*
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.


Carlos Drummond de Andrade in A Máquina do Mundo

*


desmaker corner

Confesso que cheguei a criar algumas expectativas. Acontecia esporadicamente, mas parecia vir acompanhado dos condimentos todos e com uma cadência que fazia antever hipe garantido. O Meditação na Pastelaria e o Da Literatura envolviam-se em escaramuças à volta de criticas feitas por ambos aos mesmos livros,  verdadeiras peixeiradas que escorriam pela padiola dos posts e dos comentários (do MnaP), numa varinagem de escrita, mais ou menos explícita, que dava gosto ler e acompanhar e se possível até fazer o relato. Tudo faria prever que os responsáveis pelos jornais e revistas em que ambos escrevem aproveitassem esse tom de ejaculação literária assistida para o capitalizarem em polémica regular, aumentando tiragens, publicidade e vendas, criando até a devida rede de pittetes e leonardettes , e porque não merchandizing mesmo, que a pudesse alimentar, rentabilizar e multiplicar (guerreiro vs lucas, ou até uma vasconcelos vs silva). Mas não, tudo se parece ter esfumado em meia dúzia de galhardetes, acabaram os miminhos, nem uma acusação de plágio, nem de paneleirice, nem d'és feia como cornos, nem uma contagem de virgulas, nem uma acusação de encher-chouriçagem, copypastismo, nadinha disto, apenas uns ameaços de ironia, mas já nada a prometer a perenidade do cinismo, nada que deixasse ainda uma gretinha para alguém lá ir escarafunchar.
A perda desta energia de avacalhamento que está no nervo ciático da critica literária é, mais do que um sinal de perda de húmus criador, uma absoluta rendição ao jornalismo paternalista e automático (veja-se este cirúrgico post do Henrique F.) , que já deixou o mínimo contacto com o risco e a sublimação de neuras, aquilo que , convenhamos, efectivamente fundou aquele local em que crítica e  literatura se juntam e que deve ficar ali bem juntinho das portas do inferno. Já há falta de bons negócios e os poucos que aparecem deixamo-los a escorrer assim negligentemente pelos algerozes do cuidadinho que é para não estragar.

similia similibus curantur II


Cada D. Sebastião tem o seu se e o seu bastão by Plumeria lancifolia

Hoje, onde mija um português já tem de dar para quatro by Frangula alnus

Em espeto de carpinteiro o frango é de pau by Panax quinquefolium

Se a virtude está na castidade e o poder na abstinência, a virtude e o poder estão juntos na temperança by Paullinia cupana

Espera o melhor, prepara-te para o pior e reza pelo assim-assim by Eugenia jambolana

Não havendo argumentos históricos contra o absurdo devemos confiar apenas nos deuses que regem as ilusões  by Melaleuca alternifolia

Dom Feveruário


Há (ou houve, posso estar desfasado) um bruá instalado por causa de uma entrevista dum Bispo. A minha primeira reacção vinda das vísceras do meu anti-clericalismo, (qualquer católico que se preze é anti-clerical) mesmo sem ter sequer lido as ditas declarações, foi que o Bispo (também conhecido nas hierarquias como Senhor Bispo) fez merda. No entanto, começou a desenvolver-se em mim um certo prazer quase catecumenal em ver um bispo a dar um pouco de escândalo, seja qual tenha sido o motivo ou motivação. Este conceito de escândalo é completamente evangélico e remonta aos primórdios do apostolado cristão, leia-se: da fundação da Igreja Católica Romana, e por isso deve ser acarinhado por qualquer crente. A Teologia do Escândalo foi inventada pelo frade franciscano Giuseppe Almondega no séc. XVI , em Milão, quando desenvolveu a tese de que 'antes um camelo dum rico entalado num buraco duma agulha do que um pobre dum protestante espetado na sua ponta'. Ou seja, deixem os pobres em paz mas não sejam camelos. Foi no seguimento desta inspiração que fundou a Ordem dos Beduínos, uma regra de semi-reclusão em que os ricos eram chamados a entregar 20% dos seus rendimentos em carne picada que depois era transformada em bolinhas abençoadas (daí o nome te ficado como almôndegas). O sucesso foi tanto que o preço das picadoras subiu de tal forma que ainda deu para criar a Diocese do Passe-Vite, especialmente orientada para receber devotos ricos em fase de esticar o pernil. A teologia do escândalo teve um enorme número de seguidores em comunidades de banqueiros que inventaram o spread-indulgência, uma espécie de retenção na fonte alternativa que faziam desviar para obras de caridade como marinas e campos de golf, desporto este que, como sabemos, foi inspirado num camelo que se desviou da agulha e tentou esconder uma almôndega num buraquinho que estava no jardim em frente a sua casa. É assim na esteira deste ilustre teólogo que eu enquadro hoje todos os grandes escandaleiros cristãos, gente que, mesmo ser estar sob o efeito de febres altas,  procura aproximar de Deus não mostrando as virtudes do templo mas antes a barriga dos vendilhões, tanto mais que no templo até pode nem haver ar condicionado nem nada.

similia similibus curantur


A alma é um espírito ajudado by Aconitum napellus

A arte é um número que não serve para contar by Atropa belladonna

A inspiração é uma tentação desprovida de pecado by Calendula officinalis

O ciúme é uma carta dentro do baralho by Chelidonium majus

A atracção gere-se com movimentos de translação, o desejo com movimentos de rotação by Abrus precatorius

Se é o amor que produz as maravilhas é a emoção que cobra o bilhete by Viburnum opulus


Pormenor do Tecto da Igreja da Encarnação, em Lisboa

À quinta é para fazer correr tinta


«Receia mesmo que esgotada a euforia socialista, caído o bloco de Leste, perdido o Império, o nosso País volte, sob a pressão do capitalismo selvagem, à situação de pobreza, de apatia, em que o encontrei no final da República»

António de Oliveira, citado por 3ª pessoa, em As Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta ( pág. 350)

O Ferro de Moncorvo


Carlos e Licínia concluíram, depois do levantar da neblina, que afinal lhes bastava o amor e uma mina. Para esventrar o coração nada melhor que a escuridão. Juntos foram em romaria a Moncorvo, queriam ficar marcados pelo ferro. Mas a brasa que se lhes apresentou não estava suficientemente quente, as marcas podiam ficar com o aspecto duma tatuagem, e eles queriam uma união mais bovina, queriam sentir na coiro um ardor que depois se estendesse às miudezas, quem só ama com o coração e despreza o rim, a bexiga ou mesmo a vesícula corre o risco de ganhar cálculos em todos os órgãos moles. E não há nada pior que um amor calculista. Moncorvo estava às moscas, a mina não mostrava condições para ser explorada, mas mesmo assim eles desceram até uma profundidade que lhes garantisse um mínimo de dignidade. Nunca olharam um para o outro, nunca trocaram uma palavra, tinham receio das represálias dos sentidos mais básicos, e ainda pensavam que o deleite amoroso era asensorial. O grande problema da escuridão é que não fornece sombras, e sem contrastes não há possibilidade de moer consciências em condições. Sem tormentos a consciência liberaliza-se, transforma os dilemas em jogos de interesses e enterra-se na falácia do equilíbrio. Por uma daquelas felicidades que só se dão em séculos de translações de planetas, Carlos e Licínia não tinham nada em comum e quando roçavam pelas paredes da mina produzia-se apenas uma frescura que lhes cortava a pele como uma tangente de gelo. Cada vez se sentiam mais unidos por aquela combinação de estranheza e inquietação que ora faz santos ora faz carrascos. O Ouro e o Tungsténio já tinham ficado longe e o ferro parecia possuir aquele magnetismo básico que os limpava de todas as suas energias de destruidores de emoções. Deitaram-se em cima da pouca lã que já se mostrava tricotada e pensaram apenas no dia em que o sol os viesse resgatar. Já não precisavam sequer de ver sombras projectadas na parede da mina, bastar-lhes-ia a certeza de saberem que quando a lua nova dá biblicamente a outra face aparece esplendorosa uma lua cheia. 

O astracã de Valongo


Licínia, sem que Carlos soubesse, vivia à boca da mina. Levava as suas lãs, passava o tempo a imaginar torcidos especiais mas não chegava a tocar nas agulhas. Carlos tinha-lhe aparecido num sonho vestido com uma capa de linho azul e com um ar como que atormentado pelo frio. Foi incapaz de resistir, pediu uma licença sem vencimento, abasteceu-se da melhor lã num armazém em Valongo e alugou um quarto numa pensão em Valpaços. Olhava para os novelos como se fossem avatares duma qualquer graça, autênticos sacramentais com pêlo. Acariciava o rosto com aquela lã de benzedura e imaginava-se dentro da mina a aquecer Carlos e a servir-lhe o tungsténio numa bandeja de mica polida. Haveriam de saber combinar a rigidez com a suavidade foi a sua interpretação do sonho. Um dia, encheu-se de coragem e foi falar com o encarregado perguntando-lhe por Carlos. Ah, o Búzio, esse sacana anda sempre a polir as paredes da mina, julga que vai sair alguma sereia do freático. A menina se lhe vai fazer um cachecol tenha cuidado senão ele ainda se enforca nele. Licínia ficou com o ar a fazer bolhinhas na traqueia e caiu de joelhos na porta da mina. Um dos novelos rebolou até parar numa bota encarniçada. Sim, como os filmes. Carlos agarrou na lã, levou-a à testa, esfregou o suor e de seguida pegou em Licínia como numa cena de pietá invertida. Agora sim, estavam prontos para voltar a jales.

O Tungsténio de Valpaços


O ouro de jales não correspondeu às expectativas de Carlos Búzio. Afinal este metal precioso não lhe concedeu nem o amparo nem a clarividência que exige o tratamento de um amor que emite mensagens de não correspondência. É metal de filigranas e custódias e o amor exige uma certa rudeza e uma certa liberdade para ser reconhecido. Criou-se um impasse a 100 metros, Carlos teria de voltar à superfície e reavaliar a sua situação. A ascensão fez-se sem sobressaltos, o encarregado foi compreensivo, já tinha levado um par de cornos enquanto andou pela faixa piritosa, e não gostava de ver os seus homens a garimpar com a testa. Durante a mudança falou pelo telefone com Licínia que lhe pareceu triste, e a tristeza duma mulher é o melhor catalizador para o homem enquanto bicho de bons sentimentos. Voltou a Valpaços numa terça-feira batida a ventos de nordeste, os melhores ventos para limpar o ranho das dúvidas de coração. Tens de estar preparado para a patine do tungsténio, - disse-lhe o novo encarregado - e aos 30 metros já as paredes da mina simulavam o reflexo dos cabelos acobreados de Licínia. Na primeira noite o seu sonho trouxe-lhe ainda resíduos do ouro de jales mas a partir daí só deu Licínia em formato de amante pródiga, regressando-lhe todas as noites com arrependimentos cada vez mais empolgantes. Carlos descobriu a sua vocação junto do tungsténio, tinha um coração demasiado mole para as emoções exigentes da vida afectiva e teria de enrijecer no submundo por uns tempos. Por entre a ilusão dum reflexo e a ilusão dum sonho a dura realidade haveria de despontar com a subtileza e o fascínio dum contraluz. E foi assim que Carlos passou a viver à sombra da tocha.

o garimpeiro de jales


Quando Carlos Búzio viu oiro a reluzir pela primeira vez estava a pensar em Licínia Cosme. Tudo se passou a 50 metros de profundidade e a sua cabeça parecia um tremor de terra.  Carlos tinha trocado o tungsténio de Valpaços porque lhe tinham dito que fazia mal aos amores não correspondidos e assim optou pelo metal de todas as ilusões para tentar recuperar a esperança. Mas a esperança só surge aos 100 metros. Pediu ao encarregado e desceu mais um pouco, demorou uma semana até começar a entranhar aquele cheiro intenso que exala do subsolo misterioso e que traz consigo um formigueiro que os mais optimistas comparam à paixão amorosa. Logo na primeira noite Carlos sonhou com uma Licínia sorridente, com um olhar de cobiça e uma pose de desafio. Acordou com os suores da praxe e com o seu companheiro do lado a olhá-lo com espanto.  Esse rezava, tinha ido procurar um Deus mais disponível para o perdão nas catacumbas da tabela periódica. Até em Deus podemos testar a incompreensão tal é a nossa debilidade. Ficaram os dois a falar um bocado, por entre o silêncio das entranhas duma terra em digestão lenta. Não podiam falar sobre o tempo e por isso acabaram por desfiar algumas desconfianças do mundo como quem conta carneiros. Carlos tinha a cara encostada à rocha fria, por vezes forçava a testa a provocá-la, até que o seu companheiro brincou e perguntou-lhe se procurava algum corno a nascer; então Carlos abriu os olhos e disse: felizes dos que são enganados. Tossiu, tossiu uma e outra vez, como que a tosse o estivesse a recriminar por qualquer pecado de coração. Tocou a sirene e salvou-o da penitência. Passaria o dia debruçado na garimpagem,  pensando se não teria sido melhor ter ficado em Valpaços, onde os desamores pelo menos eram recompensados com noites bem dormidas e sonhos de plástico.

A Bosona de Nelas


A primeira partícula elementar instalou-se em Portugal por alturas da expo 98. Na altura alugou um apartamento em Moscavide a meias com dois electrões que estavam a trabalhar à hora na central do Pego , mas pouco tempo depois partiu à procura de melhores ares e instalou-se em Nelas numa vivenda com vista para a serra do Caramulo. Chegou a ter um caso com um protão de Mangualde mas rapidamente percebeu que estava destinada para a vida solitária. Quando chegou a oportunidade de ir fazer umas tardes na limpeza do grande acelerador de Tondela não hesitou e hoje comanda uma equipa de desentupidores de túneis de vento afectos ao departamento de ciência politica da universidade de Coimbra. No entanto manteve-se fiel a Nelas, a terra que a acolhera  e a fez sentir como em casa, inclusivamente abriram um café com o nome de big-bang onde ela costumava ir apanhar descargas electromagnéticas depois do jantar. O seu porte atlético e as suas maneiras elegantes disfarçavam o tom algo brusco com que tratava os vizinhos, e rapidamente começou a ser visita de casa de muitas famílias da zona, que, para além da boa companhia, acabavam por carregar os termoacumuladores de calor quando ela se sentava em cima. Tudo parecia correr-lhe de feição quando um dia uma fermiona de Cantanhede apareceu na terra a oferecer serviços de aconchego quântico aos homens mais carentes. Da noite para o dia o grupo de pressão newtoniana das mães de Nelas começou a olhar para a bozona com indisfarçável desconfiança. O rastilho ateou quando Lurdes Pereira, o ver o seu marido Gabriel a tomar uma cerveja na qual a bozona já tinha sorvido dois fotões de espuma,não se conteve e exclamou: 'tu vai lá polir aceleradores para a tua terra, o minha bozona de merda'. Ressentida com a falsidade da acusação, a nossa bosona não suportou o fardo que começava a carregar e telefonou a um primo seu que era protão numas salas de cinema em Badalona. Reorganizou a sua vida e acabou por emigrar em Julho de 2012, reconstruindo agora a sua vida fora do país, num projecto de partículas de Deus duma paróquia perto de Fuenlabrada, onde inclusive já pensa em assentar com Paco Salinas, um sacristão de partículas que enviuvara recentemente de Pilar Morientes, a famosa decoradora de aceleradores em Gibraltar, que falecera na sequência dum choque em cadeia de electronas groupies a caminho dum concerto de Julio Higgslésias. E foi assim que se iniciou o êxodo de bosões e bosonas para fora do país, aumentando cada vez mais o fosso que nos separa da europa quântica, e tudo por causa duma ou outra vulva mal servida em Nelas. Continuamos destinados aos Nobeles da cona lambida.

Colo Center II


Apresenta-se de seguida o diálogo gravado na agência de colo center do programa Shoulderzam da empresa Póvoa de Lanhosoft. São Intervenientes o sr. Ernesto Mourão (utilizador do software) e a menina Dulce Miranda (funcionária do colo center e enfermeira nos tempos livres)

Utilizador Ernesto Mourão - Está...fala dos serviços de apoio ao Shoulderzam?...

Colista Dulce - Sim, fala Dulce, em que lhe posso ser útil

Ernesto Mourão - Menina, algo terá acontecido com o meu shouderzam porque eu encosto o tablete ao ombro e só me cheira a bacalhau assado e...

Colista Dulce - Tenho o prazer de estar a falar com...

E.M. - Fala Ernesto Mourão, eventualmente até já leu algum livro meu...

Colista Dulce - Ernesto, posso tratá-lo assim, diga-me: qual é a versão do seu shoulderzam ?

E.M. - Sem problema, até Erny, se preferir, e a minha versão é a hot 3.0

Colista Dulce - Muito bem, sr Erny, diga-me, já desligou o tablete e voltou a ligar

E.M. - Dulce, filha, não faço outra coisa há mais de duas horas e o melhor que consegui foi um cheirinho a hortelã pimenta que me lembrou uma namorada que tive, que era de Alenquer e me fazia cócegas numa zona aqui atrás e...

Colista Dulce - Sr. Erny, então agora vamos fazer o seguinte: com o tablete ligado, carrega durante 5 segundos no icon do shoulderzam e no gps e diga-me o que lhe aparece no ecrã...

E.M. - Ora só um bocadinho...hummm...agora 5 segundos...já está: então agora no ecrã aparece a Vera Farmiga vestida com uns collants azul turquesa a dizer em sussurro: «da próxima toca-me com mais jeitinho e eu faço-te uns peixinhos da horta»

Colista Dulce - Muito bem, então agora carrega na mama esquerda da Vera Farmiga e na letra 'F' do teclado que lhe aparecerá na parte inferior esquerda do ecrã

E.M. - ora então... agora ela levantou o braço direito e começou a cheirar a ... parece-me aquele eau d'issey que usa a minha prima Carla com quem eu brinquei às enfermeiras na consoada de 1977

Colista Dulce - Muito bem, então agora com os dois dedos no ecrã afasta ligeiramente as pernas da dona Vera Farmiga, por favor...

E.M. - já está... bem... agora os collants começaram a deslizar para baixo e já estão enrolados à volta do joelho... e aparece escrito no canto superior: «lembras-te das minhas coxas, erny darling?»... agora estou confuso, porque eu nunca esqueço uma coxa, nem sequer de frango, e não me lembro de nada...acha que estou a fazer bem?

Colista Dulce - Está a ir lindamente Ernesto, agora tem de carregar na letra 'x' enquanto puxa para baixo o collant da perna esquerda até ao tornozelo...

E.M. - ora cá vai...eh lá!...agora está a vir aquele cheiro a coelho à caçadora que a minha avó Luísa fazia quando eu ia lá a casa depois dos exames de matemática...hummm, minha querida avó....

Colista Dulce - E agora diga-me Erny, não lhe aparece também o símbolo dum mil folhas no canto inferior esquerdo do ecrã?

E. M. - Sim, sim, igualzinho ao que comi com a Viviane Lopes no dia em que... , pronto, num dia, em que ela fez de massa folhada e eu de farinha de trigo

Colista Dulce - É isso mesmo, então agora carrega aí e na mama direita da Vera Farmiga, por favor

E.M. - Hummm...bem...., agora a Vera virou-se de costas e está a apanhar no teclado as letras 'D' e 'R'... isto nunca tinha visto...será vírus, será serpente, será maçã?

Colista Dulce - Não...é mesmo assim...diga-me, não conhece nenhuma rapariga chamada por exemplo Dália Rita?...

E.M. - Sim, sim conheço...não me diga que essa cabra...

Colista Dulce - Calma, calma...agora tem de deslocar as letras que ficaram soltas do teclado do ecrã e colocar uma em cada nádega da Vera Farmiga - se ouvir um gemidinho é mesmo assim, o 'D' e o 'R' também podem querer dizer, na versão 4.0, 'dedinho no...' vá, adiante

E.M. - Pronto ...já está...ela agora pôs-se de joelhos, pegou numa esfregona e humm... está um cheirinho óptimo a pop limão que me faz lembrar a minha tia Maria José, que até foi Miss Caneças e....

Colista Dulce - Estamos quase sr. Ernesto, agora pega na esfregona e arrasta-a para cima da tecla com a letra 'C'

E. M. - Ora aqui vai...já está...Ah finalmente!!! já cheira à canja da minha mãe! aleluia, cheguei a pensar que nunca mais conseguiria!

Colista Dulce - Então já tem o seu shoulderzam desbloqueado, sr Ernesto, mais alguma coisa em que lhe possa ser útil?

E. M. - Mais nada, menina Dulce, tomara eu que todas me desbloqueassem com tanta dedicação como a menina, já nem se fazem colinhos assim.


Diálogo publicado no Grande Anuário do Tablete, edição de 2012

Colo Center


O mundo - a cidade dos homens - está devastado por carências várias. Depois de ter falhado o sexo (com Cleópatra), o espiritismo (com a física quântica), a literatura (com Ana Karenina) e a punheta liberal (com a mão invisível) procura-se avidamente a quinta coluna da redenção pelo carinho. Como seria natural, este movimento civilizacional fez-se na aplicação criteriosa da mais pura dialéctica, tendo-se dado uma síntese provisória com a bolha democrática. Esta rapidamente teve o condão de deixar a nu que a alma humana não evidencia necessidades perenes nem de poder nem de prazer ao contrário daquilo que os sintomas da historiofilia e da antropofilia pareciam indicar. Foi Simone Bolina com o seu livro ' Antes um iniesta na mão que dois balotellis a voar' que levantou o véu sobre o poder, a energia até,  escondida que se encontra no carinho tradicional e desinteressado, para a qual nem os gregos (os bombeiros da praxe para esta coisa dos conceitos perdidos) arranjaram sequer um nome decente. O 'Grupo de Empreendedores de Mangas Arregaçadas de Braga' pegou na ideia e desenvolveu uma aplicação para tablets denominada 'encosta aqui o teu ombro' (o 'shoulderzam') que permitia ao utilizador não só sentir o calor e apoio perdido da infância, incluindo o cheiro da canja com arroz (na versão free), o do cerelac (na versão plus) ou até a sensação de mordidela na orelha (na versão hot) , como igualmente dizer qual era a estrela de cinema que estava suspirando por ele nesse preciso momento. Imediatamente a empresa foi comprada por uma subsidiária secreta da Microsoft da Póvoa do Lanhoso que a transformou numa aplicação mais abrangente e que deu origem a um jogo de consola, com o nome sugestivo de Consolazam, no qual os jogadores procuram ganhar um colo maternal, inacessível e relaxante ao fim dum dia de trabalho e arrelias várias, com um comando opcional para festinhas na nuca. Portugal entrou assim no roteiro da inovação fundindo a ternura com html5 e hoje o seu cluster mais representativo é o dos colo centers, composto por redes de apoio ao carinho servido em tabletes.