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A mostrar mensagens de 2011

Os pendentes de cristine

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Apesar de não se saber ao certo qual a verdadeira face e o papel do FMI na cena financeira internacional, Lagarde terá certamente vários pendentes para o ano que vem. Daí que seja importante analisar que tipo de brincos enquadrados nesta categoria ela utiliza. E então gera-se(-me) o pânico: Largarde abusa mais que a conta do brinco em pendente. Sabe-se desde tempos imemoriais que o brincos foram a maior falácia que se instalou no mundo do embelezamento feminino, trazendo consigo aquela ideia peregrina de dar uma luzinha à cara, de dar amplitude às feições, rasgos de personalidade e mais o caneco. O mundo está num virote e Cristina, podendo-se limitar a uma perolazita discreta apenas para fazer o gosto à parolice, não, de vez em quando brinda a já de si sensível comunidade internacional com um par de pendentes que descontrolariam qualquer tarado em fase de negação. O pendente lobular é um atentado ao bom gosto e um óbvio recuo no contributo que o feminino tem de dar à humanidade pós ja...

treta à terça

Só há duas atitudes esteticamente decentes a tomar em relação àquilo que não se percebe: ou se idolatra ou se escorraça. Este ano o nobel da literatura foi entregue a um caramelo sensível portador dum veículo de comunicação chamado 'sueco', algo que se mostra tão incapaz tanto para fazer relatos de bola (o verdadeiro teste a uma língua) como para engatar miúdas (inclusivamente as suecas, que, como se sabe, adoram pretos subsarianos por causa das línguas que utilizam e semióticas afins). Para além dessa deficiência, um indivíduo que se dá a conhecer por um nome a roçar o desenho animado americano, decidiu introduzir-se nos meandros da indescritível arte de juntar palavras simulando pequenos partos sem dor e que nalgumas culturas peripatéticas se convencionou chamar de poesia. Dessa escolha para a vida resultaram pequenas obras de marcenaria sem madeira denominadas poemas e que foram bastante apreciadas inclusivamente por gente que tem de profissão apreciar, designadamente os apr...

e boas festas aos mercados também

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nº 2 do governo espanhol nº 2 do governo português

Boas Festas

Acordo Monetário da Praia do Meco artigo 1º Face à inoperância do discurso da tanga, do pintelho e do marimba, e não se vislumbrando evolução favorável para o contexto internacional de desequilíbrio entre a riqueza produzida e a quantidade de activos monetários em circulação. artigo 2º Considerando que faliram os conceitos de moeda refúgio, moeda padrão, moeda símbolo, moeda valor e moeda gorjeta. artigo 3º Levando em conta que as várias dicotomias que dividiram os homens, e as utopias que os uniram, se mostram tão desactualizadas como actuais.                                                                         ...

verso à terça

Cedo ao rasto de restos que me tenta até ti (...) Posso disturbar o teu espaço? Entrar e ficar a ver? (...) Procuro com a precisão de poros a mulher dentro da pedra. (...) Desenrolas (...) o novelo que te veste (...) lavo-o até ao teu cheiro até respirar de ti o perfume verdadeiro. [abandalhamento de: ] João Luís Barreto Guimarães, no poema 'Imersão', em Rés-do-Chão
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- Romy, que pensas sobre esta merda? - Não sei o que te diga, acho que saí no momento certo - Mas acabaste por não me conhecer - sim, foi pena, mas vejo-te agora daqui - Mas aí há filtros, não me tocas - Todos temos mais que uma dimensão - Porra, isso é conversa, em cada momento só há uma dimensão - O segredo está em não viver os momentos - Aquele sifilítico maluco do bigode está aí ao pé de ti? - Sim, passa por aqui de vez em quando para falar com a Lou - Foda-se, essa gaja está aí contigo? - Sim, mas fazia mais sucesso por aí... - Não me digas... - Por aqui já não resulta aquele esquema do finge que vai e não vai - Pois é, isso aí para as mulheres é mais ingrato... - Que queres dizer com isso, oh ajóta? - Sabes bem, as mulheres são sinuosas por causa daquela coisa da serpente - Olha, queres uma boa, noutro dia estive com ela! - Com quem, com a serpente!?... - Sim, e olha que nem me pareceu má rapariga - Estás a brincar, a serpente era uma gaja? - Sim, o Adão tinha mais que uma coste...

autobiografia instantânea

A bateria só tem 15 minutos, rasguei-me um pouco ao lado do picotado e saiu um pó esverdeado, típico duma soberba reprimida à base de cacetadas bem dadas de moralismo cirúrgico, mas persistente; apresento um cheiro adocicado quando virado para a luz, acre na sombra, deitei-me um pouco no pires, ao mais pequeno contacto com a  humidade real começaram as bolhas de susceptibilidade, o metal da lâmina da faca foi acolhido primeiro com desconfiança, depois com crueldade e finalmente com resignação, sim faca, para me mexerem bem teve de ser com uma faca, ria-me quando vinham para mim às colheradas. Feito em montinho - já só tenho 10 minutos de bateria - pareço impreparável para o contacto com o leite e muito menos com o forno. A minha pasta inicial é repelente, sou desajustado para amores à primeira vista, quando chega o primeiro garfo cheio de proselitismos deixo-me ir, ponham mais leite que se lixe, serei tarte, serei torta, bolo, rolo, seria o que quisessem. Sete minutos. En...

austeridade

Ela pediu-lhe para ele descrever uma cena com os dois de mão dada a ver o luar. Ele ficou relutante pois sentia que perdera momentaneamente o jeito para escrever com as emoções ao colo. Afinal de contas ele não era um escritor, um escritor tem de saber escrever em qualquer circunstância, tal como um canalizador tem de saber desentupir um cano mesmo que a mulher lhe tenha posto os cornos. Mas ele sentiu-se desafiado, qualquer coisa lhe mexeu no cordelinho da lírica competitiva e pôs a imaginação e as letras ao caminho. Pensou nos dois com as caras encostadas, entre o encosto suave do acaso e a tangente do desejo, primeiro a tentarem distinguir a tabela periódica dos cheiros e depois, já com um cheiro comum bem constituído, a avançarem para a Corte do céu. Dá muito trabalho construir um cheiro comum mas depois ele faz muito milagre por conta própria. Um céu estrelado a dois é uma moeda seguríssima, quem a possui pode considerá-la uma recordação de refúgio. Ele, entreta...

verso à terça

É apenas que este calor e este movimento são como o movimento e o calor de uma mulher. Não é que haja no ar alguma imagem, Nem o fim nem o princípio de uma forma: Há o vazio. Mas uma mulher em oiro puro Queima-nos com o roçar do seu vestido E uma dispersa abundância de ser, Mais definida por aquilo que ela é - Porque ela é desencarnada, Transportando os cheiros dos campos estivais Mostrando o taciturno e no entanto indiferente, Invisivelmente nítido, o único amor. Wallace Stevens, in The Auroras of Autumn (trad. de Maria Andresen de Sousa, para 'Antologia')

'Souverainirs'

A soberania é um tema relaxante. Seguindo a velha máxima de que só damos verdadeiro valor àquilo que perdemos, acho que devemos perdê-la um pouco. Essencialmente para: darmos uma boa causa aos nossos netos. Diz-se que só lhes vamos deixar dívidas, montes de velhos para mudar as fraldas, ideologias esclerosadas, auto-estradas para manter, lares e hospitais sem verbas para mudar fronhas, então para compensar temos de lhes deixar uma causa decente para eles voltarem a lutar por algo digno. Estou pois de acordo em perdermos um pedacito dessa coisa que se convencionou chamar soberania, uma espécie de domínio político sobre nós próprios, aquilo que no nosso corpo biológico chamamos de controlo da incontinência; sim, estou de acordo, por uns anos, só mijaremos quando, onde e como uma troika qualquer nos condescender, e a dita soberania passará a ser apenas un bom recuerdo, algo entre o cheiro da castanha assada e os brincos pendentes de filigrana. Renascerão assim os espíritos verdadeiramente...

the sense of a pending

Estamos rodeados de dívidas eternas que apenas podemos gerir: o nosso sócrates (tão nosso património como o fado) deu um exemplo que originou uma colecção outono-inverno de vestes rasgadas, mas tem obviamente toda a razão. À semelhança da dívida que um filho tem para com os pais, dum aluno com um professor, tal como o que se passa num amor não correspondido, ou com uma vacina dada no momento certo, já para não falar do maravilhoso mundo do religioso, toda a experiência humana está cheia de dívidas eternas que apenas administramos o melhor que a nossa precaridade galáctico-filosofica nos permite nesta economia mística de meios. [Aliás, a dívida perpétua, saberão muitos, é um instrumento absolutamente normal, equilibrado, e que se pode e deve aplicar a situações às quais se adeqúe, como num banal empréstimo à habitação (os filhos e os netos e os bisnetos que vão pagando os juros pois podem lá continuar a viver) e é um instrumento financeiro recorrente. A dívida resulta dum excedente e...

verso à terça

E muitas coisas É preciso manter, como sobre Os ombros o peso Da Lenha. Mas os atalhos são Adversos. Pois dissociados, Como cavalos, avançam os unidos Elementos e as antigas Leis da Terra. E há uma ânsia que sempre impele para o desregramento. Porém muito É preciso manter. E a fidelidade urge. Porém nem para a frente nem para trás queremos Olhar. Deixamo-nos embalar, como O barco que no mar baloiça. F. Hölderlin, in Hinos Tardios (Trad. de Mª Teresa Dias Furtado)

O Destino das Espécies

O vocábulo de origem italiana (se bem que introduzido por cá via o francês ou espanhol charlatan ) ciarlatano, eventualmente fusão dum vocábulo turco dzar-la (falar ruidosamente) com cerretanus (habitante de Cerreto, local na Úmbria onde terão aparecido na Idade média os primeiros vendedores ambulantes reconhecidos pela bela da lábia a vender remédios milagrosos), deu origem no muito nosso charlatão , conceito que deverá ser tratado com uma dignidade à prova de balas, tratados e moedas únicas. Antes de tudo eu defendo a tese de que existe uma alma charlatã, uma espécie de aperfeiçoamento dum transcendental aristotelo-kantiano, que impregna todo o conhecimento e todo o relacionamento, e introduz mais uma gloriosa inversão no maravilhoso mundo da realidade: é a ilusão que fundamenta a verdade. Como qualquer categoria de primeira ordem que se preze, o charlatão tem direito a uma caracterização rica e multifacetada e é a isso que o dicionário não ilustrado hoje se vai dedicar, ...

O perigo do método

Se há coisa em que sou medianamente especialista é em escolher métodos perigosos. Aplicar a freudojunguice às situações que menos lhe fariam apelo é uma das minhas predilecções. Gosto adicional e designadamente de inventar expressões e de dizer que foram de freud (ou de churchill ou até mesmo de dostoievski, e uma ou outra de picasso, - não podem ser personagens inventados, nem sequer pouco conhecidos ou obscuros pois movo-me em ambientes onde a credibilidade é um valor essencial ) , e como é impossível desmentirem-me costumo ser absolutamente contundente & convincente, desde que seja também bom e barato o que leve no cabaz, obviamente. Claro que lido intermitentemente com a indiferença, a desconfiança, o leve desprezo, (nunca dei azo a desprezos de nível olímpico), a surdez táctica e , obviamente, a insinuação educada de pura charlatanice. De todas estas situações a que mais me gratifica é a de charlatanice, pois acaba por reconhecer um talento genuíno e, mais, existe uma charlata...

O Padrão Louro

A melhor moeda da história é a mulher. Evitemos a indignação fornecida pela aparência escandalosa da afirmação e concentremo-nos na análise. Tudo pode ser mensurável naquilo que quisermos e, portanto: em mulheres; por outro lado todos sabemos que existem umas mulheres melhores que outras e inclusivamente a famosa lei de Gresham (também famosamente revisitada por Cavaco) pela qual a moeda má expulsa a moeda boa, ao contrário do que se supõe, nasceu da experiência dele com uma prima cozinheira que o mantinha refém à conta duma receita de entrecosto estofado com cominhos mas que acabou a coser meias para um orfanato depois de ter aparecido uma outra moça que colocava o seu entrecosto em zonas que Gresham nem supunha possuir. Se no caso do decadente papel-moeda o seu valor sempre foi único, ou seja, uma unidade de moeda , qualquer que ela seja, vale tanto seja para comprar batatas seja para comprar fivelas para sapatos Valentino, no caso da mulher-moeda esta permite um salto verdadeir...

Conversa à terça

A situação trágica grega é: o que deve ser será . Daqui o maravilhoso dos deuses, que fazem acontecer o que desejam; daqui, as normas mágicas, os tabus ou os destinos, que devem ser cumpridos; daqui, a catarse final, que é a aceitação do deve ser. (...) O poético dos gregos é que esses destinos, tabus, normas, parecem arbitrários, inventados, mágicos. Talvez simbólicos. Cesare Pavese in Ofício de Viver (trad. de Alfredo Amorim, entrada de 26 de Setembro de 1942) bónus: Estás só. Ter uma mulher que fala contigo não é nada. A única coisa que conta é o abraço dos corpos. Porquê, porque é que não o tens? «Nunca o terás». Tudo se paga. idem , entrada de 8 de Fevereiro de 1946

bomba de triliões

seiscentos mil milhões para aliviar os descendentes de rómulo e remo, quinhentos mil milhões para sacudir a pressão dos reinos de leão e, mais mil milhão menos mil milhão, outros tantos para outras tantas paragens todas elas com história, património e inclusivamente santos protectores. Ou seja, está descoberta a nova bomba que mata dividas soberanas sem estragar a pintura: o trilião. Basicamente, juntam-se vários milhares de milhões com outros milhares de milhões, põe-se no acelerador de biliões do fmi, dá-se ao pedal e no fim temos uns quantos triliões para bombear com aspersão opcional. No fundo a finança e a politica unidas saberão concluir aquilo que a física nuclear andou apenas com tímidas ameaças a tentar dar uns jeitinhos. Ora o novo triliãozão é uma espécie de partícula que resulta da fusão entre o trilião normal e o eurobond com rating acelerado, ou seja, pegamos em dois triliões ainda acabadinhos de sair do forno, polvilhamos com 100gr de eurobondes em pó e de seguida embrul...

Comam bolos

O lirismo é a única fórmula com provas dadas para tratar o tema das relações amorosas. Face a este êxito num ambiente tão hostil como o do amor julgo que é no mínimo um desperdício senão mesmo uma negligência grosseira não tentar explorar a fonte lírica para abordar seriamente a relação política, querendo eu dizer com isto a relação entre o soit disant cidadão e o seu governante, tenha este último saído de eleições, da tomada pela força, ou até mesmo caído do céu. O lirismo político que geralmente vem associado na linguagem corrente à ingenuidade, não deverá de nenhuma forma confundir-se com este conceito pois tal seria, tanto na sua natureza como no seu conteúdo, algo de bastante nefasto. O lirismo político, poderíamos enunciá-lo (e vou mesmo) da seguinte forma: o governante quer sempre do bom e do melhor para os seus governados e este últimos têm de fazer um esforço por compreender os primeiros no caso destes não compreenderem os segundos. Se a mensagem cristã manda dar a outra face,...

A impertinente sedução

Esta é a história de como um lapso condicionou a vida dum rapaz que até tinha algumas possibilidades de vingar na vida, designadamente na vida que interessa em momentos de dívidas soberanas, que é a vida amorosa, considerando que a moral é de um campeonato diferente e não está sob a ameaça dos mercados. Soeiro Vicente era bancário e ganhava a vida ajudando o seu patrão - mesmo que anónimo - a sacar comissões de descoberto a comerciantes dum centro comercial. Fruto dessa ignominiosa actividade foi criando uma rede de contactos que o levou sem especiais percalços a travar conhecimento dalguma forma intima com Sónia Luz, competente vendedora duma loja de relógios, moça com boa apresentação e que nem abusava do doping cosmético, se bem que não conseguia fugir da alavanca do salto alto, uma verdadeira vertigem para quem tem de sobreviver abaixo duma certa métrica. Um bancário discreto e uma vendedora de relógios parecia garantir um equilíbrio de forças com boas hipóteses de sucesso quer emo...

Citizen Claim

Afastadas as ilusões libertárias, conservadoras, estruturalistas, liberais, deterministas ou psicadélicas, (sendo que a ordem exposta é arbitrária) ou melhor ainda , sabendo como se sabe hoje que: seja: a) a sociedade como um todo; b) a sociedade como uma soma de partes; c) a sociedade como algo que nem sequer exista fora da letra impressa; d) o individuo como uma peça num puzzle; e) o individuo como uma peça numa engrenagem; f) o individuo como um ser independente e livre; g) o individuo como algo que nem sequer existe; h)  o individuo como uma marioneta sob o comando de mãos visíveis ou invisíveis - os modelos explicativos estão mais ou menos honrosamente esgotados, em qualquer destas hipóteses apenas nos resta uma solução que eu chamaria de 'misticismo acrobático'.  Ora esta corrente de pensamento (começou mesmo agorinha a correr) diz-nos essencialmente que é da junção entre a vontade do conhecido com a vontade do desconhecido que se organiza o mundo. Sendo que estas duas v...

verso à terça

Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado. Henri Michaux, in Poteaux d'angle (trad. de Júlio Henriques, para 'O Retiro pelo Risco')

hernianópolis

abre a boca, respira fundo, engole agora, isto não é o fim do mundo com calma, pense só em respirar, concentrado, assim não vai dar, faço imensas destas, assim não, se quiser segure-lhe na mão, faça-lhe uma festa, [segure-me antes na testa] concentre-se na respiração, assim não, vá, pode babar, agora vou para outra zona, não há azar está tudo a correr bem, não pense em nada, [ai minha mãe] é só uma impressãozinha, nem doi [rima com mariano rajoy] não tarda acaba, vou tirar um bocadinho, deixe sair a baba, à vontade, assim não, [deus, pátria, família, esófago] respirar fundo, vá,              tão fundo não, concentrado, relaxado, [decide-te cabrão] é só mais um jeitinho, só mais uma voltinha [está ali, está ali] não engole, não engole, agora não engole, sim, concentrado a respirar, [a enfermeira não é assim tão má] vai acabar, já está.

res gate

Res, rei , é assim que se apresenta, em declinação sintética:  a coisa - na língua morta mais viva do universo. Apesar de hoje a coisa já estar extrema - e justamente, diga-se - valorizada, e a história mostrar-nos que tudo pode acontecer, inclusivamente coisas que nunca aconteceram, ou outras que nem podiam ter acontecido, não é excessivo lembrar que a coisa pode estar presa por fios, ou seja, pode estar para haver barraca na, e com a, coisa. A coisa, a nossa coeva res , presta-se a isso, evidentemente, põe-se a jeito, não sei se me estão a perceber, dá o flanco, a res desde que é coisa nunca soube ser discreta, e agora é isto: a res pode ser apanhada nas malhas da coisa; a res fez a cama em que se irá deitar. O nosso maior dilema será como lidar com o escândalo que vai estalar nesta res feita coisa. Olhar para ele como aquela coisa dos novos bárbaros, equipará-la antes a uma segunda vinda coisificada do Cristo, pensar nas pragas do egipto, pensar se virá dos herdeiros da gran...

made in woven #13

Inesperadamente aquele tecido com acabamentos tão intensos, tão profundos, com tratamentos dos mais sofisticados e persistentes, um dia, depois de passar por uma simples limpeza a seco, acordara cru, como um pano cru. Todas as cores o deixaram, todas as protecções, todos os efeitos especiais, tudo aquilo que o tinha feito um tecido cobiçado pelos mais afamados costureiros e pelas mais glamorosas modelos. Perdera o toque, o brilho, a subtileza, a queda suave, o passear ondulante, e era agora um pano liso, baço, teso, seco, empapelado. Nunca mais tocaria naquelas peles sedosas, nunca mais lhe passariam pelos poros os odores dos perfumes, nunca mais roçaria num corpo ardente de desejo. Tudo se fora naquela lavagem traiçoeira. Nas nódoas estava afinal o seu poder. Mesmo tendo sido fugaz a sua presença junto à vida do corpo que amava, agora estava preso na pureza estúpida do pano cru, virado para si próprio, em dobras e vincos feitos no rigor duma geometria de conveniência, feita m...

made in woven #12

Um porquê pode fazer uma dúvida, dois porquês podem fazer uma incredulidade, três porquês podem fazer uma indignação, quatro porquês podem fazer uma incompreensão, cinco porquês podem fazer um desespero, seis porquês podem fazer uma desistência, mas a partir do sétimo porquê revela-se aquela repetição que já só é própria do amor resistente.

made in woven #11

Os punhos e os colarinhos gastos são os principais sinais de envelhecimento das camisas. Muitas vezes podem ser substituídos e põem-nas como novas, aptas para novas etapas de vaidade e serviço. No caso do coração do homem o que se desgasta primeiro são as ilusões de correspondência, e depois são as frustrações de compreensão, no entanto, ambas as zonas são demasiado escorregadias para receber pano novo.

made in woven #10

O cerzir dos mercados: os violentos ataques à zona eurogena só podem ser combatidos com robustas fazendas púbicas.

made in woven #9

Há duas soluções para uma malha solta: ou nó ou nada.

made in woven #8

Compreender o esgaçado é meio caminho para condescender com o roto e três quartos do caminho para andar de mão dada com o nu.

made in woven #7

Quando foi alfaiate e se especializou em casacas de virar, o seu maior problema eram os bolsos: tinham de ser grandes em qualquer dos lados.

made in woven #6

Há duas hipóteses para quem se sente feito num trapo: ou torce e entrelaça com outro trapo podendo chegar a fazer de tapete, ou esfarrapa-se, mascara-se de fibra, e sonha em vir a encher almofadas. Se Jesus fosse filho de tecelão teria antes sentenciado: Panniculus eris et in panniculus reverteris.

made in woven #5

Toda a bainha pode ser folga, mas nem toda a folga pode ser bainha.

made in woven #4

Existem dois tipos de gajos chatos: os 'ferros de engomar' , que passam por cima dos outros como quem pensa que os estão a alisar, e os 'etiquetadores' , que estão sempre a indicar aos outros a que temperatura é que podem encolher.

made in woven #3

Era o seu último dia no tear. Destinara o derradeiro padrão já uns anos antes, e fora guardando os fios coloridos dos restos das colecções, alguns já bem esbatidos pela curtição do tempo; mas fizera-o com pouca convicção, mesmo que sem medo das nostalgias a vir, e apenas sabendo que um dia os usaria para tentar enganar o desespero com uma falsa bomba de saudade, e com uma mais falsa ainda bainha de compreensão. Quem depois de mim urdir, bom urdidor de mim fará, consolou-se sem razão de consolo.

made in woven #2

Primeiro fia-se depois trama-se.

made in woven #1

O hábito desfaz o monge.

o berçoulos da civilizanikas

evangelos venizelos não foi escolhido e lucas papademos colocou condições, vai daí karoulos papoulias também disse que não estava para aí virado, e muito menos samaras, pelo que se aguarda por filippos petsalnikos para suceder a papandreos; penélope mantém-se fiel a ulisses mas aquiles promete mundos e fundos com um calcanhar novo.

verso à terça (*)

No fundo da minh'alma há um terno segredo, solitário, perdido e que jaz repousado; mas às vezes meu peito ao teu vai respondendo, todo a tremer de amor, vibrando desesp'rado G. G. Byron , The Corsair (tradução de David Mourão-Ferreira) (*) mas já quarta a fundo

gêum

Finalmente estou só. A grande questão para quem está só é descobrir se abandonou ou foi abandonado. Não há tema mais rico para uma consciência do que este de elaborar e fabular sobre a sua solidão. Melhor que a culpa, melhor que o arrependimento, melhor que o remorso, melhor que a inveja ou a vaidade, o abandono é o príncipe de todos os conscienciosos. Nada alimenta de forma tão proteica uma solidão do que deambular sobre o caminho que nos levou a ela, balancear entre vitima e carrasco, sorver em simultâneo das benesses que nos permite o determinismo e das virtudes do voluntarismo. O nosso destino e o nosso livre arbítrio juntam-se harmoniosamente na alma de quem está só. Hoje distraio-me assistindo ao grande espectáculo da minha consciência, deixando-me encadear por aquele foco milagroso que mostra o bem a vencer o mal nem que seja à tangente.

gêdéz

[Até] Deus precisou de nos apresentar os seus mandamentos. Está na nossa natureza pôr o amor acima de todos os outros sentimentos mas depois não sabemos nem como nem com quem, ou quem sabe como, não sabe com quem, e quem sabe com quem, não sabe como. É esta a visão literática da coisa, a visão prática diz-nos que tudo é possível até porque na prática podemos dizer que o amor não existe. A necessidade de nos aliarmos, essa sim, convive com a necessidade de nos isolarmos, sendo que cada uma tem o seu preço, praticamente desconhecido até ao momento em que chega a factura. Salve-se quem quiser é - uma parte da - mensagem decalógica, salve-se quem puder é a mensagem segura da sociedade das nações. Para esta procuram-se há séculos e séculos mandamentos que forneçam também uma serventia decente. Até agora parece não haver tábuas que cheguem. Deus disse para amarmos o próximo sem que isso implicasse aliarmo-nos com ele. No mundo a moral está toda por fazer.

gêssinco

Quando me voltares a amar fá-lo com mais jeitinho. Sei que não foi por mal mas da última vez deste-me demasiado crédito, eu abusei, depois perdemos o controlo à situação e agora tenho de ser resgatado por paixonetas de compromisso junto dos corações emergentes. Sabes que o coração dum homem pode ser um poço sem fundo, está destinado a desperdiçar recursos e a agarrar-se à primeira hormona que lhe cheire a especiaria, arrastando-se em cabos das tormentas como caravelas sem norte. Ama-me mas põe-me condições, faz-me uma grelha, define-me um padrão, diz-me até onde posso ir, que riscos posso pisar, em que buracos me posso enfiar. Até que letra podem ir os nomes das minhas amantes. Quando te perder outra vez quero ter a certeza que a culpa foi toda minha.

gêdois

Amo-te Dilma. Aqueles tempos com a Ângela foram um engano. Estou aqui, vês, voltei para ti. Prefiro de longe uma tropicobunda amazónica a uma eurobonda do reno. Fui atrás duma quimera empapelada e esqueci o oiro que tu já me tinhas peneirado. O trópico não faz exigências, nem põe austeridades na conta-corrente, não trocarei jamais uma boa inflação por qualquer promessa de eficiência. Estou reconvertido ao ónibus, reneguei o bus, podes vir confirmar, e ficamos só nós dois, tu e eu, no banco de trás, dizendo mal das traseiras duras dos volkswagens. Tu sabes o quanto eu sempre te achei charmosa, com ela foi apenas uma ilusão de óptica, dioptrifiquei num momento de fraqueza. Não lhes emprestes a eles, não, guarda-o todo só para mim, não te arrependerás se deixares que eu afague os teus reais, vais ver, e ela acabará por sucumbir de ciúmes quando nos vir juntos e a elogiar os teus dentinhos sexy com que um dia trincarás toda a bordinha da velha e gasta europa. Amo-te Dilma, e hoje eu sei qu...

gêsséte

Quando o nosso amor era poderoso não precisávamos de alianças. Autosuficientes: Irreferendáveis, irrestruturáveis, irresgatáveis. Irra, éramos tudo. Criámos um nós à imagem e semelhança dos deuses. Mas vivíamos o desconforto da esmola grande. Quando a patine estalou no andor olhámos para a reserva de óleo de cedro mas ninguém quis pegar no pano. Deixa riscar. Hoje temos a clássica coisa em forma de assim, um assim à la carte, nalguns dias cozido, noutros assado, completamente à prova de emoções fortes, condimentado apenas com palavras de ocasião, mas verdadeiras alíneas de tratado; hoje amamos ao ritmo das cláusulas da conveniência, confirmando a tese de que afinal o amor é o sentimento que melhor serve todos os interesses.

gêtrês

Metralha e dor, foi o saldo. Tudo espalhado pelo chão. Agora ninguém quer limpar. Passeamos em slalom por entre os destroços. Olhamos de relance de quando em vez, mas sem lhes tocar. Brincamos ao jogo do querer e do poder. Perde sempre o poder. No homem a vontade é sempre mais forte, tão forte que muitas vezes se disfarça de possibilidade. Só tínhamos um cartucho para queimar e andámos a queimá-lo aos poucos, mas pondo um bocadinho de pólvora de lado não se fosse dar o caso de ainda termos de sacar de uma explosão. Ainda sobejou um bocadinho desta reserva. Cheiramo-la agora como que se fosse uma recordação. Pólvora seca. A nossa recordação é uma mão cheia de pólvora isenta de humidade, guardando a explosão reprimida como quem guarda um quisto de estimação.

gêvintium

Fechei bem os olhos para te ver. Tornei-me incógnito e entrei no teu sonho. Fingiste confundir-me com uma paixão de juventude. Hesitei em entrar no jogo, hesitar sempre foi o meu forte, sou o grande hesitador, faço da hesitação uma arte. O teu sorriso funciona como prova, o desenho dos teus lábios como demonstração e o teu andar faz de confirmação, afastando os contraditórios duma cabeça cheia deles. Desafino. Faço parte daquela minoria de desafinados que deixou o coração no intervalo das cordas atrapalhando-lhes a vibração. Quando me largaste para o teu amor de sempre já nem tinha força para morder os lábios; os meus. Saí do sonho de mãos a abanar. Com tudo a abanar.

gêvinte

Subiste pela minha alma adentro e puseste um ponto final no princípio das minhas frases; centraste-me a periferia; depois cansaste-me a fadiga, aceleraste-me a travagem e sussurraste-me aos berros: quem não estiver farto de si próprio levante a perna e dê uma braçada em frente. Foi então que gaguejei um assobio e assoei duas lágrimas. Palavra de mentiroso que estou desejoso de te ver pelas fuças, abraçar-te os joelhos e ajoelhar-te os ombros. Quero agradecer-te por tudo o que não me fizeste, desculpar-te todas as inocências. Não guardei nenhum dos teus segredos, não confiei em nenhuma das tuas inconfidências. Dir-te-ei sempre a verdade principalmente quando não me for possível.

verso à terça

Oh, bem-aventurados fingimentos, Que nesta ausência tão doces enganos Sabeis fazer aos tristes pensamentos! Camões, Luisvazde

os três porquinhos

A loba Merkalina chegou justiceira à borda da floresta e viu a casota do porquinho Calotondreos acabada de construir em palhinha do Pireu colada com leite fermentado. Encheu os fartos peitos de ar e metade da palha voou pelas espumas do Egeu, pondo Calotondreos a correr de alívio pelos montes abaixo porque já estava farto de palha. Na louca perseguição que se seguiu, a loba Merkalina encontra a cabana que o porquinho Gaspar tinha conseguido construir à pressa com corticite embebida em baba de caracol. Saca imediatamente do seu famoso fôlego do Reno e, num ápice, a corticite vira torresmo pondo Gaspar e Calontondreos, que entretanto aí se tinha refugiado para passar o são martinho, a correr desvairados pela pradaria a caminho dum cadafalso com revestimento a sumaúma. Eis quando já quase sufocada pelos calores das acelerações a loba Merkalina dá de focinho numa casota em bela alvenaria da Provence, cores cálidas e arvoredo em redor, como que saída duma cezanneada ao entarde...

The dark side of the wool # n + k

trabalho, conhecimento, crédito. pastor, prado, lã. exploração, charlatanice, especulação. lobo, palha, borboto.

verso à terça

Pastai então, povos mansos, pastai! Não vos acorda o clamor da honra. Os dons da liberdade a um rebanho À matança ou tosquia destinado? Vossa herança é, por todo o sempre, O jugo de chocalhos e a aguilhada. Aleksandr Puchkin, in Ermo semeador da Liberdade (Tradução de Nina e Filipe Guerra)

Os grandes baluartes da civilização; uma actualização.

O Dicionário não ilustrado sai do armário (salvo seja) - as portas já estão destinadas a lenha para a lareira - e dá a sua contribuição para a compreensão do mundo que nos rodeia e inclusive penetra. (entradas 1396 a 1406) Representatividade - mecanismo de índole peripatética que permite ao acto eleitoral concorrer com o acto sexual na sua performance masturbatória, ou seja o político está para o eleitor como a palma da mão está para as bordas da coisinha. Equidade - variação do conceito de equinidade destinado a que as mulas possam pensar que são cavalos mesmo sendo tratados como bestas puro sangue. Retroactividade - instituto legal que permite ao passado tornar-se futuro sem passar pela casa da partida mas não estando garantida a dispensa da prisão. Igualdade - princípio de registo quimico-filosófico que determina a possibilidade de toda a essência humana poder esquecer os dilemas da existência ou da substância e encarar com tranquilidade a sua dissolução total...

Oração

Dai-nos Senhor outra bolha especulativa

E entretanto

num corte inglês perto de nós há uma semana de moda íntima. Nos tempos em que a intimidade foi posta de lado, dado que o importante agora é a coisa publica, felizmente a cadeia dos nuestros hermanos vem relembrar-nos que há um íntimo dentro de nós que deve ser acarinhado e inclusivamente tornado mais público, como que demonstrando que o público e o íntimo estão afinal de mãos dadas nesta espuma austera dos dias. Ora o íntimo austero pode e deve ser um exemplo para o público austero . Para quê um folho onde pode estar uma renda, mas quê uma gola onde pode estar um fio, para quê um quadrado onde um triângulo parece ser bastante. Para quê um lombo se podemos ter uma cintura. Ao sabermos decorar a nossa ( leia-se: delas ) intimidade daremos um sinal para a coisa pública, e esta poderá aparecer aos olhos de todos coberta por uma capa sedosa e brilhante mesmo que tentando disfarçar a carcaça decadente e chocalhante em que se transformou. Por último, as técnicas da moda íntima ...

verso à terça

Depois de nós, não é certamente o dilúvio, e tão pouco a seca. Com toda a probabilidade, o clima no Reino da Justiça, com as suas quatro estações, será temperado, de modo que um colérico, um melancólico, um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos de três meses cada. Iosif Brodskii , in Paisagem com Inundação (tradução de Carlos Leite)

DSM VIII

A Perturbação de Excesso de Resistência foi uma patologia especialmente desenvolvida em Portugal no rescaldo da crise das dívidas soberanas no início da 2ª década do século XXI. Apesar de se associar inicialmente a focos localizados em torno de pacientes com o Síndrome de Auto-responsabilização, rapidamente alastrou para os mais debilitados pelas Perturbações de Privação de Subsidácios. No grupo mais exposto às Perturbações de É-Bem-Feito  a sintomatologia acabou por evoluir e juntamente com os que padeciam das Perturbações do Tem-Mesmo-de-Ser acabaram por apresentar de forma generalizada um historial de episódios intermitentes da compulsão resignativa de resistência associados a alta capacidade dissociativa, tendo sido inclusive encontrados casos de Compreensão Benigna dos Excessos de Poder, uma verdadeira antecâmara das perturbações esquizoafectivas. A prevalência aponta para índices acima dos 50% em espectadores dos canais de noticias por cabo com apresentadores de laço e 6...

orangette #2

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3/4 laranjas; 250 ml de água; 250 g de açúcar; 2 cravinhos; 180 gr de chocolate negro em tablete Preparação das tiras de laranja: 1. Partir as laranjas em quartos e retirar toda a polpa, mantendo ao máximo possível da parte branca. Cortar os quartos em tiras com o máximo de 1 cm de largura. Colocar as cascas de laranja numa panela com água suficiente para cobrir. Levar a ferver. Escorrer toda a água. Repetir 3 vezes este procedimento a fim de retirar o amargo da casca. Reservar. 2. Fazer uma calda com água, açúcar e cravinho. Levar a levantar fervura até que o açúcar se dissolva completamente. Reduzir o lume para muito brando, juntar as cascas de laranja e deixar que as cascas cozam durante cerca de 1 hora até ficarem translúcidas. Retirar as cascas de laranja com uma escumadeira. 3. Colocar as cascas de laranja a secar, sobre uma grade ao sol (1 dia) ou no forno (na grelha do forno a 140ºC durante 1,5 hora). Finalização com o chocolate: 4. Derreter o chocolate em banho-maria e...