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Para aliviar dos auschwitz a céu aberto

Denoto algum desalento da parte do estrogen-dependent side of this blog por sentir uma certa inibição em aqui exprimir com mais exuberância a sua capacidade para se desvanecer perante a masculinidade explícita de certos exemplares da espécie e do género mais ou menos inacessíveis.


Picasso (Primavera-Verão 1906). Joven a caballo. Carvão s/ papel. 46,6 x 30,4 cm. Paris, Colecção particular (Zervos VI, 682)

Parece-me um anseio legítimo se for exercido dentro dos limites impostos pela santa madre igreja e pelas últimas descobertas da ciência antropológica e urológica, e face ao explícito fascínio pela parte oposta ao ventre, deixo como mote e presentinho a imagem lombar acima exposta.

Afigura-se-me no entanto básico lembrar-lhes que a beleza masculina é um valor em decadência, apelo à perdição de mulheres já de si dadas à vulnerabilidade, corruptela da verdadeira e inexpugnável beleza, neblina para a transcendência, alívio ilusório dos traumas de Eva e expediente hollywoodesco.

Com o corpo masculino, e as suas mais ou menos inebriantes manifestações, deve coabitar-se nunca perdendo de vista o que diz a nossa Maria Laurinda: «os homens têm segundas intenções até quando perguntam as horas».

Quaresma XXXVIII e nove e quarenta
( e porra que já não aguento mais esta coisa)

E então, dispersos, porque uno: só mesmo Deus.

Amores pré revolucionários

«Embala, senhor, o meu amado até mim, para que não tenha
que lhe enviar o meu choro de madrugada pelo mar»

in ‘A gesta do principe Igor’ , épica medieval russa, (ed Cotovia, pg 33)

Comércios pré berardianos

«O marchand viu-as ( Les demoiselles d’Avignon) depois de Braque e de Derain: o primeiro achara que era como se alguém bebesse petróleo e cuspisse fogo, o segundo que o autor um dia seria encontrado enforcado atrás do quadro.(...)’Lembro-me simplesmente de que imediatamente disse a Picasso que achava as suas telas admiráveis, porque estava completamente perturbado’. Foi o começo de uma amizade.(...) ‘A nossa vida dos tempos heróicos do cubismo era uma vida simples e sem cuidados porque, repeti-lo-ei sempre, estávamos seguros da vitória, estávamos seguros de nós’ (...)mas ‘não sei se hoje seria ainda possível fazer o que eu fiz. A vida tornou-se muito cara’»

De José-Augusto França, num artigo sobre D. Kahnweiler- e citando-o muitas vezes- marchand de Picasso, por ocasião da sua morte e integrado em ‘Quinhentos Folhetins’ (ed Casa da Moeda, pg 223)

Retóricos estados de alma

«Le caractère 'languissant' est un de vices possibles du style. Il vient essentiellement ou d’une sorte de déplétion dans l’expression, dans l’organisation et dans la suite des phrases, ou de répétitions mal gérées, ou d’un un excès de uniformité, ou de la prolixité»

In ‘Dictionnaire de rhétorique’ de George Molinié ( ed ‘Le livre de Poche’)

Outras línguas outras rimas

«No quarto do poeta em desgraça fazem
a Musa e o medo, por turnos, sua velada,
e continua a noite
que não conhece madrugada»

de A Akhmatova em ‘Voronej’ (em russo a rima faz-se entre ‘poeta’ e ‘madrugada’)

Profissões alternativas

« Agora é tudo muito mais fácil. As marcas nas cartas já saíram de moda. Actualmente as pessoas (...) tentam descobrir a chave do padrão na parte de trás das cartas. (...) Numa cidade, cujo nome não menciono, há um indivíduo muito precioso que não faz absolutamente mais nada. Todos os anos recebe várias centenas de baralhos de cartas de Moscovo. Quem lhos manda? É um mistério. A sua principal obrigação consiste em analisar a marca de cada carta e enviar a chave. Observa como são feitos os duques de um baralho e qual a diferença dos outros. Só por isso ele recebe cinco mil rublos limpos todos os anos»

por Utiechitelni, uma das personagens de ‘Os Jogadores’ de Gogol (ed Civilização, pg 124/5)


Pastorais americanas

«Sim, estamos sós, profundamente sós e haverá sempre, à nossa espera, uma camada de solidão, ainda mais profunda. Não há nada que possamos fazer para contrariar isso. Não, por mais espantoso que isso nos pareça, a solidão não nos deveria surpreender. Podemos virar-nos todos cá para fora, mas a única coisa que acontece nessa altura é ficarmos virados para fora e sozinhos em vez de ficarmos virados para dentro, sozinhos. Minha Merry estúpida, minha querida estúpida Merry, ainda mais estúpida do que o teu pai, nem sequer ajuda mandar um edifício pelos ares»

por Philip Roth na dita ‘Pastoral Americana’ (ed D. Quixote, pg 222)


E agora refazer-me-ia, sim, em refinados refastelamentos

«A Regency carved rosewood chaise longue, the back and seat with green and cream striped upholstery, the seat rail and turned tapering legs with lotus carved decoration (201 cm)»

in ‘Miller’s Antiques Price Guide’ – professional handbook - ed 1993, pg 258, preço indicativo 2.500 libras.

Quaresma XVIII

Mas nem havia quaresma a sério sem falar desta gajita, que agora anda aos pulos que nem uma cossaca...

«She’s tart but delicious, she’s campy but coy, she’s the pop world embodiment of personality-as-art»

… a dançar num maillot do mateus rosé, descrita assim numa ‘People’ de 1985, e citada numa das suas ‘Madonna-Unautorized biografy’ ( Chistopher Andersen, ed island books, pg 181 - o que eu gosto de ler estas merdas). Mas o que é realmente uma pena é que Picasso não a tenha conhecido ( Warhol dessa forma nunca teria existido – isto é mais uma previsão em VPV style), e vejam só o que ele podia ter feito com aquela... personalidade...

« In Henri-George Clouzot’s 1955 film ‘Le mystère Picasso', Picasso is photographed at work drawing. The sequence in which the drawings develop is wonderment – Picasso becomes a magician materializing objects from thin air. He starts drawings in totally unexpected places, both on the page and in the anatomy of the figure. A squiggle in the center of the page evolves from an embryonic mystery to a hand that eventually grows a body, more vegetal than animal in the process.»

… face a este parágrafo do fabuloso ‘The sketchbook of Picasso’ ( ed Thames and Hudson).
No fundo, no fundo: we are all flowers. Uns desabrocham mais que outros. Mas nem sempre no desabrochar está o ganho, como sabemos. Afinal era ‘Pólen eris pólen reverteris’, olhai os lírios do campo. Madonna, as parvoíces que me fizeste escrever, filha.
Quaresma I

Lista de compras...

Branco permanente -----------------------------------------------------------------
de prata ----------------------------------------------------------------------------
Azul cerúleo ------------------------------------------------------------------------
Cobalto -----------------------------------------------------------------------------
Prússia -----------------------------------------------------------------------------------
Amarelo cádmio limão (claro) -------------------------------------------------------------
de estrôncio ------------------------------------------------------------------------------
Laca cor de garança betume ---------------------------------------------------------------
azul e castanho --------------------------------------------------------------------------
violeta azul -------------------------------------------------------------------------------
Preto marfim ----------------------------------------------------------------------------
Ocre amarelo e vermelho ----------------------------------------------------------------
Lápis-lazúli claro e escuro ----------------------------------------------------------------
Terra de sombra natural e queimado ----------------------------------------------------
Vermelho persa -------------------------------------------------------------------------
Terra de Siena natural e queimado -------------------------------------------------------
Verde cádmio claro e escuro ---------------------------------------------------------------
Verde esmeralda ----------------------------------------------------------------------------
Japão claro e escuro ------------------------------------------------------------------------
Veronese ---------------------------------------------------------------------------------
Violeta de cobalto claro e escuro ----------------------------------------------------------

... da encomenda de cores de Picasso em 13 de Novembro de 1943, referida em ‘Conversas com Picasso’ de Brassai (ed Cosac & Naify, 2000, pg 121); pelos vistos numa escrita “menos espasmódica, mais aplicada que de costume”. “Como um poema(...) todos os heróis anónimos da paleta de Picasso saem da sombra, chefiados pelo ‘Branco Permanente’”.
O desfazedor e a sua labirinta
ou dum homem à nora com o seu lado feminino

Mesmo que seja com hora marcada, se um homem dá rédea solta ao seu famigerado ‘feminine side of the soul’ a coisa pode descontrolar-se, como se vê. Eu que o diga que agora me vejo confrontado com este espectáculo quasi almodovariano, mistura de maneirismo letrado com virtuality show. Sinto-me como que depois de acordar dum sono profundo, qual Orlando que ‘’’dormiu toda a noite (…) e tinha sido beijado por uma Rainha, sem o saber’’ lançando maquinalmente a mão à mesa-de-cabeceira da consciência e agarrando inexplicavelmente um conjuntinho Majórica de brincos de pendentes (este sim um verdadeiro sinal de degradação da espécie/género – Anna K. incluída). Ora uma mãe não dá à luz um filho varão para segurar cortinados adamascados, e se essa coisa do lado feminino existe mesmo o melhor que temos a fazer é pô-lo numa cerca assim no meio dum prado tipo calendário do Tirol, e jamais deixá-lo como uma corsa a espernear-nos uma existência já de si mal relvada (mas não por falta de pivot - pronto só uma trocadilhada fatela, ok). Qualquer dia chega alguém ao pé de mim e ainda começa a cantar o ‘supid girl’ dos Garbage (tem de se ir citando umas músicas para manter o estatuto eclético-sensível, mas não me peçam é letras faxavor) tal o estado de miscigenação cromossomica a que cheguei, e até dará certamente para fazer crochet com o meu entrelaçado genético («e tricot, tem feito?» - isto de fazermos perguntas a nós próprios não é preocupante, o caso só se agrava se começarmos a respondermo-nos mesmo). Picasso num dos seus estudos/esboços simples para a escultura do ‘homem com o cordeiro’ desenhava a zona do baixo-ventre como uma espécie de chaveta invertida, intuo daí que a masculinidade pode de facto ser muitas coisas da barriga para cima, e se calhar começamos mesmo por ser uns cordeirinhos, rodeados por piscares de olhos às curvas e contra curvas, suspirantes por colos aos cotovelos e contra cotovelos, no fundo começamos a bulir nos arranques e acabamos a balir nas subidas, no labirinto que é essa tal nossa escondida feminilidade. Mas ‘come on Barbie, let´s go party’, porque ter um lado feminino com pinta não pode ser só sinal dum labirinto, também pode dar numa bela dança de palavreado mistura de ‘sexbomb’ com ‘shake your bumbum’.



{Nota desadjectivada: este post obviamente nada tem a ver com o anterior nem com a reacção que ele provocou. }
Outono rima com abandono. Bela merda de rima.



A única mulher que abandonou Picasso foi Françoise Gilot, que ficou para sempre como a sua “mulher – flor”. No primeiro dia em que lhe pediu para que se despisse ficou a observá-la durante mais de uma hora sem tocar em nenhum pincel e mais tarde chegou a dizer-lhe que “todos nos parecemos com um animal menos tu”. Picasso não suportou bem essa "derrota" mas já há algum tempo que tinha encontrado em Jacqueline mais uma substituta “servil”; para Picasso as mulheres eram meras utilidades.



Mas o que é um “facto” é que apenas a mulher sabe abandonar. O homem quanto muito deixa, não desenvolveu tão bem essa crueldade da ordem do definitivo. O homem é apenas outonal, viverá, no extremo, apenas deixando cair, enquanto que as mulheres: ou dependem ou desprendem. Ou são flores ou são icebergs. Ou são as duas coisas. Porra, já ando às voltas.



Picasso teria dito a Francoise que ela era a “única mulher que tinha conhecido que tinha a janela aberta para o absoluto”. Mais uma daquelas frases parvas do gajo, mas agora deu-me para reparar que um dos absolutos do feminino é mesmo o abandono. E que merda, rima mesmo com Outono (e ainda por cima está-m’a dar o sono).



Mas há mais rimas possíveis, e a vida não se regula por coincidências de terminações. O que regula a vida, no limite é o ciclo menstrual; que rima praticamente com tudo afinal, mas se a escolha for: mulher-animal ou mulher- flor, não interessa, que seja uma que não recuse a dor, essa não abandonará no final.


Picasso não passava dum homem quadrado. Daí o cubismo, onde nenhuma mulher encaixaria bem, pois, também no limite, verdadeiramente, nenhuma mulher dá a outra face.
nota: os itálicos são retirados do livro "Picasso y las Mujeres" de Paula Izquierdo, Belacqua de ediciones, Barcelona, 2003

A mola do olhar



A “revelação” de Arshile Gorky na blogosfera pelo Outro-Eu é um momento muito feliz. Sem querer enfrascar isto em detalhes biográficos apenas gostava de deixar escrito algumas notas:



A. Gorky não marca apenas a transição do surrealismo ( que nunca abraçou realmente de alma e coração) para o expressionismo abstracto; mais importante : é talvez a primeira chave da libertação da dependência americana em relação à pintura europeia.



Durante os primeiros anos apresenta - sem complexos - formas quase ostensivamente “imitacionistas” em relação a Picasso, o que o levou até a ser alvo de imensos comentários jocosos. Mas ora aí está alguém que, pressentindo o grilhão da originalidade, mas sabendo fugir à prisão da imitação, acabou por ser um verdadeiro inovador americano.



A sua ligação ao Surrealismo existe, claro, e é inclusive atribuída à amizade com Roberto Matta a origem da sua viragem criativa. Como muito distinta memória desta ligação fica um texto de André Breton a prefaciar o catálogo de uma das suas exposições em New York. É um dos textos mais felizes sobre arte que já li ( está reproduzido num catálogo da Gulbenkian) e do qual retenho que Gorky foi o primeiro pintor a quem foi revelado o segredo da “mola do olhar” e assim descortinar o fio condutor das coisas. Voltarei a este texto noutro dia , pois mesmo estando marcado pela idiossincrasia surrealista é um texto precioso.



Obrigado CVM. Por me ter espicaçado o olhar. Venham mais destes.