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A mostrar mensagens de abril, 2011

verso à terça

Assalta-o a clareira. O sol chega-lhe em cor sem ser oblíquo e revê-se em azul Sobressaltar o tempo trazê-lo para trás um ano antes conseguir seduzir o mais amado, e em fuga lenta, o amor como lembrança de ferroada azul de mil guerreiro Isso ele desejava mas tudo lhe era ausente Ana Luísa Amaral, in A Arte de Ser Tigre

Patos Bravos, voltem estão perdoados.

Quando iniciámos o nosso último sonho europeu desfizemos no modelo do pato bravo e acarinhámos o modelo do faisão dócil . Os construtores do nosso futuro idílico seriam então aqueles que recheavam de rodriguinhos e ripipilados estratégicos os seus planos de negócio, com muita baba de tecnologia e inovação, muita zona de caça exclusiva, evoluindo educadamente do endividamento para o financiamento a fim de aterrarem serenamente no leverage, e o português deixaria de ser pau para toda a colher passando a ser mioleira da fina. Aqueles que tinham andado a fazer piquena, rápida e injusta fortuna com o sapato, o ladrilho, a peúga ou a sardinha tinham os dias contados, recolhessem os ferraris à garagem e empacotassem as máquinas de costura porque os dias deles tinham acabado. Fossem para a roménia, para angola ou para marrocos, pois por cá apenas tinham lugar a fina flor do project entulho finance, os faisões dóceis , os que transformariam o cimento em oiro desde que beijassem o cuzinho d...

Educação de Meninas

Pai quer santa, Mãe quer diva. Pai pede doçura, Mãe pede dissimulação. Pai quer resultado, Mãe quer cálculo. Pai regista, Mãe controla. Pai dá espelho, Mãe dá escova. Pai requer mimo, Mãe requer tino. Pai anseia, Mãe conspira. Pai fia, Mãe desconfia. Pai quer trança, Mãe quer franja. Pai sonha, Mãe planeia. Pai nem quer saber, Mãe já sabe. Pai faz um projecto, Mãe projecta-se. Pai olha para a frente, Mãe olha para trás. Pai é desinteressado, Mãe é parte interessada. Pai encontra nela um escudo, Mãe um escape. Pai conta-lhe uma história, Mãe dá-lhe um exemplo. Pai rumina, Mãe domina. Pai quer ter influência, Mãe quer ter intendência. Pai quer uma filha, Mãe quer uma mulher. Pai ampara, Mãe compara. Pai sabe o que dizer, Mãe sabe o que fazer. Pai educa, Mãe prepara. Pai deduz, Mãe experimenta. Pai desfruta, Mãe conclui.

verso à terça

Rasga, pois, a penumbra dos teus olhos cansados, pousa, no abismo das pálpebras, o malmequer e o sono, inclina-te nos alpendres e diz, diz muito alto, diz ao mundo tudo o que viste nas enseadas dos portos sem abrigo, diz que entregaste o teu regaço e o teu amor ao mais belo príncipe das cidades do mar. José Agostinho Baptista, in 'Esta Voz é quase o Vento'

Desmaker Consulting Group #n

Como é sabido, em tempos de depressão económica sobe o consumo de alguns produtos específicos, tidos como bens de compensação e esquecimento, sendo os exemplos mais conhecidos (refiro-me apenas aqueles que reflectem estratégias positivas) os chocolates, o verniz das unhas ou o cinema, todos eles bens que com pouca despesa fazem o consumidor (também conhecido como cidadão ou contribuinte consoante a faceta analisada) alcançar rapidamente êxtases relativamente decentes. Ou seja, as crises podem ser abordadas pelo seu lado convexo, pondo assim as mãos a fazer conchinha. Já em tempos aqui demonstrei as vantagens da criação dum cluster religioso em Portugal. Penso que se abrirão por estes dias as portas à sedimentação de um novo cluster no qual já revelámos há muitos anos competências que nos distinguem e consequentemente valorizam. Refiro-me ao cluster da 'miséria & isolamento'. Portugal tem tudo para mostrar ao mundo que a condição de só & miserável possui para além do e...

Eu sei que Portugal é indispensável. Mas não sei para quê.

Somos a tal útil inutilidade. Um oxímoro à beira mar plantado. Sentimos o cheiro da pólvora antes do tiro ser disparado mas já depois de ouvirmos o barulho metálico da cápsula a cair no chão ainda julgamos que afinal aquele cheiro era de rosas secas. O que enviaria irremediavelmente qualquer alma individual média para o submundo das psicoses acaba por alimentar e equilibrar a nossa alma colectiva, uma trágico-comicidade de almanaque que todos conseguimos reconhecer num político, num reality show, num escritor, num taxista ou mesmo num canalizador que nos vá a casa tratar das torneiras renitentes. Gostamos tanto de saborear a competência como a incompetência, e gostamos tanto de humilhar como de comiserar sem sequer sairmos do mesmo pires de tremoços. Mas nós não somos de extremos como enganadora e facilmente se costuma dizer, nós conseguimos é levar o meio a locais absolutamente insuspeitos, qual apóstolos da papa cerelac com sabor a rojões. A virtude e o defeito nas nossas mãos nem se...

música à 6ª

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"os presentes são bens que, ao ligar-nos a alguém, acabam por se ligar a nós" ©

Num blog ( o ouriquense ) de cores sóbrias, pensamento confuso e bom gosto musical pode ler-se a propósito de nem se sabe bem o quê: «a imagem que fica do pensamento religioso é a de um raciocínio fracturado em cuja fissura se injectou fé». É frequente pessoas sem aparente pinga de fé entenderem como esta funciona no mecanismo básico que é o pensamento humano. A noção de fé como algo entre a bucha e o tapa poros que se enfia no esquema mental de um certo tipo de mamíferos afigura-se-me absolutamente correcta. O raciocínio é por natureza fracturado, (aliás a única secreção humana contínua é o jacto de mijo) e a fé para se juntar à festa decorativa teria apenas três hipóteses: ou como subcapa (lugar já ocupado pelo preconceito), ou como tromp-d'oeil (lugar também já ocupado pela retórica), tendo assim optado por ocupar o único lugar livre que é a fissura (evitando-se o termo racha, por razões de mero respeito à técnica de estuque). Aqueles que podem ter ficado como os pensadores re...

verso à terça

A minha tristeza não é a do lavrador sem terra. A minha tristeza é a do astrónomo cego Mia Couto, in Tradutor de Chuvas

«un grand artiste ne cicatrise jamais»

O que tem Portugal a ver com a arte e o amor? Uma dedicação fiel ao sofrimento, uma flor sempre a olhar para as suas pétalas mais murchas, um coração sempre maior que a perna, uma cobiça sempre maior que o ciúme. O Portugal moderno fez-se da imitação. Como todos. Olhámos para os que idealizámos estar melhor que nós e agimos na conformidade das palavras trazidas na maré pela espuma da moda: infra-estruturas, qualificação, alianças (inconsciente, recalcamento, transferência, dir-se-ia num freudiano ainda purista). No amor é igual: uma boa cama, uma boa tesão, uma boa posição. Na arte é igual: uma tela desengordurada, uma boa pedrada, um agente empenhado. Falhámos. É óbvio que falhámos. O nosso trabalho caiu no capitalismo errado, tal como muitas vezes o amor cai no ângulo cego da paixão, ou a inspiração desemboca numa transpiração medíocre. Somos óptimos a fazer retrospectivas, tal como um amante sabe descobrir onde lixou tudo, ou um pintor sabe onde fodeu um quadro. No entanto, aquel...

8 de Abril. Cem anos.

«A tragédia do homem é o conhecimento. Sempre notei que, cada vez que tomo consciência de algo, o sentimento que tenho a seu respeito fica debilitado» E.M. Cioran. in ' Entretiens '. Conversa com Helga Perz, em 1978, pág. 31

música à 6ª

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"La ausencia y el azar"

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Javier Marías, 'Los enamoramientos' (2011, Alfaguara, p. 190)

verso à terça

O melhor da mulher talvez o olhar é para mim o mar da mulher e à mulher que um só dia encontro na vida de passagem um simples momento num sítio qualquer talvez a muitos quilómetros do mar mas mulher que não mais consigo esquecer mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados a essa mulher qualquer eu chamo mulher do mar Ruy Belo, in Toda a Terra

um dois três macaquinho do chinês

Ao contrário do que pode transparecer das fontes bem informadas, Portugal vive hoje um momento absolutamente vibrante da sua história, proporcionado pelos miminhos que só a geopolítica pode fornecer. Como é conhecido, o nosso ilustre caminhar pelos tempos esteve sempre marcado pela existência da ameaça espanhola. Mas foi aquilo a que se pode chamar: um inimigo fiel; esteve sempre ao nosso lado a debicar-nos fronteiras, navios, possessões, tronos, terras, porcos e lagares de azeite, conferindo-nos o elevado estatuto de Estado invejado e ameaçado, estatuto esse que lá fomos sabendo conservar como pudemos. Hoje, um terço do nosso calote externo são eles que se arriscam de levar, mas desistiram há muito de nos invadir, de tomar conta de nós, e o pouco eucalipto que ainda nos resta já não os seduz e muito menos entusiasma. É verdade que também tivemos de arrear nos mouros, tivemos os Franceses a invadir-nos, os Ingleses a ultimatar-nos e até Holandeses a rouba...

The dark side of the wool # n+5

Grandes opções do pasto: uns arranjam lenha para nos queimarmos, outros arranjam lã para nos tosquiarmos.

música à 6ª

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