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A mostrar mensagens de dezembro, 2013

Murmurando entendimento V – os princípios de Dona Confiança

A Família Confiança era uma família muito pura. Mesmo daquela pureza que já não se fabrica e só se encontra ou em alfarrabistas de p’reza ou em boutiques de produtos tradicionais. Está inclusivamente em fase de lançamento uma cadeia de lojas: ‘Confiança Portuguesa’. Não vai vender galos de barcelos, nem latas de sardinha, nem pães de deus, nem mesmo rendas da madeiras, mas antes uns pacotes com um sortido de confiança composto por: 1 Constituição encadernada em lombada francesa, um cartão da adse, um cartão de eleitor, um cartão de descontos do pingo doce, e uma ficha de inscrição no acp. Mas voltemos à família Confiança, mais especificamente à menina Confiança. Nasceu ali à rua do Arsenal, entre duas lojas de bacalhau, bem pertinho donde enfiaram uns tiros no bom do dom Carlos e seu primogénito amado, e bem cedo se revelou uma moça que nunca quebrava as expectativas de ninguém. O seu primeiro namorado, César Camacho, a primeira vez que lhe tentou dar um beijo levou com uma c...

Murmurando entendimento IV – madibando-se para isto tudo

Cristina Lagarde veio reconhecer que tinha sido contratada para fazer uma fmímica gestual mas que entretanto começou a ter visões e baralhou-se toda. Não teve coragem para parar e seguiu fazendo as suas pantominas em forma de resgate porque não queria atrapalhar as cerimónias fúnebres.

Murmurando entendimento III – do cabaré para o convento, ida e volta

Simão Bivalves sempre fora um reformista da primeira hora. Vivera torturado pelos desmandos e manobras daquele que ficaria sorbonianamente especializado em tortura, e encontrara em Passos Coelho uma espécie de vamos-lá-ver-se-dá, tipo chave de fendas em promoção. Habituado a escarnecer e a elogiar, com uma discricionariedade da família dos pequenos caprichos, Simão punha-se agora a jeito para servir de mais um alibi ideológico a uma bateria de testes chamada pomposamente governo de salvação com troika em opção. Pau para toda a colher, arrastou-se de gabinetes em gabinetes, tentando vender-se como eminência parda mas pago a preço de conselheiro laranja. Andou próximo do poder e sentiu-se recompensado por aquela sensação pirilâmpica de quem está tão próximo da luz que se julga ser interruptor. Emprestou a alta verve, a média cultura e a baixa vergonha ao serviço do desdém olímpico e da cumplicidade banana, contradisse tudo o que já tinha dito com a limpeza típica das superiorid...

roda da sorte

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Murmurando entendimento II – pib com laranja

Como o nosso PIB ainda está muito cru para enfrentar novamente a vida lá fora, há que o preparar. Num almofariz coloque as reformas do estado, o crescimento e a competitividade. Esmague até que fique uma pasta. Num tabuleiro de ir à troika tempere o PIB por igual com as reformas de estado esmagadas. Junte no tabuleiro 2 folhas de orçamento de estado, 3 manifestações de polícias, 4 exames de professores e o sumo de laranja. Por fim coloque a manteiga. Leve ao Bundesbank pré-aquecido e deixe assar aproximadamente ano e meio. Entretanto, num tacho, leve à comissão europeia o restante caldo, o deficit público, a manteiga e os miúdos (as gerações mais novas). Tempere um pouco com demagogia e corrupção. Deixe cozer entre 4 a 5 meses, até as novas gerações ficarem tenrinhas. Passado um ano do PIB estar no bundesbank vire-o de forma a que fique com as exportações para cima. Depois das novas gerações estarem fodidas, perdão, cozidas, retire-as...

Murmurando entendimento I

Aparentemente «a troika reconhece erros mas são para manter» o que me parece uma atitude bastante acertada. Julgo até que da nossa brilhante história o ‘erro da troika’ é dos erros melhorzinhos que nós temos feito e para além disso tem a virtude de podermos dizer que não fomos nós, foram os outros meninos. Se considerarmos erros como por exemplo o terramoto de lisboa, a presidência de godinho lopes, a morte de dom Carlos, a aventura de alcácer quibir e a exportação da orsi feher , o memorandum e respectivos folhos foram dos melhores figurinos com que nos equipámos. Vamos-mos lá entender:   nós evoluímos na cadeia alimentar das crises, pois deixámos de ser um país com crise para sermos uma crise com país. Como já vi escrito em qualquer lado: nós não somos os herdeiros dos que foram à Índia, nós somos herdeiros dos que ficaram.

Imaculado Campeão

Como é do conhecimento geral o campeonato de futebol que realmente interessa acabou ontem, no dia da Imaculada, e o Sporting sagrou-se campeão. Reparemos que não se usa por aqui o simples e matafísico verbo ser mas antes um verbo mais digno e adaptado às circunstâncias transcendentais da coisa: sagrar. A lagartada campeã (não é ir à frente, é campeão mesmo, qualquer pessoa decente reconhece que o verdadeiro campeonato acabou ontem) é o sinal que os deuses nos estão a dar num dia em que se celebrou a natureza virginal da concepção do messias. Também os lagartos, sem que nada o previsse, contra todas as regras da natureza, todas as causalidades, revelam-se líderes ao mundo. Limpos, serenos, sabendo compreender e até perdoar, quem quiser misericórdia pode assim aproximar-se que lhe será concedida, políticos e lampiões inclusive. Tal como a Virgem sem saber ler nem escrever se apanhou naqueles preparos, assim o nosso Leonardo nos coloca a todos prenhes, eu inclusive afago hoje a minha ba...

Conto do estar para aqui

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Calixto Semedo desistira de observar baleias desde que encontrara Luísa Ventura a tomar chá em Porto Formoso. Arreliada com a sua sorte Luísa fora desopilar ao sabor de chá verde com jasmim e quando viu que Calixto também para ali estava a pedir um desconto de tempo ao destino resolveu abordá-lo. Estar para ali é diferente de simplesmente estar ali e Luísa tinha esse marcador na gema, pois descobria sempre os que estão para ali por entre os que se limitam a estar ali , seja ali onde for. Calisto estivera a observar baleias na Caloura toda a manhã e tirando ter sido atropelado por uma vaca sem nome nem badalo, nada a sorte lhe tinha colocado na ponta dos binóculos. Sem tendência para as costumeiras neuras insulares pegou na trouxa, respirou fundo três vezes testando o bom tempo nos canais e foi tomar um chá que lhe diluísse o que sobejara da bucha. Pelo caminho rezou três avé marias com um olho no promontório e outro numa ciclista irlandesa que descia a ladeira sem tra...