O equilíbrio é uma das marcas da actividade política. Um consenso vem sempre seguido de um com-penso. O novo dicionário não ilustrado revela os segredos da conveniência, perdão convivência, democrática. ( 326 a 333 ) Pacto – Estado da natureza próximo do fungo micótico que permite a coçadela prazenteira da demagogia, mas que está sempre ansiando pela pomadita milagrosa do expediente. Convenção – Maravilha das relações humanas que transforma uma sala de irrequietos abafadores de ajudas de custo, num corredor de comensais inebriados pelo encanto duma boa refeição. Tratado – Situação decorrente duma crise de bulimia intelectual, que leva à elaboração de dietas ricas em hidratos de converseta com trivialidade insaturada. Aliança – Emparelhamento de valor simbólico que, ao permitir a sublimação das individualidades, realça o recalcamento dos complexos infantis de nacionalidade. Felizmente todos os países são filhos ilegítimos, e com os testes de ADN aos imaginários nacionais só descobrem qu...
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A mostrar mensagens de novembro, 2003
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Sobreviver sacudindo Recebi este texto com um laço azul a abraçá-lo. “O que eu procuro na transfiguração cómica ou irónica ou grotesca ou burlesca é a saída da tacanhez e da univicidade de toda a representação e de todas as opiniões. Uma coisa pode-se dizê-la pelo menos de dois modos: um modo pelo qual quem a diz quer dizer uma coisa e mais nenhuma senão essa; e um modo pelo qual se quer dizer de facto essa coisa, mas ao mesmo tempo recordar que o mundo é muito mais vasto e complicado e contraditório” de Italo Calvino Eu por acaso até não gosto da expressão “ isto é muito complicado”. O seu uso tornou-a recurso gasto. Gosto mais de “enrolado” (como até a etimologia da palavra induz) porque mostra o mundo mais próximo da sua condição geométrica . No entanto, essa coisa de deixar como ferida exposta a ambiguidade de um facto, de uma palavra, dum conceito, de uma pessoa, é algo que seduz. Para o alcançar o recurso às técnicas de humor mais correntes acaba por ser o método mais fácil e co...
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Hoje, só por causa das coisas, o abrupto acabou por marcar a agenda deste sítio esconso (alguma vez tinha que ser...). Os grandes educadores mudaram. A classe operária também. Já não é de “ elite para elite” mas de “frivolite para frivolite”. O novo dicionário não ilustrado não se acanha perante a concorrência e apresenta alguns dos novos professores.( entradas 318 a 325 ) Canais generalistas. São canais porque ligam duas zonas húmidas: o pântano da realidade com a fluidez da notícia. São generalistas porque esta humidade seca com qualquer merda nova que apareça. (evitei as alusões sexuais óbvias, porque sou púdico-discursivo) Jornalistas económicos – Rabejadores de trivialidades. A economia da nação deixa de ser um lugar lúgubre e inacessível, para se tornar num episódio do sítio do picapau amarelo apresentado por bandarilheiros a sacudirem pandeiretas, pensando que estão a dar a volta à praça em ombros. Associações de estudantes (ou os manuais da reivindicação) – Vendedores de cint...
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"Judiarias" Garantir desde já que Santana Lopes será candidato a Belém é um favor que se faz ao país e à política portuguesa. Em primeiro lugar talvez os socialistas se vejam novamente tesos para levantar a garupa da luta política, e assim talvez isto aguente o PS mais um bocadito até morrer de vez. Cavaco continuará a escrever artigos dizendo que já tinha previsto tudo há carradas de anos, e nós ficamos mais sossegados por saber que ele continua a zelar por nós. MSoares saltará a correr da bicha da caixa de previdência e escreverá a sequela do bestseller “ Meu filho, meu tesouro”. Os flocos de esquerda continuarão as peregrinações na serra do Louçã, recalcando os seus “seminarismos libertário-socialistas” com teatros obscenos de rua. Marcelo entalado entre o “ódio óbvio e as aparências que já não iludem”, cansado de fazer tanta opinião que já não sabe qual é a dele, irá escrever a meias com Freitas um drama sobre a pedofilia na 1ª dinastia, para o APVasconcelos levar ao alta...
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Para mim é uma imperial se faz favor Estar dentro e querer ver como se estivéssemos fora; estar fora e querer ver como se estivéssemos dentro. É isto que faz dalguns, peregrinos numa suave neurose de ubiquidade. Claro que os jornalistas e os políticos ao celebrarem o estilo” Um olho no burro e outro no cigano” pensam que iludem esta “fatalidade”. Só que o mundo responde-lhes como o personagem-narrador do “Túnel” de E. Sabato : “ existiu uma pessoa que poderia compreender-me. Mas foi precisamente a pessoa que matei” Se calhar pensavam que só os outros é que podiam escolher títulos à toa
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Os “comentadores literários” parecem aqueles que estão sempre a bater à porta da casa de banho a oferecer papel higiénico quando nós só queremos é satisfazer os caprichos do corpo em paz ( isto era um título) Já estava a ficar preocupado a ver que só os outros blogues é que recebem correio qualificado. Foi então que...Fátinha Felgueiras – num hospital brasileiro, curando-se duma unha encravada ao desatar um nó do seu ultimo saco azul - não quis ficar atrás do VPulidoValente e mandou-me uma carta sobre a sua leitura pessoal do novo livro de ALobo Antunes “ O “boa tarde...qualquer coisa “ é um romance confuso. O senhor que o escreveu deve ter problemas de tabulação lá no computador dele. Ou então é uma “fobia da esquadria”... (Isto lá nas câmaras resolve-se com umas rotundas). Aquilo não é livro que se possa oferecer no Natal!!! Uma pessoa começa a lê-lo e só acaba lá prá Quaresma; o espírito da epifania mistura-se com o do sofrimento...bem.. afinal até tem tudo a ver... As palavras nem...
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O novo dicionário não ilustrado encanta-se com os “suaves engajamentos” ( na lista de links ). Tentando ajudar o resto do batalhão a marchar em condições, propõe a seguinte arregimentação para que não se troque o passo da marcha:( entradas 297 a 317) Romantismos Esquerda I– Tem os sentimentos à flor da pele. Saem geralmente flagelados pelo contacto com a realidade. Direita I– Tem os sentimentos no sangue. Em regra só acabam por encontrá-los quando vão retirar a seiva para as análises (políticas). Preocupações Esquerda II– O desemprego deixou de ser uma preocupação social para ser uma preocupação pessoal. Direita -II Na impossibilidade técnica de terem preocupações sociais, o desemprego passou a ser um mecanismo de regulação que deve ser acarinhado Orfandades Esquerda III– Tem apenas o "bush" e falta-lhe o "estica". As paródias começam a sair-lhes mais sensaboronas e com ligeiro sabor a resignação Direita III– Só com um Lula a sério para fazer a caldeirada, não cons...
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Eu, um itinerário Eu gosto da palavra transcendência. É um dos tais conceitos que permitem ao discurso não se deixar contaminar pelos acontecimentos. O Rubem Fonseca dizia que ela devia ser proibida porque já a tinha visto ser usada para descrever um bóbó de camarão. Só que ela está-se a borrifar para isso. Aquela ideia protestante de que as palavras nos livram do “folclore” simbólico-imagético acabou – infelizmente – por vingar nalguns subconscientes e diluiu-nos por vezes num território exegético-real. Com as suas obsessões etimológico-oníricas ( e viciantes... ) JLBorges também se esticou um bocado e não está isento de culpas: Deixou-nos ainda mais atados ao labirinto facto-discurso-facto-discurso. Ou seja : “Para lá de” é onde eu quero estar, longe das palavras, longe dos factos, longe dos significados, na mera circunstância, na mera “superstição topográfica”. Onde a facilidade simbólica é a “narrativa dominante”. Em blogspot.com. A minha sala de chuto assistido.
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Prémio de consolação Por mim pode ficar perfeitamente decretado que: Quem por pudor, ou vergonha, ou consciência da realidade, não se puder dar ao luxo de auto intitular “extremamente inteligente”, poderá em recurso utilizar o epíteto de “irónico”. É fino e não fere tanto os espíritos mais frágeis como eu. (estive para escrever frígidos, mas agora um gajo tem que se conter...). A ironia está a tornar-se o palhaço pobre do discurso.
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O drama da infinidade semântica : Inocência explícita Fui tomado por uma certa pulsão de thanatos. Não sei se conseguirei resistir. É mais forte que eu, que sou reles andróide endrominador... É que isto de dizer mal também me parece que está a precisar duma recauchutagem!... O quarto do pulha – em flagrante crise de identidade – até já se tem de encostar à bengala do pipi, o Mephis começa a rodopiar demasiado em torno de vítimas que o ignoram, e o anarca constipado já apenas atordoa recenseando anarquicamente notícias. Isto de viver apenas parasitando na tolice alheia está a ficar difícil. É como estar sempre a dizer que não se gosta de bacalhau com natas. A certa altura o bacalhau caga nisso, e a vaca é para esse lado que muge melhores natas. Organizem-se pá! Até o VPulido Valente já teve de vir dar uma mãozinha!!!! Bem eu não m’aguento mesmo... Julgo que todos já nos distraímos com a gabarolice marialva, já mandámos as nossas chalaças ao orgulho gay, já elaborámos os nossos imaginat...
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Os intitulados “estados de direito democrático” têm as suas cruzes, e em regra são muito eficientes a distinguir o bom ladrão do mau ladrão. Geralmente quem carrega a cruz democrática nunca é o carpinteiro nem o seu filho. A eficiência é o nome do carrinho de mão que a transporta. Aos solavancos. O novo dicionário não ilustrado é o guia turístico desta via-sacra. ( entradas 286 a 296 ) Falta de legitimidade – Vício que peregrina no instável equilíbrio entre a eficiência e a formalismo da lei . Promove romarias para afagar indignações dos que vêem na lei uma canja de virtudes. Favorecimento – Crueldade que mina o lírico equilíbrio entre a eficiência e a igualdade . Alimenta os enojamentos dos querubins do paraíso da hipocrisia, e os desabafos irritados das almas que purgam cobiça. Erro Judiciário – Ovelha negra do pastoreio jurídico que atrapalha o bucólico equilíbrio entre a eficiência e a liberdade . Como a inocência é uma presunção, quem se julga inocente não é mais que um presumido....
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Às vezes não são rosas senhor Se o que nós assistimos nos últimos dias pelos chamados “ meios de comunicação “ é o que parece, a situação iraquiana não se adequa à visita não turística dos 150 coitados-GNR-portugueses. Governar com “sentido de estado” e “noção do papel de Portugal no mundo” não pode ser: “agora só há é que os apoiar”, “não podemos fugir às nossas responsabilidades”, “ há que assumir os riscos das nossas alianças”. Podemos “andar à nora” mesmo sem ser burros. Quando elegemos o nosso prosaico-primeiro-ministro não elegemos um grande estadista internacional, mas apenas um tipo para nos diminuir a listas de espera e acautelar das vacas loucas. A guerra é um fenómeno com o qual podemos ter que viver, mas tem as suas leis. E não julgo que sejam as mesmas das finanças públicas. Para não ter vistas curtas não basta pôr a mão a fingir de pala de sol. Não estar encandeados não é suficiente para ver bem; há que saber viver na sombra. Se passarmos o tempo a piscar os olhos, ainda ...
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Pintores de escrita à pistola Uma das coisas que dá mais pena é ler as banalidades que grandes pintores escrevem sobre a pintura. O génio está-lhes quanto muito no pincel, bem longe do verbo. Acabam geralmente por apenas distribuir trocadilhos suavemente metafísicos sobre os conceitos que suspeitam dominar. É a velha obsessão de conseguir ver o todo, e de não nos contentarmos por andar distraídos e entretidos apenas com as partes. «Só o aspecto puro dos elementos numa relação equilibrada pode aplacar a tragédia da vida.» “Por detrás das formas naturais mutáveis jaz a realidade pura que é inalterável.” Lia-se de Mondrian no murmúrios do silêncio (que na sua boa fé nem tem culpa...). Esse rapaz foi de facto um dos que perdeu tempo com um ideotário estéril e quase pueril, não se contentando em apenas pintar brilhantemente e ir ouvindo um bocado de jazz. Na linha doutro rapaz - o Kandinsky – que também se desfez em palavreado de trivialidade conceptual, e tanto esgotou a sua verborreia (...
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O Cunhal afinal Porque gostamos de inventar pessoas especiais!? Cunhais de altar. Ladrilhadores de testa alta com diploma de arquitectos. Mistificações de ridícula-incontornável-importância-histórica. Cunhal..... Prefiro ser visto como um extenso bordel bragantino do que como um lar de comunas . Afinal chamou-se heróica coerência a um mero instinto de sobrevivência Afinal eram meramente tácticos os processos articulados de segredo-revelação Afinal nem toda a gente que desenha bem tem direito a ser herói nacional Afinal ser clandestino é a sina de qualquer bloguista anónimo Afinal ser escritor anónimo é a sina de qualquer pipi Afinal certa esquerda tem-lhe secreta raiva porque ele tem mais pedestal que ela Afinal certa direita põe-lhe o “manto da glória” porque arrelia a esquerda Afinal ele condicionou um período histórico em Portugal porque apenas estávamos confusos, mas continuamos e ele já não tem nada a ver com isso Afinal ele acreditou no destino da história, mas vai precisar da mã...
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Primus inter parvus Enrebanhando pelo tricot de links desta paroquiana blogaria,dei com um dos “escrevedores encolunados” da moda a dissertar sobre ter fundado “o primeiro” blog português. Eis outra das “vertigens obsessivas” da nossa condição: aparecer antes do outros, ser o primogene, ter dito primeiro, ter feito primeiro, ter pensado primeiro. Olhar para trás e ver sempre uma cauda a abanar. O novo dicionário não ilustrado apresenta-nos outras “camisolas amarelas” do pelotão. (entradas 276 a 285 ) Adão – Cortou a fita à entrada da espécie. Por causa da merda duma maçã passou o tempo todo com uma parra à frente e uma mão atrás. A costela mais atrevida deu azo a uma gaja, vá lá..., mas no afinal das contas foi um tipo que só serviu para nos infernizar e mediocrizar a existência. Abraão depois também não ajudou. Ovelha Dolly – Não era ranhosa mas finou-se rápido. Ser copiada afinal era uma originalidade de judas. Nem a porra duma camisolita de lã se conseguiu fazer com ela. D. Afonso ...
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Annus possibilis Procurando dar uma machadada definitiva no tacanho vício de não sabermos olhar para o futuro, de apenas navegarmos à vista e de agirmos só para o imediato, o nosso venturoso governo decidiu estabelecer um calendário para a realização do “pouca-terra-pouca-terra” do futuro até ao ano 2018. Isto sim é estratégia e planeamento da mais fina água. Agora não devemos ficar por aqui, pois temos finalmente o futuro nas nossas mãos. Sou forçado a debitar um programa construtivo para Portugal: 2019 – Ano da limpeza. Bandeira Azul para o rio Trancão. Gigi revela ao mundo o “safio au bechamel”. As festas sociais rendem-se ao encanto do suburbano. Represas fará duetos com Emanuel. Portugal será um país asséptico, pleno de equilíbrios e irmandades. Uma serena Etar à beira mar. 2020 – Ano da castidade. Bragança inaugura sem complexos a ponte aérea com a Tailândia. O pecado será erradicado definitivamente através do “kit fidelidade”. Esta maravilha da tecnologia inclui um "excitó...
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Palavras ao vento A palavra é um bluff. Sobrevalorização em excesso. Próprio dum mecanismo que se pensa essencial, os seus efeitos são limitados, tendencialmente repetitivos, e raramente satisfaz os clientes que a requisitam. O elogio bacoco aos poderes especiais da palavra, à sua causa expressionista, à sua amplitude, ambiguidade e divina subjectividade, é uma ideia feita e alimentada pela puerilidade dos seus escravos. Não faz a porra dum luto, não faz um amor, não faz um agradecimento de jeito, não alimenta uma pena, não consola um coitadinho. Fraco fracasso: não faz a diferença. É puro massajar sem tocar. Alimenta-se a si própria, como simples “reflexividade” “armando-se” à transcendência; como é que nos deixamos enganar? Usamo-la como mera fatalidade ou ao ritmo da poética ingenuidade. Ilusão e desilusão. Tudo bem, ...que seja um parque de diversões, um carrossel para miúdos. Nunca será a “capela sistina”, nem um “franzir do sobrolho”, nem uma “lágrima”, nem um “encolher de ombros...
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Hoje apenas para acompanhar a cervejita e o tremoço, o novo dicionário não ilustrado tenta decifrar os nomes que os “gajos” nos chamam. Um pires com as entradas 263 a 275. Na televisão... “Povo” – Palavra que exprime a resignação pelo facto de não conseguirem fazer omeletas sem nos limparem primeiro as salmonelas, e verificarem que temos casca boa para partir. “Cidadãos” – Palavra de registo cacofónico que acaba por dar muito boa serventia nas correntes de solidariedade. “Eleitorado” – Designação que revela o encanto quasi-fetichista que provocamos, quando temos um papelito dobrado na mão, uma cruz para distribuir, e umas ilusões para hipotecar. “Gentes do nosso país” – Expressão de cariz lírico-bucólico que, à falta de música a acompanhar, só Júlio Isidro poderá usar em condições higiénicas. “Amostra representativa” – Expressão elogiosa do foro estatístico, que faz de alguns privilegiados um misto de fita métrica calibrada com rato de laboratório. “Portuguesas e portugueses” – Exp...
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Definitive collection da malta Deus prova a sua absoluta existência quando, de forma magnânime, distribui subjectividade por todos os lados. A malta é mal agradecida O mal ao ser mastigado produz aquele sabor empapelado, que depois só dá vontade de beber muita água. Muitas vezes nem temos a fonte certa à mão. A malta enerva-se A condição humana nem é tão ranhosa assim, mas revela-nos que sem Deus podemos aparentar meros seres condicionáveis. A malta fica intrigada A morte é sempre súbita e transcendente porque parece que não fomos feitos para morrer. Também não percebemos para que fomos feitos. Temo que não tenhamos sido feitos para perceber tudo. A malta mal se conforma A ciência vai conseguir provar tudo se tiver um manequim de jeito. A malta entusiasma-se A vida eterna tem uma característica: é para sempre. Este conceito também não é inteligível. Felizmente. Mas há malta que fica ansiosa . A Salvação é uma poda. A imagem de Deus que mais gosto é a do Jardineiro, que trata das ...
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Para esquecer a romaria à senhora da cunha e aliviar da via-sacra na casa pia, estaremos agora dedicados à ladainha do orçamento. Demonstramos assim a grande dificuldade que temos em nos assumirmos como um estado laico; o novo dicionário não ilustrado o mais que pode ir fazendo, é lavar os dogmas com água de malvas em vez de usar água benta.( entradas 253 a 262 ) Ciclo económico – Designação comum para um momento em que tudo se passa sem que ninguém dê conta, e que depois, quando todos dão conta, já passou. Felizmente asseguram-nos que os “ciclos são cíclicos”, e que três ciclos seguidos não fazem um triciclo mas antes um período. Ocasionalmente estes não menstruam, e é sinal de que passado alguns meses vão aparecer problemas novos. Crescimento – Fenómeno curioso em que os números nunca encolhem com as lavagens estatísticas, e se debotarem existe um maravilhoso elixir chamado “critério”. Competitividade – Mitificação dum complexo mal resolvido de Adam Smith segundo o qual, para susten...
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Requiem a um deus de vão de escada Uma das tormentas que assola a minha existência é poder passar ao lado dum poema que mudasse a minha vida e que, por pequenez do meu espírito, não o reconhecesse. Consta-me que se discute agora que a poesia está em perigo e que pode morrer. Teme-se que um novo degelo das águas turvas da realidade acabe com os dinossauros da palavra: os que ainda a tratam como os primitivos. (ideia que o JLBorges me emprestou à borla) Se isso acontecer.... 1. Ficarão apenas os bichos de menor porte, ou seja, aqueles trapalhões como eu, que só brincam com as palavras, incapazes de serem verdadeiros predadores de garras afiadas e dentes de sabre. 2. Como dizem alguns estudiosos afamados, ficará Pessoa “por resolver” e não mais atormentará a plateia dos babados que tinham pago para sessões contínuas 3. Alguns críticos poderão ir para as obras concorrer com os ucranianos directores de orquestra. 4. Os milhões de poetas portugueses libertar-se-ão desse jugo de não poderem r...
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Engajamentos Há que acarinhar os peditórios da “esquerda” versus “direita”, porque esta dicotomia é acolhedora, dá segurança, e é um bom refúgio em momentos de esterilidade e intranquilidade criativa. Os esgares da “liberdade” e da “igualdade” fornecem-lhes ainda os adereços necessários para estar sempre na moda. Se um infeliz destes, mais desprevenido, disser uma asneira, certamente alguém já a terá justificado, ou com uma referência histórica bem desmontada, ou com uma frase enigmática, mesmo irónica, mas sempre brilhantemente fundamentada por um deus de serviço. Eu pessoalmente até gosto de ler textos de gente engajada. Lêem-se com serenidade, com aquele descanso de alma de quem já sabe o que vai acontecer, não vai haver muitas surpresas, os bons raramente se misturam com os maus e nós não nos baralhamos. E o Popeye nunca aparecerá a estragar a história da Bela adormecida. Este espartilho ideológico – espantosamente – ainda liberta o engajado do desagradável que é ter o desconforto ...
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Pleuresias incompletas Anátemas anatómicos Um poético seio Não faz um bom par de mamas Um cândido olhar Não faz um bom piscar de olhos Uma anca ululante Não faz um bom jogo de cintura Uma nádega arredondada Não faz uma boa base de partida Um umbigo rafaeliano Não garante uma ligação à terra Umas coxas roliças e firmes Não alicerçam um bom lar de família Uns lábios carnudos Não garantem um bom refogado Uma mão amiga Não aperta um car...... Mas é preciso um bom pulmão Para respirar um amor decente