Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2011

The uses of optimism

Roger Scruton, um dos pensadores conservadores da moda, e um pensador ainda com algum rating acima da banca portuguesa, tem como título do seu último livro, 'The uses of pessimism', (que vai traduzir-se em português como 'as vantagens do pessimismo' - que é o que se pode chamar uma tradução optimista) e tenta transferir o pessimismo do cestinho das grandes poses estéticas para a elite das grandes correntes autónomas do pensamento. Estamos, de facto, em tempos nos quais, não direi mais que nunca mas ficava bem dizer, um olhar pessimista sobre o mundo, a criação e outras miudezas é o único que garante uma audiência intelectualmente apinocada. O optimismo hoje está arredado para as plateias das igrejas de pendor mais ou menos psicadélico. Ou seja, o optimismo precisa duma reabilitação teórica, precisa não apenas de um novo enquadramento ou aggiornamento, precisa mesmo de ser levado a sério novamente. E para isso temos de recuperar os mais famosos contributos do optimismo ...

verso à terça

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. Carlos Drummond de Andrade in "Nova Reunião"

e três vivas à duquesa da cornualha

Fedócles, Éstrilio e Dolarípedes constituíram um famoso grupo de dramaturgos alternativos que fez furor na Grécia Antiga, mas que acabaram por não entrar na posteridade por manifesta inabilidade em arranjar miúdas giras para as suas tragédias. Como sabemos, uma tragédia vive essencialmente duma miúda gira que, incapacitada por adn ou fungos de ser boazinha, se torna mazinha. Fedócles, que ainda assim se celebrizou pela frase da sua heroína 'Ecléctrica' : «Neste mundo onde os pólos se atraem a virtude só serve para aparar os choques», era um homem simpático mas nunca recuperou do desgosto de amor com uma chavala de tranças chamada Filantra, que o trocou por um vendedor de serapilheira de Salamina. Para se restabelecer escreveu a meias com Dolarípedes (primo de Eurípedes, está bom de ver) uma peça, hoje esquecida, de titulo 'As Beras'. Neste drama absoluto, precursor de todas as MacBethas & Briony's, uma moça chamada Laurinea, (os nomes que escolheram também não a...

triplex

Gajascópio Há três percursos essenciais na blogosfera feminina: acompanhar as idas da ana d' amsterdam ao ginecologista, da io à opera e da cristina ao cinema (mais tarde falarei de outros circuitos alternativos não menos interessantes). São registos que colocam à disposição do homem moderno um leque de sinais indispensáveis para a compreensão do universo da sensibilidade feminina, assim se comprovando que esta, para além de possuir o sexto sentido, também há fortes possibilidades de incorporar os outros cinco. Desde umas pernas diagnosticamente abertas, até uma japonesa a rir-se enquanto desce umas escadinhas, passando pelo tenor maltês com trinados de encantar, estamos sempre perante visões do mundo, sejam elas de pormenor ou sejam de rasgo ou pendor impressionista, que escapariam ao homem, mesmo ao mais atento. A mulher sensível começou por ser uma invenção colorida do homem carente, depois passou por ser uma obsessão sombria do homem indolente e transformou-se hoje numa dis...

música à 6ª

Imagem

verso à terça

Ó pastora, ó pastorinha, Que tens ovelhas e riso, Teu riso ecoa no vale e nada mais é preciso Fernando Pessoa, in Quadras ao Gosto Popular (nº 155)

daquele livrinho de entrevistas de que se fala por aí

«Afinal, podia-se falar durante horas acerca da relação entre um pai e um filho. A única coisa clara é que um pai tem de estar disposto a que o filho lhe cuspa em cima quantas vezes quiser» Bolaño, pág 73

lua cheia

Imagem
É o atraído que define a atracção. É o luar que desenha a noite. Eles nunca tinham experimentado um luar juntos, deitados, como se numa bancada de laboratório à espera dos raios de luz que o satélite saca à estrela-mãe lhes fatiassem o coração, sentimento a sentimento, como filetes à espera de panar. Ou penar. A ilusão é o mais próximo que o homem atinge da espiritualidade e eles esperavam que aquela lua cheia os esclarecesse: teriam chegado ao amor demasiado cedo ou demasiado tarde. Com o astro-príncipe a dominar-lhes o olhar e as mãos, acarinhavam a ansiedade comum como se dum defeito diluído no próprio sangue que bebiam sem querer saber. Ela depois de lhe roçar os cabelos pela curvatura do pescoço, fixou-o com as artes do sorriso e fez-lhe ver que se não tinham construído um leito conjugal pelo menos conjugavam uma lealdade de compêndio. Ele, olhando para aquela intimidade talhada com golpes de dor e riso, perguntava-se, coando ingenuidade, se um nome poderia salvar uma união inomin...

música à 6ª

Imagem

Serve o presente para avisar os mais distraídos que no próximo Sábado dar-se-á a maior lua cheia dos últimos 20 anos

O inverno está quase a acabar e antes de deixar que o pólen me obstrua os canais que dão acesso à zona bulbosa do tino, deixo hoje o dicionário não ilustrado abordar um tema que é absolutamente essencial em dias de dúvida e incerteza, e nada melhor do que fazê-lo enquanto os reactores ainda estão entre o quente e o frio. Quais são então (apenas um grupo seleccionado) os qualificativos que um homem pode receber duma mulher como críticas (ou até insultos) mas que serão sempre recebidos como um certo perfume elogioso. Se alguma mulher por mero, acidental inclusive, acaso aqui passar, guarde para si este segredo: não os use se quiser pôr um homem a milhas. Insuportável - nenhum homem gosta de ser apenas suportável, e se a alternativa é não o suportarem, ele tem sempre a capacidade de se iludir como sendo um problema de demasiada densidade da sua personalidade, ou mesmo, para aqueles mais dados aos conceitos não palpáveis, algo metafísico que se deva à enorme intensidade do seu ser. Irr...

querido sócrates,

Eu, ao contrário desta turba de vândalos inconscientes, ou oportunistas impacientes, ou crueis impenitentes, compreendo-te. Tu tudo tens feito para o nosso bem e, sei-o, com enormes sacrifícios pessoais, prejudicando o teu jogging, a pós-graduação em marquises que pensavas tirar, e até o brilho do teu cabelo. Percebo perfeitamente que não quisesses preocupar o dr. cavaco e a sua reformada drª maria com essas medidas difíceis e ingratas que só tu sabes tomar com tanta discrição e,  direi mesmo, ternura, sei-o, pensando sempre primeiro nos mais desfavorecidos, naqueles que sofrem em silêncio, e inclusive dos que sofrem aos gritos, naqueles que apenas têm no teu olhar sereno o último refúgio de serenidade e bem estar. Tens sido o nosso amparo, sei-o, e tens-nos defendido com unhas e dentes junto daquela moça meio-bucha, a alemã, tens-lhe feito ver que somos um povo que também já sofreu muito, e inclusive, também tivemos o Salazar e tudo, e esse nem sequer tinha um bigodinho, nem ouvia...

verso à terça

Dá-me o teu oco   Dou-te a minha faca Troco tudo por nada e sempre ganho É uma feira   uma festa   cada troca se lugar tem à sombra do segredo Conheço o tabuleiro   Mas o jogo é que não mais a conhecê-lo aprendo A própria vida quando assim a prendo tem o gosto que fica numa faca depois de arremessada só por jogo de encontro ao que perdido já é ganho David Mourão Ferreira, in Matura Idade

central de co-geração

O verdadeiro problema que vão enfrentar as novas gerações não será a precaridade, nem a globalização, nem a paroquização, nem as micoses, nem o pacheco pereira, o verdadeiro problema que enfrentarão será arranjarem um nome que lhes convenha e que possa servir às teses dos barretos de sec xxi . O dicionário não ilustrado não podia faltar à chamada (entradas 1360 a 1368): geração rosca - considerando que as anteriores já possam ter esgotado as prerrogativas da anilha, julgo que esta designação assentará bem a uma nova geração que estando no buraco queira desatarraxar um pouco a pressão para poder aliviar na geração seguinte. geração masca - com o desaparecimento do consumo de tabaco pela via da queima da folha, associado ao desaparecimento da abundância dos bens alimentares, a grande capacidade evolutiva e adaptativa do ser humano fará com que o sistema gástrico adopte também a configuração e funcionalidade ruminante, e assim onde estiver um homem da nova geração estará pelo menos um...

The dark side of the wool # n+4

Quem pastoreia escrúpulos tosquia borbotos.

música à 6ª

Imagem

Almoços Grátis. série 2 [18]

Ambiente típico de meia casa: uns a acabar e outros a começar. Uma das coisa que L. nunca soube é que eu gosto de misturar o salgado com o doce, ali, mano a mano, chocalhando papilas. Hoje ela estava, como se costuma dizer: alheada de tudo; escondida entre duas constelações. Andava pelas mesas maquinalmente, como uma vitrina de sobremesas, aparando necessidades, fomentando caprichos, alimentando ilusões de carne e de peixe, sei lá, cumprimentou-me como se fosse apenas mais um, se bem que todos somos apenas mais um, mesmo que todos, algum dia, esperemos ser o-um-mais de alguém. Hoje pedi filetes de polvo. O polvo é um animal de despedidas, muitos braços para dizer adeus. Sabia que iria estar mais uma temporada sem a ver. Ela também sabia. Às vezes parece que sabe tudo, chiça. Nos últimos dias senti que este meu regresso tinha sido uma desilusão para ela. Todos os dias eram imprevisíveis, todos os dias se desenrolavam sentimentos diferentes, não havia continuidade, não havia a tranquilid...

Almoços Grátis. série 2 [17]

Quando entrei no restaurante ia a pensar: será que já lhe pedi alguma coisa que ela não me desse? O que vale a primeira negação? Quando destrói uma recusa? O que distingue o desinteresse do desprezo?  O prato do dia um bacalhau assado, que eu não posso dizer que goste, e suporto com alguma benevolência. Ela estava à espera que eu o escolhesse, mas eu disse que não queria. Mais, acrescentei, quase insolentemente, hoje não há aqui nada que me apeteça especialmente. Ela fez cara de 'há mais restaurantes na zona', mas inesperadamente conteve-se e respondeu-me, não sem a agressividade típica de um certo formalismo: se quiser peço à cozinha para lhe fazerem um bife. Senti-me num jogo. E senti-me mais bem preparado que há dois anos atrás. Disse que um bife me parecia bem, mas não precisava de ser do lombo. - Podem guardar o lombo para os clientes mais exigentes. -Tu és o cliente mais esquisito. - Define-me o teu esquisito. Já havia muitas mesas em estado de emergência. Mas quem fazia ...

Almoços Grátis. série 2 [16]

Hoje foi dia de canal odissea. Todos observavam todos, aquele restaurante parecia um ninho de espiões. L. encaixa plenamente no seu papel de agente dupla, dando informações a todos os lados, desde molhos picantes a nomes de primas de ministros. Inesperadamente sentia-me bem, sentia-me do lado dos bons, daqueles que apenas defendem as causas nobres: um amor, uma cabana e uns pastelinhos de bacalhau. Não havia prato do dia, julgo que L. decide assim quando prevê que vai ter clientes com interesses muito parecidos e que se conhecem uns aos outros; todas as mulheres que valem a pena gostam de brilhar. A certa altura comecei a sentir-me a mais, é um sentimento que conheço bem, posso mesmo dizer que me é familiar, aliás, se há dom que tenho é o de passar despercebido. Ela sente-se à vontade quando o radar lhe revela que eu estou num daqueles dias em que faço de conta que não existo. Há cinco níveis na transparência, sentir-se dispensável é nível três, sentir-se irrelevante é nível quatro. ...

Almoços Grátis. série 2 [15]

Existem dois tipos de dias: os dias em que acontece um pouco de tudo e os dias em que tudo pode acontecer. Quanto ao de hoje ainda não decidi. Entrei no restaurante com o meu amigo C., uma amizade antiga, a conversa a escorrer com uma naturalidade tal que nos sentámos quase sem eu dar conta desse acto de puro heroísmo. Como que de propósito L. aproxima-se da mesa e serve-me - apenas a mim - um sumo de tomate sem eu nada ter pedido. Tal o inesperado que C. fez aquela cara que corresponderia a ela ter-me encaixado a mão entre as pernas. Tenho uma aversão completa a sumo de tomate pelo que fiquei a olhar para ele, como o peregrino olha para a cera a derreter-se nas velas. O primeiro silogismo foi: sangue, tourada, cornos. Estremeci. O segundo foi: cor, calor, amor. Estremeci mais ainda. C. entretanto e de forma despachada pediu amêijoas sem perder tempo a fazer-me perguntas obvias, mas também sem evitar o estamos muito bem, menino, muito bem. Ri-me, com aquele desdém do comprometimento de...

Almoços Grátis. série 2 [14]

Hoje estava cheio de fome quando lá cheguei. É a coisa mais tenebrosa que me pode acontece quando lá estou. Ela sente-o logo, como uma lavadeira descobre uma nódoa, e tudo em L. se torna dever e responsabilidade, os grandes inimigos da ternura. Aquele restaurante é a minha trincheira, não é o meu berço. Respondi como um rolamento numa linha de montagem, comi, sem sequer resmungar alternativas, como um príncipe albanês nas mãos duma ama suiça, um bife saído da passerelle dum matadouro dos alpes. Espero ter terminado com umas faces rosadas, espero que os meus olhos tenham brilhado de fastio. Espero que o meu estômago tenha podido corresponder às expectativas de L. Espero que vendam bandas gástricas na tabacaria. Hoje que me senti tubo de escoamento tive saudades do tempo em que pensava ser verbo de encher. Mais um dia de fome e a paixão morre como o peixe. Por mais voltas que dê ao Sol não conseguirei compreender essa tua cabeça espiralada que ora quer o que não quer ora não quer o que...

Almoços Grátis. série 2 [13]

Hoje ela estava com um olhar reprovador. Fez-me aquele sinal de mão que pode significar desde o olá, até ao espera, passando pelo hoje não dá, ou, nos piores dias, deixa-me em paz. Venha o diabo e decifre. Limitei-me a pedir uma salada de salmão fumado; um dos meus menus de refúgio, que permitem uma espécie de degustação em piloto-automático, sabores intensos mas familiares, que não exigem concentração e dão uma satisfação previsível. Sonho com o dia em que também possa estar com a L. assim, em piloto automático. Hoje mal a vi. Descobri, à força de poesia, que é possível a ausência terminar sem que a presença regresse. Felizmente estou preparado para as ausências. Inclusive para o abandono. Numa escala de um a cinco ausência vale dois, abandono três e desprezo quatro. Anda tudo louco no restaurante desde que a cozinheira principal fugiu com o motorista de longo curso. Vou ver o mundo, disse ela antes de nos pôr a ver navios a todos. A pobre que a substituiu ainda está para saber o q...

Almoços Grátis. série 2 [12]

Restaurante apinhado. Logo hoje. Queria ter posto os sentimentos e os pensamentos em dia, consegui até safar-me a outro almoço. Um dos pratos recomendados era peixe-espada, concentrei-me para lhe pedir uma posta fechada. É uma mariquice mas resulta sempre. Excepto nos dias de enchente. Não sei se terei gaguejado as palavras posta fechada. Vamos lá ver se não preciso também dum terapeuta da fala. Especializado em ementas difíceis e comensais de pleura inflamada. Inesperadamente Lázaro ressuscitou outra vez: ela sentou-se na minha mesa e disse - és tão especial para mim. Acho que ainda estou à mesa, nem sei bem, oiço um zumbido esquisito, arde-me a garganta, lá ao fundo está uma luminosidade estranha. A palavra especial tem algum significado especial ou será apenas um simples derivado de espécie. Ela podia-se ter limitado a dar-me uma posta fechada. Numa escala de um a cinco especial vale três; único vale quatro. Dia cheio, casa boa, patrão feliz, a tríada perfeita. Só te vi já à mesa,...

Almoços Grátis. série 2 [11]

Na zona da entrada tocava uma música suave. Quem escolheria? Será ela? Parece que já não me chegavam as dúvidas que tinha. Jurei que não lhe ia perguntar. Uma pergunta é muito mais perigosa do que uma resposta; mas uma não pergunta pode ser mil vezes pior que uma pergunta. Foi com ela que descobri o que era o estado de indecisão. E de alerta. E de arrependimento. Acho que antes de a conhecer o único sentimento que tinha era o de aflição para mijar. Nestes dois anos sem a ver só sentia falta dela aos sábados à tarde. Nunca percebi porquê, mas era quase automático, fizesse sol ou chuva. Hoje comi umas costeletas de borrego que são uma especialidade lá do restaurante, quando têm escolho sempre, e sempre pela mesma razão: penso que ela gosta que eu escolha aquilo. Como sempre ter-me-ia bastado uma sopa e um arroz doce. Melhor, ter-me-ia bastado que ela olhasse para mim; comer com os olhos, as grandes frases já foram inventadas. À saída tocavam os acordes iniciais de Will You Still Be Mine,...

Almoços Grátis. série 2 [10]

Cortou a franja. Em tempos eu tinha-lhe dito que gostava de franjas de esquadro. Estava um dia agitado, numa das mesas reunia-se um grupo espalhafatoso. Eu ia com a S. e  F., ambas giras, faladoras e engraçadas. Ela está habituada a que eu vá almoçar com outras mulheres. Nesses dias fica mais simpática, quer mostrar que é superior a esse contraste; julgo eu, que acerto julgamentos na base de um em mil. A S. um dia disse-me 'tu gostas daquela rapariga' mas depois riu-se com aquele riso disparatado que faria de qualquer resposta numa farsa. Comemos todos um risoto que me deixou enfartado e sem a ligeireza necessária para dar conta de tanta mulher junta. F., que de parva nada tem, disse-me que eu tinha esófago de apaixonado, andava sempre contraído para deixar espaço aos pulmões. Ia responder-lhe quando L. apareceu com um sorriso paralelo à franja. Eu parei o olhar e a S. não perdoou: estás com a hipnose du dessert? Riram-se as três. Bonito serviço. 'Casual friday', gos...

Almoços Grátis. série 2 [9]

O prato do dia era cabrito. Eu, em geral, detesto comer. Ela sabe-o. Não é uma coisa que a deixe contente, mas vive bem com isso. Quando tínhamos apenas uma relação de pestanas ela chegou a dizer-me: ainda farei de ti um bom garfo. Foi a primeira vez que me tratou por tu. Nesse dia rimos os dois e também havia cabrito. Sempre associei o cabrito ao proselitismo gastronómico. Hoje estava uma meia casa e ela pela primeira vez esteve um bocadinho a falar comigo junto à mesa. Percebi que lhe apetecia chorar. O choro é uma camuflagem terrível. Não se vê nada por trás dum choro, e pode lá estar de tudo. Comi bifes de frango. A melhor comida para situações frágeis é frango. Despedi-me com um beijo. Saiu-me. Acho que ninguém viu. Se calhar ela também nem sentiu. O choro é uma segunda pele; impermeável. E já ninguém consegue molhar uma lágrima. Não dei por que tenhas entrado, estava entretida a arrumar o balcão e a tentar esquecer o cheiro a 'ovino' que se me entranhara no nariz desde ...

Almoços Grátis. série 2 [8]

Passou uma semana e voltei lá. Fui com o J. que me trazia novas da Índia. Ter um tema certo de conversa, algo que me prendesse a atenção sem esforço, era absolutamente essencial para um dia como hoje. Se aqueles dois anos não tivessem transformado L. tratar-me-ia como se nada fosse. Senti-a triste e a tristeza não acompanha bem os diagnósticos. Já não fazia de recepcionista, mas não me ligou nenhuma. Decepcionista então. J. tinha-se apaixonado por uma indiana de voz doce com quem eu já fizera dois bons negócios, Saadi, e que apenas conheço de telefone. Disse-me que ela tinha uma beleza serena, ora, só faltava que fosse uma indiana maluca. J. percebeu que eu estava irónico em excesso para uns salmonetes. Detesto salmonetes. Agora toda a gente gosta de salmonetes. Por quê essa cara, perguntou-me L. à saída. A partir de hoje pelo menos tenho cara; menos mau. Imagino que tenhas voltado pelas uvas, não me parece que te deixes seduzir por raposas. Mas talvez me  engane, já todos correm...

Almoços Grátis. série 2 [7]

O restaurante fez ligeiras obras para poder ter uma zona de recepção um pouco maior. L. parece fazer agora, seria só hoje?,  um pouco de relações públicas. Apanhou-me desprevenido. Disse logo que me tinha esquecido de uma coisa importante e fui-me embora. É por estas e por outras. Olhe que hoje temos empada de lebre, pareceu-me ouvir dizer. Quero bem que se foda o coelho e mais a sua empada. É por estas e por outras. Há dois anos ela disse-me: se calhar é melhor deixar de cá vir por uns tempos. O 'por uns tempos' se calhar estou eu a acrescentar agora. Todos temos direito aos nossos dunquerques. Mudei a cor do cabelo, fiz nuances de três cores. Digo, na brincadeira, que é para condizer com o novo guarda-vento de alumínio lacado a azul que o patrão mandou instalar na entrada. O objectivo oficial é propiciar resguardo à sala e aos fumadores nos dias frios, o oficioso é pôr-me a vender sorrisos e rapa-pés aos clientes mais presunçosos. Chegas mal enrolado no teu sobretudo cinzen...

Almoços Grátis. série 2 [6]

Várias mesas com almoços de grupos. Duas meses com cenas de engate. Outras tantas ainda a tratar de negócios claramente mal encaminhados. Típico ambiente para deixar L. nervosa e sem tempo para um olhar decente para mim. Depois destes dois anos de ausência preparei-me para dias mais difíceis e hoje isso ia ser posto à prova. Distraí-me com as mesas de engate. Em ambos os casos a coisa ia de feição. O negócio do sexo tem esse factor algo desinteressante, ou interessante consoante o ponto de vista, que é a sua previsibilidade. L. fez-me um aceno algo nervoso. Noutros tempos diria distante, hoje digo apenas tenso, irritadiço, exasperado. Ganhar experiência afinal é apenas ganhar vocabulário. Tanto barulho, tanta gente hoje. Um bruáá de fundo que me põe os nervos em franja (soprá-la-ias?). A ucraniana tem companhia nova, um certo ar de empreiteiro próspero, a mulher no cabeleireiro de mão dada com a manicure que lhe conta histórias de paraísos tropicais. De onde fugiu e não quer regressa...

Almoços Grátis. série 2 [5]

Tinham filetes de cherne com arroz de berbigão. Ela riu-se quando eu entrei. Lembrava-se do quanto eu adorava aquilo, porra! Ela lembrava-se! - este foi um porra da família dos aleluias. Sentei-me numa mesa que gosto, perto da janela, onde faz um recanto com uma temperatura mais alta. Comi com uma sofreguidão anormal, queria evidentemente mostrar gratidão com todas a glândulas que podia, infelizmente não era prato que desse para limpar, nem desenhar corações com o pão e o molho. Pedi apenas para me arranjarem um bocadinho mais de arroz. Quando ela mo trouxe parecia estar vestida de noiva com uma travessa de pétalas brancas na mão. Parecia mesmo; ainda agora me parece, mesmo depois de dois duches frios. Dizem que pára a digestão. Vi-te chegar, o semblante fechado, um ar frio de desdém a fechar a porta atrás de ti. Escolheste a mesa ao sol, aquele sol pobre de fim de Inverno que sabe, como nenhum outro, doirar-te os contornos da íris num verde de relva molhada (Tirésias, ajuda-me!). Pe...

Almoços Grátis. série 2 [4]

Sala vazia. Fui estupidamente cedo, um cliente - alsaciano fedorento e chato - que estava comigo tinha voo às 3 e é um picuinhas com os horários. Podia ser que o meu francês a deliciasse, foi isso que me animou repentinamente enquanto me dirigia para a mesa. Disseram-me uma vez que tenho uma pronúncia que faz rimbaud parecer baudelaire, mas há cognaques muito poderosos. Quando ela veio à mesa 70% do meu ser tremia e os outros 30% estavam dormentes à espera de vez. Ela fingiu que não percebeu e tocou-me ao de leve. Foi com aquela zona da anca utilizada pelos hipnotizadores, disse-me o cabrão do alsaciano. Hás-de perder o avião e ter de dormir numa pensão em Chelas. Só comi sopa e um leite creme. O leite creme acalma-me. Ela trouxe-o sem eu o pedir, reparo agora. Só ama quem antecipa, ou quem ama nunca antecipa? É a crise. Há sempre uma boa desculpa, sabes bem. O patrão chora-se, eu fico com mais vagar para te olhar. O cheiro do teu alsaciano não seria do Munster que come? É um quei...

Almoços Grátis. série 2 [3]

Hoje tinha fome. Comigo ia a R. que se tinha separado do marido e me queria contar as últimas da sua guerra pelo controlo da fancaria. Gosto de ir com outras mulheres para lhe fazer ciúmes, mas fico sempre com a merda de sensação que não lhe faço ciúmes nenhuns. Comemos arroz de polvo; já não me lembrava que quando na ementa havia arroz de polvo ela estava sempre particularmente bonita. Cheguei a dizer-lhe um dia que ela tinha uma beleza de cardápio. Corou e pôs-me a língua de fora. Um bocadinho só. Nessa noite nem dormi. Na escala de um a cinco das coisas que me deixam maluco a língua de fora é nível dois e a sopradela de franja com franzidela de nariz é nível três. É bom saber que voltaste a ter fome. É saudável. Torna-te humano. R. Chama-se assim a que trouxeste hoje? São tantas, diferentes... sinto-as como cunhas fracturantes na intimidade que criei contigo neste cenário. Em que me quereria  apenas contigo, vê só a loucura a que se chega quando se funciona no esquema rest...

Almoços Grátis. série 2 [2]

Estava um dia nublado, feio, mas não chegava a ser esquisito. À entrada do restaurante estava um grupo de raparigas que festejava um aniversário. Gosto de entradas confusas porque me sinto mais protegido. Ela estava ao balcão, na conversa com um cliente habitual. Fico irritado quando ela fala com clientes habituais. Os ocasionais não me perturbam, é a diferença entre sedução e negócio. É a segunda vez que cá venho depois deste tempo todo e ela ainda não olhou para mim em condições. De represália não pedi o prato do dia. Pedi uma omolete de queijo, estava tão irritado que nem me lembrei que detesto omolete de queijo. Estava um dia péssimo, permite que te contrarie. Uma luz fosca, um ventinho irritante e gelado, o céu infeliz na premência de chuviscos ríspidos e incertos. Como o teu olhar. Como a tua rigidez. Só mesmo tu conseguirias provocar-me ira e riso com essa perversão de comparar 'sedução' e 'negócio'. Aqueles a quem chamas os 'clientes habituais' f...

Almoços Grátis. série 2 [1]

Voltei lá dois anos depois. Quando entrei ela não me viu. Estava mais magra, tinha o cabelo mais curto, ao principio não deu para ver muito mais. Sentei-me com alguma ansiedade, felizmente ia almoçar com dois fornecedores, não precisava de grande imaginação para alimentar uma conversa e o prato do dia era jardineira. Ainda me lembro que quando o prato do dia era jardineira ela usava umas azuis claras e brincava com isso, punha aquela ar de gaiata envergonhada que reduz qualquer homem a papa cerelac sem precisar de misturar muita água; porra, passaram dois anos, quantas jardineiras perdi em dois anos? Como recuperar aquilo que não se sabe que se perdeu? Vi-te chegar, sim. Ao contrário de mim, estavas mais 'amplo' mas mantinhas o mesmo olhar de quase-tristeza-quase-doçura irreverente e tímida com que me olhaste da primeira vez que te servi um ice-tea green. Tínhamos ambos mais cabelos brancos, os meus agora visíveis despedida que foi a colaboração de décadas que mantive com...

verso à terça

A perda real é a perda do sentido Só se perde o sentido do que não foi nunca real senão quando perdido Gastão Cruz , in Escarpas

música à 6ª

Imagem

La revuelta de los cacahuetes

(para a zazie e o dragão) Há forte reboliço nos lobis do Paraíso. O Altíssimo, confrontado com a necessidade urgente de intervir numa Criação que apaneleira em rédea solta, fez saber que iria escolher uma dentre as várias corporações de efeitos especiais do seu séquito para dar uma lição a esta pandilha da igreja militante. Sabendo da iminência de ter de entrar em acção, os vários lobis reuniram-se tentando cada um fazer valer os seus direitos, adquiridos ao longo de gerações e gerações de cataclismos, pragas & infecções urinárias. A reunião deu-se numa tasca ilegal e apócrifa gerida por uma cunhada do são Gregorio Magno que tinha sido cervejeira em Antuérpia. (daí aquela expressão de chamar o gregório quando...adiante) Quem tomou a dianteira na palavra foi a dona Maremota Diluvina que se achava com prorrogativas especiais pelos favores já prestados no passado, mas que tinha ficado ligeiramente amuada desde que o Moisés, um bocado à cowboy, convenhamos, separara as águas...

diz que um gajo chamado guttenberg afinal copiou tudo

Há palavras que dividem as águas. Quero dizer, que servem para distinguir, seja pessoas, (por acaso o tipo que forneceu o último verso à terça também escreveu «Cada um por si imita / o som branco dos demais / verdade, somos iguais») situações, hábitos, almas, corpos, palavras que servem para olhar para dentro e para fora em simultâneo. Mas as 'melhores' de todas são as que parecendo ajudar a distinguir acabam por misturar. Fornecem aquela espécie de 'benigna ambiguidade' que ajuda a ver o mundo eventualmente desfocado mas brilhante. Numa leitura que tenho feito e refeito desde que começou este ano (acompanhando Paul Morand no seu 'Journal Inutile') fui confrontado com duas frases simples e supostamente opostas (entrada de janeiro de 1971), e que corresponderiam às últimas palavras de quem as proferiu: Proust teria dito « J'ai peur », e Claudel « Je n'ai pas peur » (*). O 'medo' é uma dessas palavras. E tem o mérito suplementar de colar aquilo em ...

verso à terça

em duro arbítrio quer que me desprenda dos cinco ou mais sentidos vou ser livre na terra desnudada vou dizer o que sei como quem mente António Franco Alexandre , in A Pequena Face