicílica - mero impulso telecomandado

Benzodio Zepino – a sofisticação dum inconsciente treinado?

Acetila Salicílica - não chega a ser inconsciente porque o mantenho de rédea curta

Benzodio Zepino – dominas por convicção ou acaso?

Acetila Salicílica - agora deste em fazer apenas perguntas?

Benzodio Zepino – foi a maneira que encontrei para que não adormecesses comigo

Acetila Salicílica - Confias tão pouco nas tuas capacidades intrínsecas?

Benzodio Zepino – não tenho nada de propriamente intrínseco

Acetila Salicílica - isso é alarmante: vampirizas, ou camaleonizas?

Benzodio Zepino – mais simples: apenas evito ser demasiado específico comigo próprio

Acetila Salicílica – Receio de que te comparem?

Benzodio Zepino - Não. Adoro ser comparado. Apenas receio que me comparem com a imagem que construíram de mim.

Acetila Salicílica – Mas provocas os outros constantemente procurando que se lembrem de passados irrepetíveis...

Benzodio Zepino – sou absolutamente incapaz de agarrar o presente...

Acetila Salicílica - ...isso é como ter uma motoserra na mão e usá-la para varrer o chão...

Benzodio Zepino – ... e tenho apenas pânico de que ele para ti seja somente uma passagem

Acetila Salicílica – preocupas-te demasiado com coisas que não dominas

Benzodio Zepino – chamam-lhe ansiedade

Acetila Salicílica – acho que inflamas demasiado a memória, e depois oscilas entre uma permanente insatisfação e uma obstipação da vontade

Benzodio Zepino – Apenas por vezes julgo ser-me impossível satisfazer-te totalmente - a ti; é isso, uma espécie de: estar-me vedado.

Acetila Salicílica – Devias pensar menos e actuar mais

Benzodio Zepino – combinas acidez com dureza: nunca te conhecerei; mas vou assumir que isso é giro – para me defender.

Acetila Salicílica – mesmo assim és mais presumido que assumido. Quem estava combinado fazer de defensiva era eu.

Benzodio Zepino – és uma falsa defensiva, sabes bem. Repara como começaste esta conversa.

Acetila Salicílica – quis apenas inflamar-te um pouco para depois poder actuar

Benzodio Zepino – sinto que esta praceta faz-me ficar assim - mas é - um pouco mole

Acetila Salicílica – nem tanto. Nem tanto. Mas agora cumpre a tua real função e adormece-me.


280607
Dona Portela Maizum e dona Alcocheta Maizena

Numa tarde soalheira a dona Alcocheta e a dona Portela foram passear à serra da Ota à cata dum tal de aquífero que lhes tinham dito era muito bom para esfregar nas costas por causa da espandilose, dos fungos subventrais e da má circulação.

Dona Alcocheta – Filha, talvez seja melhor pararmos numa sombrinha a ver se aparece algum avião com pernas e pêlos no peito

Dona Portela – Olha, eu lá para os meus lados cada vez mais embarco tudo o que aparece, mas tenho que começar a ser mais selectiva porque o meu cais já não dá vazão a tudo

Dona Alcocheta – Mas tu até há pouco tempo eras aquela miúda que dizias te caber sempre mais um na pista desde que viesse com hora marcada!?...

Dona Portela – Outros tempos, querida. Isto agora está é para miúdas como tu, que andaram a poupar-se nos campos de recuo de culatra e agora bem podem aguentar umas mangas mais avantajadas

Dona Alcocheta – Ah, mas isto do serviço completo não é para todos os mangas, também não penses!

Dona Portela – Não te sabia tão sofisticada e selectiva. Cobras à hora ou ao metro de pista?

Dona Alcocheta – Vou começar a trabalhar à base de fee’s fixos no check in e rappels no check out

Dona Portela – Modernaça. E o catering vai ser de bónus?

Dona Alcocheta – Não há aterragens grátis, já devias saber. Quem vier com velocidade a mais arrisca-se a ficar a fazer massagens no Poceirão.

Dona Portela – Convencida, tu já nem equacionas que, para ti, alguém vá com velocidade a menos…

Dona Alcocheta – Filha, comigo, ninguém se arrisca a ficar a bater hélices na segunda circular…

Dona Portela – ah tu és das que confias mais no efeito do jacto do que propriamente na propulsão…

Dona Alcocheta – Amor, eu deixo que descolem de qualquer sítio desde que não me exijam que lhes ajude a tomar balanço

Dona Portela – Uau. Que dominadora. E low costs, nada, certamente…

Dona Alcocheta – Bem, eu também tenho o meu lado de missionária. Por cada três jumbos dou serviço a um low cost desde que depois me dê uma esfoliaçãozinha às costas.

Dona Portela - És mesmo uma querida. E tens tarifas especiais para controladores?

Dona Alcocheta – Desde que não sejam muito possessivos; tenho um pacote de fim-de-semana: se me puserem aqueles pompons nos ouvidos até deixo que me façam loopings nas salinhas de espera.

Dona Portela – És tão moderna e completa que me deixas meio invejosa, meio confusa. A mim agora andam a tentar-me com o esquema do ‘mais um’, mas eu acho que sou moça para um homem de cada vez…

Dona Alcocheta – ó mulher, isso já lá vai! Então se não param de aumentar os pedidos de aterragem, também é de mau tom ir mandá-los aterrar para o campo, ou até com outras que não sejam tão asseadas, não achas?

Dona Portela – Pois, tens razão, e depois ainda o vão gastar todo nessas porcas das free shops…

Dona Alcocheta – Ai comigo não vai haver nada dessas coisas: nada de delayed’s e tudo nos boarding’s

Dona Portela – Olha filha, agora temos que regressar porque estão-me a avisar que estou a ficar com os boarding’s muito assados, perdão, atrasados.

Dona Alcocheta –Querida, fazes como eu: bezuntas com maizena, tapas poros com nestum, e depois até embarcam a saber a mel.


(220607)
Conversas de Massamá e Molhobom


She – Novas danças?

He – Não tenho jeito. O mais que alcanço são pequenas mudanças

She – Aforismo?

He – Trocadilho

She – Então se os filhos são cadilhos..

He – ...as palavras também têm direito a ser trocadilhos

She – Tiraste-me as palavras de boca

He – Estraguei-as portanto

She – Por tão pouco, adiantaria eu

He – Sou de fraco alcance

She – Antes isso que uma desfocagem

He – Posso considerar isso um pequeno elogio?

She – Por aproximação, apenas

He – Há gente que chega a ser feliz apenas por aproximação

She – São as melhores felicidades

He – Fel e cidade é também uma boa combinação

She – Por isso não sou uma mulher doce do campo

He – Uma strawberryfieldica woman?

She – Este já te saiu rebuscado de mais

He – Mas olha que busquei-o apenas uma vez e saiu-me à primeira

She – Os melhores amores não são os primeiros

He – Posso considerar isso uma palavra de esperança?

She – Quem espera nunca alcança

He – Voltamos à dança?

She – É a versão caseira do eterno retorno

He – Antes isso que entornar o caldo

She - Por vezes maças-me

He - Estica as pernas, relaxa, e depois faz uma esparguetada

She – E por vezes cansas-me

He – Um homem que não consiga cansar uma mulher não presta

She – O que conheces tu das mulheres?

He – O suficiente para que elas nunca me conheçam a mim

She – Não passas dum dissimulado, serei levada a concluir

He – Não és mulher de te deixar levar

She – Toda mulher espera pelo seu tapete voador e mágico.

He – Isso é quase romantismo. Estás em processo de conversão?

She – Gosto mais em prosa

He – Brincas com as palavras; estás a usar as minhas armas

She – Só se vence verdadeiramente quando se acaba com as armas do inimigo

He – Eu nunca devia ter saído das trincheiras

She – Assim nunca terias aprendido a trinchar-me - não te entusiasmes é uma figura de estilo

He – Geralmente apanho-te a zona das nervuras - entusiasma-te pois não é uma figura de estilo

She – Não abuses dos calmantes

He – Antes calma que sofreguidão

She – Nem pareces tu.

He – Chamam-lhe osmose

She – Será a tal de química em versão aplatonada?

He – Estou proibido pelo médico de fazer trocadilhos filosóficos

She – Perversão ou mera dependência?

He – Nada disso, apenas pouca queda para a virtude.

She – Chegas ao vício?

He – Mas nunca em circulo nem em ciclo

She – Um homem recto, então?

He – Mas intermitente

She – Tentador...

He – Mas olha eu sou homem de poucas tentativas

She – Mas algumas evasivas

He – Bachiano na fuga, mas Pessoano na presença

She – Uau. Cultura.

He – Tanto bate até que fura

She – Antes isso que mexilhão

He – Pronto, então fico quieto que nem água mole

She – E calado para fazeres o pleno

He – Mas muitas vezes o melhor é irmos por partes

She – Os bois comem-se às postas, não é?

He – Sim, e não se tem sorte sem apostas

She – Com batota?

He – Sem batota o jogo não passa duma distracção com a sorte

She – Não te queria para consorte

He – Oh minha rainha!

She – Oh minha graínha!

He – És tão polposa quanto sulfurosa

She – Chemistry, again?

He – No fundo tenho espírito de cientista

She – Estás a meio caminho entre a pose e a verborreia, mas vestes-te excessivamente bem

He – Nem sempre está um crime onde está um colarinho branco

She – Se não há crime não há castigo. E sem castigo a vida não tem piada

He – A filosofia cedeu o seu lugar no vão da escada à moral, foi?

She – Não se deve invocar o nome da moral em vão

He – Legisladora?

She – Dou apenas o que tenho

He – Mas a muito mais és obrigada

She – Serei inclusivamente o teu porto de abrigo se não me maçares mais

He – E lota? Já sabes que a mulher e a sardinha...

She – Julgo que te ias referir às mulheres sardentas

He – Claro. Sou demasiado tímido para falar sobre as sedentas.

She – A tua timidez é um embuste

He – Administro-a como um tesouro

She – Pose, again?

He – Pause, now.
Miss Diore & Miss Sheisedo

Onde está um taco e umas bolas nem sempre estão três tabelas disponíveis para os servirem.

Miss Diore – Sabes querida, há por aí quem nos queira comparar…

Miss Sheisedo – Nem estou a ver o que possamos ter a ver uma com a outra..

Miss Diore – Talvez o facto de não haver homem que nos ligue mais do que aqueles 3 minutos que a curiosidade leva a tomar fervura no tachinho da concupiscência.

Miss Sheisedo – Credo, que palavreado; em ti eles olham para o vértice inferior, compreendo-os, mas comigo sinto-os a reterem-se em tudo aquilo que eu sou e os inspira.

Miss Diore – Minha linda, tens-te numa conta que quase estás a descrever o cruzamento entre uma estrela de Hollywood com uma personagem bíblica. Não tens aquela coisa com pêlos à volta que liga a tua vida interior ao mundo, ou besunta-la com pão ralado como quem disfarça bofe um panado?

Miss Sheisedo – Estás focando nesse interstício da feminiloide – até me fazes gerundiar, credo – porque só sabes abrir as pernas ao mundo, quanto à cabeça, mantém-se fechada, e tão irrelevante como uma panela de pressão cheia de bolinhas de sabão.

Miss Diore – A última vez que usei a cabeça de que falas foi a escolher um restaurante próximo do hotel onde estava. E digo-te, fiz logo asneira porque o tipo que estava comigo não me parava de olhar para a empregada moldava que tinha umas mamas parecidas com um abacaxi com vinho do Porto que uma vez tinha comido à beira mar a descansar duma f…

Miss Sheisedo – Poupa-me os pormenores, já sei que dominas as artes do sexo como a minha Alzira passa a ferro os colarinhos: primeiro deixa-los esticar, depois põe-los húmidos, e de seguida pões-te em cima deles que até a espada do rei Artur ficaria a parecer uma colher de pau a mexer umas claras em castelo.

Miss Diore – És um amor a descrever-me, e para ti deixas o quê, os problemas filosóficos da conicidade ou as reacções químicas dos restos dos cremes esfoliantes com o saco lacrimal descaído do homem.

Miss Shisedo – Tu gostas de te fazer mais parva do que realmente és; isso tem-te dado bons resultados na carteira e na pele, é?

Miss Diore – Os homens têm medo de mulheres muito inteligentes, porque o mito da inteligência sempre andou a roçar-se com o mito da errância.

Miss Sheisedo - Chiça, temos mulher! Olha, para te afastar dessa homosexualidade mitológica, só te digo, as melhores cabeças são as que de movimento constante, sincopado, previsível, vertical.

Miss Diore – Lindo! Agora já estou a gostar de te ouvir falar; quando estamos naqueles banhos de espuma de hormonas nem vale a pena arranjar padrões para nos compararem: somos apenas penugem e ovulação e cacarejo.

Miss Sheisedo – É pá, nem me fales nisso, a ultima vez que me chamaram galinha, desatei a escrever um tratado de misoginia que não consegui ter uma foda limpinha durante mais de dois meses, só via raposas em cima de mim e outras galinhas a correrem aos pulinhos e a gozar-me, vestidas com casacos de vison compridos.

Miss Diore – Chiça, mulher, para teres sonos assim deves ter o inconsciente a fazer de arca de Noé dentro dum jardim zoológico; o mais parecido que sonhei foi uma vez comigo a fazer de bo derek num cavalo e com o john wayne atrás de mim a recitar versos soltos das ‘flores de erva’, e digo-te todos os homens me cheiraram a cavalo durante mais de dois anos.

Miss Sheisedo – Acho que ao falar contigo estou a descer ao éden antes da costela do Adão se ter transformado em entrecosto. Pois eu continuo a achar que os homens, tirando aqueles primeiros momentos em que o pensamento vem a irrigar de baixo para cima que nem o delta do nilo, acabam por se deter naquilo que a gente tem de melhor: os sentimentos ambivalentes e oscilatórios; eles gostam da nossa inconstância, como os planetas ficam seduzidos pelos cometas mesmo tendo medo deles.

Miss Diore – Uns mais e outros muito menos, aviso-te, já me deixaram uma vez a comprar oreos numa bomba de gasolina por causa dum paleio q um dia me deu para os catalogar conforme a forma como guiam.

Miss Sheisedo – Ah, eu já me deixei de definir tipos de homens; nem acho sequer que eles sejam todos iguais, mas isso é um bocadinho como aquela discussão sobre a cor do mar, será azul, será verde, será prata, não interessa: nós é que fazemos os homens, vai por mim, eles são o que nós quisermos, temos esse poder, já vivemos dentro deles unindo-lhes os esterno com a espinha, não há órgão vital que não lhes tenhamos conhecido com intimidade.

Miss Diore – Lá está, o gajo donde eu saí devia ter as costelas descaídas porque o orgão vital que eu conheço melhor está mais abaixo…

Miss Sheisedo – Ó rapariga, os órgãos dos homens são praticamente todos iguais, aquilo é uma monotonia, parecem saidínhos directamente de seres unicelulares sem terem passado por anémonas do mar, livra; vai pró mim, redu-los a um código genético binário e nunca te enganarás: se tiveres mais de 33% da tua superfície epidérmica à vista, o sangue corre-lhes todo para um lado, se mostrares menos desses 33% é a imaginação que se lhes movimenta. Aliás, é essa a razão do trocadilho básico da psicologia feminina: o homens são um produto da sua ivaginação.

Miss Diore – Nem sei o que nos trouxe até esta conversa…

Miss Sheisedo – Ah, isso é obvio…a falta de homens interessantes por perto, sim, homens, esse ser que precisa sempre duma mulher para se poder definir. Tal como uma mulher precisa duma franja. Isto cada um tem o Levinas que merece.
'Um mundo que cabe numa cova de Iria'

(aliás, reunião de 'palheta' dos 3 pastorinhos, aliás, ternura do círculo)

Convocada pela Lúcia que, apesar de ser mais 'maçarica' nessas coisas do paraíso, ao ser a mais velha assumiu-se e tomou logo a palavra:

Lucia - Miúdos, aquilo lá em baixo já não vai só com terços, acabou de mo dizer a N. Senhora depois de ter catrapiscado na agenda que a previsão é o Soares só cá aparecer aí pelo ano 2027.

Francisco - Foda-se, agora é que dizes isso quando acabei de me lixar todo nos joelhos ali à beira do terraço...

Jacinta - Estavas era a ver a Dementieva à sucapa ó puto, e tento na língua, palpita-me é que vem aí via-sacra da grossa por isso acho bom que treines a calosidade no joelhito.

L - Mas reparem, a situação é tão grave que até já ouvi o rapaz d'Aquino dizer que ia estudar melhor aquela teoria das Fatwas lá dos tipos marados do deserto, e a insinuar também que se avançarmos com uma inkizissão, mas destavez com 'k' e outra terminação, talvez ninguém dê conta da coincidência e sempre se aproveitavam os fogos.

F - E depois eu é que sou brincalhão, se esse gajo é santo eu vou ali e já venho.

J -Eu tenho muita pena é que a Condolezza e a Hillary não tenham homens à altura porque senão fazia-se um grande bloco central no feminino a governar o mundo.

[Só pra que conste: já lá dizia S. F. Assis "Começa por fazer o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, estarás a fazer o impossível"]

F - Uma espécie de centralina, não? Tu estás-te a passar ó Jacintinha! Lá porque já viste o sol aos pulos agora pensas que és astrónoma como o Pacheco Pereira, não?

L - É feio falar de pessoas que não se podem defender senão com versos esquisitos! E a situação é tão grave que aquele rapaz simpático do Terras do Nunca qualquer dia só põe músicas da Joan Baez no blog enquanto os outros se distraem a falar dumas tais de eleições atávicas ó que é.

F - Pois é é, noutro dia até ouvi o Moisés dizer que se fosse agora nem conseguia chegar à terra prometida porque no momento das águas se afastarem ainda aparecia um tal de Sá Fernandes a pôr primeiro uma providência cautelar e lixava o esquema todo.

J - Eu acho que nós aqui devíamos era fazer figas para ganhar a Mizé N. Pinto e depois um dia até chegava a presidenta como aconteceu com aquele cenourinha e ela é contra o desperdício e tudo e assim.

L - 'Fazer figas'! ó menina que paganice é essa!? E que linguagem é essa que vocês têm agora!!!

J - Então havias de ver o que dizia o S. João da Cruz quando chegou lá acima ao monte Carmelo e lhe começaram a rebentar as bolhas dos pés! A linguagem é uma constelação de símbolos, são prisões, eu noutro dia até estive a falar com um querubim protector das sms e ...

F - Miúda, estás a passar-te ó quê!? Tu és pastora pá, escusas de te andar a armar em Catarina de Sena, ó se calhar ainda queres um tacho no tribunal de contas ali prás alturas do juízo final, não?

L - Vocês estão a ficar contaminados com o que se passa lá em baixo, desde que veio para cá aquela moça da Stein isto nunca mais teve sossego, ao que me dizem por causa duma tal de fenomenologia.

F - Eu por acaso acho que já apanhei uma coisa dessas nas costas quando foi de rezar pelo primeiro campeonato dos lagartos depois do grande jejum.

J - Nós aqui a bulirmos, a rezar que nem ucranianas a passar a ferro no '5 à sec' e este puto a pensar na bola! E depois isto está no que está, esse Pacheco Pereira é que tem razão.

L - Se calhar vou propor o nome dele para um dos anéis de Saturno, e outro pró Tavares, e outro pró Valente, outro pró Magno e outro pró Coutinho ...

L - Calma, calma... aquilo é um sistema solar ó é uma nuvem de poeira!? Cheira-me que se escolhem estes para novos pastorinhos a Azinheira vem abaixo.
Como ninguém lê este alçapão, a Dra Girassol mandou-me mesmo fazer um check up, e os sacanas, face ao quadro, internaram-me e puseram-me logo a soro. Agora o tratamento é todo misturado, às pinguinhas e pela veia abaixo



Complexo místico-vitamínico: unhaca, gajas e blogs



Acabou há uns dias o mês de Maio. Mês de Nossa Senhora. O que eu queria mesmo era que no dia em que me encontrasse com Ela, tivéssemos uma converseta mais ou menos assim.



Eu – Posso entrar?



N.S. – Filho! Olha quem é ele ! Anda cá meu malandro.



Eu – (Isto começa bem...Ela reconheceu-me...deve ser pelas piores razões...Vou ter que dar a volta a isto por cima, caraças) Aqui estou, nas suas mãos...



N.S. – Olha lá, aquelas piadinhas que tu andaste a endrominar, nem todas caíam muito bem cá em cima, sabias?



Eu – Mas sabe...eu às vezes descontrolava-me, sabe como é, torna-se uma coisa vertiginosa e...



N.S. - Sim. Sim. Não precisas de te justificar. Eu sei do que a casa gasta. E também já tive de safar imensos “artistas“ com a mesma mania que tinham muita piadinha...e muitos nem tinham piadinha nenhuma...e a outros até tive de lhes repintar o cabelo antes que o meu Filho os visse naqueles preparos...



Eu – Mas não me diga que não se riam com coisa nenhuma...



N.S. – O nosso problema é que como no Céu não há “tempo”, e como nós já sabíamos o que tu ias dizer, o efeito surpresa desaparecia. Desculpa lá a desilusão.



Eu - Ó Mãe do Céu, não tem nada que me pedir desculpa. Eu até só tenho é que agradecer que tenha vindo falar comigo, e preocupar-se e...



N.S. – Então tu achas que uma mãe deixava assim um filho apeado, neste labirinto da prestação final de contas! Eu andei sempre de olho em ti, e até expliquei muitas das tuas piadas aqui à rapaziada, porque aqui há gente que passa o tempo obcecada a brincar às charadas filosóficas com o S. Tomas de Aquino, e que ainda continua tão viciada na discussão sobre o ser e a essência que eu fico parva.



Eu – Se calhar dão-se mal com as evidências, e gostam de alimentar a dúvida para mostrar que se esforçam muito por acreditar.



N.S. – Também não sejas assim. Eu topo-te a dar aquele ar de que és muito duro e irónico com os outros, mas depois já te vi muitas vezes a amanteigares-te na conveniência.



Eu – Ó Santa Mãe não te escapava nada, mas sabes como é no mundo dos negócios...É pá agora é que estou ver, então as alusões às bodas de Caná devem ter sido aqui muito bem acolhidas não?...



N.S. – Se eu levasse a peito tudo o que tu dizias, mais valia teres trazido um ar condicionado portátil, se é que te deixavam entrar com ele ali para aquele empreendimento que tem o senhor encarnado e de chifres à porta...



Eu – Foda-se, aquilo ali é mesmo o inferno? Ai desculpe saiu-me...



N.S. – Sem prejuízo de anotar o uso dessa palavrinha indecente aqui no caderninho, porque faz parte do regulamento, faço-te notar que já vi aqui uns anjos a usarem umas palavras dessas no meio dum jogo da bisca (é o que fazem quando o movimento está mais fraquito), e já ouvi cada coisa ao Sto Agostinho no jogo de Scrabble que até corava a coitadinha da Sta Teresa, que ainda hoje está de olhos extasiados a olhar para o meu Jesus. (aqui até gozam com ela dizendo que é a Solnada do pós idade média)



Eu – Bem, não se de pode dizer que também não sejam dados à brincadeira...nem sabe o peso que me tira de cima. Eu andava com isso atravessado, principalmente porque desde que comecei a escrever numa parvoíce dum “Desfazedor”, eram umas atrás das outras.



N.S. – Nós reparámos nisso e ...



Eu – É pá, vocês liam mesmo aquilo????!!!



N.S. – Temos de ler tudo! Até o Prado Coelho e o Abrupto!



Eu – Então mas o inferno não é ali ao lado?



N.S. – Não te estiques com as piadinhas, porque já estás na corda bamba e um soprozito meu leva-te desta para melhor



Eu – Vê...é que eu não me controlo mesmo, isto deve ter a ver com a natureza humana, sei lá, com essa coisa da inevitabilidade, com o corpo ser fraco, com o pecado original, ou se calhar a água benta do meu baptismo era de contrabando, e...



N.S. - Também já demos para esse peditório. Olha lá filho, agora cala-te um bocadinho porque acho que vai haver retoma em Portugal e eu tenho de ir ouvir as notícias



Eu – Não me digas que já andam a fazer milagres nas tuas costas?



N.S. - É que aqui agora concessionámos à iniciativa privada os milagres mais difíceis



Eu – Então o Juízo final agora também deve estar entregue a algum grupo multinacional? Vejam lá se aquilo cai também na mãos dalgum chinoca, dos que agora estão por todo lado...



N.S. - A conversa está a desviar-se, já sei que és muito bom nisso, mas nós estamos aqui é para tratar do teu caso.



Eu – (Isto aqui, está visto, não vai com duas balelas...) ó Santa Mãe mas eu já sou considerado um “caso”? (Isso não é muito bom sinal) Repara que eu nunca pus sequer uma mulher em trajes menores lá no blog, e sempre que me referi a elas foi no maior respeito. Até já me chamaram «bendito menino»!



N.S. - Olha lá, essa coisa de pensares que os pecados têm todos a ver com o sexo demonstra uma grande estreiteza de alma, não?



Eu – (Aish...granda boca. Agora até aqui levo baile também) Ó minha Mãe do Céu, eu não queria dizer isso, era apenas um exemplo, uma forma de expressão, é apenas a demonstração de que somos reféns da palavra e dos conceitos, somos...



N.S. - Chega filho. Não gastes o teu ranhoso latim. São estas as opções que eu consegui arranjar para ti : Passas uma temporada no Purgatório e podes escolher: Ou ficas num beco de lampiões que recitam todo o dia a Florbela Espanca, ou então ficas numa praceta com uns espíritas que se converteram à pressa e declamam a Rosália de Castro...



Eu – Ó Mãe de misericórdia, dá-me uma segunda oportunidade, eu se calhar deixei-me envolver demais por um ambiente pagão, hedonista e superficial, peço-te, até ao Durão Barroso dão mais oportunidades, até ao Ferro Rodrigues lhe permitem a ilusão dos justos.



N.S. - Bem... o mais que eu te consigo, e é porque nunca maltrataste os animais e o S. Francisco é muito sensível a isso, é voltares lá para o teu computador, e passas a escrever todos os dias como aqueles blogs que falam de Deus com serenidade e responsabilidade, apelam à conversão e à compreensão nas almas inquietas, e fomentam a alegria que deve inundar os corações peregrinos...



Eu – Ó minha Rosa Mística, ó Rainha dos Anjos, eu faço tudo mas não me peças isso, eu se for preciso até digo bem do blogs protestantes para demonstrar ecumenismo, ou cito os salmos,ou...



N.S. - Também não são necessárias lamechices, olha, em alternativa, estão-me a sugerir aqui atrás, podes abrir um "fotoblog", pões umas fotografias do nascer do sol, ou dum mar calmo e prateado, e vais inserindo pensamentos do Pascal.



Eu – Oh Estrela da Manhã, eu se for preciso até mando uma carta para o Abrupto a comentar os quadros dele, mas por amor de Deus, fotografias com textos de adorno é que não me peças!



N.S. – Pronto meu doce...eu estava só a pôr-te à prova, podes-te manter fiel ao disparate sem eira nem beira, mas tens de prometer uma coisa: não fales do que não sabes.



Eu – Então mas isso agora é uma censura radical. Assim não posso escrever sobre nada!



N.S. – Olha desenrasca-te, fala de política, porque assim nunca te enganas, tens sempre com que te entreter, e escusas de perder o tempo com gajas inacessíveis, ou a citar o Baudelaire ou o H. Michaux. E livra-te de citar o marquês de Sade, que eu bem sei estiveste quase noutro dia...



Eu – Ó valha-me Deus. É pá, o que é que o meu Anjo da Guarda tem andado aqui a fazer. O sacanita deve passar os dias na porra da bisca lambida, estou mesmo a ver.